Theotonio dos Santos[1]
Questões de método
Na América Latina, crescentemente, as atividades de pesquisa sobre a conjuntura internacional buscam contribuir para a compreensão das tendências de evolução da economia mundial e seu impacto sobre a inserção internacional da América Latina e particularmente da América do Sul. Na conjuntura atual, esta análise se imbrica necessariamente com o fenômeno das potências emergentes, sobretudo os chamados BRICAS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que passam a intermediar as relações da região com o conjunto do sistema mundial. Para isso, é necessário desenvolver uma metodologia de análise da conjuntura mundial na qual já vimos trabalhando desde 1994 e que parte dos referenciais teóricos e dos indicadores empíricos que descrevemos abaixo:
Entendemos a economia mundial a partir das teorias do sistema mundial e da dependência, que distinguem as realidades socioeconômicas de determinados países e regiões a partir da articulação entre grupos internos e as forças do sistema mundial. Essas visões destacam a presença de um centro hegemônico ordenador da economia mundial e de um núcleo orgânico de Estados aliados e potenciais competidores; de uma semiperiferia, dividida entre países dependentes e Estados com pretensões de alcançar o núcleo orgânico; e de uma periferia, em grande parte dependente, mas suscetível de resistir politicamente à articulação subordinada e excludente na economia mundial de acordo com o surgimento e crescimento de um sentimento de identidade nacional e um desejo de autonomia historicamente sustentado.
Estes supostos metodológicos se assentam em realidades históricas que demarcam o alcance dos conhecimentos possíveis sobre o mundo e afirmam o princípio dialético que afirma ontologicamente a preeminência da flecha do tempo na configuração do ser total no qual estamos imersos.
Quando estudamos estes movimentos históricos constatamos que, além de se mover pela força das contradições que dão substancia ao real, eles assumem uma forma cíclica que não significa um regresso às situações anteriores, mas sim uma acumulação de bens, experiências, conhecimentos que permitem identificar a flecha da história no universo em geral e nas vidas socialmente articuladas em existências humanas concretas. Por estas razões metodológicas iniciaremos nossas análises das tendências da economia mundial contemporânea tomando como referência central os ciclos da economia mundial. Esses ciclos podem ser divididos em:
- Ciclos sistêmicos, que relacionam as hegemonias e seus períodos de expansão e crise com o desenvolvimento do sistema mundial. A análise destes ciclos foi desenvolvida pelo grupo do Fernand Braudel Center, através das obras de Giovanni Arrighi (1996, 1997, 1999), Immannuel Wallerstein (1996, 1991, 1988, 1980, 1974), Terence Hopkins (1996) e Beverly Silver (1999), entre outros;
- Ciclos de Kondratiev, que relacionam as mudanças tecnológicas e organizacionais com períodos longos de crescimento e recessão da economia mundial (ciclos de 50 a 60 anos com 25 a 30 anos de expansão e 25 a 30 anos de baixo crescimento ou mesmo recessões);
- Ciclos econômicos de médio e curto prazo (Juglar e Kitchin), que introduzem oscilações de 4 e 8 ou 10 anos, no interior das oscilações mais longas.
A constatação destes ciclos é resultado da observação empírica desenvolvida pela história econômica desde a metade do século XIX e foi sistematizada por Schumpeter (1964) no final da década de 1930. A explicação destes fenômenos que continuaram a ocorrer até nossos dias é ainda insuficiente, mas já contamos com uma sistematização dos fenômenos tecnológicos que demonstram a relação entre estes comportamentos cíclicos e os sistemas de descobertas e inovações que obedecem a padrões tecnológicos e mesmo científicos em períodos relativamente bem definidos.
As características específicas da implantação destes padrões tecnológicos e científicos, a sua articulação com a acumulação de capitais e a dinâmica dos investimentos e da criação de dinheiro fictícios e capital financeiro estão cada vez melhor estudadas, podendo ajudar a estabelecer correlações entre estes fenômenos, as prospectivas políticas e o planejamento estratégico.
