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Comunicaçao, mídia e mobilidade

Maria Alice de Faria Nogueira
y Fernanda da Costa Portugal Duarte

Comunicação, do latim communicare, significa ‘partilhar algo com alguém’. A criação coletiva e partilha comum de significados e práticas culturais se dá atravessada por trocas simbólicas, ideologias e mediações materiais. Enquanto prática simbólica, o agir comunicacional se realiza nas trocas de signos, ideias, imagens e informações em movimento. Enquanto prática cultural, o agir comunicacional mobiliza ideologias, valores, articula disputas e identidades por meio da construção de redes de afetos, opressão e resistência. Enquanto prática material, o agir comunicacional toma forma nas mediações tecnológicas e infraestruturas e molda a construção social dos espaços. Ao considerar estas dimensões, a entrada sobre comunicação, mídia e mobilidade tem como ponto de partida a compreensão epistemológica da comunicação como fundada nas noções de fluxo, negociação e mediação.

Nesta entrada demonstramos como estudos contemporâneos da comunicação se articulam com a virada da mobilidade na medida em que reforçam uma dimensão performativa das suas epistemologias científicas. O desenvolvimento deste argumento demanda que deixemos de lado perspectivas positivistas-funcionalistas que retratam a comunicação como um processo mecânico e linear de transmissão de mensagens de um emissor para um receptor (ver Movilidad de Políticas urbanas). Também demanda que deixemos de lado uma perspectiva tecnocêntrica que enfatiza um determinismo tecnológico sobre os efeitos das mídias. Seguimos pesquisadores que adotam perspectivas interdisciplinares da comunicação (Wiley e Packer, 2010; de Souza e Silva, 2006; Sheller, 2013, Sharma, 2012; Lemos, 2009; Miller, 2018) e desenvolvem um olhar multi-escalar dentre as diversas formas de comunicação e mobilidade, atento à produção coletiva de sentidos, mediações técnicas, movimentos de territorialização e formas de exercício de controle e vigilância.

Recuperamos as contribuições latino-americanas que, desde 1960, se atentam para o imperialismo norte americano e europeu na formulação teórica da comunicação, e voltam-se para as especificidades locais para desenvolver perspectivas teóricas próprias (Gobbi, 2006). Por fim, apontamos para alguns desafios contemporâneos das práticas comunicacionais e de mobilidade na América Latina com destaque para suas mediações técnicas e políticas, e suas potencialidades para mobilização social.

A materialidade comunicativa das infraestruturas

A crítica ao modelo funcionalista foi ponto de atenção de perspectivas no surgimento dos estudos culturais na América Latina nas décadas de 1960, assim como em outras partes do mundo. Na mesma época, nos Estados Unidos, McLuhan postulava que “o meio é a mensagem” ([1964] 1969), chamando a atenção para a importância do médium para o processo de comunicação e, dessa forma, jogando luz no caráter histórico-cultural e sociopolítico dos media na construção de uma nova paisagem midiática.

…A “mensagem” de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas. A estrada de ferro não introduziu movimento, transporte, roda ou caminhos na sociedade humana, mas acelerou e ampliou a escala das funções humanas anteriores, criando tipos de cidades, de trabalho e de lazer totalmente novos (McLuhan, 1969: 22).

