Nuestros cursos:

Nuestros cursos:

Ser “familiar de vítima de violência urbana no interior”

Voz, experiência e engajamento público
em contexto não metropolitano
do estado do Rio de Janeiro

Jussara Freire

Introdução

Este artigo tem como objeto as experiências e engajamentos de familiares de vítimas cujas mortes ou desparecimentos são associadas, no debate público, às consequências da “violência urbana” no Rio de Janeiro e, em particular, em Campos dos Goytacazes (cidade do interior deste estado). Dando continuidade aos trabalhos realizados na cidade do Rio de Janeiro e na Região Metropolitana (RMRJ) desde 2002, seu objetivo é analisar os efeitos da linguagem da “violência urbana” no que tange aos engajamentos públicos de “familiares de vítimas no interior da região Norte Fluminense. Para tanto, nossa atenção se voltará para situações nas quais, esta linguagem é problematizada em uma cidade média, interiorana e não metropolitana (Noel, 2017 e Greene, 2015). Analisaremos os engajamentos destes atores no espaço público, os processos de investigação (retomando John Dewey) e suas experiências públicas após a perda de filhos assassinados por narcotraficantes em um contexto marcado pelo que algumas mães, em pesquisas anteriores, denominaram de “indiferença generalizada”.

O problema consiste em identificar as competências e esforços dos atores para captar a atenção pública, longe da capital do estado. Identificaremos os obstáculos de acesso ao espaço público e suas consequências no tocante às denúncias dificilmente publicizáveis. Com efeito, a cidade e a região em análise apresentam uma ausência de movimentos sociais contra a “violência urbana” diferentemente da RMRJ, e por uma relativa evitação da política (no sentido de Nina Eliasoph, 2010) e do reconhecimento das perdas dos “familiares de vítimas de violência no interior”. A análise das tematizações da “violência urbana” nestes ambientes a partir da sociologia dos problemas públicos conduz a descrever a plasticidade do espaço público e os diferentes nichos nos quais os familiares podem encontrar alguma forma de amparo (por exemplo, suas participações em lugares públicos religiosos).

Contextualização

O interesse pelo tema foi despertado pelo meu estranhamento quanto à “ausência” de arenas de publicização (Cefaï, 2013a; 2013b) de mortes de moradores de “periferias” de Campos dos Goytacazes (cidade média do interior do estado do Rio de Janeiro)[1] relacionadas à criminalidade violenta dessa cidade. Observava, inicialmente, um contraste entre mobilizações coletivas de luta contra violências institucionais — das quais participavam movimentos de familiares de vítimas de violência policial na cidade do Rio de Janeiro (Birman e Leite, 2004; Araujo, 2008; Freire e Teixeira, 2017 e 2008; farias, 2007), isto é, em contexto metropolitano — e o que identificava inicialmente como “ausência” de movimentos sociais em Campos (contexto não metropolitano do mesmo estado).

Paralelamente, no debate público recente, em escala estadual e nacional, Campos é apresentada como uma das cidades “mais violentas do estado”, quando José Mariano Beltrame exercia ainda o cargo de secretário de Segurança do Rio de Janeiro (2007-2016) (NF Notícias, 20 mais. 2016). Tal pauta adquiriu maior visibilidade recentemente após um programa do jornalista Fernando Gabeira com a exibição de um documentário sobre a “violência em Campos” no canal GloboNews. Este jornalista abre o documentário destacando o ranking” das “cidades mais violentas” do mundo (“Campos dos Goytacazes é a 19º no ranking mundial de violência”) e a taxa de homicídio da cidade “47 por cem mil habitantes” (número citado sem referência às fontes no documentário), o que a tornaria “proporcionalmente” “mais violenta” do que a do Rio de Janeiro. Destacamos ainda outra série de matérias na imprensa nacional e regional que a apresenta como uma “das cidades mais violenta do interior”, como é o caso, por exemplo, de um noticiário televisivo da Inter TV/Região Serrana (g1, 02/02/2017) durante o qual são apresentados dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) de 2016 em tom alarmante: o aumento do número de homicídios (de 168, em 2015, para 272, em 2016) na cidade de Campos.

Na imprensa local, os assuntos “criminalidade” e “violência” são fortemente associados a áreas específicas de Campos: favelas, bairros mais distantes do Centro (como o bairro Travessão, situado a cerca de 30 km do centro da cidade) e conjuntos habitacionais localizados em diversas áreas periféricas. Com efeito, entre estas e outras matérias da imprensa local e regional analisadas, é nítido que as notícias sobre criminalidade violenta se referem recorrentemente ao distrito de Guarus[2] (pejorativamente qualificado “do outro lado” por muitos moradores da cidade)[3]; a favelas não necessariamente ali localizadas, mas próximas ao Centro (como a Favela da Baleeira, Margem da Linha da Tapera e Tira-Gosto); e a bairros da “Baixada Campista”[4] da planície e/ou conjuntos habitacionais “Morar Feliz” (que podem ter proximidade com estes dois outros residenciais). É ainda nítida a criminalização e sujeição criminal (MISSE, 2010) desses moradores na opinião pública, por exemplo, quando se refere a eles como população mais “agressiva”. Por exemplo, em uma matéria de 2016 do jornal Terceira Via, intitulada “Confira o mapa da violência em Campos”, o comandante do oitavo batalhão, o entrevistado Marco Aurélio Pires Louzada afirma:

Os bandidos de Guarus são mais agressivos entre si. Na área da Delegacia do Centro existe mais uma coordenação dos criminosos. Eles agem de maneira mais ordenada porque têm os freios inibitórios. Aqui, eles podem sair pela rua atirando. Os moradores veem, conhecem quem atirou e conhecem quem morreu, mas não falam nada porque têm medo. Aqui, eles são mais agressivos entre si e com a população também (Terceira Via, 19 dez. 2016).

