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Sociabilidade anticomunista
em movimento

A TFP na primeira sessão do Concílio Vaticano II (1962)

Rodrigo Coppe Caldeira

Introdução

O estudo dos movimentos católicos conservadores, tradicionalistas e integristas na contemporaneidade justificam-se, particularmente, pelo fato de que seu apelo cresce e avança em muitas esferas sociais. No horizonte da emergência dos populismos de direita, observamos que a questão religiosa tem um lugar evidente em seu discurso. Em vistas de combater um pretenso inimigo da nação, certas experiências populistas contemporâneas acessam geralmente uma certa tradição religiosa como importante elemento agregador e também ameaçador.

No Brasil, observa-se que lado a lado ao crescimento do apelo de certo movimento evangélico conservador, que nutre as raízes de uma direita cristã brasileira, personagens do mundo católico também se levantam em função de uma luta contra os “inimigos de Cristo”. Não com a envergadura dos evangélicos, que tomam o lugar desempenhado pelos católicos em praticamente toda a primeira metade do século XX com a tentativa de “recristianizar o Brasil”, mas demonstram ousadia ao vocalizar suas pretensões nas redes sociais.

Estes grupos ganharam espaço no interior da Igreja especialmente nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI, demonstram-se capazes de se organizarem e moverem a fim de combater aquilo que elegem como um de seus principais alvos na atualidade: o papado de Francisco e seu magistério. O que observamos desde o Concílio Vaticano II (1962-1965) sobre a atuação destes grupos é algo curioso e recorrente no mundo do catolicismo intransigente no pós-concílio: passaram de defensores do magistério para o ataque à Roma, vista como modernista.

O imaginário em torno do Vaticano II é elemento central de suas representações, tomado como o momento de inflexão da Igreja Romana, em que teria se entregado às exigências do mundo, modernizando-se. Esse imaginário é construído no próprio decorrer do evento conciliar, em que grupos conservadores se movimentaram em busca de constituir o que entendiam ser a reação contra a onda liberalizante.

A Associação para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), movimento católico conservador brasileiro, liderado por Plinio Correa de Oliveira (1908-1995), desempenhou papel de destaque entre esses grupos, se movimentando junto de elementos do prelado brasileiro em vistas da construção de uma contenção organizada contra a onda reformista. Com forte caráter anticomunista, a TFP teve impacto considerável no mundo político brasileiro nos anos de 1960-1980, buscando desempenhar papel de articuladora de forças conservadoras e reacionárias também em nível internacional.

O objetivo desse texto é discutir a atuação de certos membros do grupo durante o Concílio Vaticano II, trazendo elementos inéditos de sua atividade em Roma, particularmente na primeira sessão do concílio em 1962, primeiro ano dos trabalhos conciliares. A escolha do ano não é arbitrária, mas se deu em vistas da própria fonte que será utilizada: as Anotações da TFP acontecem na primeira sessão conciliar. Esse documento, ainda inédito, tanto em âmbito nacional quanto internacional, nos ajuda a compreender as movimentações dos membros do grupo no concílio e o papel que desempenharam no conjunto de esforços realizados por alguns prelados conservadores, juntamente com membros da Cúria Romana, em vistas de organizar um grupo de contenção à maré reformista.

Buscaremos demonstrar a partir do estudo da fonte, que o grupo se movia nos bastidores do concílio buscando realizar contatos com grupos conservadores e tradicionalistas europeus com o intuito de construírem uma liga internacional de católicos de direita. Deste modo, não trataremos de todo o documento, haja vista a sua extensão e diferentes conteúdos ali tratados, mas nos concentraremos no tema do anticomunismo, perspectiva política fundamental do grupo e que o move em vistas dessa procura em encabeçar um movimento internacional católico de direita.

1. Uma organização católica anticomunista na aurora do Vaticano II

Plinio Corrêa de Oliveira é considerado uma das personagens principais do catolicismo conservador brasileiro. Fundador da TFP em 1960, congregará na associação jovens leigos que compartilhavam certas preocupações, especialmente com o avanço do comunismo. Toda sua reflexão e narrativas giram em torno da missão que ele se via imbuído, instaurar o Reino de Maria, imagem que acessa especialmente de Nossa Senhora de Fátima e suas mensagens aos pastorzinhos. Desde sua inicial atuação, Plinio e seus amigos irão combater o que chamam de Revolução em várias frentes, compreendendo a Igreja Católica num lugar especial de contenção ao avanço desse processo que, segundo eles, visa desagregar o Ocidente cristão. Zanotto (2012: 250), resume bem a missão de Plinio a partir de sua perspectiva mística-religiosa:

anunciar o triunfo da contrarrevolução por ele providencialmente liderada (Messias ou Salvador enviado pela Virgem) que, após uma intensa batalha com as forças do mal (tribulações – bagarre), será finalmente vitoriosa, concretizando então a salvação eterna com a elevação dos “eleitos” e a condenação dos ímpios, bem como instaurando uma nova era sacral: o Reino de Maria (elemento milenarista).