Nesta mesma linha, James Carey (2008) critica uma certa obsessão da perspectiva funcionalista com o aspecto da eficiência no estudo da comunicação. A partir de um estudo de caso do telégrafo, Carey analisa como esta infraestrutura imbrica-se em uma série de mudanças sociais e culturais. Se vista por uma perspectiva funcionalista, o telégrafo seria enquadrado por uma retórica progressista que associa seu impacto à maior eficiência dos processos de comunicação. Visto deste modo, a relação entre comunicação e mobilidade estaria limitada ao deslocamento físico dos pacotes de cartas, ou dos pulsos elétricos nos fios, em um mundo que precisa desenvolver tecnologias mais rápidas para as trocas comunicacionais. Carey sugere que analisemos as relações entre infraestruturas e práticas comunicacionais por uma dimensão ritualística. A rede telegráfica instalada a partir do século xix implica em mudanças sociais e culturais que moldam, por exemplo, a padronização da linguagem da imprensa moderna. Como havia grande poder e controle em ser capaz de comunicar ‘notícias’ a grandes distâncias, as mensagens entregues deveriam ser compreensíveis por todos: as mensagens deveriam ser despojadas de expressões idiomáticas locais e regionais. Carey argumenta, portanto, que o telégrafo levou ao surgimento de um jornalismo mais “objetivo”; ou melhor, que os jornalistas começaram a ver a objetividade como possível e desejável. Nesse sentido, Carey vê a experiência da leitura do jornal menos como um gesto de disseminação da informação, e mais como uma representação compartilhada sobre a visão de um acontecimento; […] sob o prisma da comunicação ritualística, a notícia não é informação, mas drama. Ela não descreve o mundo, mas retrata uma arena de encenação e foco dramático. Ela existe apenas dentro de um tempo histórico e nos convida, muitas vezes de forma indireta, à participação por meio da aceitação de funções sociais dentro do drama (Carey, 2008: 17. Tradução livre).

Se relocalizarmos o mesmo gesto epistemológico de Carey para a implementação do telégrafo no Brasil em 1852, perceberemos que: (1) a instalação dessa infraestrutura foi motivada pelas políticas do segundo reinado para controle e denúncias sobre o recém proibido tráfico de escravos; (2) a implementação ampliada do telégrafo apenas se deu durante a Guerra do Paraguai diante da necessidade de estabelecer rápida comunicação entre as frontes; (3) a possibilidade de comunicação por cabos submarinos reconfigurou as relações diplomáticas brasileiras por facilitar acesso direto aos países europeus, sem intermediação de Portugal (Da Silva, 2011). Localizar comunicação e mobilidade como uma rede de mútua afetação, materializada no telégrafo, nos permite mapear as diversas implicações e desdobramentos das materialidades das infraestruturas (ver Infraestructuras).

Quase dois séculos se passaram desde a implementação do telégrafo, e desde então outras infraestruturas surgiram para a mediação das práticas comunicacionais e de mobilidade. O mundo sócio material contemporâneo é como um grande conglomerado de complexos e interdependentes sistemas em rede que apoiam, suportam e organizam a vida em movimento, em diversas frentes e condições espaço-temporais. Jason Miller (2018) argumenta que a pervasividade e ubiquidade do ecossistema midiático contemporâneo faz com que os sujeitos sejam constantemente interpelados por mídias móveis: da intimidade das interfaces móveis individuais dos aplicativos e computadores vestíveis que monitoram a performance do corpo, às interfaces móveis públicas que monitoram e governam a ocupação dos espaços públicos por esses corpos.

Um dos exemplos atuais desse tipo de dinâmica pode ser visto na operação das chamadas ‘cidades inteligentes’, como no caso do Rio de Janeiro. Conhecido como um serviço de gestão urbana, o Centro de Operações da Prefeitura do Rio de Janeiro (COR) tem como objetivo gerir os espaços de fluxos da cidade, assim como informar em tempo real os cidadãos sobre as condições de circulação e mobilidade em horários de pico de trânsito, de chuva torrencial ou em momentos de acidentes, relacionando os deslocamentos físico dos transportes urbanos com a mobilidade informacional dos cariocas via aplicativos móveis (Freitas e Nogueira, 2020). Ao longo de sua atividade, o complexo arranjo composto pela integração entre aplicativos de trânsito, geolocalização e informação nas redes sociais –esse último com especial engajamento dos transeúntes–, transformou o ‘serviço’ em um novo sistema de mediatização do espaço urbano pelo monitoramento e vigilância dos corpos, transporte e informação em movimento. Como um novo ambiente de mediatização da experiência urbana, o COR cria novos modos de se experimentar a cidade e, como isso, joga luz nas desigualdades interseccionais e regimes de mobilidade (Sheller, 2018; Freire-Medeiros e Lage, 2020) que marcam as práticas de circulação inauguradas com o uso dos sistemas inteligentes de gestão urbana (Freitas e Nogueira, 2020). Tal perspectiva ecológica destaca a inseparabilidade entre mobilidade e mediação, na medida em que a experiência da mobilidade é contingente às condições materiais da própria experiência de deslocar-se.

