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Humor em tempos digitais: entre o velho e o novo

Cellina Rodrigues Muniz y Sírio Possenti

Introdução

Não há dúvida de que, em termos de produção e circulação da linguagem, vivemos a era da “revolução digital” (cf. Paveau, 2021, p. 27):

Qualquer que seja o nome, revolução, transformação ou conversão, as ações e os efeitos do digital estão aí, o uso das tecnologias digitais, da internet e dos objetos conectados sendo progressivamente integrados a nossas existências, pelo menos nas áreas culturais, sociais e geográficas nas quais as ferramentas informáticas e as tecnologias digitais puderam se desenvolver.

Quais análises podem ser feitas do humor nesse contexto de transformação? Sabe-se que, como condição universal da humanidade, a verve humorística atravessa diferentes fases da história desde a Antiguidade e já permitiu muitas reflexões teóricas[1]. Mas quais especificidades do humor podem ser apontadas na atualidade marcada pela conexão digital que favorece uma comunicação simétrica, em que “aqueles que tomam parte na comunicação não consomem simplesmente a informação passivamente, mas sim a geram eles mesmos ativamente” (Han, 2018, p. 16)?

Com efeito, qualquer um, em qualquer lugar e a qualquer momento, por meio de ferramentas tecnológicas cada vez mais acessíveis, pode criar e fazer circular, de maneira “viralizada”, um meme, um vídeo cômico ou um perfil de humor em uma das muitas redes sociais existentes[2].

A partir disso, cabe indagar se há diferenças efetivas nas materialidades humorísticas cuja produção e circulação ocorrem na contemporaneidade digital profundamente atravessada pela “hipercomunicação” (Han, 2018).

A partir de uma perspectiva discursiva (Possenti, 2010, 2018)[3] e da seleção de alguns gêneros humorísticos (memes, vídeos e postagens em geral) partilhados em redes sociais diversas (instagram, facebook, whatsapp) e coletados no ano de 2021, nosso objetivo é explicitar as condições de produção do humor nesses materiais digitais, considerando os seguintes parâmetros: 1) produção e circulação; 2) cenografias e 3) tipos, temas e técnicas.

Antes de apresentar alguns dos exemplos a partir dos quais propomos algumas generalizações, discorremos brevemente acerca desses critérios.

Alguns critérios de análise

Produção e circulação do humor

Salgado (2020), tomando a literatura produzida na esfera digital como objeto, faz uma importante observação que também é válida para o caso do humor:

Desde 2005, com o advento das plataformas editáveis que nos deram, a cada um de nós, um certo lugar de autoria (ou, pelo menos, de polo da produção comunicacional), novos gêneros surgiram ou remodelaram-se os já estabelecidos (Salgado, 2020, p. 4).

Usualmente, nos novos meios de comunicação se produzem mudanças nas práticas discursivas, tal como já sugeriu Maingueneau (2013) há algum tempo:

Hoje, estamos cada vez mais conscientes de que o médium não é um simples “meio” de transmissão do discurso, mas que ele impõe coerções sobre seus conteúdos e comanda os usos que dele podemos fazer. O médium não é um simples “meio”, um instrumento para transportar uma mensagem estável: uma mudança importante do médium modifica o “conjunto de um gênero de discurso” (Maingueneau, 2013, pp. 81-82).[4]

Assim, é possível estabelecer um paralelo com o que Paveau designa de “tecnodiscursos”, isto é, discursos nativos da web cuja dimensão técnica é constitutiva[5]. Segundo essa autora, seis traços caracterizam esses discursos moldados em dispositivos técnicos como computadores, tablets e celulares (Paveau, Costa & Baronas, 2021, pp. 19-20):

1. A composição: a matéria do discurso online é a combinação do linguageiro e do técnico, mas também do escrito, do som, da imagem, animada ou composta, ainda, de modo sincrético;

2. A deslinearização: a hipertextualidade implica que os tecnodiscursos incluam as vias de acesso a outros discursos, numa espécie de labirinto discursivo;

3. A ampliação: as funções conversacionais da web e as ferramentas de escrita colaborativa simultânea desenvolvem os conteúdos tanto quanto os próprios enunciadores;

4. A relacionalidade: na web, todas as produções discursivas estão relacionadas entre si e com as máquinas, e só existem a partir da subjetividade do internauta;

5. A investigabilidade: os tecnodiscursos estão inscritos na memória da rede e podem ser pesquisados e redocumentados, seus metadados são internos, pois se inscrevem no código;

6. A imprevisibilidade: os enunciados digitais nativos são tratados tanto pelos algoritmos como pelos internautas de modo imprevisível para seus produtores.