O movimento entrou em constante conflito com o clero brasileiro, que em sua maioria passa por uma mudança de perspectiva, abrindo-se para compreensões mais complacentes com os valores modernos, o que leva a Igreja brasileira em poucas décadas a se tornar uma das mais progressistas do mundo (Mainwaring, 1989). Observa-se, desde a década de 1930, uma crescente indisposição de Plinio e seus seguidores com parcelas expressivas do clero brasileiro. O líder leigo não aceita as “modernizações” em curso.

O Concílio Vaticano II toma um lugar então de destaque. O evento é compreendido por ele como um momento chave, como deixa transparecer em carta enviada à sua mãe: “Se eu não fosse para Roma agora, teria minha consciência mais suja do que se fosse um soldado desertor” (Dias, 1995: 117). Ao analisar os artigos do jornal O Catolicismo – meio de divulgação das ideias do grupo fundada em 1951 e ligada à diocese de Campos dos Goytacases (RJ) sob o bispado de Antonio de Castro Mayer –, entre a convocação do concílio em janeiro de 1959 e o início da primeira sessão em outubro de 1962, observa-se um crescendo de desconfiança frente aos rumos que ele poderia tomar. A esperança de um concílio em seus moldes clássicos – condenação de heresias – vai dando lugar a uma expectativa negativa. Plinio entendia que a Igreja Romana já havia sido penetrada pelas hostes modernistas, no Brasil pelo menos desde a década de 1930, com a chegada da obra de Jacques Maritain. O escritor católico francês, junto de Teilhard de Chardin, era um dos inimigos teológicos principais da TFP.

A crença do grupo era de que o concílio condenaria formalmente o comunismo, e nele trabalharam para que ela se concretizasse. Segundo Gama (2020: 42), os principais objetivos da TFP no concílio foram: interferir no rumo dos acontecimentos, buscando conter os reformistas e criar uma hegemonia conservadora; divulgar o pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira, especialmente por traduções em línguas europeias das obras Revolução e Contrarrevolução e Reforma agrária questão de consciência. Soma-se um terceiro, não levantado por Gama (2020), a esses dois objetivos: a busca de constituir uma rede de sociabilidade internacional católica de direita.

Em relação ao primeiro dos objetivos, pode-se afirmar que o grupo tem um sucesso em parte, e isso pela atuação dos bispos Geraldo de Proença Sigaud (Diamantina-MG) e Antonio de Castro Mayer (Campos dos Goytacazes-RJ), que eram próximos da associação. Sobre o segundo objetivo, e a partir da análise das Anotações, há um esforço nessa direção, sendo concretizado um pouco mais tarde a partir dos contatos realizados durante o concílio. Em relação ao terceiro dos objetivos, as Anotações não nos oferecem elementos suficientes para sustentar a tese de que fracassaram ou que foram bem sucedidos. Pesquisas mais profundas, contando com outras fontes, precisam ainda ser realizadas para se chegar a uma posição mais conclusiva. No entanto, o que se pode afirmar é que, mesmo essa rede internacional não sendo concretizada como esperavam no início, a TFP continua a caminhar nessa direção, internacionalizando-se e alcançando países da América e Europa.[1]

2. Nos bastidores do concílio: a TFP se movimenta

Poucas fontes até o momento nos ajudavam a compreender a atuação da TFP no Concílio. Todas elas giram em torno da emergência do Coetus Internationalis Patrum [2], grupo de oposição da minoria conciliar em que a TFP colaborou em sua constituição e, a partir dele, lançou outras frentes de atuação, como a busca de integrantes e movimentos para a construção de uma liga internacional de católicos de direita. Junto dos bispos brasileiros Geraldo de Proença Sigaud (arcebispo de Diamantina) e Antonio de Castro Mayer (bispo de Campos), e com outros integrantes que também desempenharam papel de destaque na organização como o bispo Marcel Lefébvre, o grupo atuará tendo como objetivo central a condenação do comunismo, pedra de toque de todo o imaginário tefepista.

O documento encontrado nos arquivos da TFP que trata da atuação do grupo tem como primeiro título “Anotações”. Abaixo traz um título mais amplo: “Atividades, Impressões e Notícias Colhidas pelo Grupo em Roma durante a realização do Ecumênico Vaticano II”. Nesse mesmo campo, com as informações preliminares sobre o documento, lê-se: “Extraído do microfilme pela Comissão Plinio Corrêa de Oliveira em: 05/11/99”.

