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Mulheres do fim do mundo

Religião católica e experiência feminina
no brasil contemporâneo

Edianne dos Santos Nobre y Roberto Viana de Oliveira Filho

Introdução

Entre os fios da memória e o tear do tempo, no limiar do “fim do mundo”, três mulheres costuram a vida em suas narrativas. Sentam-se em frente a uma pequena casa no bairro Tiradentes na cidade de Juazeiro do Norte, interior do Ceará. A casa, recuada do alinhamento da rua, tem uma faixa de tinta azul seguida de uma pintura branca que desaparece entre o telhado antigo e o som do vento espalhando folhas secas.

As mulheres usam vestidos que não deixam mostrar joelhos nem cotovelos. As cores variam de azul a branco e os tons completam-se com o dos lenços na cabeça, peça fundamental para esconder a “vaidade” do cabelo. Lembram as Moiras[1]entre os gregos antigos: Josefa, Virginia e Marinete contam sobre vidas de santos, recordam livros antigos, falam de experiências que permanecem vivas em seus corpos, mas que ameaçam se perder no mundo contemporâneo. Entre aquelas falas se constrói um universo particular, exótico, mas ao mesmo tempo, familiar:

Dona Josefa: […] que nossos avôs diziam, que meu padrinho Cícero[2] dizia… Quando a gente visse o que nós estamos vendo hoje, os acontecimentos… Quando nós víssemos tudo o que nós estamos vendo, a gente se lembrasse do final dos tempos. Mas a gente sabe, que você pode acreditar, que não é de brincadeira não: nós estamos no começo de era e no final dos tempos![3]

A maioria das histórias narradas por essas senhoras tem por núcleo, a trajetória delas dentro da irmandade de Penitentes Peregrinos Públicos, um grupo católico leigo que se organizou em Juazeiro do Norte a partir da década de 1970 até o ano de 2017[4]. De forma resumida, os membros dessa irmandade tinham como identidade penitencial a redenção dos pecados e a salvação a partir da mendicância e privação dos bens materiais. Todos os membros deveriam “morrer para a vida profana” em um ritual conhecido como “batismo da cruz”, no qual os documentos de identidade (RG, CPF, certidão de nascimento) eram queimados e os homens e mulheres “renasciam” com um novo nome: José Aves de Jesus e Maria Aves de Jesus.

1. Ecos de um canto não silenciado: as “Marias Aves de Jesus”

O modelo de vida ascético adotado pelos membros dessa irmandade assemelhava-se aos de outros movimentos sociorreligiosos desenvolvidos no Nordeste brasileiro, a exemplo do movimento de Canudos e Pau de Colher, ambos no sertão baiano. A atuação da irmandade em Juazeiro do Norte se dava através da mendicância e nas pregações do líder do grupo em cemitérios e igrejas. Estas pregações ou sermões, geralmente tinham um teor apocalíptico e faziam propaganda de livros antigos e de rituais católicos que não exigiam a presença de um sacerdote, sendo a maioria dessas atividades coordenada por homens. As mulheres não podiam peregrinar em público, pregar e nem ler os livros sagrados. Uma das penitentes nos explica a função feminina dentro da irmandade:

Entrevistador: A senhora ainda segue?
Dona Josefa: Segue… Agora não pode andar pra nenhum canto não… Porque mulher não segue que nem os homens não. As mulheres ficam só em casa obedecendo a ordem, rezando o rosário, vestindo as roupinhas…
[Nesse momento uma outra penitente chega, elas se cumprimentam, a entrevista para por alguns instantes até que tudo se organize novamente.]
Entrevistador: A senhora acompanha as rezas que sr. Joca[5] faz na casa dele ou é separado?
Dona Josefa: É separadinho meu filho, porque nós somos tudo doméstica, tudo dona de casa, né? Nós não podemos. Ele é homem. Não tem a luta de casa que nós temos, né? O nosso é só cumprir as ordens, rezando o rosário quando puder…
Entrevistador: A ordem é… rezar o rosário…
Dona Josefa: Rezar o rosário, vestir as roupas azul e branco, só não encarnada [vermelho]. Aí quer dizer que nós mulher não pode pregar que nem sr. Joca não. Porque sr. Joca ele é homem. Né verdade? E nós somo dona de casa. Agora o nosso é só nós cumprir mesmo. A ordem sobre a roupa, sobre não andar conversando palavrão, nós não temos direito de andar com bolsa, pra dança, pra canto nenhum…
Entrevistador: A senhora também não tem nem vontade?
Dona Josefa: Nunca! Nunca, nunca, nunca, nunca. Nós não sai pra canto nenhum. O canto que nós vai é pra missa.
Entrevistador: Pra missa?
Dona Josefa: No domingo. No domingo eu dou graças a Deus quando chega pra ir pra missa. Ou então rezar nossa renovação…[6]

Em grande medida, as noções sobre o feminino difundidas na irmandade reproduziam as formas da Igreja Católica lidar com os gêneros ao longo de sua trajetória no tempo. Nada de novo até aqui, como nos lembra a historiadora Michelle Perrot:

O catolicismo é, em princípio, clerical e macho, à imagem da sociedade de seu tempo. Somente os homens podem ter acesso ao sacerdócio e ao latim. Eles detêm o poder, o saber e o sagrado. Entretanto, deixam escapatórias para as mulheres pecadoras: a prece, o convento das virgens consagradas, a santidade. E o prestígio crescente da Virgem Maria, antídoto de Eva. A rainha da cristandade medieval (Perrot, 2010: 84).