Delimitação do objeto e do problema da pesquisa

Em continuidade com pesquisas anteriores que tratavam de contextos metropolitanos do estado do Rio de Janeiro (Freire, 2010, 2014, 2016 e 2017), as observações acima apresentadas me conduziram a apresentar o presente projeto e explorar as experiências públicas de familiares de vítimas de homicídios “no interior”, cujas mortes são também problematizadas “como consequência da violência urbana”. Atuando no campus da Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes (UFF/Campos), proponho retomar o complexo de problemas que analisei anteriormente em contexto metropolitano, mas, desta vez, em uma cidade média interiorana. Proponho descrever e interpretar as experiências públicas de familiares após a perda de seus seres queridos (Diaz, op. cit.) — como filhos, irmãos, sobrinhos assassinados por narcotraficantes — procurando descrever seus engajamentos, suas competências e suas mobilizações.

A pesquisa voltar-se-á para a compreensão dos efeitos das configurações do problema público “violência urbana” em Campos (e no estado, por uma arena mobilizada para resolvê-lo) para familiares de vítimas de homicídios, assassinados seja por narcotraficantes — e, caso encontre estes casos em campo —, seja por policiais. Dessa forma, a pesquisa consiste em:

  • Descrever como estes atores experimentam um espaço público labiríntico e conduzem os processos de investigações (Dewey, 2003 [1927]; Cefaï, 2013; Quéré e Terzi, 2015; Stavo-Debauge e Trom, 2004; Breviglieri, 2008 e Menezes, 2014) após a morte de seus seres queridos (Diaz, 2016, 2017);
  • Analisar como estes atores procuram captar a atenção pública em contexto não metropolitano marcado por uma ausência de movimentos sociais coletivos ou instituições contra a “violência urbana” — que poderiam receber ou mediar denúncias e/ou ser um ator central de uma arena contra a violência que não a legitima, como observei na cidade do Rio de Janeiro (Freire, 2017);
  • Analisar os contrastes entre as tematizações da “violência urbana” pelo debate público e os sentidos de justiça e de injustiça destes atores;
  • Compreender como as qualificações e emoções destes atores delineiam uma modalidade de sentidos de justiça, porém com um difícil horizonte de publicização, pelo menos, nos quadros das cités propostas por Boltanski e Thévenot (1991), a cívica em particular;
  • Descrever as especificidades da arena de publicização destes familiares, caso a observe durante a pesquisa de campo;
  • Especificar e caracterizar as aproximações e distinções entre os modos de elaborar o problema público “violência urbana” na RMRJ e fora da Região Metropolitana, neste caso, no interior.

Em resumo, o problema da pesquisa consiste em propor uma descrição interpretativa de formas de experimentar o espaço público sob o ângulo de atores que se encontram na contramão do debate público. Articula-se, ainda, como mencionado acima, com pesquisas anteriores. Integrante do Coletivo de Estudos sobre Violência e Sociabilidade (CEVIS), participei de duas pesquisas coordenadas por Luiz Antonio Machado da Silva cujos resultados foram publicados no livro Vida sob cerco (Freire apud Machado da Silva, 2008). Nestas pesquisas, analisei com os outros integrantes do CEVIS os engajamentos, os recursos e as competências políticas de “líderes comunitários” de favelas do Rio de Janeiro e de mães de vítimas de violência policial para acessar o espaço público. Proponho, atualmente, voltar minhas pesquisas, em diálogo com este grupo, para a compreensão das consequências dos pontos de interseção entre o espaço público e a sociabilidade violenta”[5] do ponto de vista de integrantes de diferentes modalidades de arenas de publicização e das configurações dos problemas públicos. Este é também o principal motivo pelo qual escolhi, na presente pesquisa, focar nos familiares de vítimas, frequentemente qualificados, no debate público, como “geradores de bandidos” (Freire, 2017).

Após compor o quadro docente da UFF/Campos, retomei estas questões com o projeto de analisar, por contraste, as variações de processos de publicização e de experimentações do espaço público entre cidades e bairros de contextos metropolitano e não metropolitano. Este projeto acompanhou ainda uma proposta de agenda de pesquisas em contextos interioranos, a qual pode ser observada em trabalhos que orientei na UFF (em nível de graduação e de pós-graduação, no PPGDAP/UFF) e na outra instituição na qual era até recentemente professora colaboradora (o PPGPS/UENF). Resumidamente, as pesquisas próprias, com e/ou de meus ex- e atuais orientandos exploram os modos segundo os quais moradores de periferias de cidades “do interior” experimentam o espaço público. Em particular, procuro compreender os modos de vocalização e as competências políticas de familiares que perderam “seres queridos” (Diaz, op. cit.) no quadro de conflitos rotulados de “violência urbana”.

O recorte analítico

O problema desta pesquisa foi elaborado a partir das contribuições de Gusfield (1981), Cefaï sobre as experiências dos públicos, bem como aquelas de Quéré e Terzi (2015) e Diaz (2014) sobre a sociologia da experiência pública.

Gusfield procurou entender como o ato de alguém dirigir um automóvel em estado alcoolizado (drinking-driving) tornou-se um problema público norte-americano. Para tanto, estudou as disputas definicionais em torno deste problema. O tratamento do drinking-driving por Gusfield incorpora a dramatização dos eventos e das ações dos públicos envolvidos como forma de enquadramento do problema público. Enfatizar o processo de dramatização do problema público equivale a refletir sobre as performances, as encenações, os modos de aquisição de visibilidade de certos assuntos elaborados por arenas públicas, ecoando com a análise goffmaniana das pertinências motivacionais, ainda que com outro recorte. O que importa não é tanto a veracidade dos fatos, mas as performances dramatúrgicas de pessoas ou de arenas públicas, de forma que um problema se torne um drama público a ser tratado com prioridade. As arenas públicas são, assim, constituídas de um conjunto de públicos que habitam concretamente um espaço público abstrato.

Gusfield (1981) distinguiu problemas públicos e problemas sociais relacionando o tema dos problemas públicos com as aptidões cognitivas e morais de um grupo para denunciar condições avaliadas como sendo injustas ou anormais. Este autor procurou entender como o ato de dirigir um automóvel em estado alcoolizado (drinking-driving) tornou-se um problema público norte-americano estudando as disputas definicionais em torno deste problema. Os protagonistas das arenas públicas são definidores e analisadores de assuntos que consideram problemáticos. Da anterior concepção de problema público percebido como a definição de condição putativa (SPECTOR e KITSUSE, 1973), Gusfield descreve como a definição de um assunto problemático se caracteriza por um processo de dramatização, de onde vem seu interesse nas performances, competências, visibilidade e encenações em arenas públicas. O que importa não é tanto a veracidade dos fatos, mas as performances dramatúrgicas de pessoas ou de arenas públicas de forma que um problema se torne um drama público a ser tratado com prioridade.