Em seguida traz os nomes das pessoas que estavam presentes e que são citadas pela fonte na seguinte ordem: D. Geraldo de Proença Sigaud, S.V.D., Arcebispo de Diamantina, D. Antônio de Castro Mayer, Bispo de Campos, Frei Jerônimo Van Hinten, Prof. Dr. Plinio Correa de Oliveira, Prof. Dr. Fernando Furquim de Almeida (um dos diretores da TFP, pertencente ao grupo primitivo), D. Bertrand de Orléans e Bragança (família real brasileira), Prof Dr. Paulo Corrêa de Brito Filho (foi um dos diretores da TFP), Dr. Luis Nazareno de Assumpção Filho (alta elite de São Paulo), Dr. Sérgio Brotero Lefèbvre (primo de um dos membros da elite da TFP), Dr. Fábio Vidigal Xavier da Silveira (fundador das TFPs latino-americanas, o “apóstolo dos Andes”), Dr. João Sampaio Neto (poucas informações), Dr. Otto de Alencar e Sá Pereira, Dr. Murilo Maranhão Galliez (médico, mora em SP, responsável por redigir as notas), Umberto Braccesi (membro da TFP italiana), Dominique Pierre Faga (dono de editora Diário das Leis, com muito dinheiro, parte da expedição do foi paga por ele) Emílio Scherrer. Nome que participou, mas não está no arquivo é o do Pe José Carlos Correia (hoje nos Arautos do Evangelho, e por isso, provavelmente, retirado do documento transcrito). Observa-se que Anotações somam outros nomes àqueles que Roy-Lysencourt aponta em sua tese (2011, Tomo 2: 341). Logo abaixo o documento traz informações sobre os locais em Roma que o grupo se reunia: Via Emilia 24 – Sede, Via Felipe Giordano 11 – Residência principal, Via Quintino Sela 3 – Residência secundária.

As Anotações se iniciam em 10 de outubro de 1962, três dias antes da primeira congregação geral, e a última data anotada é 15 de dezembro de 1962. De 10 de outubro a 9 de dezembro, há anotações em todos os dias. Em dezembro observa-se uma lacuna de anotações entre 10 e 13. Cada uma das anotações, separadas então por dias, se dividem, geralmente, da seguinte forma: Atividades do grupo, Notícias sobre as congregações gerais (Castro Mayer e Sigaud), Informações de seus integrantes, quando havia (com um tópico destacada para cada um deles), Entrevistas, Notícias dos jornais. No decorrer dos dias, as entradas vão se transformando, e isso acontece devido ao surgimento de novas personagens. São informadas reuniões e atividades dos membros do grupo em várias cidades, mas a maioria acontece em Roma.

Inserindo-se num conjunto documental mais amplo – aquele trabalhado por Roy-Lysencourt (2011) em sua tese de doutorado e por Coppe Caldeira (2011), de alguma forma, a partir dos arquivos do arcebispo de Diamantina Geraldo de Proença Sigaud –, nota-se a evidência de que outubro de 1962 é o momento em que se iniciam as movimentações, com vistas a se criar um grupo com o objetivo central de se fazer frente aos “perigos” que se avizinhavam.

Roy-Lysencourt afirmou em sua tese que “Il semble que ces brésiliens aient joué un rôle important pour la distribution des papiers du Coetus, mais les informations sont extrêmement lacunaires sur le sujet” (2011: 340). As Anotações demonstram que o grupo brasileiro desempenhou um papel muito maior do que simplesmente distribuir panfletos e documentos do Coetus. A partir da análise das Anotações, o que se nota é uma atuação bastante evidente de seus membros na busca de elementos para a formação do grupo de oposição, além de informações sobre contatos que os membros da TFP realizaram durante sua estadia na Itália visando a constituição de um grupo anticomunista internacional.

A atuação da TFP, colaborando com os dois prelados brasileiros na formação do Coetus, dava-se sobretudo movida pela forte sensibilidade anticomunista disseminada pelos seus membros. O Concílio aparece como mais um momento – no caso, bastante fundamental – que os comunistas desejariam cooptar a fim de espalhar-se pelo globo.