Entretanto, a experiência dessas “Marias Aves de Jesus” nos possibilita perceber algo para além desses sistemas impostos. Apesar de não se reconhecerem como transgressoras, de não terem a intenção de burlar a ordem estabelecida e, de nenhuma forma, intencionarem descumprir as regras da “santa Igreja”, as narrativas dessas mulheres deixam transparecer algo que subverte a dominação masculina.

É preciso destacar ainda, que a escuta dessas histórias se deu em um contexto muito específico, no qual a maioria das vozes masculinas do grupo já havia falecido e essas senhoras puderam, ao seu modo, recontar a experiência da irmandade. Em comparação com as narrativas masculinas que formataram trabalhos anteriores[7] temos diante de nós uma nova história do grupo:

[…] No que diz respeito à participação das mulheres na história, a reação foi, no melhor dos casos, de um interesse mínimo (“Minha compreensão da Revolução Francesa não mudou quando eu descobri que as mulheres participaram dela”). O desafio lançado por este tipo de reação é, em última instância, um desafio teórico. Ele exige a análise não só da relação entre experiências masculinas e femininas no passado, mas, também, a ligação entre a história do passado e as práticas históricas atuais. Como é que o gênero funciona nas relações sociais humanas? Como é que o gênero dá um sentido à organização e à percepção do conhecimento histórico? As respostas dependem do gênero como categoria de análise (Scott, 1995: 74).

Neste sentido, buscamos analisar, como as narrativas de Dona Josefa, Dona Virgínia e Dona Marinete sobre os Penitentes Peregrinos Públicos e sobre a própria Igreja Católica no mundo contemporâneo revelavam “práticas femininas” que transitam entre passado e presente; permissão e interdição, e, representatividade na vivência de diversas mulheres no Cariri cearense e no Brasil.

2. Mamãe Anja do Horto e o “sexo dos anjos”

Com efeito, na ressureição, nem eles se casam e nem elas se dão ao casamento, mas são todos como os anjos no céu (Mat. 22: 30).

Em muitas conversas sobre a Igreja Católica e sobre a irmandade de penitentes, nossas narradoras referiam-se a uma figura mítica dentro da comunidade: Mamãe Anja do Horto. Ouvimos esse nome em louvores, cânticos, nas narrativas sobre a origem do grupo e nas explicações sobre a constituição espiritual do mundo.

A história de Mamãe Anja estava cercada de mistérios. Ela nos foi apresentada ora como uma mulher que viveu na cidade de Juazeiro, ora como um ser espiritual. Entretanto, percebemos que as narrativas sobre ela confluíam para o grande segredo fundador sobre a origem da irmandade. Ouvimos de nossas interlocutoras que um homem chamado José residente na cidade de Caruaru, no Estado de Pernambuco, havia “ouvido em sua mente” uma mensagem que lhe aconselhava a viajar para a “Terra da Mãe de Deus”, Juazeiro do Norte, e lá formar um grupo de penitentes.

Após chegar em Juazeiro do Norte, José montou uma barraca de venda de peixes no Mercado Público do Pirajá. Sem entender ao certo como o seu chamado iria concretizar-se, o peregrino surpreendeu-se com a presença de uma mulher em seu ponto comercial:

Entrevistador: Ela o chamou como? Ele sentiu no pensamento dele?
Dona Marinete: Ele sentiu. Ele sentiu no pensamento que ela chamou ele. Aí, deu aquela vontade de vim embora e ele deixou tudo lá, a terra dele ele deixou pra lá. Deixou tudo lá e veio embora. Quando chegou aqui, alugou uma casa, fez uma banca, botou uma banca de peixe, e ficou vendendo peixe, quando deu com ela lá! Aí, ela disse: “Olhe meu filho, eu não quero tu vendendo peixe não. Eu quero tu com um ‘saquinho nas costa’”. Aí, foi quando ele formou a penitência.[8]

A dona da voz em sua cabeça era uma mulher “que era do mesmo tipo que era o retrato do meu padrinho Cícero. Era… O cabelinho cortadinho baixinho, um vestido arrastando nos pés, cobrindo os pés, as mangas, aqui, bem aqui, parecendo uma batinha”[9]: Mamãe/Madrinha Ângela/Anja do Horto. Foi essa mulher que, segundo a maioria dos integrantes da comunidade, ensinou a José o caminho da penitência, consagrando-o Mestre José, o primeiro líder dos Penitentes Peregrinos Públicos, a irmandade que, segundo eles, iria “resgatar” o tempo do padre Cícero.

Impressionados com essa narrativa, perguntamos se existia alguma foto ou imagem de Mamãe Anja que nós pudéssemos utilizar. Um ar de mistério e de riso se instaurou no ambiente. “Temos sim. Mas você vai achar estranho”.[10] Depois de muita tentativa, conseguimos ir até a antiga casa de Mestre José onde, em cima de uma pequena cama, repousava a imagem da “Anja” do grupo.

Para nossa surpresa, a imagem que nos foi apresentada era um antigo retrato do padre Cícero Romão Batista. Quem nos levou até a casa do mestre José foi o penitente mais novo da irmandade, Israel Aves de Jesus, na época com vinte e dois anos. Impressionados com aquela situação, perguntamos:

