Por uma História Ambiental Latinoamericana
Adrián Zarrili, Ana Marcela França, Ayelen Dichdji,
Elenita Malta Pereira
Esta coleção de livros reúne volumes temáticos representativos da produção historiográfica em história ambiental de Argentina e Brasil. Sua ideia surgiu da articulação entre as preocupações de acadêmic@s brasileir@s e argentin@s sobre as interações entre as sociedades humanas e o ambiente, de um lado e outro da fronteira.
Desde o início, a diretriz adotada na coordenação dos trabalhos foi a parceria, sempre aos pares, entre pesquisador@s de ambos os países. Um/a representante de Argentina e um/a de Brasil são responsáveis por convidar autores dos seus respectivos países com produção significativa nos temas escolhidos, e coordenar todo o processo de revisão e edição dos textos.
Optamos por apresentar os artigos nas línguas maternas de cada autor/a, por entender que, por um lado, a linguagem se constitui num instrumento cognitivo (Raiter, 2008) de excelência, que permite a comunicação com outros falantes; por outro, deduz-se que as línguas não são neutras (Hodge e Kress, 1993). Nesse sentido, as formas gramaticais utilizadas, o léxico e os recursos selecionados para emitir cada discurso e argumentação mostram uma concepção particular do mundo para aquele falante. Isso nos permite perceber o vínculo com a natureza e as representações sociais, culturais e até políticas que são tecidas entre as comunidades e seu ambiente natural. Podemos afirmar, com sucesso, essa resolução, pois a linguagem utilizada nos permite comunicar, conceituar, entender, interpretar e estabelecer melhor o conjunto de ideias que queremos transmitir. Temos aqui, portanto, um convite ao conhecimento do “Outro” e sua realidade socioambiental.
É surpreendente que precisemos reforçar a importância dessa leitura entre países que possuem línguas tão parecidas e, mais ainda, uma herança cultural tão próxima. Percebemos uma dificuldade, no caso Brasil, em assumir uma identidade latino-americana – articulada às heranças indígena e africana, por muito tempo negadas até mesmo no ensino de história no país. Em ambos os países, persiste a herança da colonização, nos costumes e no pensamento, nos fazendo enxergar como espelho não nossas realidades históricas, mas, de forma distorcida, a Europa (e mais recentemente, os EUA), como bem apontou Quijano (2006).
No que se refere ao ambiente, ambos os países compartilham o bioma Pampa, amplamente degradado pela pecuária extensiva e pelos monocultivos transgênicos, especialmente de soja. Argentina e Brasil, inseridos no sistema econômico mundial como agroexportadores, persistem em degradar sua natureza para garantir os ganhos do capital. Estudar a interlocução entre ambiente e sociedade nesses processos é o papel da história ambiental, transcendendo a esfera desses países, uma história que se assuma como latino-americana.
Para Cláudia Leal, que apontou o absurdo da barreira da língua entre pesquisadores de fala espanhola e portuguesa em 2016, o grande desafio da história ambiental latino-americana é “fornecer uma lente que mude permanentemente o cenário da trajetória histórica da região, tornando-a mais completa e precisa, não apenas para historiadores ambientais, mas, para todos” (LEAL, 2019, p. 247). É o desafio que estamos começando a enfrentar, e esta coleção representa, na visão dos organizadores, um passo nessa direção.
Acompanhar as histórias ambientais de Argentina e Brasil expande os horizontes do estado-nação, possibilita que evidenciemos cenários com problemáticas ao mesmo tempo semelhantes e diversas. Esta coleção apresenta em suas páginas estratégias de resistência e sobrevivência nesses cenários, que levaram à construção de olhares e de paisagens únicas e compartilhadas. Somos parte do mesmo continente, por isso, confrontar fronteiras políticas, econômicas e socioambientais nos permite encontrar-nos também em contextos socioambientais que estimulem o diálogo.
Nesta coleção, se apresentarão semelhanças e divergências nos capítulos que compõem os volumes. Assim, podemos advertir – ou isso pretendemos – as contradições presentes em nossa América Latina. Ao final, esperamos que os leitores e as leitoras se sintam representados, mas também instigados. Que conhecer esse Outro que está tão perto nos leve a conhecer a nós mesm@s.
Boa leitura!
As organizadoras e o organizador.
Referências
HODGE, Robert y KRESS, Gunther. Lenguage as ideology. Routledge, Londres, 1993.
LEAL, Claudia. Aguzar la mirada colectiva, el gran desafío de la historia ambiental latinoamericana. Historia y sociedad, Bogotá, 36, pp. 243-268, 2019.
QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, 2005.
RAITER, Alejandro y ZULLO, Julia. La caja de pandora: representaciones del mundo en los medios. La Crujia, Buenos Aires, 2008.






