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Disciplina, piedade e exemplo

A congregação da missão e a formação de uma nova cultura clerical no ceará (1864-1891)

Pryscylla Cordeiro R. Santirocchi

Introdução

A partir dos finais do século XVIII e durante parte do século XIX a Igreja Católica teve uma significativa perca de poder na sociedade ocidental. Esse processo se iniciou com os valores difundidos pela Revolução Francesa, secularização da sociedade, a laicização do Estado, o cientificismo, o surgimento de novas doutrinas religiosas e políticas, etc. A fim de reagir a esses adventos modernos e reaproximar os fiéis da fé católica, a Igreja colocou em prática uma reforma religiosa, que ficou conhecida na historiografia, como ultramontana (Santirocchi, 2010b).

Uma das principais bases desse processo foi a reforma do clero católico que se pautou no

a) combate ao concubinato clerical; b) educação em seminários sob a direção de ordens religiosas reformadas; c) maior rigidez nas ordenações sacerdotais; d) envio de sacerdotes e seminaristas para se formarem na Europa; e) uniformização do ministério episcopal e clerical; f) correção e moralização do clero; g) combate ou desincentivo à participação dos párocos na política partidária, cargos eletivos ou administrativos civis; […] (Santirocchi, 2015: 169).

Portanto, houve um maior investimento nos seminários diocesanos, que serviram como centros formadores do clero desejado pela Igreja na modernidade. O objetivo desses estabelecimentos de ensino era fazer com quem os estudantes adquirissem atributos, considerados pela Igreja, como próprios do “estado sacerdotal”. O sacerdote ultramontano deveria ser “virtuoso, isolado da política, desembaraçado de laços sociais”, despojado dos bens materiais e levar uma vida dedicada apenas à religião. Ademais, era necessário dar a esse futuro clérigo uma formação intelectual sólida e a capacidade de exercer as funções práticas do seu ofício (celebração de cultos, sacramentos, pregações, etc) (Neris, 2014: 53-54; Airiau, 2006: 27).

As congregações e ordens religiosas europeias exerceram um papel fundamental nesse processo de reforma clerical. Elas passaram a administrar diversos seminários ao redor do mundo e auxiliaram a Igreja na renovação da cultura clerical católica. Isso só foi possível por terem desenvolvido ao longo de seus processos históricos, hábitos próprios, coesão e unidade. A vida comum e a vigilância constante nos seminários diocesanos, deu-lhes segurança para executar regras, estimular a vocação e o respeito à hierarquia (Airiau, 2006: 33 e 34).

Uma das congregações que mais se destacou nesse processo reformista foi a Congregação da Missão[1], que chegou ao Brasil em 1819. Os campos de atuação desse grupo religioso no país foram primordialmente, a formação do clero e missões populares. Devemos frisar que a reforma ultramontana no Brasil, capitaneada pelos bispos, contou com apoio político imperial, principalmente a partir da década de 1840.

Os bispos ultramontanos investiram na formação “de um novo clero que atuasse como intermediário e como cooperador solícito do episcopado na tarefa de governar e proteger a Igreja”. O clero brasileiro em sua maioria estava envolvido com questões seculares, como política partidária, etc. Ademais, muitos deles tinham fazendas, concubinas, filhos e pouca vocação para a religião (Reis, 2000: 92).

As causas para esse “afrouxamento da disciplina clerical”[2] era um tema amplamente difundido nas discussões entre os ultramontanos do período. Em documento pertencente à Nunciatura Apostólica, foi elencados os fatores que levaram à “ruína” do clero brasileiro:

a extinção e a ruína dos institutos religiosos que davam a tempera ao clero secular; o regalismo, o padroado, a influencia enervante e muitas vezes corruptora do antigo regime; a imperfeição da instrução e educação eclesiástica bebidas nos Seminários; a impureza […] o isolamento em que vivem nossos Párocos; a quase nenhuma vigilância e ação do Episcopado, impedidas pelas grandes distâncias.[3]

Os padres lazaristas, pertencentes à congregação da Missão atuaram em várias províncias brasileiras, principalmente a partir da segunda metade do século XIX. Foram administrar seminários a convite dos bispos ultramontanos[4], como D. Romualdo Antônio de Seixas (1787-1860), que via nos lazaristas a oportunidade de “regenerar o clero” nacional. Pois já haviam dado à França “a glória de possuir o Clero mais ilustrado, e o mais bem morigerado da Europa”.[5]

Neste trabalho, procuramos estudar de forma mais específica o quotidiano formativo de um seminário “ultramontano”, administrado pelos padres lazaristas no Brasil. Trata-se do Seminário Episcopal do Ceará ou Seminário da Prainha, localizado em Fortaleza, capital da província do Ceará. Essa instituição foi fundada em 1864, durante o episcopado do bispo D. Luís Antônio dos Santos (1817-1891)[6], que iniciou o processo de reforma religiosa naquele espaço. Nos deteremos ao período em que aquele seminário esteve sob a direção do padre lazarista Pierre Auguste Chevalier[7], entre os anos de 1864 a 1891. Nos questionamos acerca do cotidiano seminarístico, da aplicação de regras, os critérios para a formação de padres “vocacionados” e os desafios enfrentados pelos lazaristas para desenvolver uma nova cultura clerical naquele espaço.

Primeiro veremos quais eram as expectativas dos padres em relação a formação de um clero reformado, como organizavam o seminário e educavam os seminaristas. Em seguida, ao adentrarmos nos meandros das experiências vividas neste espaço de formação clerical, poderemos pensar acerca das dificuldades e adaptações naquele contexto sociocultural.

Para tanto utilizaremos os conceitos de estratégia e táticas, desenvolvidos por Michel de Certeau. Segundo Certeau, tática se caracteriza por uma “ação calculada pela ausência de um [lugar] próprio” (Certeau, 2011: 92). Assim, os agentes que realizam as táticas sobrevivem no espaço do outro, que detêm o poder. Os seus jogos são realizados com o “terreno” que lhes é imposto, assim “como organiza a lei de uma força estranha” (Certeau, 2011: 92). Movimentam-se no campo inimigo, por isso não tem tempo de planejar, esperam assim oportunidades para atuar, aproveitando as ocasiões e vigiando as falhas na ordem instituída (Certeau, 2011: 94-96).

As estratégias consistem em manipulações ou cálculos realizados por um grupo ou sujeito de “querer e poder” circunscrito a um lugar/espaço. Seu poder institucional os possibilita em planejar estratégias para manter-se naquela posição. Esses grupos detêm (1) segurança institucional, aonde podem manter-se e preparar ações; (2) controle dos espaços a partir da vigilância e (3) lugar social do saber (Certeau, 2011: 91-95).

A partir desses conceitos nos foi possível observar como os lazaristas, consistiram em um grupo dominante, que tinham um espaço próprio, que exercia uma constante vigilância e que discutiram várias estratégias para reformar o clero cearense. Ademais, percebemos que, em alguns momentos que se mostraram oportunos, os alunos aproveitaram o espaço imposto a eles (Seminário) e colocaram em práticas suas táticas contra o poder instituído.

1. Formar um novo Clero

A instalação do Seminário da Prainha em 1864 e a atuação dos lazaristas naquela instituição inauguraram no Ceará um novo padrão educacional. Isso se deu em dois âmbitos: no ensino preparatório (básico) e na formação do clero. Nessa época, a província contava com poucas escolas que oferecessem cursos primários e secundários.

Costa Filho (2004, p.57), nos informa que “na década de 1860, apenas dois instituições de ensino fulguravam como de boas condições, o Liceu do Ceará, de 1845, e o Ateneu Cearense, de 1863, ambos funcionando na capital. Nas outras vilas e cidades da província, apenas se tinham aulas de primeiras letras e Latim”. Entretanto, segundo Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará (1914), “nenhum estabelecimento escolar era bem dirigido nesta província […] fácil nos é supor a deficiência desses institutos, já por falta de pessoal docente, já por mingua de meios”.[8]

Corrobora também para essa ideia, o Relatório de Presidente de Província de 1861, afirmando que as escolas cearenses careciam de “pessoal habilitado e zeloso para os encargos do magistério”, pois não havia cursos que formassem profissionais preparados para o ensino. O resultado disso foi o estado precário da educação nas escolas cearenses, o que divergia do ideal de instrução europeia que se tinha na época.[9] Outra preocupação com relação à educação cearense, era fazer sentir no ensino “[…] a influência do elemento religioso, base de toda a educação séria, muito atendível no seio de um povo cristão, e sumamente proveitosa nas condições de atraso moral em que se acham os centros de nossas províncias”.[10]

A religião era um elemento constante na educação dos alunos no seminário, mesmo para aqueles que não pretendiam se tornar padres. Além disso, os professores eram franceses, o que corroborou para a aprovação por parte dos cearenses que buscavam seguir os padrões de instrução e civilidade europeus. Os jovens que fossem estudar no Seminário da Prainha, teriam uma formação católica sólida e estariam de acordo com os mais “avançados” modelos de ensino da época.