Diferentemente de análises construtivistas, que empregavam indistintamente os adjetivos sociais e públicos (Campos, 2003), Gusfield estabelece, por sua vez, uma diferenciação. O problema social remete a uma condição reconhecida como sendo problemática por grupo(s) de uma sociedade. O problema social não é obrigatoriamente público pelo fato de que não se torna necessariamente um assunto que precisará sempre de uma resposta pública — seja ela em termos de formulação de política pública ou de inserção em uma agenda pública visando a sua resolução. A distinção entre “social” e “público” baseia-se em uma perspectiva institucional. Ora, alguns autores sugeriram não cercar rigidamente certos assuntos, não reconhecidos publicamente, na esfera da privacidade ou da intimidade, ou ainda demarcar demasiadamente as fronteiras entre o íntimo e o político (Breviglieri e Trom, 2003, p. 399). Uma atenção mais fina para a continuidade destes níveis de problematização é necessária para compreender a elaboração de um problema público. Determinados assuntos como, por exemplo, problemas de moradia, podem ser os fundamentos de um repertório de publicização, como é o caso da gramática política de associações de moradores. Desta forma, na reflexão sobre o público, estabeleço uma continuidade entre uma experiência singular e uma experiência pública — a generalização dos interesses particulares e o fato de se sentir coletivamente concernido e envolvido em busca de solucionar um problema considerado injusto.

O problema da atenção pública permite tematizar a visibilidade de operações críticas e morais no espaço público. Um processo de definição, de apropriação e de propriedade de um assunto problemático em vista de ascender a um nível de publicização ocorre em arenas públicas. Estas concepções todas apontam para uma ideia de público do ponto de vista dos públicos que definem situações e/ou assuntos problemáticos. O trabalho de problematização e de definição das situações problemáticas ocorre nas arenas públicas. As arenas públicas são, portanto, os bastidores do espaço público.

A arena pública é uma forma possível de organização social que pode ser também associada a uma sociologia formal. A noção de arena pública, definida enquanto forma, permite descrever a pluralidade de formas de engajamento e de participação em uma ação coletiva, além de focalizar uma análise nos conflitos, nos processos de negociações e de mobilização de uma ação coletiva. É um quadro analítico a partir do qual podemos realizar um “trabalho de significação” (Snow apud Cefai e Trom, 2001) da mobilização coletiva e do engajamento dos atores participantes. A noção de arena pública nos permite entender e apreender as práticas políticas concretas considerando a pluralidade de “regimes de engajamento” nas situações.

As arenas públicas são constituídas dos conjuntos de públicos que habitam concretamente um espaço público. Cefai (2002) destacou que essa noção remete a uma forma mais flexível, em movimento, daquela do espaço público. Ele também assinalou que o conceito de espaço público era fortemente marcado por uma compreensão habermasiana. Retomando a proposta deste autor, podem-se identificar algumas principais características de arenas públicas: a dramaturgia (como vimos anteriormente, os recursos teatralizados, dispositivos e performances mobilizados para o convencimento ou priorização de um determinado assunto no palco da vida pública) e representação (teatral); a pluralidade (de atores em uma mesma arena); os embates (o que pressupõe conflitos e disputas); as negociações (estas terminam ou não em compromissos); as regras de publicidade coercitivas (que os membros de diversas arenas precisam seguir); e a dispersão (multiplicidade destas formas que estão dispersas no espaço público que ora se encontram, ora competem entre elas e que podem se formar repentinamente e, com a mesma velocidade, se evaporar em função da exigência da seleção de assuntos). A partir destas abordagens, pode-se destacar ainda a noção de ação coletiva, que permite analisar as atividades de coordenação por meio de uma descrição interpretativa de operações críticas e morais (i. é, os sentidos de justiça e injustiça, entre outras competências cognitivas e conativas mobilizadas pelos atores em situação).

A ordem pública ainda se refere a uma coordenação entre humanos, bem como entre humanos e não humanos (retomando Latour, 1993). Obviamente, os momentos de provas e de conflitos são parte integrante da coordenação e, neles, pode ser questionada a veracidade de um bem comum. Neste sentido, a ordem pública é uma “ordem negociada” (Strauss, 1992). Como a negociação nunca é fixada, e tampouco definitiva, o fundamento da ordem pública é este permanente e infinito processo de reavaliação, de questionamento e de redefinição de assuntos problemáticos.

Uma das principais competências do ator consiste na sua habilidade em se ajustar à situação do que pode ser considerado normal. Paralelamente, a ideia de competência também alude aos múltiplos ajustamentos que são gerados pela passagem de um regime de ação a outro. Nesta perspectiva, uma denúncia é um recurso crítico mobilizado em função das situações que enfrentamos na vida cotidiana. No caso da denúncia pública, ela consiste em mobilizar esta pluralidade de recursos no intuito de ela ser considerada “normal”, o que também viabilizará o seu tratamento.

Considerando o “público” como uma forma e uma modalidade de experiência (Quéré e Terzi, op. cit.), esta sociologia foca no estudo empírico da organização prática da experiência. Como é também o caso destes autores, inspiro-me ainda em diversas contribuições de Dewey (notadamente, The public and its Problems, 1927), porém considerando recentes críticas de pesquisadores em relação a esta obra, que dialoga com a obra de Paul Ricoeur. Alguns pesquisadores, como Breviglieri (2017), observam certa naturalização em algumas pesquisas pragmatistas (mesmo que se reconheçam nesta abordagem) em relação aos modos de tomar como taken for granted[6]um caminho do reconhecimento que dialogaria com a obra de Dewey e de Goffman no que tange ao pressuposto das competências ou capacidades dos atores. A principal crítica foca nas formas como vem sendo problematizado o agir em um horizonte de reconhecimento. Neste caso, “o público emerge, se constitui e se organiza em torno de uma investigação a partir de uma situação indeterminada. No entanto, diferentemente da “sociologia dos problemas públicos”[7], iniciada por Gusfield (1981)[8], frequentemente voltadas para os modos de perceber, identificar e problematizar uma situação indeterminada, há alguns anos, diferentes autores vêm questionando “o otimismo” desta sociologia. Com efeito, Quéré e Terzi (op. cit.) avaliam que Dewey supervalorizou “os choques” (cognitivos) que gerariam uma ruptura nas rotinas dos atores e orientariam, então, a operação de definição “situação problemática em sua qualidade imediata”, isto é, “embaralhada, conflituosa, desordenada etc.” (Dewey, 1983 [1938]).