Um assunto recorrente, por exemplo, que aparece nas Anotações e que tem ligação direta com o tema, é a presença de prelados e religiosos que chegam ao Concílio vindo do outro lado da Cortina de Ferro. Em 13 de outubro de 1962, na quarta anotação, lê-se a partir de informações trazidas ao grupo por Geraldo de Proença Sigaud, que alguns bispos, em consonância com as indicações desse primeiro grupo que levará à formação do Coetus Internationalis Patrum em 1964, era “fazer discurso na sessão plenária contra o direito de voto dos bispos da cortina de ferro, alegando que eles votariam sob coação dos observadores comunistas dos governos de seus países” (ARQPCO, Anotações: 5).[3] Neste mesmo tópico levanta-se a questão se “Alguns bispos poloneses estariam hospedados na embaixada russa ou polonesa (?)” (ARQPCO, Anotações: 5). Há desconfiança permanente sobre se esses prelados eram apenas agentes teleguiados por Moscou. Um dia antes, ao tratar da formação das comissões conciliares, aponta-se: “indicações quase sempre de esquerda” (ARQPCO, Anotações: 4).

Também em 13 de outubro, lê-se notícias dos movimentos e articulações dos integrantes do grupo brasileiro em vista de expandir seus contatos. Tratando da congregação geral daquele dia, por exemplo, as Anotações apontam que Sigaud teria resolvido “permanecer na comissão dos sacramentos a fim de entrar em contato com o Cardeal Masella[4] (sic), que é o presidente, e com os outros SVD [Congregação do Verbo Divino] com maior autoridade” (ARQPCO, Anotações: 4). O intuito era ocupar ao máximo as comissões conciliares em vistas de, a partir de posições estratégicas, construir as barreiras necessárias aos reformistas, que de acordo com a TFP e seus seguidores, estariam fazendo o jogo do comunismo internacional. A questão do comunismo ecoa desde o primeiro momento e perpassara praticamente toda as Anotações.

Em 16 de outubro de 1962, no tópico “Secretário do Cardeal”, informações sobre as instituições que poderiam colaborar na constituição dessa rede internacional anticomunista começa a aparecer. Segundo a anotação, foi entregue aos membros da TFP um “caderno com grande número de endereços de pessoas no (sic) Estados Unidos; deu muitos para que o Antônio Augusto entrasse em contato” (ARQPCO, Anotações: 9). Dois grupos norte-americanos são citados como possíveis colaboradores: Grass Root Americanism, “que visa a ação anticomunista de baixo para cima, agindo primeiro no município, depois no Estado e finalmente na nação, tudo feito em certa relação com a John Birch Society”. (ARQPCO, Anotações: 9)

Em 31 de outubro, os norte-americanos aparecem novamente no documento. Na entrada “Dr. Plinio com Ronca”, há informações valiosas sobre o imaginário do grupo e daqueles que giram em torno dele. Segundo a anotação, Ronca[5] teria concordado que “o episcopado no Brasil e mais no Chile, Venezuela, Guatemala […] está comandando a implantação do comunismo nos respectivos países.” Plinio sugere pedir dinheiro aos norte-americanos (ARQPCO, Anotações: 37).

Lembre-se que é forte a presença no imaginário do grupo de que haveria um complô mundial em andamento contra o cristianismo e seu maior baluarte, a Igreja Romana. Em entrevista realizada por Antonio de Castro Mayer com Mons Ronca, esse elemento aparece de forma evidente. Querendo oferecer uma imagem dos bispos italianos com quem poderiam contar em sua missão, Ronca afirma:

Cardeal Siri é bom, mas quem manda na Conferência dos Bispos Italianos é Montini [futuro papa Paulo VI], Urbani e Lercaro […] Dos 370 só se pode contar com poucos que realmente lutam; a maioria deixa-se levar pelos três Cardeais. Nunca atacamas idéias, mas só as pessoas; assim, nossos adversários vão colocando os bons no ostracismo. Sabendo que no Brasil dá-se o mesmo concluiu que existe uma Central internacional que só poderá ser Comunista ou maçônica. A maneira de agir é comunista porque constitui um “soviet” que tiraniza os demais; o chefe ostensivo e Montini, mas quem ele obedece? Segredo característico da maçonaria. Eles nos caluniam e podem chegar ate ao assassinato (alusão a que Maglione teria sido envenenado por Montini) (ARQPCO, Anotações: 10, grifo nosso)

Aspectos antissemitas também são notados entre aqueles com quem o grupo faz contatos.[6] Em tópico que noticia o encontro de membro da TFP, Arnaldo X. da Silveira, com Mons. Antonino Romeo, a anotação traz a afirmação de que “os judeus foram bem tratados nos campos de concentração; tudo é intriga da maçonaria” (ARQPCO, Anotações: 15). O antissemitismo é elemento que se pode encontrar em vários grupos conservadores católicos e ressoou em vários de seus movimentos principalmente na primeira metade do século XX.