O prédio do Seminário foi dividido em: Seminário Menor, para o curso preparatório e Seminário Maior, para o curso teológico. A ideia inicial da Diocese era ter dois seminários em locais separados, a fim de que os cursos pudessem ser desenvolvidos de maneira independente um do outro. O Seminário menor ficaria no Crato, ao sul da província, e o Maior em Fortaleza, no entanto, após alguns anos o Seminário do Crato (1875) ficou fechado por vários fatores[11]. Acabou-se por colocar os dois cursos no mesmo prédio da capital (Reis, 2000: 98).

O curso preparatório perfazia seis anos de estudo, no primeiro ano se estudava as primeiras letras; o segundo, terceiro e quarto anos aprendia-se Latim (a matéria era dividida em três partes); no quinto ano, os alunos estudavam Retórica e no sexto Filosofia. [12] O Sínodo Diocesano Cearense de 1888 discute sobre a importância dos Seminários Menores na formação do clero:

I – É de máxima importância, que os futuros Ministros da Egreja sejam desde a mais tenra idade formados, e com particular cuidado, piedade, e doutrina. Para esse efeito, se hão instituído os Seminários menores, tão instantemente recomendados hoje pelos Sumos Pontífices a todo Episcopado católico.[13]

No processo de Reforma religiosa pelo qual passou a Igreja cearense, era necessário que os futuros clérigos iniciassem seus estudos desde cedo no Seminário Menor. Nesse caso, os lazaristas tinham a função de lapidar aos poucos o jovem para que se tornasse um padre dentro um de uma cultura ultramontana. No curso preparatório, os internos tinham uma rotina bastante rigorosa e disciplinada, com muitas aulas, missas e sessões de estudo que iam das cinco horas da manhã às nove da noite, quando recolhiam-se. (Costa Filho, 2000; 83 e 84)[14]

Além de um cotidiano bastante regrado, os cursistas do Seminário Menor deveriam “ter bom comportamento moral, religioso e civil; estimar os companheiros e, sobretudo, respeitar e obedecer aos seus superiores” (Neris, 2014: 63). Caso procedessem de forma satisfatória durante os anos do Curso preparatório, aqueles que vislumbrassem o sacerdócio poderiam estar aptos a prosseguir para o Curso teológico. Os professores seriam os responsáveis por vigiar e analisar o comportamento dos alunos a fim de discutir os melhores meios de estimular sua vocação.

O curso teológico durava quatro anos, tendo esta divisão: “um ano para Direito Canônico e Historia Eclesiástica e três anos para a Moral e o Dogma”.[15] Nos anos do curso teológico, o seminarista já deveria estar condicionado à vida sacerdotal, ao ponto de ter se desligado dos interesses mundanos e preocupar-se apenas com os valores religiosos, morais e intelectuais. Segundo Neris, o processo de uniformização das práticas cotidianas dos seminaristas resultava da

incorporação […] do ofício realizada pela materialidade do seminário, pelas vestimentas e objetos litúrgicos, por meio da repetição dos gestos, da inserção em uma coletividade e pela ruptura com o mundo externo, [..] ajuda a descrever o caráter totalizante e sacrificial com que se traduz o investimento para obtenção do estatuto sacerdotal, para incorporação do papel e a aquisição de disposições para o exercício da posição ocupada (Neris, 2014: 65) .

Dessa forma, a vida no seminário unia basicamente o ensino teórico, típico do processo escolar e o técnico, que reunia as práticas sacerdotais, como celebrar missa, usar a batina, confessar e que aos poucos iam sendo aderidas e reproduzidas pelos seminaristas.

Nos primeiros 27 anos de funcionamento do Seminário, período que corresponde ao reitorado do Pe. Chevalier, vários lazaristas europeus atuaram naquela instituição. Tais missionários pertenciam a países como França, Itália, Portugal, Alemanha e Holanda, contudo, sua formação como vicentino se dava na Casa Mãe dos Lazaristas na França. A vinda desses padres só foi possível graças às insistências do bispo junto ao Padre Visitador e o Superior Geral da Congregação. Ademais, o corpo docente do Seminário foi formado também por padres lazaristas de outras províncias brasileiras e do Ceará (Neris, 2014: 68-74). O historiador Costa Filho nos informa que entre os anos de 1864 a 1912,

lecionaram no seminário 77 professores, em períodos diferenciados, dos quais 13 eram lazaristas naturais de outras províncias brasileiras, 27 eram colaboradores com formação no próprio Seminário e 36 eram lazaristas europeus, sendo apenas um não identificado em sua nacionalidade (Costa Filho, 2004: 109).

No entanto, o número de professores era pequeno para a quantidade de matérias que se tinha no estabelecimento, isso por que muitos dos estrangeiros não se acostumaram ao clima cearense, sendo transferidos para outras instituições ou mortos por doenças tropicais. Sobre isso, o Álbum do Seminário destaca que

o clima é a grande preocupação dos estrangeiros, que abordam em nosso país, porque as febres dizimam grande número deles. Um padre da Congregação ao deixar a sua pátria deseja ao menos encontrar no estrangeiro o meio de poder devotar-se ao bem das almas e de encher de méritos suas mãos sagradas. Muitos entretanto, apenas começam a messe, são colhidos pela mão voraz da morte, deixando o campo sem cultor.[16]

Dessa forma, é notável que o clima cearense era um entrave à vinda de padres estrangeiros. Quando chegavam a província para missionar, poucos realmente se adaptavam às intempéries climáticas. Houveram casos de professores do Seminário recém-chegados que decidiram retornar à Europa ou foram transferidos para outras províncias brasileiras com temperaturas mais amenas.

Podemos citar os padres lazaristas João Batista Ribeiro, português e Bertran Marie Prat, francês que chegaram ao Ceará em 1865 para lecionar no Seminário. O primeiro resolveu voltar a Portugal dois anos após sua chegada e o segundo, passado alguns anos foi chamado ao Rio de Janeiro. Para substitui-los, foram convocados os padres Cláudio José Ponce Leão[17], baiano e Padre Trucco Bartolomeu, italiano. Esses padres também permaneceram pouco tempo no Seminário, sendo logo substituídos por outros padres.

Por conta dessas permutas, era necessária uma constante reposição do quadro de docentes do Seminário. Além disso, dois dos melhores alunos que estavam concluindo o curso teológico eram escolhidos para lecionar no curso preparatório. Os seminaristas colaboradores eram eleitos pelos professores e podiam auxiliar na educação dos mais novos.

Mesmo com esse trânsito de docentes, o certo é que a partir da administração do Pe. Chevalier e da congregação como um todo, o Seminário se tornou um centro reformista. Com o passar dos anos a instituição foi se consolidando, tornou-se referência educacional na província cearense. Convergiram para aquela instituição, inúmeros jovens cearenses e de províncias vizinhas, vindos de famílias abastadas e que desejavam tornar-se padres.

Em 1867, foi primeiro ano de ordenações sacerdotais do Seminário da Prainha[18], formaram-se vinte e seis padres dos quais, quatorze eram cearenses, cinco da Paraíba, três de Pernambuco, dois do Rio Grande do Norte e um de Alagoas.[19] Podemos perceber com isso que a criação de um Seminário administrado por uma congregação ultramontana, atraia os candidatos ao sacerdócio daquele período. Não obstante, é notável que o Seminário de Olinda, grande formador de um clero liberal perdia sua influência no cenário religioso.[20]

2. As ações dos padres lazaristas para a reforma do clero cearense no reitorado do Pe. Chevalier

A atuação dos vicentinos no Ceará entre os anos de 1864 e 1891 foi marcada por uma série de estratégias, que já eram utilizadas nos seminários europeus e de algumas províncias brasileiras, a fim de reformar o clero. Segundo Certeau (2011: 91-96), para que um grupo de “querer e poder” possa calcular as ações que deve realizar para manter seu controle e expandi-lo, precisa estar circunscrito a um lugar ou instituição.

Os lazaristas no Ceará tinham essa segurança institucional, o Seminário, correspondia não só a um espaço de controle físico, mas também psicológico. Nesse ambiente puderam traçar estratégias, lapidando os seminaristas, uniformizando-os, podendo discutir a melhor forma de fazê-los seguir o padrão de religioso pretendido. No entanto, devemos considerar que nem todas as suas ações tiveram o resultado desejado, já que algumas situações fugiram ao seu controle, como veremos posteriormente.

