Glauco Barsalini[1]
Introdução
Inicialmente, agradeço muito pela oportunidade de estar presente nesse fórum de discussões promovido pela REDHISEL. É um privilégio e uma honra poder dialogar com os investigadores presentes nesse evento.
Sobre o tema proposto para minha fala, faço uma advertência inicial: embora seja sociólogo de formação, não sou um investigador que se inscreve propriamente no âmbito das produções da Sociologia da Religião. Investigo na área das Ciências da Religião a qual, no Brasil, promove importantes conexões com a Sociologia da Religião.
Enquanto, nesta mesa redonda, Verónica Gimenez Béliveau fazia sua exposição sobre a Sociologia da Religião na Argentina, passava-me pela mente um panorama sobre a história da Sociologia no Brasil. Percebi, a partir de sua palestra, que há muitas semelhanças entre nossos países na história dessa ciência.
Nesta breve comunicação procurarei expor, em um primeiro plano, os traços que demarcam a história da Sociologia brasileira e, no segundo momento, a vertente da Sociologia da Religião na sua relação com as Ciências da Religião. Por fim, apresentarei as linhas gerais da pesquisa que desenvolvo atualmente junto ao Grupo de Pesquisa Religião, Ética e Política, associado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Brasil) e vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Acerca do pensamento social brasileiro
O pensamento social brasileiro[2] teve seu início no século XIX. Mas, talvez, e aqui não sei se há uma diferença pequena ou grande em relação ao argentino, no caso brasileiro o debate sobre a identidade nacional ganha centralidade, coexistindo com os debates econômicos e políticos em disputa, atinentes aos rumos que a República deve assumir.
Em sua fala neste evento científico, Ana Rosa Cloclet da Silva remeteu a Nina Rodrigues, intelectual positivista do século XIX. Concorreram com o positivismo, naquele período, o romantismo, o liberalismo e o bacharelismo – movimento intelectual brasileiro oriundo do universo jurídico em que se destacava o republicanismo. No subsolo do poder político, onde as elites intelectuais não transitavam propriamente, no entanto, se construía, no Brasil do final do século XIX e no início do XX, especialmente a partir da imigração italiana, um pensamento anarquista, que concorreu, na aurora do século XX, com o marxismo apropriado pela organização partidária.
O pensamento social é ainda marcado, no começo do século XX, pelo positivismo e, nos anos 1930, o debate sobre a identidade nacional ganha novos olhares a partir do culturalismo de Gilberto Freyre, com sua obra seminal intitulada Casa Grande e Senzala.[3] A perspectiva weberiana ganha vulto, também, nesse momento, com o livro Raízes do Brasil[4], de Sérgio Buarque de Holanda, com o que concorre o marxismo, sendo Caio Padro Júnior[5] um de seus mais proeminentes representantes. Estes intelectuais são três ícones importantes da formação da sociologia brasileira.
Nos âmbitos também econômico e político –além do cultural-, destacaram-se, no cenário do pensamento nacional moderno, na década de 1940, o núcleo cultural baiano, identificado com a arte negra e com a sua politização; nas décadas de 1950/60, o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), inaugurado e vinculado ao Ministério da Educação e Cultura e sediado no Rio de Janeiro; e, a partir da década de 1930, a escola uspiana (que envolve uma linha formativa dos cursos de humanidades própria da Universidade de São Paulo), em São Paulo.
Os programas políticos, sociais e econômicos em disputa no país, naquele período histórico, apresentavam-se em três grandes vertentes: uma, nacional desenvolvimentista, que propugnava por um projeto civilizatório moderno e por um capitalismo nacional competitivo ao nível mundial, que alçasse o Brasil à galeria dos países centrais da economia mundial; outra, desenvolvimentista, que defendia o associativismo nacional ao capitalismo internacional liderado pelos EUA e pelos países ricos europeus; e, por fim, a socialista, fortemente orientada pela experiência soviética. O golpe civil-militar de 1964 sufocou os projetos nacional-desenvolvimentista e socialista, estabelecendo e consolidando o desenvolvimentismo associado que se perpetua, mesmo na reconstrução da democracia, após 1985, pela implantação e consolidação do neoliberalismo globalista enquanto política de Estado, especialmente a partir da década de 1990, com o que se liga, nos períodos dos governos petistas, certa perspectiva neodesenvolvimentista.