Entrevistador: A origem que me falam do grupo é que mestre José, ele teria recebido as orientações de madrinha Ângela, mamãe Anja do Horto, né? Aí, eu fiquei muito entusiasmado em querer saber dela. Fui ao Horto, procurar e não achei muita coisa e eu queria muito encontrar uma foto dela, alguma coisa sobre ela. E aí naquele dia que eu vim aqui seu pai me levou para a casa do mestre e ele me mostrou uma foto dela. E quando eu vi a foto dela eu achei muito parecida com o padre Cícero. (risos). É ela ou é o padre Cícero?
Israel Aves de Jesus: Como você sabe o grupo de penitentes, eles têm um imaginário bem fértil. E ali, pelo que eu posso lhe dizer é o seguinte: Mamãe Anja, e o nome dela é esse. Não é Ângela não. É mamãe Anja. Roberto, aquela foto tem uma história curiosa que eu já recebi dos antigos, né? Eles contam que seu José Aves de Jesus, quando Mamãe Anja faleceu ele foi buscar essa foto na casa dela aonde ela morava, lá no Horto. Ali quando ele trouxe, dizem os veteranos que, quando ele entrou na porta com a imagem de mamãe Anja, a imagem de meu padrinho Cícero saiu de repente das imagens dos outros santos e veio cair próxima da dela. Aí ele ficou assim admirado com aquilo por que aquela imagem caiu sem ninguém ter tocado. Aí, também Mestre José contava que, na ocasião que a foto foi tirada, essa foto de mamãe Anja, o fotógrafo pediu permissão a ela de retirar a foto e ela disse: “Retire, meu filho”. Quando ele retirou saiu foi a foto de meu padrinho Cícero. Aí, ele disse: “Minha madrinha, como pode, a senhora tirar essa foto e sair é o meu padrinho Cícero?”. Ela só deu um ar de riso e disse: “Não meu filho, não se importe com isso”.

É intrigante que o penitente Israel ressalte em sua explicação sobre a foto que os penitentes “têm um imaginário bem fértil”. Essa justificativa prévia é um claro indício de como a própria presença do pesquisador modifica a forma como a tradição é apresentada. É bem provável que o penitente tenha contado essa história tantas outras vezes sem esse aviso de que os antigos imaginavam com demasia. Relembramos, portanto, que apesar da fala do interlocutor estar “contaminada” com a nossa presença, é possível, a partir de seu relato, destacar indícios que serviram como pistas para desvendar algumas das tradições inauguradas pelo mestre José e ressignificadas posteriormente pelo grupo.

A associação da figura de Mamãe Anja, matriarca espiritual fundadora da irmandade, com o padre Cícero, demonstra uma questão central na cosmovisão da irmandade. Os integrantes desse grupo acreditavam que, com o passar dos anos, o verdadeiro modelo de fé apregoado pelo padre Cícero foi gradativamente desaparecendo e que eles seriam os únicos guardiões desse modelo de fé antigo, daí a função de Mamãe Anja em reatualizá-lo.

Ao associar as duas figuras, os penitentes estão legitimando suas práticas diante das muitas formas de apropriação dos ensinamentos do “santo padre sertanejo”, expressas nos grupos religiosos espalhados pelo Cariri cearense. Dona Josefa, segundo alguns, a primeira seguidora do mestre José, afirma que esse líder foi a única pessoa que conseguiu retomar as “leis do meu padrinho Cícero”, motivando inclusive pessoas de outros Estados a fixarem moradia no município:

Dona Josefa: Minha mãe dizia que só vinha aqui pro Juazeiro se tivesse uma pessoa que levasse as leis do meu padrinho Cícero. Eu dizia: “Mãe, mãe, tu num encontra nunca! Porque nós estamos em outro tempo… O tempo de meu padrinho foi um”. Ela dizia: “Pois, Zefinha [apelido de Dona Josefa], eu só vou morar um dia no Juazeiro se for assim.” Aí eu fui e escrevi pra mãe dizendo que tinha essa pessoa. Nesse tempo não tinha telefone não. Faz muitos anos…[11]

O tempo desejado para os penitentes é o tempo do padre Cícero, portanto, um tempo perfeito e, a partir dessa narrativa mítica, elas fincam suas raízes nos ensinamentos de um ser que era o próprio padre Cícero retornado por meio de avatares.

A busca por uma aproximação mais concreta desse tempo perfeito, um tempo sagrado, faz com que os penitentes invistam no resgate de práticas desse passado primoroso: a forma como as suas casas são construídas, pintadas de branco com a bordas azuis; a cor e o estilo de roupa, as mulheres e homens devem usar roupas longas, chapéu de palha, vareta de madeira; o uso de uma linguagem mais rebuscada, com a utilização de pronomes como sua graça, vossa mercê, vossa senhoria; enfim, um conjunto de práticas e símbolos que compõe para eles o renascimento de um tempo sagrado em contraposição à modernidade.

A união do masculino e do feminino em um mesmo ser, a partir da figura de Mamãe Anja, é a própria imagem da completude, tão almejada pelos seres humanos, quimera do desejo de cessar a peregrinação rumo ao outro e com a impossibilidade de se retornar ao tempo perfeito, completo, de Padre Cícero.

3. As mulheres e a “nova história” da irmandade

Apesar da autoridade e a legitimidade de explicar o mundo e interpretá-lo estarem centralizadas na pessoa de Mestre José, as decisões referentes ao dia-a-dia e questões rituais são feitas em comum acordo com os homens da irmandade […] As mulheres e crianças não participam dessas decisões, ou pelo menos não diretamente. Mas se as mulheres são subordinadas a seus maridos e consideradas como tendo menor espiritualidade que os homens em geral, madrinha Regina, entretanto, possui importante papel, se não fundamental, nos rituais conduzidos em sua casa. É ela, mais que Mestre José, quem conduz a maior parte dos rituais e é também quem decide, se assim quiser, a reza ou o bendito a ser cantado e em que ocasiões e momentos dos diversos rituais serão cantados. Mais importante ainda, foi comadre Regina quem decidiu, por ela própria, sem nem se quer pedir consentimento ao marido e líder dos Aves de Jesus, contar-me o segredo do grupo; na verdade, ao isto fazer, contrariava a vontade de Mestre José. […] De vez em quando ele dizia: “Mulher, tu tá falando demais!”, mas ela apenas ignorava sem qualquer replicar e continuava entusiasmada e confiante com sua narrativa sobre tempos passados e o seu encontro com Nossa Senhora (Campos, 2009: 88-90).