De fato, os muitos recursos desenvolvidos com o advento e progresso dos meios digitais tornaram as condições de produção e de circulação de textos em geral (que incluem os textos humorísticos) muito menos restritas. Assim, a autoria em diversos campos discursivos manifesta-se com mais facilidade e visibilidade, a ponto de, inclusive, muitos desses sujeitos autores, a partir de sua estreia e difusão na internet, consagrarem-se como profissionais[6].

Acrescente-se ainda o aspecto da rapidez com que textos da web circulam, ou melhor, “viralizam”. Como ilustram alguns exemplos que consideraremos a seguir, talvez se possa dizer que a principal diferença em relação aos meios tradicionais de criação e de divulgação é a rapidez com que textos humorísticos relativos a acontecimentos, mesmo pontuais, são criados, curtidos e compartilhados. Ao lado da maior velocidade de circulação, ocorre frequentemente que o “prazo de validade” de tais textos é mais efêmero[7].

É de se indagar, sobretudo em relação à composição: para além da multimodalidade (a mistura entre escrita, áudio, imagem – como, por exemplo, o uso de emoticons, gifs, stickers etc.) e da emergência de novos gêneros (memes, sobretudo), o que é efetivamente “novo” em matéria de humor nas redes?

Cenografias enunciativas

A cenografia, tal como postula Maingueneau (2006), é a cena diretamente mostrada ao interlocutor, diferentemente da cena englobante, de caráter pragmático (que diz respeito ao tipo de discurso, tal como o publicitário, o administrativo, o filosófico etc.) e da cena genérica (que define os papeis do locutor e do leitor/ouvinte, como a propaganda, o editorial, o ensaio etc.), cenas que atuam nos “bastidores”. Já a cenografia, como assinala o autor, implica a elaboração de uma “representação de sua própria situação de comunicação” (Maingueneau, 2006, p. 50) e é “construída pelo próprio texto” (Maingueneau, 2006, p. 67). Trata-se, assim, da encenação propriamente dita que uma enunciação implica.

Em termos de humor (tal como ocorre em textos literários e textos publicitários), seria impossível mensurar as possibilidades de cenografias utilizadas, mas é possível citar algumas típicas e recorrentes (baseadas, sobretudo, em estereótipos): diálogos entre filhos e pais ou alunos e professores, entre pessoas sóbrias e ébrias, entre pessoas de nacionalidades diferentes, entre maridos e esposas, entre Criador e criaturas etc. Enfim, inúmeras são as cenas exploradas em textos de humor, seja numa piada, numa charge, num stand-up ou num meme.

No caso de textos de humor, como ilustraremos adiante, essas múltiplas cenografias recorrentes se mantêm, mas muitas vezes exploram a própria dimensão midiológica (um diálogo entre namorados via whatsapp, por exemplo). O que não parece afetar diretamente a substância do enunciado humorístico, tal como mostraremos mais à frente.

Tipos, temas e técnicas

O humor pode ser tratado em diferentes perspectivas, como se sabe: filosófica, sociológica, historiográfica, psicanalítica, cognitiva, linguística… Neste trabalho, a partir de um panorama teórico geral (Pereira, 2017), destacamos três grandes orientações: a teoria da superioridade (ri-se do que é baixo e ridículo); a teoria da incongruência (ri-se da quebra de uma expectativa na orientação do texto); e a teoria da energia psíquica (ri-se para aliviar tensões e inibições) (Pereira, 2017, pp. 15-19). Frequentemente, tais características ocorrem cumulativamente (um meme pode conter surpresa e rebaixamento, por exemplo).

Os exemplos que serão considerados a seguir poderiam ser abordados de todas essas perspectivas. O que é mais importante destacar é quais são os temas (os assuntos) e as técnicas (procedimentos linguageiros ou textuais propriamente ditos) mais usuais em textos de humor da esfera digital.