Em 3 de dezembro de 1962, Plinio Correa de Oliveira informa que o livro Complotto contra la Chiesa , de Maurice Pinay, havia sido entregue aos padres conciliares naquele dia, obra que “denunciava a conspiração das forças secretas para destruir a Igreja” (ARQPCO, Anotações: 109). O líder da TFP não diz, mas o livro, de centenas de páginas, é uma peça antissemita do início da década de 1960, que coloca os judeus como os responsáveis, por exemplo, pelas heresias que nasceram no seio do cristianismo em toda sua história. No prólogo da edição venezuelana e também na introdução à edição italiana que abre o livro – “Urgente ao leitor Conspiração contra Igreja” – o elemento antissemita fica evidente. Segundo o prólogo, com o intuito de dar autoridade ao texto, a obra teria sido escrita “nem mais nem menos do que por elementos destacados da Cúria romana, que, como é sabido, é o governo supremo da Igreja, auxiliar de S. S. o Papa nas suas máximas funções”. A obra seria uma reação à

existência de uma grande conspiração que, contra a Santa Igreja Católica e contra o mundo livre, tramam os seus tradicionais inimigos, que pretendem converter o catolicismo num instrumento cego ao serviço do comunismo, da maçonaria e do judaísmo, para debilitar com isso a humanidade livre e facilitar o seu afundamento e, com ele, a vitória definitiva do comunismo ateu, sendo os instrumentos mais úteis em tal conspiração os padres católicos, que, atraiçoando a Santa Igreja, intentam destruir os seus mais leais defensores […] (Pinay, 1962: 12).

Em 7 de dezembro, em informações trazidas por Antonio de Castro Mayer, imagina-se que a obra teria sido escrita pelo argentino Pe Julio Meinville (1905-1973). No entanto, há ampla controvérsia sobre o verdadeiro autor, alguns apontando também Joaquim Saenz y Arriaga como um de seus autores. O curioso é que nesse mesmo dia anota-se que o secretário do cardeal Ernesto Ruffini[7] iria escrever uma carta de apresentação para a edição italiana de Revolução e Contrarrevolução.

Em 18 de outubro, informa-se que certo Otto, via comunicação telefônica a partir de Nápoles, iria jantar com Silvio Vitale. Vitale (1928-2005) foi o fundador e diretor da revista tradicionalista italiana L’alfieri (1960), fazendo conhecido na Itália o espanhol Elias de Tejada, representante do tradicionalismo e jusnaturalismo hispânico. Observa-se que com esse contato abria-se um campo de possibilidades de relações entre a TFP e um grupo tradicionalista italiano, que avançariam no decorrer de 1962, como apontam as Anotações. Um dia depois, por exemplo, mais informações são trazidas sobre a atuação de certo personagem chamado Belfiori, que iria a Nápoles encontrar Silvio Vitale e que estaria disposto a “promover contatos” (ARQPCO: 19). De acordo com a anotação, haveria em Roma, na ocasião, representantes de movimentos tradicionalistas de várias cidades italianas: Nápoles, Roma, Florença, Gênova, Piacenza. Informa-se, também, que Silvio Vitale estaria traduzindo a obra Revolução e Contrarrevolução, o que demonstraria por parte do líder italiano uma abertura aos esforços político-religiosos de Plinio.

Em final de outubro há uma anotação apontando para o encontro entre Plinio Corrêa de Oliveira e Belfiori. Nela lemos sobre a Aliança Tradicionalista, organização italiana que federava vários organismos dos Estados da antiga Itália e que desejavam a sua restauração. No mesmo dia 27 de outubro e na mesma entrada, noticia-se que estaria em organização “uma entidade europeia que engloba grupos de direita na Europa Latina” (ARQPCO, Anotações: 32). Vale ressaltar que os esforços levados a cabo nas organizações de frentes amplas anticomunistas, como a apontada acima, tinham características bastante semelhantes com a TFP, como centralidade do catolicismo e a monarquia como regime ideal de governo.

Em 6 de novembro, outros elementos surgem nas Anotações apontando para o esforço despendido por Plinio Corrêa de Oliveira e seus seguidores em vistas de realizarem maiores contatos possíveis na Itália para buscarem criar, o que chamam na anotação deste dia, uma “Internacional Direitista” (ARQPCO, Anotações: 49). Num jantar entre o líder da TFP, Fábio X. da Silveira, membro do grupo, e Belfiori, este último teria dado notícias de um projeto de fundação de uma internacional direitista: “o plano era que, dentro de um ano a um ano e meio, todos os tradicionalistas da Europa estivessem dentro desta organização. O programa é rigidamente tradicionalista” (ARQPCO, Anotações: 49). Há referências também a uma “declaração de Nápoles”, a qual os dirigentes do Movimento Tradicionalista teriam assinado. Outro dado interessante dessa entrada é a informação de que Belfiori viajaria em 1963 para a América do Sul para visitar a TFP em São Paulo e também o grupo Cruzada, de Buenos Aires.