Plano Empírico
Partiremos de uma base de indicadores chave que construímos no GREMIMT (Grupo de Estudos Sobre Economia Mundial, Mercado de Trabalho e Integração Regional), sediado na UFF, entre 1994-2000, para o monitoramento das tendências da economia mundial. Estes índices incluem as seguintes variáveis: taxa de lucro; taxa de investimento; PIB e PIB per capita e suas taxas de crescimento ou decréscimo; produção industrial; inflação; taxa de juros; taxa de desemprego; variação dos salários reais e da massa salarial; taxa de câmbio; Balança comercial, a conta corrente e o balanço de pagamentos; dívida externa; balanços primários e operacionais dos gastos públicos; a dívida interna; gastos em ciência e tecnologia; o mapeamento das principais forças políticas dos países e regiões estudadas e de sua atuação internacional através da imprensa mundial e outras fontes. Nesse contexto devemos destacar os resultados eleitorais e a evolução da opinião pública.
É claro que estes dados devem conjugar-se com a visão histórica da implantação e enraizamento de grandes processos civilizatórios que tendem a convergir cada vez mais na medida em que o desenvolvimento das forças produtivas vai permitindo e mesmo gerando a articulação crescente destas bases civilizatórias através de vários mecanismos, entre os quais se ressaltam o comércio, as guerras e os sistemas ideológicos e sua base de experiências vividas coletivamente e acumulação de conhecimentos reais.
Consciente dos problemas materiais concreto a que nos submete este enforque totalizante, faz-se necessário encontrar momentos decisivos que impõem novas estruturas sociais e novas fases históricas fundamentais. A partir dessas recomendações metodológicas, focamos nossa análise no período que se inicia após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos estabelecem a sua condição de potência hegemônica mundial até o presente momento no qual as potências que emergiram das contradições geradas por este sistema, principalmente os BRICAS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e suas regiões de influência mais direta, começam a determinar a reestruturação do sistema mundial. A partir das possibilidades materiais geradas nos últimos anos no Brasil, um grupo de pesquisadores da Cátedra UNESCO sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (REGGEN) pudemos realizar uma primeira aproximação mais fundamentada sobre as perspectivas que se abrem à região no novo contexto mundial. A partir de um proposta do IPEA pudemos desenvolver um projeto no qual foram objetos de análise: Brasil e América Latina; a emergência da China e do Sudeste Asiático; da Rússia e da Índia; da África do Sul e do continente Africano numa nova fase da revolução científico técnica e das correlações de força mundiais. Isto nos permitiu:
- Consolidar um modelo de análise da conjuntura internacional, que seja capaz de ajustar as relações entre as variáveis escolhidas à capacidade de descrever os movimentos cíclicos da economia mundial;
- Situar as regiões assinaladas no âmbito da trajetória cíclica da economia mundial, indicando os cenários prováveis de desenvolvimento e inserção internacional, bem como as possíveis alternativas de percurso proporcionadas por distintas forças sociais e políticas;
- Elaborar um material de análise teórico-metodológico da economia mundial que possa servir como referência para o planejamento estratégico e a tomada de decisões.
Globalização e economia mundial
O processo atual de globalização da economia e política mundiais tem sua base fundamental na afirmação dinâmica da revolução científica tecnológica que teve início nos anos 1940 e que mudou radicalmente a relação entre ciência, tecnologia e processo produtivo, alterando sensivelmente as escalas de produção por meio da automação e, mais recentemente, da aplicação massiva da robótica no sistema produtivo.
Essas inovações tecnológicas produziram mudanças estruturais no perfil da força de trabalho, ao ampliar o papel dos serviços, das atividades relacionadas à pesquisa, planejamento e desenho dos produtos, e ao criar novos setores industriais e novas atividades econômicas que mudam as relações entre eles.
