O “avanço” do mar sobre Atafona e a crise econômica das famílias “da sociedade” de Campos dos Goytacazes, na região Norte-Fluminense
Juliana Blasi Cunha
Introdução
Este artigo decorre diretamente da minha dissertação de mestrado defendida, em 2007, no Programa de Pós-graduação em Antropologia (PPGA) na Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a orientação do prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello. A pesquisa tratou das alterações na dinâmica das relações sociais implicadas na vida cotidiana no balneário de Atafona, frequentado, predominantemente até a década de 1990, por famílias “da sociedade” da cidade vizinha, Campos dos Goytacazes, na Região Norte do estado do Rio de Janeiro[1]. Localizado na margem direita do segundo maior delta do País, o do Rio Paraíba do Sul, o balneário de Atafona integra um dos distritos do município de São João da Barra[2]. Por meio da Festa de Nossa Senhora da Penha, padroeira do balneário, a pesquisa analisou as mudanças nas relações sociais estabelecidas entre os moradores locais, em sua maioria pescadores, e os veranistas de Campos dos Goytacazes, destacando as transformações nas formas como se relacionam e se representam nessa ocasião extraordinária da vida social.
No início do século XX, Atafona passou, aos poucos, a ser frequentada por famílias “da sociedade” do município vizinho de Campos dos Goytacazes. Tal categoria será discutida neste artigo, cabendo aqui apenas adiantar que se trata de um grupo com poder econômico relativamente variado, do qual faziam parte desde abastadíssimos usineiros até comerciantes e professores. Ainda que as famílias que compunham esse grupo apresentassem uma certa diversidade econômica, compartilhavam, por outro lado, de um determinado estilo de vida, marcado, por exemplo, pela frequentação dos mesmos salões dos clubes sociais em Campos dos Goytacazes e do mesmo balneário: Atafona. Tais famílias construíram ali suas residências de vilegiatura e, todos os anos no período do verão, deslocavam-se para esse balneário em busca da vivência do lazer.
Após viver seu “período áureo” nas décadas de 1960 e 1970, desde o final da década de 70, Atafona passou a conviver com um intenso processo de erosão marinha, que, de forma lenta, porém marcante, tem destruído inúmeras casas de pescadores locais e residências de vilegiatura desses veranistas. Conspirou ainda contra o antigo estilo de vida desse balneário uma crise econômica que se abateu sobre as famílias “da sociedade” de Campos, a partir da metade da década de 1980, com o processo de insolvência de muitas usinas de cana-de-açúcar[3].
Algumas dessas residências de vilegiatura datavam, por exemplo, de 1912 e contavam as histórias dessas famílias e das diferentes formas como elas se relacionavam com esse espaço doméstico e, de uma forma mais abrangente, com as ruas, praia, bares e clube desse balneário. Muitas delas viraram ruínas, inscrevendo no balneário lembranças de um estilo de vida que não mais existe. Do patrimônio material e simbólico de muitas dessas residências, além de tijolos e azulejos escondidos entre as ruínas à beira-mar, restaram apenas as recordações dos diversos momentos de sociabilidade ali vividos. Nas palavras de Simmel (1924): “La ruina es la forma actual de la vida pretérita, la forma presente del pasado” (Simmel, 1924, p. 226).
Para além das relações entre os moradores locais e os veranistas de Campos abordadas na minha dissertação de mestrado, no presente artigo, o foco recai, mais especificamente, nas famílias “da sociedade” de Campos e em suas antigas formas de sociabilidade no balneário de Atafona. A parte da pesquisa que será tratada neste artigo foi elaborada a partir de um trabalho de campo que teve como foco a memória oral e o material de arquivos privados dos meus interlocutores, como os álbuns de famílias. Por essas fotografias mostradas por meus interlocutores durante as nossas conversas, o fio da memória era ativado, trazendo uma dimensão detalhadamente rica às suas narrativas sobre as famílias e suas formas de sociabilidade nessa Atafona de “outros tempos”.