Como destaca Stavo-Debauge (2012), aqueles que sofrem deste choque” não seriam sempre atores capazes de avaliar, em momentos indeterminados, uma positividade associada ao estímulo gerado pela situação problemática. Em outros termos, os atores nem sempre teriam aptidões para se tornar “problematizadores” e “exploradores” (aludindo aos modos segundo os quais Dewey percebe o público como uma “comunidade de exploradores”). Stavo-Debauge (2012) e os autores supracitados destacam as situações em que os atores podem estar profundamente incapazes de se deparar com tal “choque” e de encontrarem, então, a energia que despertaria o início de uma investigação. Além disso, a percepção, identificação e problematização de uma situação tida como problemática não se encerra necessariamente em um processo de publicização. Em diálogo com os trabalhos de Stavo-Debauge (op. cit.) e de Breviglieri (2008), mas partindo de um contexto carioca e fluminense da ação coletiva, observei (Freire, 2017) que, em situações de mobilizações coletivas marcadas pelo uso da força desmedida (Brodeur, 2006), muitos dos atores que defendem causas em prol de moradores de favelas e de periferias se deparam com uma série de obstáculos e ameaças de represálias que tornam árduos o esforço associativo na forma de uma arena “pública” (por este motivo, prefiro o termo “arena de publicização).

Por sua vez, Quéré e Terzi (2015.) observam que as situações indeterminadas não resultam sempre na constituição de um público de investigadores dispostos a questionar e experimentar soluções inéditas. Afirmam que as situações indeterminadas podem ainda atiçar temores, mais ainda quando suscitados pela ameaça de um conflito interno, como poderia articular com o problema “violência urbana” no estado do Rio de Janeiro:

Quando tal maneira de se deparar com problemas transformam-se em rotina, a coletividade tende em se instalar em uma postura defensiva de encolhimento de modo que os problemas que emergem, longe de desestabilizá-la, apenas conforta mais ainda os preconceitos os mais enraizados e nos costumes mais rotineiros (Quéré e Terzi, 2015, p. 8, tradução minha).

Estas observações conduzem os autores a focar na noção de situação indeterminada no conjunto de “dinâmicas experimentais” (Quéré e Terzi, 2015, p.17) durante as quais o que denominam de “comunidades desestabilizadas” se converte paulatinamente em público para reconfigurar instituições e engajar “um trabalho de valiação (valiation) e de avaliação” (Quéré e Terzi, 2015, p.17) — reorientando, assim, o problema de Dewey —, trabalho que não é mais taken for granted. Desta forma, sustentam que o público é indissociável da experiência de problematicidade, cuja compreensão partiria da inteligibilidade endógena das atividades pelos quais os atores organizam e geram as situações da vida cotidiana, em suma da accountability, tal como proposto por Garfinkel (1967).

Ainda destaco que a abordagem pragmatista permite escapar de uma compreensão do “público” reduzido a um plano estritamente institucional, como ocorre com certa frequência em estudos sobre a “violência urbana”. Segundo Quéré e Terzi, “[…] Toda experiência, desde que seja inteligível, pode ser tida como pública no sentido de que ela pode estruturar, encobrir uma forma inteligível e logo observada e descrita enquanto tal apenas se ela incorpora mediações públicas (Quéré e Terzi, 2015, 5p. 20). Para fundamentar esta afirmação, os autores recorrem a Wittgenstein, que negava a possibilidade de existir uma linguagem privada, e lembram que o próprio Dewey preconizava que a observação de um evento era necessariamente associada “às características publicamente determinadas na linguagem, algo ‘apreendido sob condições sociais e públicas’ [Dewey, 1943 e 1938, apud Quéré e Terzi, p.11]”. Desta forma, o que une os autores supracitados é que esta sociologia “da experiência pública” toma como cerne modalidades de organização social em conjunto, o que implica problematizar a ordem pública a partir do esforço de descrever modalidades de coordenações do ponto de vista dos atores e de suas “accountabilidade”.

No caso desta pesquisa, analisarei a plasticidade do público considerando as diferentes configurações de associações e copresenças a serem descritas, bem como suas variações quando estas estão atravessadas pelo temor de perder a vida (a sua e/ou a de um ente querido), isto é, pelo uso da força ou sua ameaça cotidiana. Nas primeiras conversas exploratórias que realizamos, os relatos apontam para uma recusa dos familiares com os quais conversamos de orientar suas ações, após a morte dos filhos e/ou irmãos, na direção de denúncia pública ou de participar da arena de publicização “dos familiares de vítimas”. Em quase todos os casos das conversas desta atual pesquisa, mães e/ou irmãos problematizaram os modos de lidar com suas perdas a partir de novos ou da intensificação de investimentos (para aqueles que já participavam de igrejas pentecostais) em comunidades pentecostais. Por este motivo, se seguirmos uma definição do “público” elaborada a partir de eixos analíticos cívicos ou institucionais, ou de um plano sociológico e normativamente definido, perderíamos a possibilidade de compreender como estes engajamentos podem traduzir outras modalidades de engajamentos públicos do ponto de vista de familiares, os quais, por sua vez, não se voltam para planos institucionais, de denúncia pública ou de outras formas de ação coletiva “tradicional” no sentido sociológico convencional do termo — como seria o caso, por exemplo, de atores integrarem a arena de publicização ou movimentos sociais contra os públicos mais fortes que problematizam “a violência urbana” e articulam tal assunto como combate aos “bandidos”.