O resultado é uma terceira revolução industrial que integra o planeta num processo instantâneo de comunicação e de intercâmbio que induz propostas estratégica globais cada vez mais dinâmicas e reduz drasticamente as distâncias entre as várias regiões do globo. Finalmente, devido ao caráter anárquico deste processo global –derivado de sua condução por interesses privados em disputa pelos mercados locais e mundiais– o equilíbrio ecológico global vem sendo rompido, ameaçando a sobrevivência da humanidade devido, de um lado, ao risco do holocausto nuclear e da utilização de poderes destrutivos crescentes associados ao desenvolvimento espetacular das forças produtivas articuladas pelo conhecimento científico e, de outro lado, devido à degradação ambiental já em marcha pela falta de mecanismos de planejamento humano e racional da utilização destas forças produtivas em expansão.
Nesse contexto de rápidas mudanças, regiões que não participam do desenvolvimento de novas formas de produção industrial e pós-industrial e distribuição ficam cada vez mais distantes dos centros de poder mundial. Esse processo de globalização, portanto, aumentou o abismo tecnológico entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Ao mesmo tempo ampliam-se as brechas entre os países que centralizam a vida mundial, os países chamados “em desenvolvimento” e os chamados “subdesenvolvidos”.
As regiões menos avançadas tecnologicamente têm sido penalizadas por um perverso movimento duplo. Por um lado, o avanço de novas tecnologias e sistemas produtivos eliminou setores de subsistência, não monetarizados, que vinham sustentando enormes massas de camponeses através da produção tribal, do artesanato, do escambo, etc. Essas transformações conduziram a um novo êxodo da população rural para regiões urbanas não preparadas para absorver estas massas deslocadas no nível nacional e internacional, que supera em muito a dimensão do processo de urbanização que vigorou até os anos 1970.
Por outro lado, há uma marcante ausência de desenvolvimento global que permita uma industrialização equilibrada, um sistema educacional de amplo alcance e um setor de serviços bem coordenado para sustentar o avanço de novas tecnologias e do novo sistema produtivo. Os resultados têm se materializado numa urbanização explosiva que não vem acompanhada de uma razoável infraestrutura socioeconômica, e sim, ao contrário, de uma deterioração do meio ambiente e do aumento da marginalização e exclusão social. Todas essas tendências são reconhecidas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo Programa das Nações Unidas de Desenvolvimento (PNUD) e por outras organizações internacionais dedicadas ao estudo do desenvolvimento.
A economia mundial desregulada e direcionada às demandas de um mercado formado de populações miseráveis e sem emprego está trazendo aumento da pobreza, além de sérios problemas de desintegração e exclusão social e desemprego. Essa situação propõe uma importante questão à humanidade. Justiça social e progresso econômico são incompatíveis? A humanidade conseguirá dominar as aparentemente incontroláveis relações econômicas capitalistas em que se funda esta modalidade de crescimento econômico?
Antes de abordar essas questões, a comunidade internacional precisa reconhecer a natureza estrutural da pobreza. Ela se encontra permeada por desintegração social, desigualdade, desemprego e subemprego. Teorias econômicas puramente liberais do mainstream não têm se demonstrado capazes de levar a humanidade à justiça social. Há necessidade urgente de negociação global e intervenção social. Um “contrato social” mundial, como está sendo proposto pelo PNUD, deve substituir as diretrizes econômicas liberais. A Carta de Direitos Econômicos dos Povos das Nações Unidas, votada em 1974 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, deve ser respeitada. A Declaração do Milênio das Nações Unidas apresenta um conjunto de objetivos que permitirão que as relações econômicas, sociais e culturais planetárias passem a um nível mais alto, mas são poucos os governos que os tomam em sério.
Para que a humanidade se desenvolva num mundo mais justo e administrável, as perspectivas sociais dos países menos desenvolvidos devem ser tomadas seriamente em consideração. Os países desenvolvidos não podem simplesmente impor sua “sabedoria convencional” e seus paradigmas eurocêntricos aos países do Sul. A definição das Metas de Desenvolvimento do Milênio mostra um caminho baseado em princípios éticos e políticos estabelecidos pela comunidade mundial.