Enquanto o ISEB, centro de referência do nacional-desenvolvimentismo, foi encerrado em 1964, pelo governo militar, a escola uspiana permaneceu, dedicando-se à investigação de temas de relevância nacional e internacional –trabalho que não ficou isento de censura durante o regime militar, que perseguiu e exilou vários intelectuais, impondo à academia, em determinados períodos, a produção de uma sociologia técnica, mais voltada à geração de dados para o preenchimento dos propósitos da tecnocracia estatal e dos interesses das empresas multinacionais-.
Inaugurada em 1934, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras contou com professores estrangeiros, como Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide, os quais formaram a primeira geração de sociólogos brasileiros, dentre os quais despontaram Florestan Fernandes e Antonio Candido, intelectuais influenciados inicialmente pelo funcionalismo e que desenvolveram, no curso de sua trajetória intelectual, um pensamento marxista. A segunda geração dos cientistas sociais uspianos, dentre eles Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Maria Isaura Pereira de Queiroz e Maria Sylvia de Carvalho Franco, explora as vertentes marxista e weberiana, as quais se tornarão pilares importantes do pensamento social científico realizado no Brasil durante o século XX, repercutindo de modos variados ainda na atualidade, mesmo no contexto de um pensamento pós-estruturalista e do crescente pensamento decolonial.
Sobre a relação ruidosa das Ciências Sociais com a Teologia no Brasil: desconexões e interfaces
Sonia Elizabeth Reyes Herrera[6], em sua tese doutoral intitulada Reconstrução do processo de formação e desenvolvimento da área de estudos da religião nas ciências sociais brasileiras, demonstra como o tema “religião” ocupou espaço relativamente acanhado no pensamento social brasileiro, sendo, até o final dos anos 1960, estudado de modo isolado por acadêmicos, embora desde os anos 1950 tenha sido objeto de estudo de intelectuais associados a institutos de estudos religiosos, especialmente católicos.
No início dos anos 1970, no entanto, os estudos de religião passam a se concentrar em núcleos de pesquisa próprios ao âmbito científico, especialmente das ciências sociais e, a partir de meados de 1990 crescem, também no âmbito científico, em área específica, a das Ciências da Religião e da Teologia acadêmica. Nesse ambiente predominaram estudos sobre o catolicismo, o protestantismo e as religiões afro-brasileiras e, mais recentemente, sobre o pentecostalismo e os movimentos evangélicos no Brasil.
O motivo pelo qual, na academia, os estudos sobre religiões aconteceram de forma isolada, basicamente a partir de interesses particulares de certos pesquisadores, foi que a preocupação central das ciências sociais desde a sua institucionalização, no início do século XX, era a de cuidar do tema da modernidade e de sua implicação estrutural, especialmente dos temas “identidade nacional”, “modelos econômicos para o Brasil” e “cultura política nacional”. Havia, aqui, pouco espaço para o estudo de temáticas consideradas menos centrais ou, então, não identificadas pelos cientistas daquele período, com a modernidade, como foi o tema religião.
Contextualizada no ambiente pré e pós Concílio Vaticano II e, portanto, atenta aos problemas sociais, a Igreja Católica empenhou-se, nos anos 1960 a 1980, em mapear as causas da carestia social e, nesse caminho, criaram-se organismos de pesquisa como o Centro de Estatísticas Religiosas e Investigação Social (CERIS), o Centro de Estudos e Ação Social (CEAS), o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (IBRADES), e o Departamento de Estatística Eclesiástica, da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB).
No final da década de 1960 e na década de 1970, no entanto, são criados os seguintes núcleos de estudos da religião, associados ao universo propriamente acadêmico das ciências sociais brasileiras: o Setor de Religião do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), o Centro de Estudos da Religião (CER) e o Grupo de Trabalho Religião e Sociedade, da Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais (ANPOCS). Também, fundou-se o Instituto de Estudos da Religião (ISER), este, inicialmente, com caráter mais religioso, contando com a colaboração de intelectuais engajados com trabalhos pastorais, passando, posteriormente, por fases que incluíram intelectuais mais engajados com a pesquisa científica.