Assim, sem mais delongas, mostraremos como o humor pode abordar, em relação aos tópicos discursivos, tanto acontecimentos mais específicos (uma novidade emergente) quanto os mais cristalizados (uma prática histórica). Em relação às técnicas, mostraremos que, substancialmente, não há novidades em relação ao que classicamente já se conhece (cf. Possenti, 1998; Propp, 1992).

Alguns exemplos de humor na esfera digital

Humor e acontecimento discursivo

Como mencionado acima, alguns textos tratam de acontecimentos pontuais (o que confere até um caráter informativo a certos memes), tal como costumam fazer charges publicadas em jornais. Os três exemplos a seguir ilustram como determinado assunto se torna imediatamente tema de humor na esfera digital:

O primeiro exemplo é a morte de um artista, músico (em ascensão) que morreu ao cair da janela de um hotel, em maio de 2021, supostamente para fugir de um flagrante de adultério. No meme, junto à fotografia do músico em questão, há o seguinte enunciado: “no domingo passado descobri 3 coisas importantes sobre MC Kevin: 1 – que ele existia; 2 – que ele não existe mais; 3 – que ele não sabia voar. Espero ter ajudado”.

A presença da expressão dêitica (no domingo passado) confirma a rapidez e a fugacidade desse gênero digital, bem como sua relação com acontecimentos específicos atrelados a um contexto particular.

É o que se vê também em um segundo exemplo. Um meme mostra as fotos intercaladas do presidente Jair Bolsonaro e seus três filhos, personagens também da política brasileira (suspeitos em diversos casos de corrupção). As imagens de cada um, modificadas digitalmente, mostram-nos usando turbantes na cor verde-amarelo, símbolo que se refere (implicitamente) à expulsão dos americanos do Afeganistão em agosto de 2021. Sob uma legenda geral em que se lê “Dinastia Talibozo” (de TALIBAN + BOZO, uma alcunha do presidente em postagens de oposicionistas), nas fotos aparecem sucesivamente as seguintes legendas: “talibozo, talibananinha, talilaranjinha e talouco de pedra”, maneiras pejorativas de se referir a cada um deles (banana, laranja e louco de pedra). Para compreender o afeito, é preciso “pertencer à paróquia” (Bergson, 2014, p. 5). Expliquemos um caso: um dos filhos é identificado como “bananinha” porque uma ex-namorada teria se referido pejorativamente a seu órgão sexual (banana = pênis; bananinha = pênis pequeno).

O terceiro exemplo aborda o acontecimento do “apagão” de redes como whatsapp, instagram e facebook por mais de seis horas em outubro de 2021. O humor decorre de exagerar o fato de que o uso intensivo das redes sociais impede a comunicação entre pessoas da família.

Figura 1: O exagero é um dos procedimentos recorrentes em textos de humor

Disponível em t.ly/-HHd. Acesso em 29 março de 22.

Esses casos exploram, sobretudo, o rebaixamento: o objeto de riso é ridicularizado, ainda que o primeiro possa ser tomado como humor do tipo “ácido” (seria um caso politicamente incorreto, já que “não se deve” rir dos mortos ou de acidentes mortais), enquanto o segundo pode ser associado a um humor do tipo “engajado” (seria um exercício de poder e de resistência diante de um governo considerado corrupto, no mínimo) e o terceiro não deixa de sugerir uma crítica ao comportamento, principalmente de jovens, que usariam demasiadamente as redes.

Além do rebaixamento de alguns tipos – o artista emergente que morreu banalmente; as figuras públicas de Bolsonaro (designado por seus adversários como Bozo, um palhaço de sucesso na TV tempos atrás) e seus filhos (bananinha, laranjinha e louco de pedra como formas depreciativas de referência)[8] e o jovem que não faz outra coisa além de se ocupar com a internet –, faz-se uso, nesses exemplos, de procedimentos típicos do campo do humor, tal como comparações (pular da janela/voar), paródias (nomes da política brasileira subvertidos em mulçumanos extremistas) e exagero cômico (a mãe que não consegue interagir com o filho por causa das redes sociais).

Mas os acontecimentos que figuram como temas de humor nas redes sociais não precisam abordar necessariamente episódios pontuais: podem ser também de “média duração” (a pandemia do coronavírus, por exemplo) ou ainda “imemoriais” (a não-correspondência entre línguas e/ou variantes linguísticas como já havia apontado Possenti (2010, pp. 27-28) acerca da relação entre humor e acontecimento.