Ouvir o Sul significa aceitar as forças sociais que representam as antigas civilizações, que reúnem fortes particularidades culturais na Ásia, na América, na Oceania e na África. Levando-se em consideração que essas forças étnicas e sociais também estão presentes como importantes minorias nos países desenvolvidos, ouvi-las também significa aceitar a força do dinamismo plural regional.
Se não se pode eliminar uma parte da espécie humana –como pretendeu a “solução final” dos nazistas pensada e aplicada para os judeus durante a Segunda Guerra Mundial–, então há de se aceitar viver em um mundo no qual asiáticos, africanos e latino americanos são a maioria. E a Ásia vem demonstrando que uma parte substancial dessa maioria poderá estar educada e desenvolvida em uma ou duas gerações, mantendo, contudo, as características básicas de sua civilização de origem. O que nega grande parte da construção teórica das ciências sociais eurocêntricas que atribui estas características comportamentais ao “atraso” destes povos.
Temas a pesquisar
Diante da quantidade de pesquisas realizadas sobre globalização e as questões do desenvolvimento global e o novo sistema-mundo, um novo esforço de pesquisa no Sul, capitaneado pelos pensadores e pesquisadores da região e de todo o mundo, com forte apoio financeiro local e internacional, deverá ser realizado com os seguintes objetivos:
Os países em desenvolvimento na África, Ásia e América Latina precisam fortalecer a capacidade de seus próprios sistemas de pesquisa e instituições acadêmicas para estabelecer bases conceituais que permitam a compreensão mais profunda do processo de globalização visto desde uma perspectiva global e não hegemônica; reconhecendo as especificidades nacionais de inserção na economia mundial, capaz, portanto, de diagnosticar os problemas e os objetivos nacionais que sustentam a ação dos Estados nacionais; determinar e desenhar políticas de integração regional e desenvolvimento sustentável capazes de superar esses graves limites estruturais e colocá-los num grau de civilização compatível com a revolução científico-tecnológica.
Por último, mas não menos importante, os cientistas sociais do Sul devem se unir às forças sociais e movimentos políticos a fim de produzir uma resposta efetivas às mudanças globais. Devem congregar esforços locais, regionais e globais na luta por desenvolvimento sustentável e por justiça sócio econômica, de acordo com os ideais do Fórum Social Mundial de Porto Alegre.
A Cátedra UNESCO sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (REGGEN) realizou junto com o IPEA uma pesquisa sobre a Integração sul americana no quadro das transformações em curso na economia mundial. Ela está em contato com um grupo internacional de instituições e pesquisadores de muito prestígio, capazes de sustentar um ambicioso plano de pesquisa para desenvolver as seguintes questões:
A revolução científico-tecnológica possibilita produção em escala global, conecta a produção à ciência pura e à pesquisa de ponta, diversifica os mercados em termos de qualidade, condições locais de demanda e oferta, e une a acumulação de capital ao desenvolvimento econômico, social, político, cultural e socialmente sustentável. De forma mais simples, fatores tecnológicos têm um papel central no sistema mundial, impondo uma nova divisão internacional do trabalho e novas estruturas macro e microeconômicas capazes de criar condições para se dirigir este processo global sem as violentas crises e o mal estar cultural e humano que o chamado “livre” mercado não pode evitar.