Paralelamente, na literatura pragmatista, a questão da incapacidade dos atores tende a ser eventualmente associada à ideia de um encolhimento (repli) de si, que pode, eventualmente, se traduzir na busca de um fechamento comunitário. Por exemplo, Quéré e Terzi (2015) procuram demonstrar que dadas situações indeterminadas e os modos de se deparar com problemas se convertem em rotina: “a coletividade tende e se instalar em uma postura defensiva de encolhimento de modo que os problemas que emergem, longe de desestabilizá-la, como vimos, a conforta mais ainda nos seus preconceitos os mais enraizados e nos seus hábitos mais rotineiros” (Quéré e Terzi, 2015, p. 8). Dialogando com estas contribuições, no caso que proponho analisar, procuro compreender em particular as articulações entre engajamento público e engajamento religioso dos familiares, não necessariamente como um encolhimento mas como uma outra modalidade de problematizar em público suas perdas (esta é, pelo menos uma hipótese).

Bibliografia

ARAÚJO, Fábio Alves. Do luto à luta: as experiências da mãe de Acari. 2007. 167 fls. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Antropologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.

____. Das consequências da arte macabra de fazer desaparecer corpos: violência, sofrimento e política entre familiares de vítima de desaparecimento forçado. Tese (Doutorado em Sociologia e Antropologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.

____. Das técnicas de fazer desaparecer corpos. Rio de Janeiro: Lamparina, 2015

ARAÚJO, Marcella. “A transformação da política na favela: desconstruindo a ausência do Estado”. Antropolítica, n. 38, p. 299-319, 2016.

ARRUDA, Ana Paula Serpa Nogueira de. Política habitacional e direito à cidade: a experiência do programa “Morar Feliz” em Campos dos Goytacazes/RJ.2014. 273 fls. Tese (Doutorado em Sociologia Política), Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Centro de Ciências do Homem, 2014.

ASSIS, Renan Lubanco. “‘Morador de Guarus’ Categorias morais mobilizadas em situações de copresença na cidade de Campos dos Goytacazes”. Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 15, n. 45, p. 28-38, 2016.

AZEREDO, Gileno Domingos de. Os Limites da Participação Consentida: o Caso do Plano Diretor Municipal de Campos Dos Goytacazes, RJ. Dissertação (Mestrado em Políticas Sociais), Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Centro de Ciências do Homem, 2015.

AZEVEDO, Sérgio de; TIMÓTEO Geraldo Márcio; ARRUDA, Ana Paula Serpa. “A metrópole na sociedade contemporânea, habitação social e segregação espacial: implicações do programa municipal ‘Morar Feliz’ em Campos dos Goytacazes-RJ”. In: 37º Encontro Anual da Anpocs, Águas de Lindóia, 2013.

BACHELARD, Gaston. Le nouvel esprits cientifique. Paris: PUF, 1934.

BECKER, Howard S. Outsiders. Estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar. 2008 [1963].

____. Uma teoria da ação coletiva. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

BERMUDEZ, Natalia Euse. El derecho a la ciudad y La construcción de territorialidades. Tese (Doutorado em Sociologia), 2015.

BIRMAN, Patrícia. “Favela é comunidade?” In: MACHADO DA SILVA, L. A. (Org). Vida sob cerco: violências e rotinas nas favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2008.

____. “Movimentos cívico-religiosos no Rio de Janeiro e alguns de seus impasses: o caso do Mural da Dor”. In: LEITE, Márcia Pereira; BIRMAN, Patrícia. Um mural para a dor: movimentos cívico-religiosos por justiça e paz. Porto Alegre, RS: Editora da UFRGS, 2004.

BIRMAN, Patrícia; LEITE, Márcia (Orgs.). Um mural para a dor: movimentos cívico-religiosos por justiça e paz. Brasília: Pronex/CNPq; Porto Alegre: Editora UFRGS, 2004.

BOLTANSKI, Luc e THÈVENOT, Laurent. De la justification. Les économies de grandeur.Paris: Gallimard, 1991.

BOLTANSKI; Luc; THEVENOT, L. “A Sociologia da Capacidade Crítica”. Antropolítica, n. 23, p. 09-19, 2007.

BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Eve. O Novo Espírito do Capitalismo, Tradução Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

BREVIGLIERI, M.; Trom, D. “Troubles et tensions en milieu urbain. Les épreuves citadines et habitantes de la ville”. In: CEFAI, D., PASQUIER, D. (Orgs.). Les sens du public: publics politiques et médiatiques. Paris: PUF, 2003. p. 399-416.

BREVIGLIERI, M. “Penser la dignité sans parler Le langage de la capacité à agir”. In: PAYET, J.- P.; BATTEGAY, A. La reconnaissance à l’épreuve. Explorations socio-anthropologiques. Lille: Presses Universitaires du Septentrion, 2008. p. 83-92.

BREVIGLIERI, Marc. “Pensar a dignidade sem falar a linguagem da capacidade de agir: uma discussão crítica sobre o pragmatismo sociológico e a teoria do reconhecimento de Axel Honneth”. Revista Terceiro Milênio, v. 6, n.1, p. 11-34, 2017. Disponível em: <http://www.cappuccinopress.com.br /portal/ index.php/revistaterceiromilenio/article/view/77>. Acesso em 15 jun. 2017.

BRODEUR, Jean-Paul. “Por uma sociologia da força pública: considerações sobre a força policial e militar”. Caderno CRH, v. 17, n. 42, 2006.

CAMPOS, Marilene de Souza. A Empresa como vocação: O SEBRAE e o empreendorismo na cultura da informalidade como problema público. Rio de Janeiro: IUPERJ, mímeo, 2003.

CATELA, Ludmila da Silva. Situação-limite e memória: a reconstrução do mundo dos familiares de desaparecidos da Argentina. São Paulo: Hucitec, Anpocs, 2001.

CEFAI, Daniel. “Como nos mobilizamos? A contribuição de uma abordagem pragmatista para a sociologia da ação coletiva”. Dilemas, p. 11-48, 2009.