Buscando ver para além das fotografias com o auxílio de uma narrativa baseada em lembranças e emoções de alguém que havia presenciado o momento familiar cristalizado nessas fotografias, tornou-se possível refazer os caminhos das imagens, recuperando as histórias que as envolvem. Busquei fazer um investimento no sentido de mapear tais histórias através das pistas que as fotografias davam e das lembranças que suscitavam. A fotografia foi utilizada na pesquisa como ponto de partida para uma viagem interior, para o despertar de uma memória de sentimentos e emoções. Nas palavras de Lins de Barros & Strozenberg (1993, p. 79): “Fragmento do real que recorta o fluxo do tempo, toda foto é um registro parcial, uma pista para o trabalho de memória”.
Além disso, utilizei alguns livros de memórias escritos por pessoas que pertenciam a tais famílias “da sociedade” de Campos e fiz também uma pesquisa documental no Arquivo Público Municipal de Campos (Solar do Colégio), que teve como foco as colunas sociais de dois principais jornais da época: Monitor Campista e A Notícia. A pesquisa centrou a análise no período de veraneio (janeiro, fevereiro e março) entre as décadas de 1960 e 1980, por ser esse o período apontado por meus interlocutores, nas entrevistas anteriores, como o “período áureo” do balneário.
O contato com as famílias “da sociedade” de Campos para os fins desta pesquisa deu-se, inicialmente, pela minha avó, atualmente com 89 anos e veranista assídua de Atafona desde os sete. Destaco ainda o meu pertencimento também a esse lugar, pois, na ocasião da pesquisa, então com 22 anos, eu havia passado quase todos os meus verões em Atafona na residência de minha família lá construída em 1947. Buscando realizar um investimento no meu próprio modo de olhar esse objeto de estudo, considero importante mencionar que esse pertencimento ao lugar trouxe inúmeras vantagens na realização dessa pesquisa; por outro lado, colocou alguns interessantes desafios.
Pertencer a uma dessas famílias foi um excelente requisito na realização das entrevistas, pois, ao se tratar de um grupo fechado, tal pertencimento facilitava o meu acesso a esse universo. Através de contatos com minha avó e suas amigas, fui sempre muito bem recebida no interior de suas casas durante as entrevistas realizadas, que, quase sempre, se estendiam em almoços, lanches ou jantares. Ao fim das entrevistas, no momento da despedida, sempre se faziam notar as recomendações à família e a oferta de apoio ao que mais precisasse em relação à pesquisa.
Minha condição antecipava, de certo modo, a etapa na qual, se assim não fosse, me ocuparia de tentar conquistar a confiança desses interlocutores para estabelecer as condições mínimas que viabilizassem o acesso ao interior de suas casas e de suas mais reservadas memórias de uma vida passada. Desde o início do trabalho de campo, o estabelecimento fácil de contato e a boa receptividade já denotavam como essas famílias constituem um grupo coeso, que em muito se assemelha, por exemplo, com a descrição de Oracy Nogueira envolvendo as camadas dominantes do município de Itapetininga. Em suas palavras, essas famílias: “mantêm expectativas recíprocas de condescendência, simpatia, preferência e proteção entre si”. (Nogueira, 1962, p. 267).
No que diz respeito aos desafios colocados na realização desta pesquisa, ressalto a minha dificuldade inicial em olhar com interesse para o estudo da sociabilidade dessas famílias “da sociedade” de Campos. Minha ideia primeira de pesquisa era analisar as alterações causadas pelo avanço do mar na vida dos pescadores de Atafona. Foi por desejar trabalhar com a comunidade pesqueira desse lugar e por ter realizado a leitura do livro Gente das Areias (2017), de Mello & Vogel, que busquei o prof. Mello como orientador. Em nossa primeira conversa, no entanto, ele se mostrou bastante entusiasmado com a ideia de abordar Atafona como um balneário frequentado por um grupo que ele, na ocasião, chamava de “famílias abastadas de Campos”.
A ideia de trabalhar com a classe dominante de uma determinada sociedade não me pareceu interessante de início. As ciências sociais pareciam, para mim, à época ainda concluindo a graduação, ter por obrigação o estudo das classes desprivilegiadas ou dominadas. Nesse período, era ainda difícil compreender que os problemas que interessam à sociologia não necessariamente são problemas sociais ou que, como nos lembra Peter Berger (1963), um problema social nem sempre será um problema sociológico. O estudo do lazer e dessas classes privilegiadas era considerado, por mim, um tema menor ou mesmo irrelevante dentro das ciências sociais.