Para ser admitido nos Seminários guiados pelos ultramontanos, era necessário saber ler, escrever e ser filho de uma união matrimonial legítima. A grande maioria dos alunos pertenciam às elites sociais, que podiam pagar pela sua educação. Apesar disso, eram admitidos alunos pobres[21], que não podiam pagar e frequentavam o Seminário com ajuda das esmolas doadas pelos fiéis (Camello, 1986, p.168-169).

Como nos mostra o Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 1867, o seminarista José Gurgel do Amaral não continuaria a estudar no estabelecimento por conta do “mau estado da fortuna de seus parentes”.[22] Portanto, não apenas para entrar, como para permanecer no Seminário era necessário que a família pudesse arcar com as despesas. Isso por que as rendas do Seminário “eram provenientes unicamente das mensalidades dos estudantes na razão de 25$000 réis cada um”.[23]

Com relação ao impedimento de filhos ilegítimos estudarem no Seminário da Prainha, o caso que nos chamou a atenção foi o do jornalista José Marrocos Telles, ilegítimo e sacrílego, era fruto do envolvimento entre um padre e uma “mulata” (Costa Filho, 2004, p.40). Apesar de José Marrocos haver sido admitido no Seminário da Prainha, nos revela o Livro do Conselho do Seminário da Prainha (1865) que durante o período de sua ordenação no Seminário Menor, o bispo

não desejou ordena-lo por ser [filho] ilegítimo e por causa de uma pequena mudança que tinha aparecido nele. Com relação aos outros seminaristas, foi notado em todos os sinais certos de vocação: tivemos dúvida sobre Germano que parece pouco propenso ao estado eclesiástico e ao alcance das coisas da Igreja, embora, ele jamais se recusou a fazer nenhuma cerimônia.[24]

A Igreja já não aceitava os filhos considerados “sacrílegos” para que se tornassem padres, a não ser em casos bastante raros, quando o seminarista se mostrava bastante virtuoso para o estado clerical. No caso de Marrocos isso não aconteceu, além do Pe. Chevalier ter optado por não o ordenar, ainda o expulsou do Seminário. Com relação aos outros alunos, podemos ver que havia uma discussão sobre quais eram vocacionados ao sacerdócio.

O Seminário era regido pelo Diretório dos Seminaristas, seguindo o modelo francês e que o Superior Geral da Congregação indicou ao Pe. Chevalier que seguisse. Segundo o Reitor em carta ao seu Superior, eles seguiram o Diretório em tudo: “exceto quanto a ordem das matérias lecionadas, porque o Sr. bispo creu poder modifica-la”.[25] Convém destacar que a partir do Decreto Imperial de 22 de abril de 1863, o governo quis uniformizar as matérias ensinadas nos Seminários brasileiros para que recebessem subsídios do Estado, mas houve resistência por tarte dos bispos (Santirocchi, 2010a: 485-486).

As atividades e regras contidas no Diretório dos Seminaristas e que foram postas em prática pelos vicentinos no Ceará consistiram no “levantar dos alunos ás 5 h, a oração, a missa, os estudos regulares, os retiros, os exames, etc”.[26] Podemos afirmar que estas tarefas faziam parte do cotidiano dos seminaristas e também representavam estratégias da própria congregação para estimular os alunos à vida religiosa.

O Pe. Chevalier criou um Regulamento interno para o Seminário, inspirado no modelo que era utilizado pela Congregação da Missão na França. O referido documento era composto por vinte artigos que determinavam como deveria ser a vida dos seminaristas. Buscava-se a partir dos estatutos “a incorporação cotidiana de um modelo”, de respeito às regras, obediência hierárquica e à piedade (Airiau, 2006: 29).[27]

As Regras disciplinares presentes no regulamento destacavam os seguintes aspectos: obediência e respeito para com os superiores; evitar palavras grosseiras ou amizades particulares (Art. I); incentivo ao respeito e modéstia (Art. II), recomendação aos sacramentos e retiros espirituais (Art. III e IV); sobre a limpeza dos trajes (Art. V); proibição do ato de fumar, deixar o cabelo crescer e usar perfumes (Art. VI); devia-se fazer silêncio em todas as atividades (Art. VII); deveriam ser evitados nos recreios barulho em excesso e jogos grosseiros (Art. VIII); pontualidade nas tarefas e estudos (Art. IX); a permissão de licença das aulas e passeios só poderia ser dada pelo Reitor (Art. X), assim como só se poderia falar com um aluno do curso teológico ou com um criado, com sua permissão (Art. XI); proibia a transação de compras ou empréstimos para com os seminaristas (Art. XII); para receber visitas fora do horário era necessária a autorização do Pe. Chevalier (Art. XIII); as cartas que chegassem deveriam ser lidas antes por ele (Art. XIV); os alunos do Seminário só poderiam sair do edifício fora dos horários certos, com autorização prévia (Art. XV); em caso de saídas a alguma igreja deveria manter-se a modéstia, evitando conversas e fazendo silêncio (Art. XVI); os alunos que recebesse algum encargo no Seminário deveriam ser tratados com docilidade e deferência por seus companheiros (Art. XVII); aceitar e por em prática sem reclamar os avisos dos superiores (Art. XVIII); seriam expulsos os alunos que não praticassem os sacramentos, desacatassem publicamente um superior ou agisse de forma desrespeitosa (Art. XIX); sobre a obrigação dos superiores de vigiar o comportamento dos alunos para ter certeza de que o regulamento estava sendo praticado, ademais a proibição de leituras de livros, romances e jornais “perniciosos” (Art. XX).[28]

As regras do regulamento foram colocadas em prática durante todo o reitorado de Pierre Chevalier, que segundo o Álbum do Seminário, teria conseguido “manter o ideal, que primitivamente concebera de formar no Brasil um Seminário na altura de seus congêneres na Europa”.[29] O estatuto controlava cada passo dos estudantes, […] “sua minúcia e sua precisão visavam estruturar tanto quanto que possível os comportamentos e as disposições psicológicas” (Airiau, 2006: 29).

Houve, portanto, no Seminário um grande incentivo ao modelo de padre pretendido pela Santa Sé na época. O bom seminarista deveria ser: instruído, focado em seus estudos, modesto, piedoso, obediente, afastado do mundo, com moral elevada, ter amor pela Igreja e coisas sagradas. Para lapidar um novo clero, era necessário incentivar e muitas vezes impor esse modelo aos alunos. Neste sentido, criaram os estatutos e pensaram meios para alcançar seu intento.

No Livro do Conselho do Seminário (1864-1870), pudemos observar as estratégias discutidas entre os lazaristas para por em prática suas regras no Seminário e consequentemente formar um clero ultramontano. Ademais essa fonte nos permitiu perceber quais eram as atitudes dos alunos frente ao modelo de vida santa, pretendido pelos vicentinos.

Como dissemos anteriormente, os seminaristas deveriam “mostrar-se sempre respeitosos e obedientes com seus Superiores”.[30] Para que se tornassem bons padres ultramontanos, a primeira regra básica era a obediência hierárquica. Neste sentido, os lazaristas faziam os internos exercitarem a subordinação e o respeito cotidianamente para com os seus superiores. Segundo as regras, caso o seminarista desobedecesse às ordens estaria fadado a severas punições, inclusive expulsão. Sobre essa questão reflete o escritor do Álbum do Seminário:

Enganam-se os que pensam ser a disciplina uma cousa fácil. O Seminário é uma vida e vida agitada pelo caráter volátil e ardente de uma mocidade ávida de desenvolver suas forças. Ora, pelo vai e vem dos seminaristas, que vão se renovando ano a ano, quer também pelo caráter rude de alguns moços, o facto é que em muitas ocasiões o Reitor precisa armar-se de toda a severidade para manter a ordem.[31]

A disciplina imposta pelos lazaristas tinha o objetivo de padronizar o comportamento dos jovens seminaristas, o que faria com que eles perdessem gradativamente a sua individualidade e fossem incorporados ao seu estado clerical. No cotidiano, os professores discutiam sobre o comportamento “rude” de seus alunos e o que fariam para reordená-los, como nos mostra o Livro do Conselho:

Foi notado que o Sr. Castório não teve muito respeito para com os seus companheiros que tem um ofício no seminário. De um caráter inquieto e aborrecido, ele jamais fica contente por nada, que facilmente ele chama de hipócritas seus companheiros que querem praticar a virtude e obedecer a regra. Foi notado que o Sr. Agapita segue facilmente este exemplo.[32]

Em nossa perspectiva, o seminarista Castório, caracterizado pelos lazaristas como “inquieto e aborrecido”, utilizou-se das táticas ou maneiras de fazer para transgredir as leis impostas a ele. Notamos na citação que este aluno, infligiu o Art. XVII do regulamento ao desrespeitar os colegas que tinham algum trabalho no Seminário. Ademais, escarnecia dos outros seminaristas que buscavam seguir as regras e “virtudes”. Ainda segundo esse documento, suas ações contra o modelo de seminarista imposto, se expressavam principalmente na ausência dos professores, diretamente para com seus colegas. Provavelmente alguns dos alunos delataram-lhes aos superiores ou estes a partir da vigilância intensa observaram o comportamento do jovem.