Ao pensar a comunicação por um viés menos ‘midiacêntrico’, que relegaram a análise do movimento de pessoas e mercadorias aos estudos do transporte, Morley (2017) traz para a discussão questões de mídia e comunicação analisadas em um quadro sócio-histórico mais amplo, no interior do qual a materialidade da infraestrutura – que coloca também em circulação pessoas, objetos, doenças, resíduos e capital – deve ser considerada como parte constituinte fundamental da própria comunicação e do que ela, imaterialmente, carrega como informação. Nesse sentido, as infraestruturas comunicam e são, elas mesmas, parte da mensagem.

Ao pensarmos a partir de uma perspectiva histórica, levando em consideração os instrumentos de transmissão e as infraestruturas materiais de transporte [de pessoas e objetos] de seu tempo (Morley, 2017), podemos notar que a digitalização da vida cria novas camadas e ambientes de mediação, para além das infraestruturas materiais necessárias que sustentam, vigiam ou retêm os fluxos tais como estradas e aeroportos, rede elétrica e cabos de fibra óptica, assim como barreiras aduaneiras e campos de refugiados (Freire-Medeiros e Lage, 2020). No tempo presente, circulação e de (i)mobilidade de dados e informações escapam das grandes ou mais óbvias estruturas e se infiltram no cotidiano em diferentes escalas.

Discussões recentes sobre mobilidades e mídias locativas (de Souza e Silva 2006; Duarte, 2018; Lemos, 2009) argumentam que tecnologias como GPS e GIS geram novas relações com espaços físicos e geográficos na medida em que a prática espacial do movimento está entrelaçada com processos de coleta e processamento de dados digitais. Ao mesmo tempo em que a criação desses territórios informacionais, ou espaços híbridos, implicam na identificação dos sujeitos e de seus modos de mover traduzidos em dados digitais, também implica na criação de uma forma de conhecimento, uma forma de conhecer o mundo espacialmente que é intrínseca ao protocolo de mineração de dados. Os processos de coleta e processamento de dados, e a infraestrutura ubíqua das redes de comunicação e informação, atentam para a necessidade de repensarmos a dinamicidade da relação entre as infraestruturas e os processos.

Susan Leigh Star (1999), por exemplo, advoga por uma abordagem etnográfica ecológica para o estudo das infraestruturas e ações humanas, de modo a reconhecer a sua condição relacional. Por exemplo, para um arquiteto, um conjunto de escadas é um componente de um projeto de estrutura e uma infraestrutura de engenharia. Já para uma pessoa em cadeira de rodas, um lance de escadas é um obstáculo. Infraestrutura não é uma coisa desprovida de significado, nem um artefato vazio e estável; é de fato fundamentalmente relacional como torna-se infraestrutura em relação a práticas específicas de uso.

Tal condição relacional é destacada na nova arquitetura informativa contemporânea visto que amplia a noção de infraestrutura e conecta em rede pessoas, objetos, tecnologias, trajetórias, informação, práticas e espaços (Lemos, 2013; Simone, 2014; Lemos e Di Felice, 2014). Nessa visada, objetos cotidianos tornam-se infraestrutura, em uma visão mais ampliada dos meios de comunicação. Exemplos de bonecas, como a Barbie Video Girl Doll; de aspirador de pó, como o Roomba 980 (Domingues, 2019), assim como de meios de transporte, como o carro Novo Gol, da Volkswagen (Nogueira, 2021) e os carros autônomos (Hildebrand e Sheller, 2018), ganham status de mídia, ou seja, tornam-se veículos de captura e transmissão de informações ao fazerem parte de uma rede entre humanos e não-humanos que potencializa a comunicação e a mobilidade da informação, posta em circulação por meio de uma rede de medialidades móveis (Sheller, 2013).