A necessidade de desenvolver um paradigma metodológico das ciências sociais que enfatize abordagens interdisciplinares e a análise integrada e articulada dos processos mundiais complexos no contexto da economia política mundial e de novos esforços macro e microeconômicos;
A ação de ondas longas (ciclos de Kondratieff e outros ciclos de dimensões seculares) sobre o desenvolvimento histórico-econômico nos posiciona agora no início de uma nova curva ascendente da economia mundial, depois do fim de um período que começou em 1967 e alcançou seu ponto mais baixo em 1993. Desde 1994 começou um novo período de crescimento econômico. Nesse novo período de ascenso econômico, economias nacionais já são e vão ser cada vez mais capazes de assimilar um grande número de avanços científicos e tecnológicos preparados durante os longos anos de recessão, tais como robotização, produção flexível, comunicações modernas, laser, biotecnologias, etc. Um novo período de globalização e integração da economia mundial está em marcha, permeado por um desenvolvimento regional e setorial mais combinado e mais desigual assim como violentas manifestações de crises, sobretudo, no centro do sistema;
Esse novo período de crescimento, cuja realidade está equacionada pela teoria das ondas longas, tenderia a ser relativamente sustentado por algum tempo. Entretanto, ele já começou com um grande problema de desemprego estrutural, consequência do enorme avanço da robotização no processo produtivo e da automação de grande parte das atividades de serviços sem a correspondente diminuição da jornada de trabalho. Diante destas mudanças estruturais determinadas pela revolução científico técnica em marcha, podemos descrever as questões fundamentais que vêm se colocando e que se aprofundarão neste período:
A necessidade de extender o aumento espetacular da produtividade ocorrido no período a todos os trabalhadores através de uma nova jornada do trabalho, adotada no plano mundial. Trata-se de uma drástica diminuição da jornada de trabalho evidentemente sem diminuição dos salários dos trabalhadores;
A urgência de promover novos sistemas de administração das empresas e das instituições ligadas ao setor produtivo em geral, com fortes implicações nas relações humanas e nas políticas micro e macroeconômicas;
Imediata reestruturação das corporações privadas, mistas e públicas seja no sentido de aumentar a participação dos trabalhadores e da sociedade em geral na condução das mesmas, seja no planejamento coletivo das suas atividades como na definição dos seus objetivos;
Formas estruturais de redução da desigualdade social, da exclusão social e da pobreza, cada vez mais incompatíveis com as exigências de sociedades cada vez mais complexas e com alto grau de informação;
A manutenção e agravamento destes desequilíbrios estruturais, resultantes de uma globalização guiada pela apropriação privada deste enorme aumento de capacidade produtiva e dos excedentes econômicos por ela gerados, trazidos pela revolução científico-tecnológica, leva a uma anarquia crescente proporcionada pela conservação do mercado e pela agravação dos desequilíbrios determinados pela intervenção irracional das forças sociais que os sustentam. Tudo isto leva a um mal-estar social que conduz à expansão das atitudes de rebeldia –mais ou menos questionadoras– das normas existentes, à violência criminal, ao consumo de drogas e outros instrumentos de escape de uma realidade angustiante, etc.;
Estes desequilíbrios estruturais provocam, como vimos, uma ameaça cada vez mais profunda à preservação e à melhoria do meio ambiente;
Esses dramas psicossociais formam o legado do crescimento econômico desigual, desequilibrado e socialmente exclusivo que resulta da hegemonia das forças sociais ainda hegemónicas;
As tendências de monopolização e oligopolização dos mercados locais, regionais e globais vão continuar a fortalecer-se nesse período, caracterizado pela formação de blocos regionais, crescente comércio intra firmas, competição combinada com cooperação entre corporações multinacionais, expansão de um gigantesco capitalismo de estado a serviço destes interesses e a gestão e formação de mecanismos de comunicação e redes de telecomunicações avançadas com projetos de hegemonia e domínio cultural, o qual é fundamental para o controle de uma situação social cada vez mais instável.
A questão da governabilidade e governança surge dessas realidades nos planos nacional, regional e global e levam à reconstrução de políticas econômicas e industriais e à reestruturação de instituições, sobretudo aquelas que afetam a economia e a política mundiais, mudanças que já afetam e afetarão as Nações Unidas e o sistema de organizações internacionais;
Destaca-se a necessidade de se estabelecer um projeto global de desenvolvimento sustentável capaz de garantir a preservação e a melhoria do meio ambiente e a eliminação da pobreza e miséria;
Coloca-se a necessidade do avanço das ciências para um plano mais complexo e interdisciplinar e do desenvolvimento de novas tecnologias que produzam novas maneiras de organizar a produção e seu impacto na sociedade como um complexo processo de interação cultural, econômica e social. Novas áreas de conhecimento como biotecnologia, novas tecnologias de comunicação e informação, novas fontes renováveis de energia, nanotecnologia, laser, assim como um redimensionamento colossal de nossa visão do cosmos são desafios impressionantes que colocam em cheque o medíocre sistema de poder e gestão existente, formado num passado já completamente superado.