Além desse preconceito que trazia comigo, a excessiva proximidade com as atividades sociais desenvolvidas por tais famílias no balneário, por mim frequentado desde a infância, contribuía para que não entendesse como aquelas práticas, que me pareciam irrelevantes, poderiam ser submetidas ao crivo da análise antropológica. Essas questões me inquietaram durante o período inicial da pesquisa em que buscava ainda escrever o projeto para o mestrado. A compreensão de que à sociologia importa tudo aquilo que acontece em termos de interação social, relacionados ou não a problemas sociais, veio somente ao longo da realização da pesquisa.
Nesse sentido, nunca é demais destacar que o objeto de estudo da antropologia e da sociologia existe, portanto, onde quer que haja indivíduos em interação social. É da análise da vida social cotidiana que deve se ocupar grande parte dos sociólogos, pois é nela que a sociedade existe. Como nos ensinou Simmel (1983), a sociologia deve tratar
… dos processos microscópicos-moleculares […] de descobrir os delicados fios das relações mínimas entre os homens, em cuja repetição contínua se fundam aquelas grandes formações que se fizeram objetivas e que oferecem uma história propriamente dita. Essas modalidades de relação devem ser submetidas ao estudo formal (Simmel, 1983, p. 83).
Dessa forma, através daquilo que o Prof. Mello chamava de uma “etnografia retrospectiva”, no presente trabalho o foco recai nas famílias “da sociedade” de Campos dos Goytacazes e, sobretudo, em suas formas de sociabilidade no balneário de Atafona em seu período considerado áureo. O presente trabalho tem como objetivo descrever, de forma retrospectiva, o modo como esse grupo se relacionava entre si e como imprimiu suas formas de sociabilidade no espaço e na vida social local, contribuindo para que o balneário atingisse notoriedade, sobretudo nas décadas de 60 e 70, entre outras praias da região.
Trata-se, portanto, de um trabalho que busca, através de memórias e fotografias, descrever e analisar o estilo de vida dessas famílias em Atafona que passou por diversas alterações ou que, praticamente, não mais existe. É interessante destacar que escrevendo esse artigo, 12 anos após a realização dessa pesquisa de campo, constatei que 4 dos meus 5 interlocutores citados neste artigo faleceram nesse período. Aproveito para agradecer, mais uma vez, a esses interlocutores e ao Prof. Mello, por me permitirem, através dessa pesquisa, registrar parte da história desse balneário que, além das mudanças em seu modo de vida, convive ainda, a cada ano que passa, com o desaparecimento de suas casas, bares, clube e até mesmo ruas inteiras.
I. Relações históricas entre as duas cidades: da economia à vivência do lazer
As cidades de Atafona e de Campos dos Goytacazes estão atadas pela mesma origem e vizinhança, e a história do desenvolvimento das duas está entrelaçada. As terras da planície campista são privilegiadamente férteis, no entanto, estão isoladas, não possuindo saída própria para o mar. Lamego (1945) destaca a importância para Campos desse acesso para o oceano, que se fazia através do porto de São João da Barra e, mais especificamente, de Atafona.
É somente com o início do “ciclo do açúcar” de Campos que começa a haver um incremento na navegação da foz do Paraíba, fazendo crescer a renda do município vizinho de São João da Barra e, logo, de Atafona. O início do desenvolvimento de São João da Barra está atrelado, portanto, à entrada da contígua cidade de Campos no “ciclo do açúcar”. Segundo Lamego (1945), o processo de decadência desse porto se deve às próprias condições naturais da barra que inviabilizaram o escoamento da crescente produção de açúcar de Campos com o surto de suas primeiras usinas, aproximadamente, em 1880. As condições naturais da barra tornaram a exportação deficiente.