A experiência de Campos é valiosa para começarmos a trilhar uma história das mulheres dentro de um grupo majoritariamente masculino e patriarcal. Nas narrativas é possível identificar que apesar das interdições masculinas, algumas mulheres, a exemplo da esposa do Mestre, estabeleceram um papel central para o desenrolar da trama que envolve a história desse grupo.

Tomando a citação acima, percebemos como Dona Regina, de certa forma mimetizou a exemplaridade de Maria, modelo perfeito de mulher para os cristãos católicos. A despeito de muitas outras mulheres não poderem participar da execução de rituais públicos no grupo, Dona Regina destoava da norma e, ainda segundo a antropóloga, conduzia vários rituais em sua casa.

Para além do papel ritualístico e organizacional desempenhado por Dona Regina nos primeiros anos da irmandade, gostaríamos de salientar que encontramos alguns elementos surpreendentes de atuações femininas que subvertem a dominação masculina dentro da primeira formação da irmandade e de sua posterior fragmentação. Um dos exemplos mais instigantes é o de Dona Josefa. Segundo essa seguidora, foi ela quem organizou a vinda dos primeiros penitentes dessa irmandade para Juazeiro do Norte, administrando a formação inicial do grupo. Retomo uma fala dessa senhora em que se evidencia essa questão:

Entrevistador: Vocês conheceram o mestre José?
Dona Josefa: Conhecemos. Oxente, nós viemos aqui, quando nós chegamos aqui quem primeiro conheceu ele fui eu. Meu povo ficou lá em Alagoas e eu vim, aí comecei a conhecer ele e já enviei carta pros outro vim, e graças a Deus formou o grupo. Mas Deus foi chamando de um a um, e ficou só os novo.
Entrevistador: Ha… de Alagoas, né? E o mestre José veio de Alagoas? Veio de onde ele?
Dona Josefa: Pernambuco. Caruaru.
Entrevistador: Aí veio pra cá e fundou o grupo e depois veio os de Alagoas?
Dona Josefa: Foi, foi… Eu conheci ele sozinho. Só ele e a mulher.[12]

Inferimos, a partir de Scott que as narrativas/escritas femininas mudam sensivelmente a forma como a história é apresentada (Scott, 1995: 71-99). Nas narrativas correntes tanto da bibliografia especializada quanto nos relatos masculinos, o importante papel agregador de Dona Josefa não é sequer mencionado. A sua experiência narrativa releva, portanto, elementos que estavam suprimidos nos relatos correntes sobre a formação da irmandade. Para além das questões que envolvem uma aproximação com elementos sagrados femininos, as mulheres desempenharam um papel fundamental na própria constituição prática das atividades do grupo.

A exemplo de Dona Regina, a esposa do Mestre, e de Dona Josefa, uma “simples seguidora”, tantas outras “Marias” tiveram suas experiências silenciadas diante do domínio masculino nos rituais e atividades diárias. No que diz respeito à regra mais geral, existia uma visível diferença de atribuição de papeis entre os homens e as mulheres.

Logo após a morte de Mestre José, vários outros membros masculinos da irmandade abandonaram a penitência ou também faleceram. Nesse contexto, a maioria das mulheres ainda continuou na irmandade e tiveram uma maior experiência de longevidade. Essas destemidas seguidoras tiveram, portanto, que desempenhar algumas atividades que outrora eram proibidas a elas como forma de manter o grupo ativo. A força de atuação que já existia no início ganha um maior impulso com a situação fragmentada que a comunidade estava se encaminhando. Considero que um fator importante para pensarmos essa atuação contemporânea das mulheres do antigo grupo é exatamente a ideia por parte dessas de que o grupo, tal qual era no início, não existe mais e que, diante dessa nova configuração, as regras também poderiam mudar.

O conhecimento guardado por essas senhoras é aquilo que existe de mais próximo, segundo elas, ao tempo de Mestre José. Por sua proximidade aos tempos de “compadre Zé” (Mestre José) elas ganharam o respeito e um lugar de fala dentro das novas relações sociais dos remanescentes do grupo. A aproximação delas com os modelos espirituais como o de Nossa Senhora ou o de Mamãe Anja ajudam a reforçar a ideia de uma mescla entre uma atitude mais passiva e de obediência com táticas de resistência que subvertem a ordem estabelecida.

Analisamos, dessa forma, que existe um modelo fundamental para entender a cosmovisão sobre o feminino dentro da irmandade: a devoção à Maria. Essa devoção é crucial tanto para os homens como para as mulheres. Entretanto, existe uma tentativa, assim como também observou Campos, de uma aproximação maior ao “modelo de vida mariano” por parte das mulheres.

No âmbito mais geral, as casas dos penitentes são pintadas de azul e branco por uma razão: para aproximar-se das cores do “manto sagrado de Maria”. A fita que envolve o retrato de Mamãe Anja (um híbrido da perfeição masculino/feminino) é também azul e um dos momentos mais marcantes para o grupo é o hasteamento das bandeiras marianas, realizadas no mês de maio, dedicado à Maria.