____ (Org.). L’engagement ethnographique. Paris: Editions de l’EHESS, 2010.

____. “Opinion publique, ordre moral et pouvoir symbolique”. Espaces Temps. 2013a. Disponível em: http://www.espacestemps.net/articles/opinion-publique-ordre-moral-et-pouvoir-symbolique. Acesso em: 09 jan. 2016.

____. “L’expérience des publics: institution et réflexivité”. Espaces Temps.net, Travaux, 2013b. Disponível em: https://www.espacestemps.net/articles/lexperience-des-publics-institution-et-reflexivite/. Acesso em: 09 jan. 2016.

CEFAI, Daniel e TROM, Danny. Les formes de l’action collective (org.). Paris: Éditions de l’EHESS, 2001.

CEFAI, D.; JOSEPH, I. (Org.) L’héritage dupragmatisme. Conflits d’urbanités et épreuves de civisme. Paris: Éditions de l’Aube, 2002.

CEFAI, D.; MELLO, M. A. S.; MOTA, F. R.; VEIGA, F. B. (Org). Arenas Públicas: por uma etnografia da vida associativa. Niterói: UFF, 2011.

CEFAÏ, Daniel; TERZI, Cédric (Org.). “L’expérience des problèmes publics. Perspectives pragmatistes” Paris, EHESS, Raisons pratiques, 2012.

CRUZ, J. L. V.; TERRA, D. C. T. “Indústria Extrativa petrolífera fluminense e limites ao desenvolvimento regional”. Terceiro Milênio: Revista Crítica, v. 4, p. 31-44, 2015.

CRUZ, José Luis Vianna. Projetos nacionais, elites locais e regionalismo: desenvolvimento e dinâmica territorial no Norte Fluminense. 2003. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003.

____. “Fragmentação, Seletividade e Exclusão: impactos dos novos GPIs no norte do ERJ”. Anais do XII ENANPUR, Florianópolis, 2009.

DEWEY, J. La théorie de l’enquête. Paris: PUF, 1993 [1938].

____. Le public et ses problèmes. Publications de l’Universitéde Pau: Farrago/Editions Leo Scheer, 2003 [1927].

DIAZ, Paola. “Experiência pessoal e pública do desaparecimento forçado de um ser querido – O caso do Chile. Trabalho apresentado no I Colóquio Crítica e pragmatismo em Sociologia. Brasília, UNB, 2016.

____. “Les chemins de la publicisation de la torture au Chili”. SociologieS [En ligne], Dossiers, L’expérience latino-américaine de la sociologie pragmatique francofone, 2017. Disponível em: http://journals.openedition.org/sociologies/6281. Acesso em: 09 mar. 2018.

ELIASOPH, Nina. “Publics fragiles: une ethnographie de la citoyenneté”. In: CEFAÏ, Daniel et PASQUIER, Dominique (Orgs). Les sens du public. Publics politiques, publics médiatiques. Paris: Presses universitaires de France, 2003.

ELIASOPH, Nina. L’évitement du politique. Comment les Américains produisent l’apathie dans la vie quotidienne. Pàris: Économica, Etudes Sociologiques, 2010.

FARIAS, Juliana. Estratégias de visibilidade, política e movimentos sociais: reflexões sobre a luta dos moradores de favelas cariocas contra violência policial. 2007. Dissertação de Mestrado, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.

____. Governo de mortes: uma etnografia da gestão de populações de favelas no Rio de Janeiro. Tese de Doutorado, PPGSA/UFRJ, Rio de Janeiro, 2014.

FELTRAN, Gabriel de Santis. Fronteiras de Tensão. São Paulo: Editora da UNESP; CEM; CEBRAP, 2011.

FREIRE, Jussara. Sensos do Justo e Problemas Públicos em Nova Iguaçu. Tese de Doutorado, Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, 2005.

____. “Elevar a voz em uma ordem violenta: a indignação colocada à prova pelo silêncio”. In: MACHADO DA SILVA, L.A. (Org.). Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, FAPERJ, 2008.

____. “Quando as emoções dão formas às reivindicações”. In: COELHO, Maria Claudia e REZENDE, Claudia Barcellos (Orgs.). Cultura e Sentimentos Ensaios em antropologia das emoções. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2010. p. 168-196.

____. “Uma caixa de ferramentas para a compreensão de públicos possíveis: um arranjo de sociologias pragmatistas”. Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 12, n. 36, p. 720-736, 2013.

____. “‘Violência urbana’ e ‘cidadania’ na cidade do Rio de Janeiro: Tensões e disputas em torno das ‘justas atribuições’ do Estado. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, v. 7, n. 1, p. 73-94, 2014.

____. Problemas públicos e mobilizações coletivas em Nova Iguaçu. 1. ed. Rio de Janeiro: Garamond, 2016.

____. “Des émotions aux revendications. Voix et souffrance de «mères de victimes de violence policière» à Rio de Janeiro”. SociologieS, 2017. Disponível em: <http://sociologies.revues.org/6267#text>. Acesso em: 12 jun. 2017.

FREIRE, Jussara; RODRIGUES, N. B. “Problematizar a violência urbana e a ‘segurança pública’ em Campos: do direito à necessidade”. In: Anais 28ª Reunião Brasileira de Antropologia, 2012.

FREIRE, Jussara; SOARES, Viviany Férras da Motta. Gramática de Desenvolvimento e Contínua Expectativa De Modernidade: O Impacto Do Porto do Açu na Cidade de Campos. Confict, Essentia Editora, 2013.

FREIRE, Jussara; TEIXEIRA, Cesar Pinheiro. “Humanidade disputada: sobre as (des) qualificações dos seres no contexto de ‘violência urbana’ do Rio de Janeiro”. Revista Terceiro Milênio, v. 6, n. 1, p. 58-85, 2017. Disponível em: http://www.cappuccinopress.com.br/portal/index.php/revistaterceiromilenio/article/view/80. Acesso em: 17 jun. 2016.

FREITAS, Cleber Ferreira de; RIBEIRO, Tiago Azevedo Moço. Análise da política habitacional de Campos dos Goytacazes/RJ. A ação do programa morar feliz no conjunto habitacional do Parque Aldeia. Monografia (Licenciatura em Geografia). Instituto Federal Fluminense de Educação, Ciência e Tecnologia, Campos dos Goytacazes/RJ, 2013.