A partir da década de 1970, mas especialmente a partir da década de 1990, foram criados programas de Pós-Graduação em Estudos Religiosos e Teologia, principalmente em universidades confessionais com predominância do catolicismo, predominantemente em universidades confessionais, com densidade numérica e qualitativa das católicas. Tais cursos são, desde 2016, representados pela área 44 –Ciências da Religião e Teologia, na CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão gestor de pesquisa no âmbito federal-.
Curiosamente, no entanto, historicamente, no Brasil, os representantes do pensamento social que se dedicaram ao estudo das religiões no âmbito acadêmico associam-se a universidades públicas, sendo que os cientistas e teólogos vinculados a universidades confessionais, em especial às católicas, compõem um número muito menor dentre tais estudiosos.
Sobre a Sociologia da Religião
Conforme sublinhado na primeira seção desta comunicação, a escola sociológica uspiana se conforma, pois, enquanto um centro privilegiado de produção das ciências humanas e para ela convergem muitos intelectuais brasileiros. Em sua tradição, a religião é eleita como um dos objetos pertinentes à investigação. Tomada como temática, a religião passava a ser entendida no âmbito das crenças e práticas sociais a serem analisadas por ramos das Ciências Sociais, a saber, a Sociologia da Religião e a Antropologia da Religião.
Nas décadas de 1960 e 1970, Maria Isaura Pereira do Queiroz e Duglas Teixeira Monteiro, estudaram o problema do messianismo e do milenarismo. A partir dos anos 1980, Lísias Nogueira Negrão dedicou-se à mesma temática, bem como ao estudo da pluralidade da religiosidade no Brasil; Antonio Gouvêa Mendonça pesquisou o protestantismo no Brasil; Antônio Flávio Pierucci aplicou-se sobre o tema da secularização e do desencantamento do mundo, referenciado em Max Weber; e Reginaldo Prandi dedicou-se a investigar as religiões afro-brasileiras, o catolicismo, o espiritismo kardecista e o pentecostalismo.
Atualmente Ricardo Mariano e outros intelectuais, ligados à USP como, também, a outras universidades, a exemplo de Paula Montero, Paul Freston, Brenda Carranza, Joanildo Burity, Ronaldo de Almeida, Fábio Py e Christina Vital da Cunha, estudam os problemas da religião hoje, a partir das perspectivas antropológica e sociológica. O contexto da secularização norteia essas investigações que elegem como importante temática a ser compreendida, dentre outras, o fenômeno do neopentecostalismo, especialmente nas suas relações com a política, a comunicação e a violência.
Tais investigações vêm em proveito das pesquisas realizadas no âmbito das Ciências da Religião, as quais, por sua vez, têm se aberto para o constante diálogo com a Sociologia, a Antropologia, a Ciência Política, a História e a Filosofia da Religião.
Sobre as Ciências da Religião
No contexto das Ciências da Religião, muitos são os colegas que têm trabalhado em franco diálogo com as Ciências Sociais. Correspondem aos Grupos de Trabalho da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião (ANPTECRE), atualmente, os seguintes: “Religião e Educação”; “Religião como texto: linguagens e produção de sentido”; “Espiritualidades contemporâneas, pluralidade religiosa e diálogo”; “Gênero e Religião”; “Pesquisa Bíblica”; “Paul Tillich”; “Teologias da Libertação”; “Teologia Sistemática: questões emergentes”; “Cultura visual e Religião; Consciência planetária, religião e ecoteologia”; “Religião, Política e Teologia no espaço público”; “Protestantismos e Pentecostalismos”; “Religiões e Filosofias da Índia”. Visita ao site da referida associação[7] permite a constatação de que a maioria destes Grupos de Trabalho estuda a religião levando em consideração os seus aspectos sociais, econômicos, culturais, literários e políticos, o que demanda intenso e profundo diálogo com as ciências sociais e as demais ciências humanas.