É o que ilustram os exemplos a seguir: o primeiro explora a conhecida “escala evolutiva” que culmina num exemplar humano exageradamente gordo, como efeito do excesso de ingestão de comida durante o isolamento imposto pela pandemia, que explora também, no que se refere ao material linguístico, um “novo homem”, o “homo office”, que se fundamenta em uma pequena alteração (um exemplo de condensação) de “home office”. O segundo supõe que conhecido filósofo expresse um ponto de vista por meio de um ditado popular, comportamento que é recriminado. Ele se corrige e produz uma “paráfrase” do ditado, formulação que seria parte (é o efeito pretendido) de seus aforismos, que soam profundos. O texto explora uma técnica de produção de humor que Freud (2017, p. 284) descreveu como substituição de pensamentos concretos por abstratos (também pode ocorrer o inverso, mostra o autor).

Figura 2: Na representação da escala evolutiva em meio à pandemia, a condensação (semelhança entre homo e home) ainda é técnica fundamental de humor

Disponível em t.ly/jJ0-. Acesso em 28 mar. 22.

Figura 3: Os memes são gêneros novos, mas a paródia é técnica velha

Disponível em t.ly/QVv2. Acesso em 29 março de 22.

As cenografias do humor

Como dito antes, o humor pode fazer uso da encenação de um fato para o interlocutor. Uma cenografia que explora rotinas típicas da contemporaneidade, por exemplo, pode ser vista no seguinte exemplo, que mostra um enunciador ao computador (interagindo em suas redes sociais) e rodeado de cristais (praticando uma forma de terapia holística, muito em voga desde os anos de 1990):

Figura 4: Os temas abordados podem ser atuais (terapias alternativas e holísticas, bem como rotinas digitais de opinar em postagens das redes sociais), mas os procedimentos de humor (exagero e autoderrisão) são recorrentes em textos humorísticos

Fonte: @ocadaspedrinhas. Acesso em 29 março de 22.

Cenografias também incluem as próprias materialidades multimodais, tais como esses exemplos que exploram aspectos característicos do próprio “suporte” das redes:

Figura 5: A conversa entre amigos faz uso da cenografia do whatsapp, mas o rebaixamento também não é atual

Disponível em t.ly/ra_v. Acesso em 29 março de 22.

A cenografia desse exemplo explora termos (“nude”, isto é, fotos nuas) e recursos próprios dos aplicativos da comunicação digital (tais como stickers, isto é, figurinhas animadas ou não), mas o principal procedimento humorístico desse exemplo é a velha condensação apontada por Freud em seu estudo sobre a relação entre os chistes e o inconsciente: em síntese, a técnica que, por meio de uma redução, opera um duplo sentido (cf. Possenti, 2010, p. 156). No caso acima, a palavra “rolinha” significa tanto “pequeno pássaro” como, principalmente, “pequeno pênis” (o que, mais uma vez, implica um rebaixamento).

A mesma técnica da condensação se vê no exemplo a seguir, que também explora uma cenografia digital:

Figura 6: Seria apenas mais uma conversa entre namorados não fossem os chamados emoticons e a possibilidade de troca de imagens, vídeos e áudios

Disponível em t.ly/yImN. Acesso em 29 de março de 22.

Mais uma vez, a ambiguidade da expressão “só de calcinha” é a grande responsável pelo efeito de riso, já que o que a foto efetivamente mostra não é a moça vestindo só sua calcinha, o que se poderia esperar como resultado da conversa íntima entre enamorados, mas um varal cheio “só de calcinhas”.

Assim, por mais que se mudem posicionamentos ou tipos que o humor pode assumir – um que apela para um riso “mau” ou “bom”, nos termos de Propp (1992) – ou ainda que os textos humorísticos se produzam e circulem com maior rapidez e acessibilidade – o que se liga particularmente ao traço da “ampliação” apontada por Paveau (2021) – parece muito claro que o elemento fundamental no humor é a “técnica”, como apontaram Freud e seguidores.

Humor: uma questão de técnica

A internet e as redes sociais estão repletas de textos que exploram recursos humorísticos. Além dos exemplos acima, é possível encontrar casos que não necessariamente abordam uma relação mais estrita com acontecimentos discursivos ou com as cenografias digitais, tais como nesses dois exemplos:

Figura 7: É um filósofo ou um vendedor de tinta para cabelo?