O papel da economia política
A institucionalização de um pensamento econômico totalmente autista pretende orientar a tomada de posição de nações inteiras, cuja realidade passa por outros fatores como as relações sociais e políticas e as relações históricas de caráter local, nacional ou regional. Não se podem definir políticas concretas sem considerar as realidades geopolíticas em que se inserem os fenômenos econômicos.
O debate atual sobre os processos de integração não pode ser discutido dentro de um plano exclusivamente econômico. Neste plano, se considerarmos o pensamento neoliberal puro, teríamos que aceitar que a única integração correta é a do livre comércio generalizado. As integrações regionais seriam intervenções “artificiais” que impõem limites protecionistas às zonas não integradas.
Entretanto, introduzem-se considerações geopolíticas que indicam as preferências reais dos técnicos e “teóricos” para justificar o apoio a esta ou àquela proposta. Os defensores da ALCA, por exemplo, justificam sua necessidade pela importância do mercado norte-americano que, segundo eles, se abriria através deste mercado comum, o que de fato não correspondia à proposta apresentada. Os estadunidenses propõem uma diminuição de barreiras cambiais devidamente qualificadas, limitadas aos setores comerciais que lhes interessam, e uma abertura total ao livre movimento de capitais, que certamente não pretendem mudar os rígidos controles do movimento de capital, sobretudo do exterior, que opera dentro dos Estados Unidos.
Por que preferir os Estados Unidos como contraparte dos demais países latino-americanos? Como já dissemos não se pode deduzir esta preferência das “leis” econômicas manejadas pelos neoliberais. De seu ponto de vista a única coisa correta é o intercâmbio internacional livre. De repente, surge a alegação de que os Estados Unidos são “o maior mercado do mundo” e que, portanto, seria realista dar-lhes preferência total. Trata-se da inserção subliminar de um argumento geopolítico num discurso econômico “puro”.
Por trás desse argumento está a constatação de que as relações internacionais não são relações entre economias equivalentes, como se assume em todas as equações desta escola econômica, e, portanto, temos que raciocinar geopoliticamente quando falamos da economia mundial. Em consequência há que se jogar no lixo todas as equações que se baseiam em primícias equivocadas.
É a partir daí que temos que raciocinar sobre as propostas de mercados regionais, isto é, sobre considerações históricas, culturais e geopolíticas que demonstrem as vantagens de dar preferência por este ou outro país, por esta ou outra região. Quando se trata de dimensão de mercado, por exemplo, por que devemos privilegiar o norte-americano quando a União Europeia tem hoje um mercado similar? O México pode responder com um fator geográfico evidente: sua fronteira com os Estados Unidos. Mas o Brasil e a Argentina não contam com este fator. Pelo contrário, têm um contato muito mais forte com a Europa através do Atlântico. Assinar um tratado preferencial com os Estados Unidos não tem, portanto, nenhuma justificativa.
E uma integração sul-americana e latino-americana tem sentido geopolítico? Na realidade cada país da região teve sua economia organizada em função do mercado europeu e depois do norte-americano. Seu sistema viário se orientava essencialmente para os portos para entregar suas mercadorias às frotas mercantes internacionais. Durante o século XX foi-se introduzindo a possibilidade de impor pouco a pouco um “crescimento para dentro”. Em consequência, criou-se alguma estrutura viária voltada para os mercados nacionais. Estas mudanças foram interrompidas pelas políticas de ajuste estrutural e do consenso de Washington nas décadas de oitenta e noventa.