Fernando Furquim de Almeida informa, em entrada do dia 20 de novembro, que “já tinha tentado estabelecer contato na Argentina com ‘Cruzada’, que depois se interrompeu” (ARQPCO, Anotações: 85) – sinal de que os membros da TFP se movimentavam em direção a outros grupos conservadores e tradicionalistas antes mesmo do início do Concílio. Belfiori teria confessado a Plinio que ele estava ligado a um grupo de bispos italianos encabeçados por Alfredo Ottaviani, o prefeito do então Santo Ofício, e um dos atores mais importantes da minoria conciliar. No mesmo mês, em 30 de novembro, Belfiori informa que a revista Alfiere teria publicado parte da obra Revolução e Contrarrevolução e um anúncio do jornal O Catolicismo.

Em 11 de novembro, as Anotações trazem informações sobre os grupos políticos que estavam em contato para a formação dessa internacional direitista. Dom Bertrand de Orleans e Bragança e Paulo Brito, membros da TFP, em “reunião direitista reservada”. De acordo com a anotação, havia representantes dos seguintes grupos: “Movimento Soc. Italiano (Fascismo), Partido Monarquista, Partido Liberal, grupos políticos de tendência direitista como FMG e UMI. O projeto deles é aglutinar também camponeses e agricultores para formar um “Partido Independente”. Em conversa com D’Agostino, Plinio anota que ele também defendia a criação de uma “liga internacional de católicos de direita”, uma “associação internacional para a reconstrução cristã dos Estados”. Nesta mesma anotação, convidou Plinio para um encontro com Ousset, no início de 1963.

Jean Ousset (1914-1994), herdeiro da tradição maurrasiana, era um dos reconhecidos nomes da direita e do pensamento contrarrevolucionário europeu. Em julho de 1946, Ousset, Jean Masson e Denis Demarque fundam em Paris o Centre d’Études critiques et de synthèse, que se torna La Cité Catholique, em 1949. Tratava-se de uma organização laical, mas o grupo buscava se distanciar da Ação Católica para “plus directement et spécialement ordonné au combat de la contre-révolution et de la défense de la vraie France, fille aînée de l’Église” (La Cité Catholique, 1959: 3 apud Roy-Lysencourt, 2011 : 220). A meta era formar uma elite católica que agisse em vistas da restauração de uma ordem social cristã. A partir de 1958, La Cité Catolique experimentou uma violenta campanha contra suas atividades, tornando-se assim o Office Internacional des Œuvres de Formation Civique et d’Action Doctrinale, e Verbe, a revista do movimento, se torna Permanences (Roy-Lysencourt, 2011: 220).

A história da La Cité Catholique tem alguma aproximação com a história do grupo que se forma na década de 1930 no Brasil e que leva à criação da TFP em 1960. Plinio avança em sua crítica à Ação Católica Brasileira (ACB) depois de publicar a sua obra Em Defesa da Ação Católica em 1942, crendo que ela estivesse impregnada de elementos modernistas, e passa a ver o movimento que leva adianta como a única possibilidade de salvar o catolicismo não só brasileiro, mas também mundial.

A entrada do dia 23 de novembro – “PCO com o Barão de Montagnac e Noel Lancien” – noticia a reunião entre Plinio Correa de Oliveira e Lancien, representante da revista Verbe em Roma. O chefe da TFP solicitou contatos a Lancien, que, segundo a anotação, “ficou muito contrafeito” (ARQPCO, Anotações: 92). Lancien deu várias informações sobre o grupo fora da França. Segundo ele, por exemplo, no Canadá a Cité Catholique não existia oficialmente, mas teriam sido “criados diversos núcleos independentes, com nomes diferentes”, que fariam a distribuição das publicações do grupo. Lancien também noticia que foram criados dois núcleos nos Estados Unidos da América, em Boston e Los Angeles (ARQPCO, Anotações: 92).

Em 26 de novembro – “PCO com Llorente” – noticia-se sobre um “congresso das direitas”: o segundo insiste para que o congresso seja realizado em São Paulo, com uma reunião preliminar em Paris entre Plinio, Hugo Carlos e Pepe Arturo Marquez de Prado. Depois disso, “Hugo Carlos viajaria para os Estados Unidos, onde entraria em contato com carlistas e financistas para ver se conseguia mais verbas para o movimento, explicando que dali iria para o Brasil a fim de presidir um congresso internacional das direitas” (ARQPCO, Anotações: 98).