Na visão dos seus professores, o seminarista Castório não tinha vocação sacerdotal, já que não demonstrava obediência e respeito para com eles. A fim de estimular a vocação desse aluno, foi pedido pelo Conselho que ele “separasse aqueles que tivessem a real inclinação para chamar de hipócritas etc… daqueles entre seus companheiros que verdadeiramente são bons seminaristas”. Para o jovem, os “hipócritas” eram aqueles que seguiam os padrões impostos pelos superiores. [33]

Os alunos deveriam ir regularmente às missas, procurar ampliar sua piedade pessoal, confessando-se “devotamente durante o retiro espiritual e depois uma vez a cada mês e frequentarão a Sagrada Comunhão, segundo os conselhos dos seus confessores”. [34] Houve um maior estímulo aos sacramentos (Art. III), pois acreditavam que com eles os seminaristas obteriam mais “modéstia e o respeito”.[35] A confissão, particularmente, representava um:

[…] controle da vida do seminarista, […] um instrumento eficaz, somente, é claro, quando o confessor é sincero no que diz. É neste momento que os padres-lentes que acompanham a formação do candidato pode sentir se realmente existe um coração vocacionado ao sacerdócio ou não, quais possam ser as barreiras para isso se concretizar e quais serão os exercícios espirituais que servirão para se vencer as crises e tentações (Costa Filho, 2004: 78).

A partir das confissões dos seminaristas, os Lazaristas podiam analisar quais os alunos estavam realmente aptos a serem ordenados e os que precisavam modificar hábitos e posturas. Podemos notar isso em uma reunião do Conselho, na qual os professores consideram que deveriam “lembrar mais aos seminaristas a obrigação da confissão semanal para uns, mensais para outros”.[36]

Durante as férias, quando podiam ir para a casa dos seus parentes, lhes era recomendada “a frequentação dos Sacramentos e contribuição do Vigário da Freguesia ou de um lugar perto que dê atestado da frequência nos Sacramentos”.[37] Os lazaristas teriam assim, certeza se os alunos continuavam ou não com seus exercícios espirituais. A intenção era manter os alunos centrados na vida religiosa, mesmo longe do Seminário. Para tanto, contariam com o auxílio dos vigários que os repassaria um relatório sobre os seminaristas que estavam frequentando os sacramentos e seu comportamento longe do claustro.

A instrução intelectual era outro aspecto importante na formação de padres. Procurava-se cultivar não apenas o saber religioso, mas também o científico como visto anteriormente, com as matérias repassadas no Seminário. Era necessário conhecer sobre as ciências a fim combater também os seus excessos. Além disso, a Igreja incentivou os padres a darem continuidade aos seus estudos quando ordenados. Por exemplo, alguns padres brasileiros desse período tornaram-se doutores em Direito canônico em universidades romanas (Santirocchi, 2010a: 250).

Segundo o Álbum do Seminário, “a inteligência movida, abala a vontade, que corre como pressurosa a abraçar tanta grandeza e se compraz no bello, com maior impeto do que nos prazeres terrenos. Ahi está porque o estudo sério é uma garantia para o padre e uma salvaguarda de sua moral” [Grifo nosso].[38] Nesse sentindo, o estudo tinha também a função de ocupar o seminarista e fazê-lo amante da leitura sagrada.

Obviamente além dos livros das matérias adotadas pelo Seminário, as leituras realizadas pelos seminaristas só podiam ser sobre a vida dos santos ou questões ligadas a Igreja. Pretendia-se fazê-los seguir os exemplos virtuosos dos religiosos, afastando-se assim de pensamentos e vivências do mundo externo. Para estimular o estudo, o reitor decidiu premiar os cinco melhores estudantes de cada ano do curso preparatório e teológico. As premiações estavam ligadas a “avaliação dos professores, e à identificação de outros sinais como obediência, disciplina e aplicação” (Neris, 2014, p.70). Assim, os alunos se tornariam mais dedicados aos estudos e buscariam a obediência aos superiores.[39]

A vivência no Seminário era bastante regrada, assim como nos seminários franceses, como já foi dito, “os dias se sucediam e todos se pareciam”.[40] Nos dias úteis, os alunos levantavam-se às 5h da manhã, ia para a missa, tomava café da manhã, tinham aula, estudo individual, durante a tarde almoçavam, continuavam as aulas, o terço, leitura, oração e repouso. As luzes do Seminário eram apagadas às 21 horas e 15 minutos da noite, momento em que os jovens já deveriam estar recolhidos.

Nos domingos e dias santos, levantavam-se no mesmo horário, faziam suas orações, recebiam instruções, ladainhas, etc. Estudavam catecismo, iam para a missa, depois recreio, almoço, terço e estudos individuais. Nos feriados, os alunos podiam passear em alguns lugares de Fortaleza, como a Praça do passeio público ou Ponte metálica, sob o controle de um professor. Assim, toda a vida do seminarista era voltada basicamente aos estudos e práticas sacramentais.

Os lazaristas exerceram um controle do espaço seminarístico através da vigilância intensa e proibição de alguns atos. Os prédios do Seminário Maior e Menor eram vizinhos, portanto, era necessário impossibilitar o contato entre os alunos. O motivo era as “faixas etárias bem distintas: de um lado crianças e adolescentes do curso preparatório e do outro os jovens e adultos do curso teológico”. Ademais, os fatores primordiais eram a “necessidade de silêncio e isolamento” dos candidatos ao sacerdócio (Reis, 2000: 99).

Sobre essa questão, Airiau (2006, p.32) enfatiza que “o isolamento pela relativa claustração que a concepção da formação sacerdotal impõe é acompanhada da inserção de uma comunidade segundo uma ordem de dignidade determinada pelo avanço das ordens”. Neste sentido, podemos pensar que à medida que o seminarista ia progredindo no Curso teológico, seu estado de afastamento do mundo também avançava. Sobre a questão, durante a reunião do Conselho de 13 de março de 1870:

tratou-se do melhor modo ew3que haveria de vigiar os moços durante os recreios e passeios e assentou-se que nos dois recreios, do meio dia e da noite, dois padres ficariam em baixo com o Curso Teológico e dois no Corredor de Cima para impedir a comunicação dos 2 cursos e a ida dos moços aos dormitórios.[41]

A cada semana seria decidido pelo Reitor os padres que deveriam presidir a vigilância nos recreios ou passeios.[42] Era necessário que durante os intervalos o silêncio fosse completo, sem bagunça ou agitação (Art. VIII). Nos horários do almoço ou jantar “foi decidido que para ter mais ordem no refeitório, os seminaristas seriam divididos por mesas de 6, e que será nomeado um presidente para distribuir os alimentos”.[43] A divisão feita pelos lazaristas facilitava na separação dos alunos, tinham assim, um ambiente calmo, ordeiro e podiam observar com atenção o comportamento dos discentes.

Com o ambiente de isolamento pretendia-se evitar a presença feminina, assim como amizades particulares entre os seminaristas. Conjeturamos que a atitude dos lazaristas em proibir que os meninos despertassem afeição particular uns pelos outros, fosse para evitar possíveis comportamentos homossexuais.

Nesse sentido, os alunos não poderiam em nenhum momento ficar longe das vistas dos professores, até “os Dormitórios deveriam ficar trancados durante todo o dia e que só por um caso extraordinário devia-se dar licenças aos moços de ir nelles, quem tivesse necessidade de deitar-se, fosse logo para a enfermaria”. Seus pertences ficariam na sala dos baús, que só seria aberta “1º durante os banhos, 2º durante o recreio depois do jantar e 3º durante o recreio depois do café”. Durante esse tempo os rapazes deveriam ir buscar tudo o que precisariam durante o dia. Caso cometessem alguma “falha”, ou seja, fossem até essa sala fora do horário, o Pe. Chevalier recomendou aos professores que não os dessem nenhuma penitência ou repreensão, mas falassem para ele.[44]

Uma outra decisão que os ajudavam a ter domínio sobre o espaço, era que tudo que entrava ou saia do Seminário passava primeiramente pelo Reitor. Por exemplo, as visitas, as cartas, livros, jornais e revistas só seriam aceitos se o Pe. Chevalier considerasse lícito. Dessa forma, os padres sabiam o que ocorria, o que precisava ser modificado ou proibido.