Ao mesmo tempo, os meios de transporte e de comunicação, incluindo as tecnologias digitais móveis, envolvem mobilidades que são constrangidas por imobilidades infra estruturais e de acesso que afirmam e reforçam desigualdades socialmente estruturadas. Principalmente no Brasil, com disparidades no que diz respeito ao acesso à internet, por um lado, e ao sistema de transporte público, do outro, a mobilidade deve ser politizada por revelar formas de poder, controle, monitoramento e vigilância cotidianas.

Parece haver hoje uma correlação e ampliação dos poderes já que quanto maior a potência de mobilidade informacional-virtual, maior é a mobilidade física e o acesso a objetos e tecnologias. Os que podem se movimentar mais facilmente pelo ciberespaço são também os que têm maior autonomia para o deslocamento físico e vice-versa. A cultura da mobilidade não é neutra, nem natural (Lemos, 2009: 29).

Retornando a proposta de pensar a relação entre comunicação e transporte em uma perspectiva histórica, Morley afirma que “questões de transporte e tecnologia devem ser analisadas em termos de redes de infraestrutura de diferentes tipos que permitem (ou inibem) diferentes modos de atividade para diferentes setores da população” (2017: 15), dando pistas sobre as mobilidades diferenciadas e mobilidades injustas (Sheller, 2018) as quais inviabilizam ou limitam o acesso, a capacidade e a apropriação do potencial de movimento (Kaufmann, 2003) que marcam as práticas de mobilidades –de pessoas, objetos, informações, capital, resíduos e doenças– contemporâneas. As infraestruturas ampliadas, nesse sentido, comunicam e informam também socialmente.

Comunicação em movimento e mobilizações sociais na perspectiva latino-americana

Tendo como pano de fundo o contexto sociocultural e político latino-americano destacamos perspectivas de comunicação e mobilidade que ressaltam aspectos identitários e culturais da América Latina, que a partir da ascensão de ditaduras, dos meios de comunicação de massa, e da emergência de lutas políticas, se voltam para a centralidade da cultura nas relações de poder (Canclini, 1990) e nas formas de mediação (Martín-Barbero, 1987), nas formas de comunicação participativa, popular e comunitária (Freire, 1985; Beltrán, 2000; Kaplún, 1985; Reyes Matta, 1978).

Gobbi (2006) nos lembra que a pesquisa em comunicação na América Latina emergiu na década de 1960 a partir da necessidade de compreender nossa própria identidade cultural inserida em um cenário de lutas políticas internas e externas, contra regimes autoritários e formas de dependência colonial. Internamente, vários países da América Latina eram tomados por revoluções populares no campo contra as elites dominantes e pelo surgimento dos movimentos operários nas cidades, diante do não atendimento de demandas pela burguesia que detinha o poder. A ascensão de ditaduras militares, para manter o controle interno nesses países era tensionada (e patrocinada) pelos interesses imperialistas no contexto da Guerra Fria. Diante deste cenário sociopolítico e das heranças culturais próprias resultadas dos cruzamentos de tradições europeias, meso-sul-americanas e africanas, pesquisadores latino-americanos apontaram a necessidade de desenvolver uma perspectiva científica atenta aos problemas comunicacionais de nossa região (ver Historia, cultura y movilidad).

Os modelos teóricos norte-americanos e europeus se mostraram insuficientes para abarcar a realidade sociopolítica da América Latina. A escola positivista-funcionalista americana tinha como objetivo mensurar efeitos dos meios de comunicação de massa sobre o público visando uma construção persuasiva mais eficiente das mensagens. Tal modelo não abria espaço para uma recepção crítica das mensagens e o reconhecimento da atuação ativa dos sujeitos na reestruturação da realidade. Já os estudos sociológicos e linguísticos europeus se desdobraram a partir de uma tradição teórica-conceitual que é incompatível com a realidade e os desafios do contexto latino-americano. Barranquero (2008) argumenta que, em contraste com as perspectivas estrangeiras, a perspectiva latino-americana dos estudos de comunicação é enraizada na comunicação posta em prática, como elemento articulador para a mobilização dos sujeitos na transformação da realidade social, e não é reduzida às instituições ou veículos de comunicação em massa. Por este motivo, as perspectivas latino-americanas partem do reconhecimento de que toda ação comunicativa é fundamentalmente ideológica e política, e que as práticas cotidianas comuns, em seus contextos culturais, devem ser a base empírica para a pesquisa comunicacional. Com esta agenda, definem um foco para o estudo da comunicação como uma dinâmica social e cultural –e não apenas transmissionista ou representativa– e estabelecem um entendimento da comunicação a partir de um compromisso político com a democracia, fundado sobre o preceito de que as trocas dialógicas empoderam sujeitos e sua capacidade crítica para engajar e intervir sobre a realidade.