Roberta Campos identificou que existe uma nítida aproximação dos homens ao exemplo de Jesus Cristo, tentando se aproximar do seu sofrimento através do ascetismo e prática penitencial, e das mulheres ao de Maria, destacando-se sobremaneira o papel da obediência e da pureza espiritual. Destaca-se o recorrente chamado para conversão dos pecadores, a ênfase na Paixão de Cristo como um sacrifício pela humanidade são comumente encontrados nos livros de prédicas que os penitentes utilizam para guiar seus rituais. Tomamos como exemplo, o livro “Missão Abreviada para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar os frutos das Missões”. Escrito e editado originariamente em Portugal em 1859, pelo padre Manuel José Gonçalves do Couto (1819-1897), e foi utilizado amplamente por Antônio Conselheiro em sua missão no arraial de Canudos.

Esta talvez seja a última obra conhecida dentro da chamada literatura da “espiritualidade do terror”, bastante difundida nos séculos XVIII e XIX na península ibérica, e que migrou para o Brasil com os portugueses.

A “Missão Abreviada”, livro principal das regras do grupo, dedica muitas páginas à devoção Mariana e a forma como ela deve ser executada em cada comunidade com ritos, cânticos e penitências. Na instrução 46, intitulada “sobre a devoção a Maria Santíssima”, o padre Couto afirma:

Todo cristão deve ser verdadeiro e cordial devoto de Maria Santíssima. Esta cordial devoção à mãe de Deus é um remédio eficaz para sair do pecado, e nunca mais retornar a ele; porque Maria Santíssima, como mãe de Deus, tem o poder de pedir a ser filho a favor de quem a invoca; e não só tem poder para pedir, mas até para mandar, diz São Boa Ventura; e mandar com império de mãe ao mesmo Filho que nos perdoe e nos dê a sua graça para servirmos e amarmos. […] Mas que se deve fazer para ser verdadeiro e cordial devoto de Maria? […] Deve rezar-lhe todos os dias a sua coroinha, e podendo ser, de joelhos, e meditada; e nos Domingos e dias santos também o seu rosário de quinze mistérios. Deve fazer-lhe pelo menos uma visita todos os dias, recitando alguma oração diante de sua imagem. Deve consagrar-lhe o dia do sábado, jejuando nesse dia em sua honra, podendo e não podendo, pelo menos fazer uma mortificação, como não comer fruta ou guardar o silêncio, não comer fora das horas, trazer cilícios, ou qualquer outra. Também lhe deve consagrar o mês de maio, fazendo os exercícios que são próprios desse mês (Couto, 1868: 566-569).

O chamado à “rigorosa penitência” também marca as prédicas do padre Manoel Gonçalves do Couto. Tomando a Paixão de Cristo como base para seu discurso, o padre argumenta que é através dos “sofrimentos” e da “morte cruel” que Cristo mostra seu amor pela humanidade (Couto, 1868: 102, 120).

Podemos perceber, com relação, especificamente, às regras apresentadas aqui pelo padre Couto, que a maioria dos remanescentes da irmandade ainda realizam muitas das práticas apontadas do breviário de 1868, especialmente a “reza do rosário” e do Ofício da Imaculada Conceição, que são elementos de maior uniformidade dentro das diferentes práticas que são executadas pelo grupo na contemporaneidade.

De fato, nas igrejas do Juazeiro, o Ofício da Imaculada Conceição de Maria é cantado até hoje, todos os dias ao cair da tarde. Esse Ofício foi composto no século XV e é formado por sete hinos que louvam as virtudes de Maria e a tomam como a grande defensora das causas dos pecadores e intercessora fiel junto a seu filho. No século XIX a prática de se rezar o Ofício respeitava os horários canônicos: Matinas (de madrugada), Prima (seis da manhã), Terça (nove da manhã), Sexta (meio-dia), Noa (três da tarde), Vésperas (seis da tarde) e Completas (cair da noite) e na tradição popular é sabido que nas casas de família onde havia o costume de se rezar o Ofício, todas as atividades domésticas paravam, porque “Nossa Senhora ficava de joelhos e de mãos postas, sem poder se levantar enquanto não viessem a completar o seu Ofício” (Mott, 1993, 71).

Uma das estrofes do Ofício que é um belo poema de exaltação à virgindade de Maria diz: “Sede em meu favor/ Virgem soberana/ livrai-me do inimigo/ com vosso valor”. Como nesse trecho do poema, em muitas visões Maria assume o papel de intercessora. Nossa Senhora das Dores, padroeira da cidade, Juazeiro do Norte, se torna a representação mariana do sofrimento presente na Paixão de Cristo e essa devoção ao Cristo sofredor e a Virgem dolorosa era claramente uma herança portuguesa do catolicismo medieval:

Uma religiosidade feita de procissões, romarias, das orações de invocação e perdão, pautados na vivência de temores, sonhos, crenças, urdida na concretude do cotidiano, na busca por amparo e proteção (Souza, 2007: 85).

A devoção mariana seria a energia impulsionadora de muitos dos ritos dos PPP. Alguns dos elementos apresentados por essa historiadora no contexto do medievo ainda encontram eco nas ações dos PPP da contemporaneidade:

A partir do fim do século XII, assiste-se à sua coroação ao lado de Cristo, ao mesmo tempo Juiz e Rei. Nos textos, a Virgem é apresentada como advogada dos pecadores e rainha das rainhas. Triunfante, Maria veste um manto azul, que suas mãos abrem para acolher a cristandade na entrada das igrejas, essas portas do paraíso. Os comentadores identificam agora a mulher coroada com a Mulher do Apocalipse vestida de sol e coroada de estrelas (Barnay, apud Corbin, 2009: 236).