O controle dos livros e jornais era bastante relevante, pois não queriam que os alunos tivessem contato com escritos “perniciosos”. Para a formação de um padre ultramontano, todos os temas seculares como política, relações amorosas, etc, poderiam ser considerados perigosos. Sabemos que um dos pontos mais relevantes da Reforma ultramontana foi exatamente o afastamento do clero da política partidária, um tema muito comum nas discussões da época. Portanto, proibir a entrada jornais que tratassem disso era vital para a formação de um padre preocupado apenas com a sua atuação e seu ofício religioso.

Com relação às formas de se portar e trajar dos seminaristas, o Pe. Chevalier decidiu no Conselho de 21 de julho de 1865 que a partir do segundo ano do Curso Preparatório os alunos deveriam usar batina com alamares[45], capa grande e chapéu de dois bicos. Além do mais, decidiu que os tonsurados e os menores deveriam “ir à igreja com o hábito” sacerdotal.[46]

No século XIX, a batina, o hábito era uns “dos elementos mais característicos, marcador social exterior (o distingue) e realizador da identidade interior (corte e morte no mundo) […]” do seminarista ou padre (Airiau, 2006, p.31). Portanto, a forma de vestir-se do clero era um dos pontos que o diferenciavam do resto da sociedade, demarcando assim sua forma própria de vida. Desde o curso preparatório os alunos deveriam ir trajando-se com alguns elementos que identificassem a vida sacerdotal, até chegar ao uso contínuo da batina.

Ademais, essa era uma das estratégias da Igreja para que o clero formasse uma identidade e interiorizasse seu distanciamento das coisas externas. Teriam dessa forma, consciência de sua posição religiosa, ao passo que respeitariam seus votos, evitando o contato com a vida “mundana”. Segundo Cândido da Costa e Silva, “houve uma lenta, mas progressiva passagem da subjetividade do candidato em ‘sentir-se chamado’, para a racionalidade do ‘ser chamado’, fundada em critérios indigitados pelos formadores. Subordinava-se a ‘voz interior’ à evidência dos ‘sinais’” (Costa e Silva, 2000, p.17).

Os retiros espirituais ou exercícios espirituais[47] também tiveram um importante papel no que se refere ao sentimento vocacional. Durante o período de sua realização, os seminaristas e padres deveriam entregar-se inteiramente aos sacramentos e silêncio. Os retiros corriam no Seminário reunindo padres de toda a província e geralmente duravam de três a oito dias. A organização dos retiros era feita pelos “filhos de S. Vicente de Paula, dignos lentes do Seminário e diretores dos santos exercícios”.[48]

O primeiro retiro realizado no Ceará foi em 4 de dezembro de 1864, após a chegada dos vicentinos à província. Os trabalhos no Seminário estavam começando quando “tiveram que suspendê-los para […] se deterem a implorar as bênçãos de Deus e se adestrarem á vida clerical pela salutar penitência desses dias de regeneração espiritual”.[49] O retiro durou três dias e foram realizadas as seguintes atividades:

as 4 horas da tarde, abertura por uma pequena prática sobre o retiro. Os exercícios duraram três dias, 5, 6 e 7, havendo duas instruções por dia sobre as grandes verdades. De manhã meditação em voz alta. As 3h, conferência sobre o Sacramento da Penitência. Não se podendo rezar o Ofício Divino da Santíssima Virgem, recitou-se o Rosário, dividido em três partes: o 1º o terço de manhã às 8 horas, o 2º às 2h. e o 3º às 6h.[50]

As instruções foram feitas pelo Pe. Chevalier e seus coirmãos, que perceberam a importância da prática de tais exercícios para reforma do clero. Os alunos do Seminário e os demais padres da província receberam instruções sobre as “grandes verdades”, a importância dos sacramentos, voto de celibato, obediência, etc. Pretendia-se assim, “implantar nas almas […] dos Seminaristas o amor á disciplina e á carreira eclesiástica”, todos deveriam confessar-se e comungar. [51]

Os padres das freguesias cearenses participaram ativamente dos retiros promovidos pelo Seminário da Prainha. Durante o terceiro retiro espiritual no Ceará, que teve seu início no dia 21 de janeiro de 1882 e durou oito dias, contou com a presença de trinta e três padres e vigários da província. O Jornal O Cearense, divulgou a convocatória para o evento:

Os Revdm. párocos que pretenderem vir aos ditos exercícios, não o poderão fazer sem que deixem algum sacerdote ou pároco vizinho que se encarregue da administração de suas freguesias, com tanto que esses sacerdotes ou párocos que tenham de ser delegados, se achem nas condições canônicas de poderem aceitar a delegação.[52]

Para a Diocese era necessário que os padres fossem ao retiro, pois nele os clérigos poderiam ser instruídos e preparados para continuar sua tarefa de guiar os fiéis. No entanto, era necessário que deixassem outro pároco, preparado para o cargo como seus substitutos nas igrejas. Percebemos que essa também era uma medida de controle por parte do prelado que não permitia que as paróquias ficassem vacantes, sob administração de padres despreparados ou laicato. Os lazaristas, organizadores do evento, consideravam aquele

ato fecundo em bons resultados, acontecimento que traduz o moralizador pensamento daqueles que inspirados pelo Divino Paraclito e guiados pela experiência, o julgarão de imprescindível necessidade para retemporação das forças dos seus colaboradores e afervorá-los na árdua e augusta missão de cujo desempenho impende o bem-estar moral e civil da sociedade.[53]

Neste sentido, podemos afirmar que no âmbito das ações reformadoras, os retiros espirituais foram bastante importantes. Os seminaristas puderam desde cedo ser encaminhados ao padrão ortodoxo de obediência e piedade. Assim como foi necessário ao controle e vigilância do clero secular, que eram lembrados que deveriam ser exemplos de moral com o fim de guiar seus fiéis pelo rumo correto.

Com a chegada dos vicentinos, as festas religiosas no Ceará também sofreram modificações. Segundo Fragoso, essas festas eram “as únicas compatíveis com o sentido de vida cristã da maior parte do […] povo religioso”. Geralmente no Brasil elas eram promovidas pelas Irmandades a fim de realizar devoções aos santos e peregrinações aos santuários. O dinheiro das esmolas dos fiéis que eram arrecadados durante a festa pertencia a Irmandade, que tinha o controle da manifestação religiosa (Fragoso, 2008, p.219).

No entanto, com a Reforma Ultramontana, os festejos ficaram a cargo das Ordens religiosas. Na província cearense, por exemplo, os lazaristas passaram a organizar e presidir alguns desses eventos. A Igreja Católica pretendia com isso, afastar o poder dos leigos sobre as festas, além de reordenar os rituais e o culto, inaugurar e reforçar devoções. Além disso, ao ficar responsável pelas festas o clero desejava

[…] retomar a visão de uma igreja clerical, onde o padre é o indivíduo autorizado para ajudar o fiel a manter contato com o sagrado e com os santos, ministrar os sacramentos e a absolvição dos pecados. […] sentimento clerical iniciado sob os auspícios do primeiro bispo e dos especialistas lazaristas da Congregação de São Vicente de Paulo (Costa Filho, 2004, p.131).

No dia 8 de dezembro de 1864, foi realizado no Seminário e na Igreja de N. Sr. do Outeiro da Prainha, a Festa da Imaculada Conceição. Esse culto mariano esteve presente em grande parte do período colonial e ganhou novo impulso com a afirmação do dogma da Imaculada Conceição em 1854 (Fragoso, 2008, p.220). Segundo o Álbum Histórico do Seminário, a devoção ocorreu

com a assistência de todo o clero, da Irmandade de N.S da Conceição e das pessoas gradas da cidade, o Sr. Bispo, D. Luiz procedia com todo aparato á benção da Igreja da Prainha […] e do edifício, percorrendo toda a casa em procissão – Momentos após pontificava na Missa solene com toda a imponência das cerimonias episcopais e cercado pela primeira vez de um coro de levitas.[54]

Como visto na citação, já no início da reforma da Igreja cearense as festas tinham caráter bastante centrado no ritual e sacramentos. Apesar da Irmandade da N. S. da Conceição estar presente na organização do evento, percebemos aqui uma maior hierarquização episcopal. Mesmo que o culto da Imaculada Conceição fosse de responsabilidade da Irmandade e o edifício da igreja lhe pertencesse, estavam presos às decisões do clero.