Os dois nomes que aparecem na anotação são muito significativos para se compreender as redes de contato internacionais que existiam e se engrossavam no período, com o esforço da TFP. O primeiro é Pepe Arturo Marquez de Prado (1924-2017), conhecido por ter sido um membro ativo, desde 1944, da Comunhão Tradicionalista, histórico dirigente da requeté e chefe nacional dessa delegação carlista, entre 1960 e 1965. O segundo é Hugo Carlos. Suspeita-se que estão falando do príncipe espanhol Carlos Hugo de Bourbon de Parma (1930-1977). Era filho de Carlos Xavier de Bourbon Parma, que havia reivindicado o trono espanhol em 1952. Os contatos demonstram que os grupos monarquistas de diferentes países europeus também estavam sendo contactados com o objetivo de agregá-los à rede de direita internacional que planejavam construir.

Encontramos, também no mesmo arquivo das Anotações, uma espécie de anexo, intitulado “Crônica de Lisboa” e “Crônica de Nápoles, escritos por Otto de Alencar e Sá Pereira”. São textos fundamentais para os propósitos deste capítulo. O segundo deles é o mais interessante, já que toca diretamente no tema da rede de direita internacional buscada pela TFP. Nela, Otto narra os encontros que teve com o chefe da revista Alfiere, Silvio Vitale, nos dias 17 e 18 de outubro de 1962. Pelas informações que traz, Vitale não conhecia a TFP nem Plinio Corrêa de Oliveira, mas disse conhecer outras revistas tradicionalistas como Il Ghibellino, Carattere, Cruzado Español, Verbe, Cristandad e Souvenir Vendéen (ARQPCO, Anotações: 130).

Otto afirma ter presenteado Vitale com o livro Revolução e Contrarrevolução em francês. Recebeu em troca vários números da Alfiere e uma publicação que teria sido resultado do Primeiro Convênio Tradicionalista Italiano, “uma espécie de congresso onde haviam participado movimentos tradicionalistas de toda a Itália”. Segundo Otto, “neste convênio fico mais patenteado o liame tradicionalista que havia entre os diversos movimentos e não somente o aspecto legitimista e católico” (ARQPCO, Anotações: 131). No primeiro encontro, a conversa parece ter girado principalmente em torno da questão monarquista, ponto que aproxima os grupos tradicionalistas.

No segundo dia de encontro, Otto narra ter trocado com Vitale algumas publicações. Deu a ele dois números de Catolicismo e um número da revista Cruzeiro, que trazia reportagem sobre a família imperial brasileira. Vitale informou que estava traduzindo o livro Revolução e Contrarrevolução e pediu autorização para publicá-lo em Alfiere. Segundo Otto, Vitale deu a ele uma “publicação tradicionalista de um tal Sr. Evola”.[8] Vitale chama a atenção para o fato de ter sido o pensamento de Evola a “base do tradicionalismo de quase todos os movimentos da Itália (de direita)”, particularmente a obra Rivolta contro il mondo moderno. O chefe da Alfiere “acentuou o fato de que a maioria dos discípulos de Evola, encontrara na religião católica a única concretização do que tinham aprendido com o mestre e se converteram” (ARQPCO, Anotações: 134). O encontro entre Vitale e Otto terminou com o primeiro ponderando que

seria muito interessante se todos os movimentos tradicionalistas do mundo se conhecessem para lutar contra a Revolução pois esta é universal e não regional; mas seria sempre uma luta sem uma direção organizada, porquanto, para que houvesse uma orientação certa seria necessária a existência de um centro coordenador de todos os esforços (ARQPCO, Anotações: 134).

Conclusão

As Anotações da TFP realizadas durante a primeira sessão conciliar em 1962 demonstra-se como uma das principais fontes sobre a organização da minoria conciliar que iria lutar nos anos seguintes contra o reformismo na Igreja Romana. Além de esclarecer as personagens principais nas primeiras horas de formação daquele que ficará conhecido como Coetus Internationalis Patrum, ela também nos ajuda a compreender o movimento que acontece em torno do que tem como objetivo juntar as forças de diferentes grupos tradicionalistas com o objetivo de combater um inimigo comum.

A partir de uma primeira análise do documento, observa-se que o campo de investigação sobre redes de sociabilidade da direita política e religiosa mundial entre a primeira e a segunda metade do século XX continua aberto, sendo inclusive ampliado pelas informações que nelas são encontradas.

Referências

Arquivo Plinio Correa de Oliveira – ARQPCO, Anotações, 1962.