Disponível em rb.gy/ec897. Acesso em 29 de março de 22.

Este meme merece ser descrito em detalhe. Mostra o conhecido filósofo esloveno proferindo (aparentemente) conceitos psicanalíticos, como em uma aula. O que pode parecer estranho e deslocado é que ele parece mostrar a embalagem de um produto para colorir cabelos. Mas, antes da leitura dos conceitos, essa pequena imagem inserida (uma questão de técnica “computacional”) na imagem dominante. Diríamos que essa inserção não é suficiente para produzir humor, embora possa parecer estranho associar a imagem do filósofo (que não é um “liberal”) de Slavoj Žižek à banalidade de um anúncio de tintura para cabelo. O riso depende crucialmente da condensação, que, percebida pelo leitor, indica um deslocamento, viola uma expectativa: e, em vez de nomear o terceiro conceito psicanalítico da série (LO REAL) – que seria o esperado depois de “simbólico” e “imaginário”, Žižek profere o nome de um produto para beleza. Observe-se também que a escrita – l´oréal – facilita a percepção da diferença. O chiste não seria bem-sucedido em uma tradução “literal” para o português, porque o filósofo teria que dizer “O Simbólico, O Imaginário, O real” – com o que se perde a marca do produto de beleza, e, portanto, a condensação, que é L´Oréal, e não Oréal.

Considerações finais

O que os dados reunidos permitem concluir é que, em relação à produção e circulação de textos humorísticos, certamente a esfera digital parece ser muito mais “democrática”, já que os modos de fazer e consumir humor acontecem de maneira muito mais “aberta”, sem as restrições anteriores à internet, quando o humor se manifestava com maior exclusividade em nichos como revistas e programas de TV, stand ups e com autores profissionais específicos como humoristas, chargistas etc. Outro aspecto ligado à contemporaneidade digital do humor relaciona-se à instantaneidade e à efemeridade ligadas aos assuntos de que tratam esses materiais digitais (um meme surge e se desvanece mais rapidamente do que uma piada). Além disso, certamente a multimodalidade tem papel importante nos textos humorísticos da esfera digital.

Por outro lado, algumas características, talvez as essenciais, parecem se manter, como os tipos (humor de zombaria, humor de autoderrisão etc.), os temas e sua relação com os acontecimentos (polêmicas em torno do “sério” e do “extraoficial”, acontecimentos mais pontuais ou mais imemoriais) e as técnicas (incongruência semântica, condensação, estereótipos, ironia, exagero etc.).

Assim, o que os exemplos considerados indicam, como tantos outros observados na esfera digital, é que eles reatualizam uma observação feita anteriormente em artigo intitulado “Histórias cômicas em suporte eletrônico”:

Os jogos de linguagem e a menção ou alusão a temas “baixos” ou a rebaixamento são as técnicas mais exploradas (…). Nesse sentido, não há mesmo novidades, exceto, talvez, o fato de que os sites alcançam leitores que os suportes impressos talvez não alcancem (Possenti, 2010, p. 120).

Portanto, embora haja variações em termos de médium na contemporaneidade, elementos da ordem da discursividade humorística não apresentam mudanças significativas.

De qualquer maneira, seguimos rindo.

Bibliografía

Alberti, V. (1999). O riso e o risível na história do pensamento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/FGV.

Barton, D. & Lee, C. (2015). Linguagem online: textos e práticas digitais. São Paulo: Parábola Editorial.

Bergson, H. (2014 [1899]). O riso. São Paulo: Martins Fontes.

Freud, S. (2017 [1905]). O chiste e sua relação com o inconsciente. São Paulo: Companhia das Letras.

Han, B.-C. (2018). No enxame. Perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes.

Maingueneau, D. (2006). Cenas de enunciação. Curitiba: CRIAR Edições.

Maingueneau D. (2013). Análise de textos de comunicação. São Paulo: Editora Cortez.

Minois, G. (2003). História do riso e do escárnio. São Paulo: Editora da UNESP.

Muniz, C. R. (2021). Poder e humor em tempos de pandemia: as deepfakes de Brunno Sarttori. Revista do GELNE, [S. l.], v. 23, n. 2, 60-70.