Diferentemente da Sociologia e da Antropologia da Religião, no entanto, que tratam a religião como temática, como objeto de estudo, as Ciências da Religião estudam a religião a partir dela. O olhar, portanto, do cientista da religião não vem “de fora” –como o do cientista social que pesquisa a religião-, mas de “dentro” daquilo mesmo que ele estuda, o que permite a produção de uma forma de conhecimento própria e bastante rica, que deve vir em proveito da expansão do conhecimento de todo o conjunto de cientistas sociais e humanos que se dedicam a compreender a religião.
Já em caráter de finalização deste texto peço licença à leitora e ao leitor para, em seguida, traçar as linhas gerais da pesquisa que particularmente tenho desenvolvido no âmbito das Ciências da Religião e que se pretende contributiva para os estudos sobre a religião, a política e o espaço público no Brasil.
Apontamentos sobre a pesquisa que venho desempanhando
A investigação que tenho realizado se inscreve no âmbito dos trabalhos que procuram ligar a religião com a política e o espaço público no Brasil. Nesse universo investigativo, tenho dialogado com as revisões e/ou descobertas feitas pelos colegas Douglas Ferreira Barros, Ana Rosa Cloclet da Silva, Rodrigo Coppe Caldeira, Emerson José Sena da Silveira, Claudete Beise Ulrich, Rudolf von Sinner, Jefferson Zeferino, Breno Martins Campos, dentre outros. No plano internacional, é muito relevante o diálogo com o colega Colby Dickinson (Loyola University Chicago/EUA), e têm-se aberto profícuas conexões com redes de pesquisadores de Portugal e da África do Sul. Mais recentemente, a interlocução com a Red de Estudios de Historia de la Secularización y la Laicidad foi um verdadeiro presente para o trabalho que faço, abrindo possibilidades promissoras de investigações em consonância com as pesquisas desempenhadas pelos colegas argentinos, o que já se concretiza por meio deste número dos Debates de Redhisel e da chamada para o dossiê intitulado Religião e Política na América Latina: passado e presente[8] da Revista Reflexão, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-Campinas.
O que temos pesquisado: resultados parciais[9]
No território da linha de pesquisa à qual me inscrevo –Religião, Instituições e Discursos-, e no escopo dos interesses de investigação do Grupo de Pesquisa que integro –Relgião, Ética e Política-, tenho encontrado conexões entre a teoria do pensador italiano Giorgio Agamben e o pensamento social brasileiro, especialmente no que diz respeito à compreensão da relação entre a religião e a política no Brasil.
Nesse sentido, venho dedicando esforços para interpretar aspectos centrais da política brasileira como o patrimonialismo, o mandonismo, o autoritarismo, o conservadorismo, o populismo e o caráter violento do Estado, nas suas relações com a religião, ética e política, inclusive no âmbito da democracia contemporânea, na qual apresentam-se elementos de um tipo específico de fascismo -próprio ao ambiente latino-americano-, contemporaneamente metabolizado pelo neoliberalismo e por seus dispositivos ideológicos. Para tanto, tenho promovido correlações entre pensadores europeus que se ligam ao trabalho de Agamben -como Max Weber, Carl Schmitt, Walter Benjamin, Hannah Arendt, Michel Foucault, Roberto Esposito, Maximo Cacciari, Elettra Stimilli-, além do próprio Giorgio Agamben, com intelectuais brasileiros como Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Maria Isaura Pereira de Queiroz e Jessé Souza.
O recente avanço dos discursos e das propostas políticas de caráter conservador, vinculados a movimentos religiosos moralistas, não está desconectado das estruturas do poder soberano no Brasil. Apesar da narrativa de matiz democrática que se hegemoniza dentre os formadores de opinião, os políticos e os meios de comunicação em geral, observa-se, nos últimos tempos, em parte expressiva do ocidente, e no Brasil, nova escalada de políticos que se associam a discursos de ódio e com viés autoritário.