Segundo o diário pertencente ao Pe. Chevalier, a festa teve os seguintes ornamentos, “a frente da igreja e da casa apresentava um ar de festa [pelas] […] flamas, bandeirolas e lanternas”. A festa tinha como objetivo o culto devocional a Imaculada Conceição e a comemoração da abertura oficial do Seminário, assim como a chegada dos lazaristas. Foi oferecido pelos padres um jantar para a comunidade ao som da banda de música dos seminaristas.[55]

Outra festa religiosa a ser considerada foi a de São Vicente de Paulo, também realizada no Seminário da Prainha e regida pela Congregação da Missão. A devoção a São Vicente chegou ao Ceará com os lazaristas, e posteriormente com a criação da Conferência Vicentina, o culto foi consolidado pelo laicato. O Jornal Constituição de 23 de julho de 1882 noticia sobre a festa:

No dia 19 do corrente [mês] os Padres da Congregação da Missão celebraram […] a festa de S. Vicente de Paula, glorioso fundador daquela congregação. […] houve missa solene sendo oficiante Exm. Sr. Vigário Capitular, achando-se presente o […] Arcebispo da Bahia [D. Luís A. dos Santos], muitos sacerdotes desta capital, as irmãs de caridade com suas respectivas alunas, o grande número de assistentes de diversas classes. Ao evangelho ocupou a tribuna sagrada o talentoso padre mestre Manoel Candido dos Santos, que, em um importantíssimo sermão pôs em relevo as heroicas virtudes de S. Vicente de Paula, prendendo assim a atenção do numeroso auditório […] Depois da festa religiosa os padres da congregação obsequiaram a seus convidados com um variado e lauto jantar […].[56]

Notamos que a Festa de São Vicente, realizada pelos lazaristas era voltada à comunidade clerical cearense. Neste sentido, há um distanciamento da participação leiga desse evento, já que era fechado ao grupo dos sacerdotes e freiras. Outras festas e devoções introduzidas pela Diocese no Ceará foram o Sagrado Coração de Jesus, a Festa de São Pedro, etc.[57]

3. Laboratório do clero cearense: o criterioso sistema de ordenações

Nos Seminários ultramontanos a formação do clero tinha diversas etapas e exames. Para tornar-se sacerdote, “os aspirantes deveriam passar então por um longo processo de seleções e ritos examinatórios prévios à obtenção” dos ordenamentos. As Ordens dividiam-se em Menores e Maiores ou Sacras, e para alcança-las a vocação do aluno deveria ser analisada pelos professores e pelo Reitor do Seminário (Neris, 2014, p.85).

As ordens sacramentais dividiam-se em graus: quatro menores e três maiores. As menores eram formadas por Ostiário, Leitor, Exorcista e Acólito, essas ordens conferiam poderes concernentes ao culto divino.[58] As ordens sacras ou maiores se dividiam em Subdiaconato, Diaconato e Presbiterado (sacerdócio), ofertando poderes sobre objetos sagrados e sacrifício, quem os recebesse estaria consagrado ao altar e destinados à vida celibatária.[59] Essa era também uma estratégia da Igreja para formar um clero consciente de suas funções. Analisamos no Livro do Conselho do Seminário da Prainha (1864-1870) como os professores e o pe. Chevalier operaram a difícil tarefa de seleção de um novo clero.

As sucessivas ordenações exigiam dos lazaristas um profundo estudo e discussão sobre cada um dos alunos, por isso a vigilância falada anteriormente, foi tão importante. Todos os pontos sobre a reforma do clero no Seminário abordados nesse artigo convergem para o momento das ordenações.

O Livro do Conselho nos mostra as etapas de ordenações e os critérios que eram levados em conta para isso. Com ele foi possível acompanhar a trajetória de alguns seminaristas em busca do presbiterado. Em 1866, foram ordenados os primeiros subdiáconos e outras ordens menores. Os alunos que foram aceitos para a ordenação foram:

1º ao Sem. Pedro Alves d’Araujo, em que foi constatada as marcas comuns de vocação: regularidade, amor pelas cerimônias e desejo do bem. No entanto, foi observado que ele é um pouco lento nos seus estudos. […] 4º O Sem. José de Sousa que nos parece sério, de uma inteligência comum, um pouco lento, ele é verdadeiro, mas vence (?) tudo por sua tenacidade, assíduo para receber os sacramentos, tem gosto pelas coisas de Deus. Foi acordado com ele este favor com a condição dele poder estudar nas férias [Grifo nosso][60]

Nos exames de vocação dos lazaristas, cada marca do comportamento dos alunos era destacada. A citação apresenta dois alunos que seguiam o modelo do “bom seminarista”, o primeiro perfazia bem esse ideal com demonstração virtude, amor aos estudos, sacramentos e coisas sagradas. O segundo por sua vez, era bastante esforçado e disciplinado com seus exercícios sacramentais. Portanto, a condição para sua ordenação como subdiácono era que dedicasse mais aos estudos, já que apresentava dificuldades nas matérias. Apesar disso, ambos estavam aptos a avançarem rumo ao sacerdócio.

Entre os alunos que não deveriam receber a ordenação, destacamos o:

3º Sr. Germano Antenor de Araújo, as disposições das quais pareceram duvidosas: pouco de piedade, ele passa de 3 a 4 semanas sem se confessar; durante as férias, embora na cidade, ele não se confessou uma única vez, foi encontrado sempre com seculares […] Ele teria sido a causa da desobediência do seu irmão durante as férias, […] inteligente, ele estuda pouco e de preferência a história profana, a literatura. Ele teria apoiado facilmente as opiniões que se afastam daquelas que são favoráveis a Igreja. […] [Grifo nosso][61]

Segundo a discussão do Conselho, esse seminarista divergia muito das qualidades exigidas a um futuro padre. Infligiu vários artigos do Regulamento: era pouco piedoso, pois não se importava com os sacramentos, passando quase um mês sem confessar-se. Durante as férias teve bastante contato com pessoas que não eram religiosas, confessou-se pouco e ainda teria influenciado seu irmão ao “erro”. As informações sobre sua irregularidade com os sacramentos e seu comportamento, chegavam aos lazaristas a partir dos clérigos locais. Aventamos que esses detalhes poderiam ser obtidos pela confissão ou a partir de seus familiares.

Além disso, outro motivo para não se ordenar era seu aparente envolvimento com “história profana” e literatura. Ora, a Igreja pretendia formar um clero homogêneo, que tivesse um sentimento de identificação com seu “lugar social” e que devia afastar-se das coisas mundanas. Portanto, era necessário que os jovens seminaristas não tivessem contato com livros e histórias que produzissem ideias e visões diferenciadas.

O jovem Germano se deixava conduzir por opiniões que destoavam das da Igreja e os professores atribuíam isso às suas leituras “profanas”. No século XIX alguns romances eram escritos em tom anticlerical e pretendiam tecer duras críticas a temas como o celibato e a rigidez na formação seminarística. Podemos citar dois livros que abordam essas discussões, “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães e “O crime do Padre Amaro” de Eça de Queiroz (1875). Apesar de Germano não os ter lido naquele momento, pois só foram lançados posteriormente ao ano de 1866, os lazaristas consideravam tais livros uma verdadeira “ameaça” à vocação religiosa e à carreira eclesiástica.

No ano seguinte, o Conselho decidiu que o seminarista Germano poderia ser chamado “às 2 ordens [menores] que lhe faltaram e ao subdiaconato”. O motivo para essa deliberação foi que “ele suportou bem a humilhação que lhe foi imposta”. Disseram ainda que “ele teria sido mais assíduo aos sacramentos, que teria sempre gosto pelos estudos”. Portanto, acreditamos que para os lazaristas a não ordenação anterior do rapaz lhe serviu como penitência, já que pôde assim repensar suas atitudes e modificar sua conduta.[62]

Outro caso que merece destaque é o do seminarista Cícero Romão Batista,[63] que tornou-se célebre por conta de sua atuação como padre e político na cidade de Juazeiro do Norte.[64] No mês de outubro de 1867, durante os exames do Conselho para definir os seminaristas que receberiam as duas últimas ordens menores, foi falado que Cícero:

não merece ordenar-se porque, a longo tempo não se confessa nem comunga, e que ele é pouco regular; que ele tem muitas ideias confusas, que ele tem muita fé em sua própria razão: essa razão é especialmente mais grave porque ele está empregado no Seminário. Por isso lhe foi dito que, se continuar assim, ele não poderá mais exercer seu ofício em razão do escândalo que ele cometeu, e que, todavia, foi deixado livre das duas ordens a fim de não desacreditar as escolhas dos professores [Grifo nosso].[65]

Cícero Romão entrou no Seminário em 1865, destacou-se por sua inteligência e dedicação aos estudos. Por esse motivo, durante o segundo ano de curso teológico foi escolhido para ministrar disciplinas no Seminário Menor, como colaborador. Todavia, como visto na citação, os lazaristas chegaram ao consenso de que ele não merecia ser elevado de ordens. As causas principais estariam relacionadas à sua “apatia” com relação aos sacramentos, por não demonstrar interesse pelos exercícios de piedade e pela pouca regularidade em suas atividades. Além disso, guiava-se por “ideias próprias”, talvez sem levar em consideração os conselhos e regras dos superiores.