A ideia de um acordo regional sul e latino-americano se fundamenta numa vontade política de criar estas infraestruturas que são significativas oportunidades de investimento na região. Prontamente, se delineia a necessidade de políticas de desenvolvimento em todos ou em quase todos os países da região, os quais privilegiam o aumento de suas rendas nacionais. Desta maneira se converte num fato político mais ou menos explícito o objetivo de gerar novos mercados para o conjunto da região. Trata-se principalmente de criar economias de escala adequadas ao padrão tecnológico atual. É evidente que estas tendências indicam uma necessidade das economias mais poderosas da região protegerem este mercado potencial. A integração dos mercados sub-regionais entre si aparece, assim, como uma medida defensiva além de uma abertura de novas possibilidades.
Se acrescentamos a todas essas conveniências geoeconômicas as tradições históricas e culturais comuns, a formação de uma unidade ideológica e política regional em função da luta pela independência (tendo Bolívar como exemplo), entendemos por que há uma carga emocional espontânea tão forte a favor de uma verdadeira integração regional e não somente de um mercado latino-americano. Na medida em que compreendemos a força histórica e cultural deste caminho, podemos começar a raciocinar sobre os interesses geopolíticos da América Latina em cujo quadro devemos discutir a questão dos mercados e das vantagens preferenciais.
As últimas reuniões de cúpula do MERCOSUL indicam que, apesar de suas complexas necessidades de ajustes e principalmente de institucionalização, ele se estende por toda América Latina. De um lado temos a consolidação das relações entre seus membros plenos: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Os recentes confrontos entre Argentina e Brasil sobre as exportações industriais do Brasil caminham para novas medidas na direção de uma maior coordenação de políticas econômicas e de um melhor quadro institucional.
Na verdade, as disparidades de políticas econômicas foram o principal fator de choques entre os dois países centrais do bloco comercial em formação. Durante a década del noventa, o comércio entre eles esteve determinado por políticas cambiais irrealistas baseadas em convertibilidades artificiais de suas moedas locais. Em consequência, o comércio pendia para a Argentina quando o real se encontrava supervalorizado e vice-versa.
Depois da crise brasileira de 1999, que levou à desvalorização do real, se precipitou a crise argentina que levou ao abandono da convertibilidade do peso e à sua desvalorização. No momento atual ambos países manejam uma política cambial flexível mais realista e menos voluntarista. Isso deveria permitir um melhor equilíbrio comercial. Entretanto, não é assim.
Enquanto a Argentina segue na atualidade uma política de crescimento econômico que aumenta a demanda e, portanto, as importações, o Brasil continua prisioneiro das políticas restritivas que foram concebidas pelo Fundo Monetário Internacional. Elas apertam o cinto de sua população, eliminando gastos públicos de conteúdo social para pagar enormes taxas de juro completamente artificiais, as quais atraem inversões externas financeiras de utilidade duvidosa ou claramente antinacionais que valorizam o real e fazem cair as exportações.
O resultado destas políticas opostas deveria levar a um saldo favorável para a Argentina. No entanto, ocorre um aumento das exportações brasileiras para a Argentina devido a vantagens de escala que favorecem o Brasil e a reação dos industriais argentinos para impor barreiras alfandegárias para as importações industriais do Brasil, particularmente as indústrias chamadas de linha branca, se justificam.
Na realidade, estas exportações de estoques remanescentes por qualquer preço não são boas nem para um lado nem para o outro. Trata-se de um acirramento da competitividade baseada em fatores artificiais. Algo similar às políticas de falsa convertibilidade que caracterizou o período anterior e conduziu a graves crises.
No momento atual, os argentinos se mostram mais realistas e o governo brasileiro se vê prisioneiro de uma ortodoxia econômica absurda que sacrifica o destino dos povos da região. Deve-se esperar, portanto, que o bom senso triunfe e se caminhe para um ajuste e coordenação de políticas econômicas mais saudáveis.