Caldeira, R. C. y V. A. Gama (2019), “As relações da TFP com o movimento conservador americano”, in: E. Bohoslavsky; R. P. S. Motta; S. Boisard (Orgs.) (2019), Pensar as direitas na América Latina. São Paulo: Alameda, v. 1, pp. 313-329.

Caldeira, R. C. (2011), Os baluartes da tradição: o conservadorismo católico brasileiro no Vaticano II, Curitiba: CRV.

Dias, J. S. C. (1995), Dona Lucília, São Paulo: Artpress, V. 3.

Mainwaring, S. (1989), Igreja Católica e política no Brasil. 1916-1985, São Paulo: Brasiliense.

Pinay, M. (1968), Complô contra a Igreja, Tomo I, Mimeo.

Zanotto, G. (2012), Tradição, Família e Propriedade. As idiossincrasias de um movimento católico no Brasil (1960-1995), Passo Fundo: Méritos.

Roy-Lysencourt, P. (2011), “Le Coetus internationalis Patrum, un groupe d’opposants au sein du Concile Vatican II”, Quebec/Lyon: Université Laval/Université Jean-Moulin-Lyon 3,  [Tese de Doutorado].

Roy-Lysencourt, P. (2014), Les membres du Coetus Internationalis Patrum au concile Vatican II. Inventaire des interventions et souscriptions des adhérents et sympathisants. Liste des signataires d’occasion et des théologiens. Leuven: Peeters/Maurits Sabbe Library.

Sedgwick, M. (edited by) (2019), Key thinkers of the radical right. Behind the new threat to iliberal democracy. New York: Oxford University Press, pp. 54-69.


  1. Sobre a TFP e as relações com os conservadores norte-americanos cf. COPPE CALDEIRA, Rodrigo; Gama, V. A., (2019), “As relações da TFP com o movimento conservador americano”, in: E. Bohoslavsky, Motta, R. P. S. e Boisard, S. (Orgs.) (2019), Pensar as direitas na América Latina, São Paulo: Alameda, pp. 313-329.
  2. Para mais informações sobre a formação do Coetus Intarnationalis Patrum cf Coppe Caldeira, Rodrigo (2011), Os baluartes da tradição: o conservadorismo católico brasileiro no Concílio Vaticano II, Curitiba: CRV; P. Roy-Lysencourt, “Le Coetus internationalis Patrum, un groupe d’opposants au sein du Concile Vatican II” (2011), Quebec/Lyon: Université Laval/Université Jean-Moulin-Lyon 3 (Tese de Doutorado); P. Roy-Lysencourt,  Les membres du Coetus Internationalis Patrum au concile Vatican II. Inventaire des interventions et souscriptions des adhérents et sympathisants. Liste des signataires d’occasion et des théologiens (2014), Leuven: Peeters/Maurits Sabbe Library.
  3. A sigla ARQPCO faz referência aos Arquivos de Plinio Corrêa de Oliveira. As Anotações fazem parte desse arquivo e foram cedidas para consulta por Victor de Almeida Gama.
  4. No texto o nome aparece grafado como Masella e Mazella. O cardeal de que estão tratando é Benedetto Aloisi Masella, prefeito para a congregação para o culto divino e disciplina dos sacramentos (1954-1968) e carmelengo (1958-), tendo sido núncio apostólico no Brasil entre 1927 e 1946.
  5. Roberto Ronca (1901-1977), arcebispo italiano, fundador do movimento Civiltà Italica. Amigo de Luigi Gedda (1902-2000), dirigente e presidente da Azione Cattolica no pós-guerra, fundador do Comitati Civici (órgão com fins educativos e políticos e de tendência anticomunista; nomeado ao posto pelo papa Pio XII.
  6. Porém, entre escritos e manifestações de Plinio Corrêa de Oliveira e também de Geraldo de Proença Sigaud, por exemplo, podem ser encontrados elementos antissemitas.
  7. Ernesto Ruffini (1888-1967) foi o cardeal que colaborou de maneira estrita com o Coetus Internationalis Patrum desde seus primeiros movimentos na primeira sessão conciliar de 1962. As Anotações da TFP trazem elementos fundamentais para se compreender o papel desempenhado pelo cardeal.
  8. Julius Evola (1898-1974) foi um filósofo italiano, ligado ao pensamento esotérico, inspirador de várias correntes esotéricas e tradicionalistas. É tido como um dos importantes nomes da direita mundial. Cf HAKL, H. Thomas. Julius Evola and tradition. Sedwick, M. (edited by) (2019), Key thinkers of the radical right. Behind the new threat to iliberal democracy, New York: Oxford University Press, pp. 54-69.


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