GARFINKEL, Harold. Studies in ethnomethodology. Cambridge: Polity Press, 1967.

GEERTZ, Clifford. O saber local. Novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis: Vozes, 1998.

____. AInterpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2004.

GOFFMAN, Erving. Comportamento em Lugares Públicos: notas sobre a organização social dos ajuntamentos. Petrópolis: Vozes, 2010.

____. Ritual de interação: ensaios sobre o comportamento face a face. Petrópolis: Vozes, 2011 [1967].

GREENE, Ricardo. Urbano “No Metropolitano”. Acta de Congreso. Santiago de Chile: Bifurcaciones, 2015.

GRILLO, Carolina Cristoph. Coisas da vida no crime: tráfico e roubo em favelas cariocas. Tese de doutoramento, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

GUSFIELD, Joseph R. The culture of public problems: drinking-driving and the symbolic order. Chicago: The University of Chicago Press, 1981.

____. La Culture des problèmes publics. L’alcool au volant: la production d’un ordre symbolique, Traduction et postface de Daniel Cefaï, Paris, Economica, coll. Études sociologiques, 2009.

HANNERZ, Ulf. Explorer la ville. Paris: Minuit, 1989.

IBGE. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo 2010. Disponível em: http://www.censo2010.ibge.gov. br/. Acesso em 23 fev. 2017.

LATOUR, Bruno. Petites leçons de sociologie des sciences.Paris: La découverte, 1993.

LEITE, Márcia Pereira. “Da ‘metáfora da guerra’ ao projeto de ‘pacificação’: favelas e políticas de segurança pública no Rio de Janeiro”. Revista Brasileira de Segurança Pública, v. 6, n. 2, p. 374-389, 2012.

MACHADO DA SILVA, Luiz Antonio. “Sociabilidade violenta: por uma interpretação da criminalidade contemporânea no Brasil urbano”. Sociedade e Estado, v. 19, n. 1, p. 53-84, 2004.

____; LEITE, Márcia Pereira; FRIDMAN, Luis Carlos. Matar, morrer, civilizar: o problema da segurança pública. Mapas (Monitoramento Ativo da Participação da Sociedade). Ibase/Actionaid/Ford Foundation Cd-rom: Rio de Janeiro, 2005.

____. “Violência urbana, sociabilidade violenta e agenda pública”. In: MACHADO DA SILVA, L.A (Org.). Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, FAPERJ, 2008.

____. Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, FAPERJ, 2008.

____. “Violência urbana”, segurança pública e favelas – o caso do Rio de Janeiro atual”. Cadernos CRH, Salvador, v. 3, n. 59, 2010.

____. “As UPPs, a linguagem da violência urbana e a sociabilidade no Rio de Janeiro”. In: SANTOS, Angela Moulin S. Penalva; MARAFON, Glaucio José & SANT’ANNA, Maria Josefina (org.). Rio de Janeiro: Um território em mutação. Rio de Janeiro: Gramma/FAPERJ, 2012.

____. A experiência das UPPs: Uma tomada de posição. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, v. 8, n. 1, p. 7-24, 2015.

MENEZES, Palloma Valles. “Os rumores da ‘pacificação’: A chegada da UPP e as mudanças nos problemas públicos no Santa Marta e na Cidade de Deus”. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, v. 7, n. 4, p. 665-684, 2014.

MISSE, M. “Crime, sujeito e sujeição criminal: aspectos de uma contribuição analítica sobre a categoria ‘bandido’”. Lua Nova, São Paulo, n. 79, p. 15-38, 2010.

MISSE, M; GRILLO, C. C.; TEIXEIRA, C. P.; NERI, N. E. Quando a Polícia Mata: Homicídios por “autos de resistência” no Rio de Janeiro (2001-2011). 2013.

MISSE, Michel. Malandros, marginais e vagabundos. A acumulação social da violência no Rio de Janeiro. Tese de Doutorado, IUPERJ, Rio de Janeiro, 1999.

NOEL, Gabriel D. “Nilo uno Nilo otro, sino todo lo contrario: las limitaciones del dualismo rural-urbano en el abordaje de La Región Costera Del Río de la Plata y algunas propuestas de reconceptualización”. Tessituras, Pelotas, v. 5, n. 1, p. 129-170, jan./jun. 2017.

PARK, Robert Erza. “Ecologia humana”. In: PIERSON, Donald (Org). Estudos de Ecologia humana. São Paulo: Martins, 1945. p. 21-37.

____. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano. In: VELHO, Gilberto (Org.). O Fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

PÓVOA, Fabiana Machado Rangel. A Municipalização da Política de Habitação Popular em Campos dos Goytacazes, RJ (1989-2001). Dissertação de Mestrado, UENF/PPGPS, Campos dos Goytacazes, 2002.

QUÉRÉ, Louis; TERZI, Cédric. “Pour une sociologie pragmatiste de l’expérience publique”. SociologieS, 2015. Disponível em: <https://sociologies.revues.org/4949>. Acesso em 09 jun. 2015.

RODRIGUES, Natália Barros. Provas da democracia e Democracia colocada à prova: participação e tomadas de vozes nos Cafés e Conselhos Comunitários de Segurança Pública em Campos dos Goytacazes. Monografia (Graduação em Serviço Social), Universidade Federal Fluminense, 2012.

SIQUEIRA, Carolina de Oliveira. Territórios Proibidos? Uma análise das circulações e práticas sociais de jovens das periferias de Campos dos Goytacazes/RJ. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Centro de Ciências do Homem, Campos dos Goytacazes, RJ, 2016.

SCOTT, Marvin B.; LYMAN, Stanford M. “Accounts. Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, v. 1, n. 2, p. 139-172, 2008 [1968].

SNOW, David. “Analyse de cadres et mouvements sociaux”. In: CEFAÏ, Daniel e TROM, Danny. Les formes de l’action collective (org.). Paris: Éditions de l’EHESS, 2001.