E sobre a devoção à Maria, a historiadora ainda complementa:

A rainha se apresenta então igualmente como a servidora desse dispositivo. A figura da “serva” dos Evangelhos é posta em relevo nas releituras do texto sagrado. É assim que aparecem, em meados do século XIV, os primeiros “servos e servas de Maria”, sejam eles clérigos ou leigos, por exemplo, a ordem dos servitas de Maria. A Virgem é para eles uma mãe de ternura, na qual seus “filhos” e suas “filhas” encontram uma santidade imitável. A imitação mariana abre, em particular, novos caminhos espirituais para as místicas do início do século XIV, que se descobrem “prenhes do Espírito Santo” e “parem” o Menino Jesus em sua alma, como por exemplo santa Catarina de Siena (Barnay, apud Corbin, 2009: 237).

O historiador Jacques Le Goff (2011), ainda tratando do medievo, destaca a relação paradoxal, que perdurou por muito tempo, e encontra eco nas relações entre o masculino e feminino nos séculos posteriores, da mulher entre “Eva e Maria”, ou seja, entre a disseminadora do pecado e a mulher perfeita, que deve ser o exemplo fundamental a ser seguido pelas mulheres leigas.

Neste sentido, cabe uma pequena digressão sobre a relação empreendida entre a Igreja e o laicato. A Reforma Gregoriana no século XI tentou trazer uma nova percepção sobre os direitos dos leigos, ou melhor, uma nova jurisdição dos clérigos sobre a comunidade laica. A partir daquele momento, os sacerdotes reivindicavam não só a liberdade em relação aos poderes laicos, mas também o direito de julgá-los. A partir do século XII algumas práticas religiosas que refletiam uma religião mais experienciada do que institucionalizada se propagaram, o que Vauchez (2005) chama de “l’inventivité des laïcs”, a inventividade dos leigos.

Antonio Rubial García segue a mesma linha de pensamento de Vauchez e nota que ainda no século XII apareceram os primeiros modelos de santidade que inspiraram os leigos à prática de uma vida mais piedosa, como São Francisco de Assis (1181/1182-1226) e São Bernardo de Claraval (1090-1153). García afirma ainda que naquele momento a criação de confrarias, ordens terciárias, beatérios, hospitais e outras instituições para os pobres tiveram um papel fundamental no processo de controle dos leigos (García, 2006: 11).

No campo feminino, o movimento beguinal que floresceu nos Países Baixos e no norte da França e Alemanha a partir do século XIII, ganhou destaque justamente por ser um movimento urbano de mulheres que decidiam viver uma vida de piedade sem fazer votos solenes com a Igreja. Mas à medida que o movimento foi crescendo, também foi chamando a atenção da Igreja que procurou incorporá-las às ordens religiosas já estabelecidas.[13]

Ainda nos séculos XV e XVI as experiências místicas de mulheres como Catarina de Siena (1347-1380) e Teresa de Jesus (1515-1582) inspiraram gerações de beatas e religiosas leigas que buscavam transcender em sua relação com o divino. Entretanto, também nesse período, a Inquisição (criada ao longo do século XIII) se tornará mais rígida e passará a combater com mais rigor esse tipo de experiência transcendente. A partir desse momento, essas experiências ficaram mais restritas aos conventos e monastérios. O maior controle era efetivamente sobre as mulheres e homens leigos. São esses, inclusive, que figuram na maioria dos estudos nos quais os processos inquisitoriais são as principais fontes (Cf. Bethencourt, 2004).

Foi somente no século XIX, durante o Concílio Vaticano I (1869-1870), que a desigualdade entre leigos e clérigos foi institucionalizada, reafirmando o estatuto de subordinação dos primeiros: “ninguém pode ignorar que a Igreja é uma sociedade desigual na qual Deus destinou uns a comandar, outros a obedecer. Esses são os leigos; aqueles são os clérigos”.[14] O projeto de reforma da Igreja proposto no Concílio Vaticano I teve como principal bandeira a luta contra a autonomia dos poderes civis, situação que se complicou devido aos constantes embates entre a Igreja e o Estado.[15]

Aqui lidamos com um paradoxo que não pode ser ignorado: se, naquele contexto, a Igreja tentava firmar uma separação entre clero e leigos, por outro lado, foi também no final do século XIX que a atuação do público feminino ganhou importância, com o estímulo à fundação de congregações e confrarias femininas, em um processo que Rosado Nunes chama de feminização do catolicismo:

A necessidade de um público dócil às novas normas torna as mulheres, um alvo privilegiado de ação da Igreja. A partir de então, esta desenvolve projetos específicos, dirigidos à população feminina católica, com o intuito de incorporá-la ao seu projeto reformador. […] Pode-se assim dizer que a clericalização do catolicismo brasileiro foi, ao mesmo tempo e necessariamente, o processo de sua feminização (Nunes, apud Priore, 1997: 490).

Temos aqui vários elementos que confluem em um mesmo contexto histórico: a institucionalização (e limitação) da atuação dos leigos na Igreja; a agregação e demarcação dos papéis concernentes ao público feminino; o combate ao catolicismo devocional e penitencial e consequente reforço de uma prática à romana. Ora, no Brasil todos esses elementos conviviam com uma prática católica, de herança colonial, que enfatizava os aspectos penitenciais ligados à mística dos séculos XVII e XVIII, o culto ao Jesus crucificado, as práticas de mortificação e a devoção mariana. Esta, por sua vez, além da característica da exemplaridade corporificada pelas mulheres, permeia quase todas as cerimônias ritualísticas do grupo dos penitentes.

Essas experiências místicas femininas de séculos passados são importantes na medida em que fornecem indícios da crença que as mulheres dessa irmandade absorvem, recriam e reinventam. Soma-se ainda a esse tipo de devoção outros elementos que não necessariamente encontram eco nessa devoção mais institucionalizada, mas que surgem também a partir de outras influências.