O jovem foi advertido a melhorar sua conduta e ameaçado com a perca do seu ofício no seminário. Algo que nos intrigou foi o Conselho ter citado um “escândalo” realizado por ele. Não sabemos exatamente ao que os padres se referiam, mas supomos que tivesse a ver com as aulas ministradas pelo seminarista na instituição. Pois provavelmente estaria influenciando os colegas com suas “ideias confusas” e “sua própria razão”. No entanto, os professores optaram por lhe dar as ordens menores, para que não ficassem desmoralizados e desacreditados em suas decisões perante os outros alunos.

A situação de Cícero Romão agravou-se mais ainda nos anos seguintes por conta das suas atitudes. Em 1868, não pôde ordenar-se como subdiácono, pois continuou sem frequentar os sacramentos, guiava-se por “opinião própria” e tinha “pouca regularidade”. Ainda assim permaneceu com o “emprego de confiança” que tinha no Seminário.[66] O caminho seguido por esse seminarista era totalmente contrário às exigências do Regulamento.

Como dissemos anteriormente, as virtudes mais importantes de um seminarista eram a piedade e o respeito à hierarquia. Ora, se Cícero continuou sem frequentar os sacramentos, desrespeitou assim uma ordem instituída pela própria Igreja. Desta feita, os lazaristas decidiram que mais uma vez não se ordenaria e “que se entenderiam com o Senhor [bispo] para rogar-lhe que ele seja retirado do Seminário”.[67]

Sobre isso devemos salientar que o pe. Chevalier e seus coirmãos toleraram por um tempo o comportamento do aluno sem expulsá-lo. As ações de Cícero perfaziam exatamente os critérios de expulsão do Seminário que eram: “1º escarnecer dos exercícios de piedade”, 2º […] desatender publicamente seus superiores”.[68] O mais grave era que o jovem estava empregado no Seminário, tendo sido escolhido pelos próprios professores. Como não modificou suas atitudes, colocou em xeque a ordem e a disciplina hierárquica. Neste sentido, o desejo dos lazaristas em querer sua expulsão seria justificável pelas normas exigidas pela Igreja para a formação do clero.

Entretanto, o bispo D. Luís não o expulsou, ordenando-o sacerdote em 30 de novembro de 1870, mesmo sabendo que ele não se enquadrava no ideal de seminarista pretendido pela Reforma Ultramontana. Acreditamos que isso ocorreu por intervenção do padrinho de batismo de Cícero, o Coronel Antônio Luís Alves Pequeno, que era amigo do bispo D. Luís. Esse coronel era bastante poderoso na região do Cariri, ao sul da província, e ajudou nas reformas promovidas pela Diocese no âmbito econômico e político.

No ano de 1861, fez parte da comissão que organizou a arrecadação de esmolas para a construção do Seminário da Prainha, tendo ele mesmo feito doações. Em 1875 ajudou na instalação do Seminário São José, no Crato, doando “um terreno para a ereção do Seminário e uma levada d’água para a serventia do mesmo”. Ademais, nos seis meses de edificação do Seminário em que D. Luís esteve no Cariri, ficou hospedado em sua residência (Pinheiro, 2010: 164-166).

Apesar de simbolizar um poder institucional, a Diocese cearense no prelado de D. Luís ainda estava se constituindo como tal. A Igreja do Ceará daquele período necessitou fazer alianças com os poderes locais para se fortalecer. O Coronel Antônio Luís representou, portanto, para o bispo não só um apoio econômico, mas político e cultural. Por terem essas ligações, inclusive de amizade, a expulsão de Cícero significaria uma ofensa ao coronel que apadrinhava seus estudos no Seminário, ou ainda pior, uma ruptura do apoio da elite política local para com a Diocese.

Dessa maneira, apesar de Cícero não estar apto à ordenação segundo o modelo ultramontano e ter desafiado os seus superiores por não cumprir publicamente as regras, ordenou-se padre em 1870. Isso demonstra como os bispos ultramontanos, apesar conhecerem e terem que seguir os desígnios da Santa Sé, nem sempre obedeciam às ordens institucionais, fazendo concessões, na formação do clero, segundo as alianças com os poderes locais e interesses envolvidos na questão.

Conclusão

No decorrer do artigo vimos como os lazaristas procuram implantar no Seminário da Prainha no Ceará as normas seminarísticas desenvolvidas pela Congregação, nas suas experiências francesas e transnacional. Todavia, perante as táticas de resistência, as contingências impostas pela hierarquia eclesiástica e pela sociedade cearense, tiveram de ceder, afrouxando por vezes a rigidez almejada. Acabaram por aceitar seminaristas que eram filhos ilegítimos, sacrílegos, dar mais espaço para aqueles que podiam pagar mensalidades do que aos pobres, ordenar sacerdotes àqueles que julgavam não ter as características vocacionais necessárias, isso devido às pressões do bispo e dos fiéis financiadores da diocese cearense.

A reforma ultramontana foi realizada também por meio de compromissos e acordos, por vezes os bispos e seus auxiliares tiveram de ceder e para poder fazer o que era possível de ser feito. Estavam em um ambiente onde as vocações diminuíam e a necessidades de novos sacerdotes aumentavam, antes de reformar era necessário cuidar da salvação das almas.

É fundamental a análise de casos específicos e de escalas menores de observação para percebermos alguns traços que os estudos gerais não permitem ver. A reforma ultramontana foi uma junção de diferentes experiências e, apesar de um discurso de rigidez, a exceção também fazia a regra.