Ao ampliarmos o entendimento sobre os objetos de estudo da comunicação para além da sua capacidade representativa e a função persuasiva dos ‘produtos comunicativos’ –como revistas, anúncios publicitários e textos jornalísticos–, tendemos a ultrapassar a visão limitadora e ensimesmada dos estudos de comunicação, nos permitindo perceber sua inserção em processos sociais, culturais e materiais ampliados. Mais recentemente, França esclarece que “[…] quando se pergunta pelo objeto da comunicação, não nos referimos a objetos disponíveis no mundo, mas àqueles que a comunicação, como conceito, constrói, aponta, deixa ver” (2001: 42). França afirma ser preciso desenvolver um olhar comunicacional sobre esses objetos, e com isso, uma epistemologia própria da comunicação mais atenta às dinâmicas socioculturais que privilegia uma perspectiva da interação dos processos de produção e compartilhamento de sentidos entre sujeitos. Tal abordagem se interessa pela análise da comunicação em movimento, pelo estudo de como os diferentes fluxos e as diversas interações e mediações atualizam a relação entre sujeitos, colocando-os em situações de comunalidade e diferença para que os sentidos sejam construídos.

Reconhecemos pontos em comum entre uma perspectiva sociocultural, interacional e performativa da comunicação e a virada das mobilidades (Urry, 2000; Urry, Sheller, 2006), na medida em que ambas reconhecem o movimento como qualidade interna que anima a vida social. Se, nas ciências sociais, isso implica em olhar para a ‘sociologia além das sociedades’ (Urry, 2000), na comunicação isso implica em explorar suas capacidades de ‘mobilizar-ação’ em fluxo, ao negociar sentidos em mediações múltiplas e escalares.

Barranquero (2008) afirma que a América Latina é o continente pioneiro na chamada comunicação participativa, como as rádios comunitárias dos mineiros na Bolívia que já em 1947 promoviam uma conexão direta com a classe rural de trabalhadores para a defesa dos seus direitos diante da exploração das oligarquias mineiras e para a organização sindical. De uma forma geral, são vários os momentos em que as formas de ocupação dos espaços físicos, o exercício da (i)mobilidade e a apropriação de formas de comunicação foram tomadas como instrumento da luta política na América Latina. Destacamos aqui o exemplo das Jornadas de Junho de 2013 (Duarte, 2020), como uma demonstração de como múltiplas articulações entre mobilidades físicas dos corpos, apropriações de mídias móveis, plataformas de comunicação, e ocupação do espaço da cidade foram arranjadas para materializar o descontentamento com políticas públicas no Brasil nos anos que antecedem os megaeventos da Copa do Mundo FIFA 2014 e Jogos Olímpicos Rio 2016. Durante as Jornadas de junho, as ruas e as redes de comunicação foram ocupadas por cidadãos insatisfeitos, que usaram uma ecologia de infraestruturas de mobilidade (smartphones, drones, redes de dados, wifi, plataformas de mídias sociais, as ruas, veículos de transporte público, espaços de circulação da cidade, entre outros) para registrar, divulgar imagens dos protestos, exigências dos movimentos políticos, reportar violência policial e coordenar as logísticas das manifestações. Na medida em que os protestos se desenrolavam, as narrativas sobre os acontecimentos eram construídas ao vivo e de maneira descentralizada, na mesma velocidade em que repórteres-cidadãos publicavam informações em suas plataformas de preferência.