Nesse sentido, consideramos que as práticas de Dona Marinete, importante seguidora da irmandade, revelam uma nova camada das devoções cotidianas dessas mulheres. Dona Marinete exerce a função conhecida popularmente em Juazeiro do Norte (e em várias outras localidades) como rezadeira, uma espécie de “curandeira” espiritual que através de rezas e ervas, ajuda a retirar uma série de malefícios e doenças que aflige quem a procura:

Entrevistador: E esse pessoal que vem procurar Dona Marinete, eles vêm pra que? Pra tirar olhado?
Dona Josefa: É, olhado, e outras coisas…
Entrevistador: E ela sente o que, assim, na hora que tá rezando?
Dona Josefa: Nada, nada… Olhe não é rezada afundada, as palavras são o padre nosso e a ave maria. Nós, meu filho, graças a Deus, só tem medo de pecar contra o pai, o filho e o espírito santo. Mas ai não tem nada de mais, assim, nada!
Entrevistador: Eu sei. O que eu quero dizer é assim: quando esse pessoal vem pra procurar a senhora pra rezar, a senhora não sente nada assim, quando esse pessoal tá com alguma coisa ruim?
Dona Marinete: Sinto.
Dona Josefa: É, às vezes, ela sente.
Dona Marinete: Sinto. Agora tem um problema. As rezas é aqui é de olhado, dor de cabeça, vento caído numa criança, peito aberto em homem…
Entrevistador: O que é peito aberto?
Dona Marinete: Peito aberto é o camarada pegar num peso, e esses osso se afasta um pouquinho. Aí dá dor nas costas… As rezas que eu rezo é essa!
Dona Josefa: Mal olhado é assim, as vezes uma pessoa pega em você em uma criança, em qualquer um assim, e agente diz assim:
[Nesse momento, Dona Josefa começa a recitar uma oração que, em alguns minutos, não foi possível ouvir bem. Transcrevo aqui trechos que ficaram audíveis].
Dona Josefa:Com dois olhos mal te botaram/Com três bom Deus te tira/Com o poder de Deus e da Virgem Maria/Olhado e quebranto sai daqui/O poder de Deus é grande, pode mais que tudo/Aí diz: (nesse momento ela começa a recitar algo como um ordenamento para espantar as “forças do mal”, mas não é possível escutar bem) Olho malvado, olho amaldiçoado, inveja dos invejosos, praga dos escravizado, mal do mal/Vai para as ondas do mar/Vai pra onde Deus quiser/Deixa fulano ou fulana curado/Em nome do pai, do filho e do espírito santo.
Dona Marinete: Do jeito que eu tô aqui eu rezo em quem chegar, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas é olhado, dor de cabeça, é uma dor de dente. Isso foi um dom que Deus me deu. Eu comecei a rezar com dez anos de idade. Foi um dom que Deus me deu. Agora eu nunca fui na casa de ninguém assim, e nem gosto![16]

As rezas de Dona Marinete são bastante requisitadas. No momento em que estávamos realizando essa entrevista, que durou apenas quarenta minutos, três pessoas foram procurá-la para que, através de sua ajuda, alguns males que os atingiam fossem sanados.

As práticas das mulheres que curam encontram uma vasta problematização historiográfica que remete às sociedades muito antigas, que no encontro com o cristianismo, especialmente no medievo, geraram resultados inesperados e surpreendentes. Curar malefícios através de rezas, invocação de santos e anjos, chás e uso de ervas não é exclusividade das mulheres desse grupo. O historiador italiano Carlo Ginzburg (2010) se esforçou no sentido de demonstrar em sua obra, como algumas práticas da religião camponesa da Itália friulana, semelhantes ao que Dona Marinete faz, foram assimiladas à feitiçaria diabólica nos séculos XVI e XVII.

O historiador Francisco Régis Lopes Ramos, ao estudar as devoções católicas laicas em Juazeiro do Norte na sua obra O meio do mundo, também percebeu a intricada relação que existia entre as práticas de cura popular e a sua associação à rituais cristãos que evocam santos e anjos. Segundo o historiador:

No imaginário dos que fazem a sacralidade de Juazeiro, não há regras congeladas para a delimitação de fronteiras entre o certo e o errado na manipulação das forças do Além. Aos olhos do Padre Cícero, a questão era bem clara. Um dos objetivos do velho sacerdote era reprimir o modus vivendi dos feiticeiros. Nesse sentido, ele comungava com o pensamento oficial da Igreja: no seu entender, essa prática religiosa não fazia parte do catolicismo e sim das heresias. […] Na vida cotidiana dos habitantes de Juazeiro, a (com)fusão de experiências religiosas não permitia uma divisão clara entre o “resador” [sic] e o “feiticeiro”. Diante dos vários campos de manipulação do sagrado, os devotos faziam suas opções, criando um interminável jogo de acordos, querelas e desafetos. No vaivém da memória, nas urdiduras de cada dia, apareciam os mais variados caminhos, que se aproximavam e, ao mesmo tempo, distanciavam-se de ideias instituídas (Ramos, 2000: 200-201).

Os rituais empregados por Dona Marinete estão, portanto, envoltos dessas manipulações do sagrado que Ramos descreve tão poeticamente. No momento em que os malefícios dos que procuram Dona Marinete são jogados nas ondas do mar, como afirmou Dona Josefa em sua recitação da reza, lá eles se encontram e desencontram com outras tantas tradições que são renegociadas e retransmitidas por uma espécie de segredo feminino dentro do núcleo feminino do grupo de penitentes.