Pode-se pensar que a conjugação de tais forças resulta da liberdade que os diversos núcleos de interesse têm em se conectar na esfera pública. Diante de realidade como a brasileira, são importantes as seguintes perguntas: vivemos, realmente, em uma democracia, ou nossa democracia, historicamente conservadora, disfarça um estado de exceção de fundo, que subjaz mesmo nos curtos intervalos nos quais se apresentam indícios de avanços em relação às demandas sociais? O que existe, de fato, no Brasil: o simples predomínio das forças conservadoras no poder soberano ou, muito mais do que isso, um poder soberano constituído nas bases do conservadorismo, impermeável à efetivação de pautas associadas ou diretamente originárias das demandas dos grupos não hegemônicos –as minorias? E quais são as repercussões da associação entre o neoliberalismo econômico e o conservadorismo ideológico e religioso no Brasil?
Nossa pesquisa tem testado a hipótese de que o Estado brasileiro não é, desde a sua origem, um lugar público apto a ocorrerem, de forma efetivamente livre, disputas sociais, religiosas, econômicas e políticas, mas é um lugar capturado por um poder soberano caracteristicamente unitário e conservador, fundamentalmente violento e excludente, que se expressa por diferentes formas, em governos constituídos nas bases da retórica de esquerda ou de direita, no mais das vezes, de direita.
Em Guerra pela Eternidade[10], Benjamin Teitelbaum investiga o fenômeno contemporâneo do que denomina por tradicionalismo, o qual tem por objetivo recuperar o espírito originário da nação em seus valores mais arcaicos e atávicos.
No texto Notas sobre o Fascismo na América Latina[11], Florestan Fernandes afirmava haver um certo tipo de fascismo na América Latina, lastreado em um totalitarismo de classe. Apontava o surgimento de uma nova tendência de fascismo, uma fascistização global, que se articularia com a democracia pluralista.
No Brasil, ganharam relevo narrativas religiosas apoiadas em uma teodiceia bélica e excludente, constituindo-se como pilares ideológicos de sustentação de grupos políticos reacionários e conservadores que, em 2016, se articularam pelo impeachment da Presidenta Dilma Rousseff e que, em 2018, foram estratégicos para a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Nesse contexto, tornou-se central determinada combinação entre um conjunto de ideias caracteristicamente moralistas, fortemente relacionado a grupos religiosos conservadores e exclusivistas, e a ideia de retorno a um passado originário da nação, em relação com certo tipo de fascismo que se relaciona com a democracia pluralista.
Os rumos futuros desta investigação
A próxima etapa de minha pesquisa comprende o aprofundamento da investigação parcialmente realizada sobre a hipótese de que o moralismo de caráter religioso brasileiro se liga de modo expressivo com o universo mítico nacional, especificamente com o mitologema da passionalidade do brasileiro, criando-se, a partir de tal conexão, um campo concêntrico de narrativas suficientemente consistentes sobre as quais tem se sustentado certa disposição de determinados grupos sociais pelo exercício do poder soberano fundado, historicamente, no amalgamento entre o totalitarismo de classe e o fascismo.
Em conexão com a leitura teológico-política sobre o Estado feita por Carl Schmitt, e com a crítica realizada por Giorgio Agamben a respeito do elemento totalitário presente nas democracias hodiernas, a próxima etapa de nossa pesquisa prevê o aprofundamento sobre as ligações entre os tradicionalismos religiosos dos campos católico, protestante e evangélico, com as características do fascismo presentes no Brasil contemporáneo. Seguiremos testando a hipótese da associação entre a “teologia política autoritária” e o mito da passionalidade, o totalitarismo de classe e o fascismo brasileiros.
Para tanto, será útil desempenhar o diálogo da teoria sobre a gênese autoritária do Estado democrático contemporâneo, formulada por Giorgio Agamben, com: o mito da passionalidade desenvolvido por Sergio Buarque de Holanda; a leitura realizada por Florestan Fernandes acerca do fascismo latino-americano; os estudos sobre o tradicionalismo católico brasileiro, desempenhados por Ana Rosa Cloclet da Silva e por Rodrigo Coppe Caldeira; os estudos sobre o fundamentalismo protestante, desenvolvidos por Breno Martins Campos; as relações entre o fascismo e a religião no Brasil, estudadas por Celso Gabatz; o exclusivismo religioso, estudado por Douglas Ferreira Barros; e o exclusivismo especificamente evangélico, investigado por Ronaldo de Almeida.