Ao mesmo tempo em que vemos a consolidação dos primeiros membros associados do MERCOSUL, assistimos a pressão dos fatos que fazem com que Chile, Colômbia e Peru se vejam cada vez mais obrigados a superar suas veleidades bilaterais com os EEUU e pan-americanas, como foi a preferência pela ALCA. Ultimamente a debilidade de suas burguesias locais leva a um novo equívoco histórico: uma aliança do Pacífico que tem por líder os Estados Unidos.
Da mesma forma, a Venezuela e o México buscam a aproximação com o bem-sucedido bloco sulista. Isto é excepcionalmente positivo. Esses dois países, produtores de petróleo, estiveram condicionados pelos Estados Unidos a atender exclusivamente seu mercado. Hoje a Venezuela avança para concepções regionais cada vez mais dinâmicas, tanto internamente ao orientar grande parte destes recursos para os setores mais necessitados de sua população, como reorientando suas relações externas a favor da cooperação e da solidariedade regionais. Esta política corajosa e revolucionária consegue impor-se majoritariamente através de uma aliança substancial das suas lideranças com um forte movimento de massas cada vez mais consciente e organizado. Isto acirra a confrontação com as suas classes médias que viveram à custa dos recursos do petróleo sem nenhuma consideração com as necessidades das massas populares, excluídas do gozo destes recursos. Tudo indica que o confronto entre estas duas Venezuelas não se resolverá fácil e rapidamente. A liderança excepcionalmente democrática de Hugo Chávez e de uma vanguarda revolucionária que fracassou nas suas estratégias guerrilheiras mas soube reajustar suas concepções estratégicas e táticas em função das mudanças sociopolíticas nacionais, regionais e mundiais.
A última adesão mais promissora e significativa foi a do México. Para muitos latino-americanos o México havia abandonado definitivamente a região. Seu acordo comercial com o norte parecia levá-lo definitivamente para os mercados de “lá”. De fato, o México conseguiu realizar o sonho que os chilenos, os colombianos e os peruanos tanto aspiram. O acordo comercial com os Estados Unidos e só formalmente com o Canadá (NAFTA) abriu para o México mercados colossais, ajudado pela fronteira comum. Tanto é assim que o Canadá pouco participa na expansão comercial mexicana. Mas o México se vê obrigado a tomar cuidado com a dependência quase absoluta do mercado estadunidense gerado por esta política profundamente equivocada. Isto ficou evidente durante a crise norte-americana de 2001 a 2003 quando suas exportações caíram e seu produto bruto caminhou para a recessão, e mais dramático ainda na crise de 2008-2009 da qual ainda não saiu, além de sofrer uma recessão muito profunda, ocultada pela propaganda mediática internacional.
O México se declara latino-americano mesmo quando ocorre uma certa recuperação econômica dos Estados Unidos e se associa à CELAC, importante associação de toda a América Latina e o Caribe que exclue os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, busca integrar-se no MERCOSUL não só para assegurar sua identidade latino-americana mas também em busca de seu mercado atual e, sobretudo, potencial. Nunca é demais observar que o México tem que assegurar sua identidade cultural para não converter-se num estado a mais da federação norte-americana, sem direito a voz e voto, como Porto Rico. Não é um fato puramente simbólico a decisão de que a CELAC mantenha uma cadeira vazia à espera da participação da Costa Rica em suas Assembleias.
Por outro lado, através das mesmas fronteiras que se abrem ao comércio de bens escapam os desesperados da região, mexicanos ou latino-americanos em geral, para o centro da expansão capitalista cada vez menos atraente. Aí se prepara uma mudança cultural e até mesmo civilizacional, similar à queda do império romano penetrado pelos bárbaros. A população branca norte-americana, em franca diminuição, assiste o crescimento dos “latinos” em suas vizinhanças, com seus modos anárquicos cheios de alegria, de energia e de criatividade. É melhor que o México não se afaste destes migrantes. Os centros econômicos mundiais têm crescido através deles e as mudanças de poder mundial têm sido feitas com uma crescente participação dos mesmos.
- Expresidente ALAS, XVI Congreso, Río de Janeiro, Brasil 1985. ↵