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  1. Congregação fundada em 1625, na França por São Vicente de Paulo. Trata-se de uma sociedade de vida apostólica masculina, que tem como objetivos principais a santificação pessoal, a realização de missões evangelizadores nos campos e formação do clero nos seminários. Seus membros vivem em comunidade e ficaram conhecidos como “vicentinos”, “padres da Missão” ou “lazaristas”. Apesar de fazerem parte do clero secular, obedecem primordialmente ao superior da congregação e aos bispos apenas quando estão em missões em suas dioceses. Seus membros professam votos simples de estabilidade, pobreza, castidade e obediência. Para mais informações ver: Santirocchi, 2019.
  2. Busta 67, Fasc. 323, Doc. 4. Alguns pontos da reforma da Egreja do Brasil, s/d. Nunziatura Apostolica. ASV. : 61. Compilado e traduzido por: Nobre, E. (Acervo Particular).
  3. Busta 67, Fasc. 323, Doc. 4. Alguns pontos da reforma da Egreja do Brasil, s/d. Nunziatura Apostolica. ASV. p. 61. Compilado e traduzido por: Nobre, E.. (Acervo Particular).
  4. Instalaram-se nas dioceses de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Santa Catarina, Paraíba e Bahia.
  5. AES, Br., Fasc. 182, pos. 143, f. 115v-116r apud Santirocchi, 2010a, p. 488.
  6. D. Luís Antônio dos Santos nasceu em Angra dos Reis-RJ, estudou no Seminário da Santíssima Trindade de Jacuecanga, e posteriormente, foi admitido no Seminário do Caraça, dirigido pelos lazaristas, dando continuidade aos seus estudos teológicos. Por razões de saúde saiu da instituição e concluiu seu curso como clérigo diocesano. Doutorou-se em teologia em Roma, voltou ao Caraça como diretor e depois foi sagrado bispo no Ceará em 1859. Realizou várias mudanças na vida religiosa e política cearense, a partir dos preceitos ultramontanos.
  7. O padre Pierre Auguste Chevalier nasceu em Saint-Riquier, na França e se ordenou na Casa Mãe dos Lazaristas em Paris. Veio ao Brasil como missionário para lecionar no Seminário da Bahia em 1858, sendo expulso da administração com outros lazaristas em 1861. Logo após foi convocado para dirigir o Seminário Episcopal do Ceará (1864), passando 26 anos no reitorado. Sua saída da direção do Seminário em 1891 se deu por uma querela entre ele e alguns alunos, que ficou conhecida como “Revolta dos Seminaristas”. Mesmo afastado continuou morando no Seminário até sua morte em 1901. Ver Leite, 2016.
  8. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 80. Disponível na Biblioteca Pública Meneses Pimentel (BPMP) em Fortaleza – Ceará.
  9. Relatório de Presidente de Província Manoel Antônio Duarte de Azevedo de 01 de julho de 1861, Instrução pública, p.10. Disponível em: https://bit.ly/30bijZm. [Acesso em: 01 de novembro de 2019].
  10. Idem, p.11.
  11. Catástrofes como a seca e epidemias fizeram com que o Seminário do Crato fechasse suas portas.
  12. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p.30 (BPMP).
  13. Sínodo Diocesano Cearense de 1888, Capítulo III – Dos Seminarios e dos collegios diocesanos, p. 230. Disponível na Biblioteca do Arquivo do Departamento Histórico Diocesano Padre Antônio Gomes de Araújo (DHDPG), Crato-CE. Transcrição: Edianne Nobre.
  14. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, pp. 58-59 (BPMP).
  15. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 3 (BPMP).
  16. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 27 (BPMP).
  17. Primeiro brasileiro a tornar-se lazarista na Casa Mãe em Paris e posteriormente, foi sagrado bispo do Rio Grande do Sul. Informação retirada do Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará (1914).
  18. Desde a fundação do Seminário até 1891 foram ordenados no Ceará 261 sacerdotes, vindos de vários lugares do Brasil e que delinearam os novos rumos do catolicismo no país. Ver: Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, pp. 203-208 (BPMP).
  19. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, pp. 213-214 (BPMP).
  20. É necessário acrescentar que em 1865, o bispo ultramontano D. Manoel do Rego Medeiros tomou posse da Diocese de Pernambuco, fato que muito desagradou o clero liberal presente naquela província. O bispo promoveu algumas medidas reformistas em seu prelado, dentre elas a vinda dos Jesuítas em 1866 para reformar o clero do Seminário de Olinda (Santirocchi, 2010a: 272-275).
  21. A maioria dos pobres também não sabia ler e escrever, dado que a educação geral era paga e raramente existiam centros públicos de ensino.
  22. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 08.10.1867, p. 21. Arquivo: Centro de Psicologia da Religião – CPR (Juazeiro do Norte – CE). Tradução livre do texto original em francês [Grifo original].
  23. Jornal A constituição, 17 de setembro de 1870, p. 2. Biblioteca Nacional Digital/Hemeroteca Digital (BND/HD).
  24. Livro do Conselho do Seminário da Prainha, 1865, p. 6. (CPR) [Tradução livre].
  25. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 32 (BPMP).
  26. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 32 (BPMP).
  27. “Na lin­gua­gem cristã, esta palavra usa-se com o sentido de: a) compaixão ou miseri­córdia; b) religiosidade ou devoção, a que se entregam as pessoas piedosas ou devotas; c) virtude moral; d) dom do Espírito Santo”. Para os religiosos do século XIX dizia respeito à entrega dos padres às coisas sagradas, ao exercício das práticas sacramentais, etc. Fonte: Enciclopédia Católica Popular. Disponível em: https://bit.ly/2CV10TP [Acesso em 29 de março de 2019].
  28. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, pp. 54-56.
  29. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 57 (BPMP).
  30. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 54 (BPMP).
  31. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 56 (BPMP).
  32. Livro do Conselho do Seminário da Prainha, 28 de outubro de 1864, p. 2 (CPR).
  33. Livro do Conselho do Seminário da Prainha, 28 de outubro de 1864, p. 2 (CPR).
  34. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 55 (BPMP).
  35. Idem.
  36. Livro do Conselho do Seminário da Praia de 21 de outubro de 1864, p. 1 (CPR)[Tradução livre].
  37. Livro do Conselho do Seminário da Prainha, 21 de junho de 1865, p. 7 (CPR) [Tradução livre].
  38. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 32 (BPMP).
  39. Livro do Conselho do Seminário da prainha, 09 de novembro de 1869, p. 31. Esse documento encontra-se em português.
  40. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 54 (BPMP).
  41. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 13 de março de 1870, p. 32 (CPR). O documento foi escrito em português.
  42. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 13 de março de 1870, p. 32 (CPR).
  43. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 21 de outubro de 1864, p. 1 (CPR) [Tradução livre].
  44. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 13 de março de 1870, p. 32 (CPR). Documento escrito em português.
  45. Os alamares são uma peça de uniforme, formada por cordões entrelaçados e usada, em certas corporações, como o exército por exemplo, pelos oficiais de estado-maior e ajudantes-de-ordens.
  46. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 21 de junho de 1865, pp. 7-8 (CPR) [Tradução livre].
  47. Os retiros ou exercícios espirituais se caracterizam por um período de recolhimento em que os padres se unem para reflexão e oração com seus diretores espirituais. Os retiros eram determinações canônicas nos seminários, pois todos os alunos que fossem passar por uma ordenação deveria participar antes do retiro. Fonte: Dicionário católico popular. Disponível em: https://bit.ly/338xi8f. [Acesso em: 27 de março de 2019].
  48. Jornal O Cearense, 08 de janeiro de 1882, p.2. Biblioteca Nacional Digital/ Hemeroteca Digital (BND/HD).
  49. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 27 (BPMP).
  50. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 28 (BPMP).
  51. Idem, pp. 27-28 (BPMP).
  52. Jornal O Cearense, 20 de novermbro de1881, p. 4 (BPMP).
  53. Jornal O Cearense, 08 de fevereiro de 1882, p. 2 (BPMP).
  54. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 28 (BPMP).
  55. Diário do Pe. Chevalier citado no Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 27.
  56. Jornal Constituição, 23 de julho de 1882, N. 16, Ano XX (BPMP).
  57. Para mais informações ver: Festa do Sagrado Coração de Jesus – Jornal O cearense, 29 de junho de 1889, N. 14, Ano, XLIII; Festa de São PedroÁlbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, pp. 65-67.
  58. Ostiário era o primeiro grau das ordens menores, tinha a tarefa de abrir a Igreja, tocar o sino, funções que hoje são feitas pelo sacristão. Leitor era o que realizava as leituras nas celebrações litúrgicas e atividades catequistas. Exorcista fazia parte das ordens menores, mas hoje é constituído de um ministério especial reservado a um presbítero. Acólito ministro instituído ao serviço do altar, como entrega de hóstias. Todas as ordens menores foram modificadas no Concílio Vaticano II, o hostiário, o leitor e o acólito foram suprimidos e as suas funções atualmente são desempenhadas pelos leigos (Neris, 2014: 83).
  59. Subdiaconato era o grau mais baixo das ordens maiores, seus ministros deveriam fazer votos de celibato e tinham funções na celebração de missas. No Concílio Vaticano II essa ordem foi suprimida e suas funções nas missas passaram para os leigos. Diaconato: para se chegar a essa ordem era necessário fazer voto de castidade, era a passagem para o sacerdócio. Presbiterado: essa era a ordem máxima, com ela o seminarista se tornaria padre de fato. (Neris, 2014: 84).
  60. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 18 de setembro de1866, p. 13 (CPR) [Tradução livre].
  61. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 18 de setembro de 1866, p. 16 (CPR) [Tradução livre].
  62. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 16 de fevereiro de 1867, p. 17 (CPR) [Tradução livre].
  63. Nasceu em 24 de março de 1840, no Crato-CE, filho de Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicênça Romana. Foi o único filho homem do casal, seu pai era comerciante de tecidos e ferragens, tendo uma renda razoável. Iniciou seus estudos aos seis anos de idade com professores particulares, aos 17 anos foi estudar no prestigiado Colégio Padre Inácio de Souza Rolim, Cajazeiras-PB. Em 1862, quando fez 18 anos, perdeu seu pai, vitimado pela epidemia de cólera no Crato. Cícero que desejava seguir a carreira do sacerdócio, teve que parar seus estudos e voltar a sua cidade, mas foi auxiliado por seu padrinho coronel Antônio Luís Alves Pequeno, que custeou seus estudos no Seminário da Prainha, onde ingressou em 1865. Ordenou-se em 1870 e chegou ao Juazeiro em 1872, onde permaneceu até sua morte. Atuou como capelão do povoado de Juazeiro, sendo um dos personagens da trama que ficou conhecida como “milagre da hóstia”, referente à transformação das hóstias ofertadas por ele em sangue, na boca da Beata Maria de Araújo. Tornou-se líder religioso e político dos habitantes Juazeiro, chegando a ser o primeiro prefeito da cidade. Morreu em 20 de julho de 1934 e se tornou uma das figuras religiosas brasileiras de mais destaque, até os dias atuais atrai milhares de romeiros à cidade que ajudou a construir. Ver Braga, 2007 e Nobre, 2011.
  64. Para mais informações sobre a atuação do Padre Cícero no Juazeiro, fenômenos ocorridos ali e os caminhos que lhe ajudaram a projetar-se nesse cenário, ver Della Cava,1985; Nobre, 2014.
  65. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 08 de outubro de1867, p. 21 (CPR) [Tradução livre].
  66. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 12 de março de 1868, p. 26 (CPR) [Tradução livre].
  67. Livro do Conselho do Seminário da Prainha de 09 de novembro de 1868, p. 27 (CPR) [Tradução livre].
  68. Álbum Histórico do Seminário Episcopal do Ceará, 1914, p. 56 (BPMP).


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