SOARES, Viviany Ferrás. Proteção social e política habitacional em Campos dos Goytacazes. O Programa Morar Feliz sob uma perspectiva interdisciplinar. 2014. 58 fls. Monografia (Graduação em Serviço Social), Universidade Federal Fluminense, 2014.

SOUZA, Suellen André de. Existir no Tráfico: percepções e vivências dos jovens traficantes de drogas da favela Baleeira. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Centro de Ciências do Homem, Campos dos Goytacazes, RJ, 2010.

SPECTOR, Malcolm e KITSUSE, John. “Sociologie des problèmes sociaux. Un modèle d’histoire naturelle”. In CEFAI, Daniel e TERZI, Cédric. L’Expérience des problèmes publics, pp. 81-107, [1973], 2012.

STAVO-DEBAUGE, Joan; TROM, Danny. “Le pragmatisme et son public à l’épreuve du terrain. Penser avec Dewey contre Dewey”. In: KARSENTI; QUERE, L. (Org.) La croyance et l’enquête. Aux sources Du pragmatisme. Paris: Éditions de l’EHESS, Raisons pratiques, 15, 2004.

STAVO-DEBAUGEJ. “Des ‘événements’ difficiles à encaisser. Um pragmatisme pessimiste”. In: CEFAÏ, D.; TERZI, C. (Orgs.). L’Expérience des problems publics. Paris: Éditions de l’EHESS, série Raisons Pratiques 22, p. 191-223, 2012.

STRAUSS, A. La Trame de la Négociation. Paris: L’Harmattan, 1992.

THOMAS, William I.; ZNANIECKI, Florian. El Campesino Polaco en Europa y en América. Madri: Boletim Oficial del Estado/Centro de Investigaciones Sociológicas, 2004, 422p.

TRASHER, F. M. The gang: a study of 1,318 gangs in Chicago. Chicago: University of Chicago Press, 1927.

VIANNA, A.; FARIAS, J. A guerra das mães: dor e política em situações de violência institucional. Cadernos Pagu, Campinas, n. 37, p. 79-116, 2011.

Matérias e Jornais Consultados

Folha 1

https://tinyurl.com/2fc5dnd2. Acesso em 06 fev. 2017.

G1

https://tinyurl.com/4vtpmxac. Acesso em 15 jul. 2016.

https://tinyurl.com/yz4tw5w3. Acesso em 02 fev. 2017.

Notícia Urbana

https://tinyurl.com/9c8ad32f. Acesso em 01 mar. 2017.

O Diário NF

https://tinyurl.com/52bjart2. Acesso em 02 mar. 2017.

Terceira Via

https://tinyurl.com/2hf282d6. Acesso em 07 mar. 2017.

https://tinyurl.com/yp4jjz23. Acesso em 19 dez. 2016.

https://tinyurl.com/3cnb923t. Acesso em 24 set. 2016.

Ururau

https://tinyurl.com/3dweka44. Acesso em 24 set. 2012.


  1. Campos é o mais extenso município do estado do Rio de Janeiro (4.032 km²), dividido administrativamente em vinte distritos, e tem a mais numerosa população do interior, estimada em 487.186 habitantes (IBGE, 2016). Os royalties representam a principal fonte de arrecadação dos recursos municipais. No entanto, estas fontes diminuíram significativamente após a queda do preço do barril do petróleo e da diminuição do volume de negócios da Petrobras a partir de 2015. Além das drásticas mudanças municipais geradas pela “crise do petróleo”, que justificavam, segundo os administradores municipais, a interrupção de uma série de políticas sociais em torno das quais diversos programas foram planejados — como o programa habitacional Morar Feliz, central na análise —, pode-se ainda destacar o novo quadro da administração municipal com a vitória do candidato do Partido Popular Socialista (PPS), Rafael Diniz, nas eleições municipais de 2016. Em uma campanha eleitoral explicitamente apresentada como o “fim da era Garotinho” por e ele e pela opinião pública, foi eleito após dois mandatos de Rosângela Barros Assed Matheus de Oliveira (“Rosinha Garotinho”, prefeita de Campos, de 2009 a 2016) com uma expectativa de profundas mudanças de formas de governo pelo seu eleitorado. Com efeito, o atual prefeito havia prometido, desde sua campanha, uma ruptura sobre as “tradicionais” formas de governar a cidade. Após sua posse, a imediata integração de professores universitários, pesquisadores e alunos das principais instituições acadêmicas de Campos na sua equipe gestora parece representar, para este prefeito, o início desta “grande transformação”.
  2. Guarus é um distrito de Campos que compreende toda a área que se localiza na margem esquerda do rio Paraíba do Sul, aglomerando vários bairros.
  3. Sobre as representações campistas do distrito de Guarus e as avaliações morais relacionadas com o habitar neste “outro lado” do rio Paraíba do Sul, ver Assis (2016).
  4. Zona geográfica, de planície, do município de Campos que abrange cinco distritos (aqueles localizados entre o distrito sede e a orla): Goytacazes, São Sebastião, Tocos, Santo Amaro e Mussurepe.
  5. Sobre a noção de sociabilidade urbana e sua articulação com a linguagem da violência urbana, remeto-me às contribuições de Machado da Silva (2008, 2010, entre outros).Segundo este autor: […] a partir do reconhecimento de uma “sociabilidade violenta”, a linguagem dos direitos deixou de articular de maneira unívoca o conflito social (e os medos a ele associados), passando a competir com a linguagem da violência urbana, que tematiza os sentimentos difusos de insegurança que pesam sobre as expectativas de prosseguimento pacífico das rotinas diárias e geram a mentalidade de “segurança apesar dos outros”, no lugar da “segurança com os outros”, para usar as conhecidas expressões de Bauman (2000, 2001) na sua interpretação do “inimigo próximo” (Machado da Silva, 2010, p. 288).
  6. Garantido.
  7. Sobre a Sociologia dos problemas públicos, Cf., entre outros, Cefaï e Joseph (2002) e Cefaï (2013).
  8. Para uma apresentação desta obra de Gusfield, Cf. Introdução de Daniel Cefaï no livro traduzido para o francês (Gusfield, 2009).


Deixe um comentário