Paveau, M.-A. (2021). Análise do discurso digital: dicionário das formas e das práticas. Campinas: Pontes.

Paveau, M.-A.; Costa, J. L. & Baronas, R. L. (2021). Ressignificação em contexto digital. São Carlos: EdUFSCar.

Pereira, R. A. (2017). A doença, o sofrimento e a morte entram num bar. Uma espécie de manual de escrita humorística. Rio de Janeiro: Tinta da China.

Pompeu, A. M. C., Araújo, O. L. & Pires, R. B. (orgs.) (2012). O riso no mundo antigo. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora.

Possenti, S. (1998). Os humores da língua. Campinas: Mercado de Letras.

Possenti, S. (2010). Humor, língua e discurso. São Paulo: Contexto.

Possenti, S. (2018). Cinco ensaios sobre humor e análise do discurso. São Paulo: Parábola Editorial.

Propp, V. (1992). Comicidade e riso. São Paulo: Ática.

Salgado, L. S. (2020). Midium e mundos éticos: notas sobre a construção do Observatório da Literatura Digital brasileira. Revista Estudos da Língua(gem). Questões de Discurso. [S. l.], v. 18, n. 3, 33-53.

Silva, R. (2016, setembro 24). As 16 melhores páginas brasileiras de humor no Facebook. Bula revista. Disponível em t.ly/c4gU.


  1. A esse respeito, ver, por exemplo, o título O riso no mundo antigo, organizado por Ana Maria César Pompeu, Orlando Luiz de Araújo e Robert Brose Pires (2012), O riso e o risível na história do pensamento de Verena Alberti (1999) ou ainda História do Riso e do Escárnio de George Minois (2003).
  2. As redes sociais, cujo marco inicial pode ser datado no ano de 2005, têm inúmeras páginas humorísticas, sem falar nos inúmeros casos de anônimos youtubers cujos canais atingiram públicos de milhares de pessoas, tornando-os autênticos profissionais do humor, tais como os casos, no Brasil, de Bruno Miranda, Mateus Canella e Afonso Padilha, dentre tantos outros. Para citar também apenas algumas páginas das redes brasileiras: Bode Gaiato, Diva Depressão, Suricate Seboso, e outras mais. Ver Silva, R. (2016, setembro 24).
  3. O postulado principal deste artigo, de acordo com a proposta de Possenti (2018, p. 11-40) é o de que o humor é um campo discursivo, isto é, constitui um segmento sociocomunicativo marcado por regras e regularidades que se demarcam por gêneros preferenciais (piadas, comédias, anedotas, charges, chistes em geral), por embates entre posicionamentos (humor de zombaria versus humor “bom”, humor politicamente correto versus incorreto, erudito versus popular etc.), além de outros aspectos ligados, por exemplo, a autoria e midium.
  4. Acrescentem-se, além da questão dos gêneros do discurso (ou “tecnogêneros”), outros elementos, como, por exemplo, as próprias constituições identitárias (cf. Barton & Lee, 2015).
  5. Como assinala Paveau (2021, p. 33): “on-line, já não são propriamente os escritores e os locutores que escrevem e falam, mas, para ser breve, são as máquinas e seus programadores que permitem que as produções linguísticas, fruto da intencionalidade dos sujeitos, sejam realizadas e adquiram uma existência”.
  6. No caso do humor, além dos nomes citados anteriormente, destacamos, no Brasil, o caso de Brunno Sarttori, que utilizando ferramentas de inteligência artificial, as chamadas deepfake, produz paródias cujo efeito de realidade fez gerar públicos de milhares de pessoas. Para mais detalhes, ver Muniz (2021).
  7. Não à toa o filósofo Byung-Chul Han (2018) menciona a ocorrência generalizada de um “cansaço da informação” ou, em outros termos, a Síndrome da Fadiga da Informação (SFI). Em 1996 o psicólogo britânico David Lewis cunhou esse conceito. O SFI se referia primeiramente àquelas pessoas que precisavam trabalhar profissionalmente por um longo tempo uma grande quantidade de informação. Hoje todos são vítimas da SFI. A razão disso é que todos somos confrontados com quantias rapidamente crescentes de informação” (Han, 2018, p. 105).
  8. A gíria “laranja” faz alusão a esquemas de corrupção; no caso, o esquema das “rachadinhas” envolvendo funcionários do gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro.


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