Urry (2007) já apontava que o uso dos smartphones implicava em ter a vida handy, ou seja, ao alcance das mãos, na medida em um só dispositivo congrega um grande volume de informações pessoais e personalizadas. Estudos sobre mídias móveis têm expandido suas agendas de investigação para refletir sobre como a recente arquitetura pervasiva e ubíqua dos objetos e espaços ‘inteligentes’ afeta as relações entre comunicação e mobilidade. Na medida em que a conectividade é constantemente facilitada por redes heterogêneas (redes wifi, bluetooth, ethernet, mesh etc.), e por vários pontos de acesso (desktop, tablets, notebooks, smartphones, vestíveis, sensores etc.), não faz mais sentido manter uma relação de primazia da dimensão off-line sobre a on-line; ou manter uma relação diádica entre práticas móveis e fixas.

Neste contexto, grupos como Mídia NINJA e BH nas Ruas empregaram táticas de ativismo midiático e jornalismo móvel de forma a descentralizar a ação dos dispositivos móveis para abordar como a comunicação– entendida como forma de mediação e mobilização –implica articular várias escalas e modos de mobilidade –das pessoas, imagens, informação e objetos– definidos por Urry (2007) como pragmáticas para se experimentar (e para se refletir sobre) a vida contemporânea ‘em movimento’.

Apontamentos finais

A vida na palma das mãos hoje implica o engajamento entre humanos e objetos híbridos ou ‘trecos móveis’ (Nogueira, 2021) em uma relação amalgamática evidenciada na dissolução das fronteiras entre os sujeitos e as vidas doméstica, social, cívica ou profissional, que podem ser experimentadas em modos oscilantes de presença ou de ausência. Se, por um lado, a facilidade de circulação de mensagens e informação cria novas práticas de consumo ao proporcionar certa conveniência para o consumidor; por outro lado, abre espaço para formas mais eficazes de controle, vigilância, desinformação e fake news, assim como para a precarização das formas de trabalho que agregam práticas de transporte e de presença digital (ver Trabajos móviles digitales).

Em contrapartida à visão eurocêntrica dos estudos das mobilidades que, como já mencionado, não dão conta da complexidade do cenário sociocultural, econômico e político da América Latina e de outros países emergentes do chamado Sul Global, pesquisadores latino-americanos têm investigado práticas de mobilidades alternativas (Nogueira, 2022) e de apropriação criativa das redes móveis. Tais práticas criticam o fascínio e uma ingenuidade progressista em torno das perspectivas futuras trazidas pelas tecnologias móveis que emergem na América Latina a partir da década de 1990. Instalações artísticas com celulares e intervenções urbanas com mídias locativas (Beiguelman e La Ferla, 2011; Brunet, 2008) chamam atenção sobre as implicações da adoção de sistemas globais de organização do espaço, como GPS e GIS. Se por um lado facilitam práticas de mobilidade ao padronizar geolocalização digital, por outro viabilizam formas de vigilância em diversas escalas, dos espaços íntimos dos corpos que portam os celulares, aos espaços macro das fronteiras entre países. Práticas de hackeamento e subversão de telefones celulares, smartphones, sistemas de informações digitais marcam a emergência de uma cultura criativa de práticas tecnológicas móveis, consolidada pela criação de festivais de arte (Duarte & de Souza e Silva, 2017), e design para inovação voltados para solução de problemas locais (de Souza e Silva e Xiong-Gum, 2020).

Ao buscarem soluções de circulação e deslocamento de pessoas, mercadorias, ideias e informação em situações de dificuldades econômicas, desequilíbrios de poder e (i)mobilidades cotidianas, grupos vulneráveis de cidades como São Paulo (Nogueira e Borges, 2022), Buenos Aires (Zunino Singh y Velázquez, 2022), Santiago do Chile (Jirón, 2022) e Kisumu, no Quênia (Nyachieo e Kayi, 2022), colocam em evidência as desigualdades socioeconômicas, políticas e culturais estruturais que permeiam a relação entre a comunicação e o movimento nas periferias urbanas, ainda mais afetadas pela pandemia de Covid-19 e seus desdobramentos globais. 



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