Conclusão

O penitente Israel nos confidenciou que, por diversas vezes, pediu para Dona Marinete lhe ensinar como é que ela fazia aquelas rezas e rituais que ele mesmo já havia presenciado várias vezes. Ela, segundo o penitente, repetia a frase que disse a mim: “−Isso é um dom Deus, já nasci com ele”, mantendo a prática exclusivamente em mãos femininas. Entretanto, como é possível perceber, as outras mulheres, a exemplo de Dona Josefa, também conhecem partes desse mistério que envolve as rezas de Dona Marinete.

Enxergamos, portanto, uma profunda transformação no que concerne as práticas femininas dentro do grupo de PPP.

Apesar de as mulheres ainda não realizarem atividades típicas masculinas, como a mendicância ou pregação, consideramos que elas executam uma gama de práticas de extrema importância dentro do grupo que são pensadas, lideradas e executadas por essas mulheres que não se contentam mais em ficar à sombra das práticas masculinas dentro da irmandade.

Na construção dessa história, cada personagem irá construir sua trajetória, sendo estas, repletas de elementos apaixonantes que através da recordação de um tempo mítico trazem para si o direito de fala em uma época onde a própria fala feminina, principalmente, no campo religioso, ainda é castrada.

Referências bibliográficas

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  1. Moiras e Musas presidem igualmente a função de Memória. São geralmente representadas na mitologia grega através da imagem de três mulheres que tecem e cortam o fio da vida. Cf. Torrano, J. A. A. (1985), “Os Deuses da Grécia segundo Hesíodo”, Almanaque do Pensamento, São Paulo: Pensamento.
  2. Cícero Romão Batista nasceu em 24 de março de 1844 na cidade do Crato, filho de Joaquina Vicência Romana e Joaquim Romão Batista ambos cratenses. Tinha duas irmãs: Maria Angélica Romana e Angélica Vicência Romana. Seu pai faleceu em 1862, vitimado pela epidemia de cólera que assolou a região em meados do século XIX. Foi estudar no Seminário da Diocese cearense aonde se formou em novembro de 1870. Voltando a sua cidade natal, assumiu em 1872 a Capela de Nossa Senhora das Dores na povoação do Juazeiro, onde mais tarde aconteceria o primeiro milagre da hóstia vertendo sangue, ao ser comungada pela beata Maria de Araújo. Cf. Nobre, E. (2016), Incêndios da Alma: a experiência mística de Maria de Araújo no Brasil do Oitocentos, Rio de Janeiro: Multifoco.
  3. Entrevista realizada no dia 7 de julho de 2015 na calçada da casa de Dona Marinete no bairro Tiradentes na cidade de Juazeiro do Norte. Na ocasião estavam presentes Dona Josefa, Dona Virgínia e Dona Marinete. Os dados biográficos dessas senhoras serão apresentados ao longo do texto de forma detalhada. As entrevistas foram realizadas por Roberto Viana entre os anos de 2015 e 2019. Como a edição do livro será bilingue, optamos por atualizar a ortografia das mesmas.
  4. Para mais informações sobre a experiência da irmandade em Juazeiro do Norte, ver: Oliveira Filho, R. V. de (2017), “Passado perpétuo: os Penitentes Peregrinos Públicos e o catolicismo penitencial em Juazeiro do Norte, CE”, Campina Grande: PPGH UFCG, [Dissertação de Mestrado].
  5. Referência a um dos principais líderes da irmandade após a morte do penitente fundador.
  6. Cerimônia popular entre os católicos leigos no Cariri cearense na qual é feita uma celebração para comemorar a entronização do “sagrado coração de Jesus” nas casas.
  7. Ver principalmente: Campos, R. B. C. (2009), “Contação de ‘causos’ e negociação de verdade entre os Aves de Jesus, Juazeiro do Norte – CE”, Etnográfica [Online], vol. 13 (1), pp. 31-47; Carvalho, A. C. F. de (2011), Sob o signo da fé e da e da mística: um estudo das irmandades de penitentes no Cariri cearense, 1. Ed., Fortaleza: Editora IMEPH.
  8. Entrevista realizada no dia 7 de julho de 2015. Dona Marinete juntamente com várias outras seguidoras dos PPP.
  9. Entrevista 7 de julho 2015, Idem.
  10. Idem.
  11. Entrevista 7 de julho 2015, Idem.
  12. Entrevista 7 de Julho de 2015.
  13. Os grupos de beguinas (beghards, derivado de to beg, mendigar, implorar etc.) eram compostos por mulheres da cidade, frequentemente abastadas. Havia também um ramo masculino no grupo, os beguinos. A pressão institucional teve como primeiro efeito a formação de casas de beguinas durante o século XIV e a submissão dessas mulheres à hierarquia eclesiástica. O movimento foi extinto devido às ações implementadas pela Contra-Reforma. (Cf. Richards, 1993). Segundo Adelina Sarrión, as beguinas “se dedicaban a la oración, al trabajo manual, imprescindible para mantenerse, y a las obras de caridad; solían vivir en comunidad y respetaban el celibato” (Sarrión, 2003, 40).
  14. Tradução nossa: “personne ne peut ignorer que l’Eglise est une société inégale dans laquelle Dieu a destiné les uns à comander, les autres à obeir. Ceux-ci sont les laïcs; ceux-là sont les clercs” (Supremi Pastoris, Vaticano I apud Vauchez, 2006: 56).
  15. Segundo Hoornaert (2008: 40), a romanização significaria ainda uma europeização do catolicismo praticado no Brasil: “Penetram nada menos que 39 congregações masculinas de origem europeia, assim como 109 femininas. Liquidam-se as irmandades leigas em benefício de associações religiosas controladas pelo clero”.
  16. Entrevista realizada no dia 4 de janeiro de 2017.


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