Considerações Finais
Nesta breve comunicação procurei evidenciar as linhas de força teóricas e metodológicas do surgimento e desenvolvimento do pensamento social brasileiro, no qual se destaca o sociológico, e dediquei, em seguida, maior atenção às relações entre a Sociologia da Religião e as Ciências da Religião, destacando as diferenças que elas guardam entre si, nas suas respectivas especificidades.
Em atenção à proposta da mesa redonda que inspirou esta comunicação, que implicou a exposição dos estudos em andamento sobre a religião na Argentina e no Brasil, tomei a liberdade de apresentar o método, os objetos, resultados parciais e o propósito da futura tarefa relativa à pesquisa que desenvolvo atualmente.
Espero ter contribuído, com isso, de algum modo, para esse processo de troca científica que realizamos nesta oportunidade. A importância e a consistência dos trabalhos que pude conhecer dos colegas argentinos, associada à sua generosidade e ao maravilhoso acolhimento que nos deram nesse encontro científico, são grandemente inspiradoras, razão pela qual faço votos para que possamos, juntos, elaborar novos projetos e realizar novas pesquisas.
- Professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e da Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Campinas/Brasil. Realizou Pós-Doutorado no Departamento de Teologia da Loyola University Chicago e Doutor em Filosofia, Mestre em Multimeios, Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas/Brasil. É bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.↵
- Há uma gama vasta de estudos sobre a história do pensamento social no Brasil e a formação da sociologia neste país. Dentre os autores que se dedicaram a este estudo estão: Miceli, S. (2001). Intelectuais à brasileira. Companhia das Letras; Mota, C. G. (1977). Ideologia e Cultura Brasileira (1933-1974). Ática; Ortiz, R. (1985). Cultura brasileira e identidade nacional. Brasiliense; Botelho, A. e Moritz Schwarcz, L. (Orgs.) (2009). Um enigma chamado Brasil – 29 intérpretes e um país. Cia. das Letras; Pericás, L. B. e Secco, L. (orgs) (2014). Intérpretes do Brasil – clássicos, rebeldes e renegados. Boitempo. Panorama didático sobre o tema encontra-se em E. D. Liedk Filho (2005), “A Sociologia no Brasil: história, teorias e desafios”. Sociologias, 7(14), jul/dez, 376-437.↵
- Freyre, G. (1995). Casa Grande e Senzala. 30ª. ed. Rio de Janeiro:Record.↵
- Holanda, S. Buarque de. Raízes do Brasil. [Edição Crítica. Monteiro, P. Meira e Moritz Schwarcz, L. (Orgs.) (2016). Acuña, M. e Diego, M. (estabelecimento de texto e notas)]. Cia. das Letras.↵
- Vale citar Prado Júnior, C. (1994). História econômica do Brasil. 42ª. Brasiliense.↵
- Herrera, S. E. (2004). Reconstrução do proceso de formação e desenvolvimento da área de estudos da religião nas Ciências Sociais brasileiras. Porto Alegre, 419f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/ Universidade Federal do Rio Grande do Sul.↵
- Vide: https://anptecre.org.br/ [Acesso em 20 out. 2023].↵
- Vide: https://periodicos.puc-campinas.edu.br/reflexao/announcement [Acesso em 19 nov. 2023].↵
- Fragmentos do que se segue neste item 3.1., aqui parcialmente modificados, compõem publicações anteriores, a saber, o artigo Religião, violência e política no Brasil: vivemos em uma democracia ou em um estado de exceção?, publicado na Revista Interações, vol. 15, 2020, e da comunicação Tradicionalismo, fascismo e religião: uma análise sobre o contexto político brasileiro na atualidade, publicada nos Anais do VIII Congresso da ANPTECRE, vol. 1, GTs, 2021. Optei por reproduzi-los aqui por considerar sua pertinência para os propósitos deste texto.↵
- Teitelbaum, B. R. (2020). Guerra pela Eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Editora Unicamp.↵
- Fernandes, F. (1981). “Notas sobre o Fascismo na América Latina” in: Poder e contrapoder na América Latina. Zahar Editores.↵