Aos poucos, a navegação em São João da Barra foi definhando e, em 1895, a Estrada de Ferro Campista chegava a São João da Barra e, pouco depois, em 1897, a Atafona. Em 1902, a Estrada de Ferro Campista passou a pertencer à firma inglesa Leopoldina Railway. O porto de São João da Barra, assim:
… mingua aos poucos em concorrência com a Leopoldina, que, encampando as estradas de ferro, já é senhora de todo o transporte regional. As tarifas ferroviárias baixam, até que o porto da foz do Paraíba seja aniquilado, e então a companhia inglesa começa a levantar absurdamente […] fretes e passagens (Lamego, 1945, p. 158)
Pode-se pensar que, por trás desse processo, não estavam apenas as condições naturais da estrangulada foz do Paraíba, mas, sim, interesses políticos e econômicos que permitiram o rápido desenrolar de tais acontecimentos. O investimento em melhorias para auxiliar as condições naturais do porto seria uma opção política que não foi tomada. O comércio regional ficou, assim, dependente da companhia férrea inglesa, passando, depois, a ser feito pelas estradas asfaltadas. Com a decadência do seu porto, São João da Barra subsistiu das tarefas agrícolas possíveis de serem realizadas no extremo norte de suas terras[4] e comercializadas na famosa feira de Gargaú; da fabricação de vassouras e palhões; do açúcar produzido pela Usina Barcelos; da pesca e da fábrica de Conhaque de Alcatrão, fundada em 1915, por Joaquim Tomás de Aquino.
A cidade de Campos dos Goytacazes, por sua vez, através de suas inúmeras usinas, prosperou de maneira a atingir notoriedade entre os municípios do estado e, até mesmo, do País. Durante longo período, o município de Campos alcançou o posto de principal produtor do setor açucareiro do estado. Sua classe dominante, com isso, atingiu repercussão na política estadual e até nacional. Em 1970, Campos concentrava o maior número de usinas no estado do Rio de Janeiro com 15 em funcionamento: Cambaíba, Mineiros, Outeiro, Poço Gordo, Santa Cruz, Cupim, Novo Horizonte, Paraíso, Santa Isabel, Queimados, Santo Amaro, Santo Antônio, São João, São José e Sapucaia.
As duas cidades vizinhas, gêmeas em sua fundação, seguiram, portanto, caminhos distintos ao longo do século XX. Não tendo alcançado São João da Barra o mesmo destaque da proeminente vizinha Campos, ficou dela dependente, por um longo período, para muitos serviços que não possuía ou possuía com menor qualidade e quantidade, como bancos, escolas e hospitais. O interesse econômico de Campos pela saída para o mar de São João da Barra foi o elemento que, inicialmente, estreitou a relação entre as duas cidades. Mesmo com a decadência de tal porto, no entanto, o campista continuou a procurar as terras são-joanenses, mais especificamente, a cidade de Atafona, adotando-a como seu balneário.
II. Sobre os notáveis frequentadores de Atafona: as famílias “da sociedade” de Campos dos Goytacazes
Em meados do século XX, a cidade de Campos vivia seus “anos dourados” em termos econômicos por conta das usinas de cana-de-açúcar; com isso, algumas famílias gozavam de uma intensa agenda de eventos sociais, compondo, assim, aquilo que era chamado pelas colunas sociais da época de “sociedade”. Diversos, na ocasião, eram os bailes de gala para recepção de figuras ilustres da política estadual e nacional em visita à proeminente cidade. Os salões dos clubes Automóvel Clube e Saldanha da Gama fervilhavam com a intensa agitação social. Bailes de debutantes, festas de casamentos, jantares beneficentes e bailes da primavera animavam a vida social dessa “sociedade” em atividades que se realizavam tanto nos clubes como, em alguns casos, em suas residências. Havia ainda as famosas festas de encerramento das safras nas usinas.
Grande parte dessas famílias é oriunda de zonas rurais nos arredores de Campos que para lá se mudou. Em alguns casos, são descendentes de abastados fazendeiros, em outros, de origem pobre dessas áreas vizinhas. Há ainda os que são descendentes de imigrantes espanhóis, italianos, portugueses e árabes que se estabeleceram na região. Alguns foram estudar no exterior ou no Rio de Janeiro, formando-se “doutores”. Outros seguiram as origens dos pais, continuando à frente das fazendas ou usinas. Segundo Feydit (2004):
O fazendeiro que tinha quatro filhos varões, geralmente destinava para eles os seguintes meios de vida: o que era julgado como mais inteligente ia estudar para advogado; o segundo para médico ou engenheiro; o terceiro para padre, e aquele que era mais destituído de inteligência era o futuro fazendeiro! (Feydit, 2004, p. 271).
Em uma cidade que se destacava no País como uma de suas maiores produtoras de açúcar e cana, os responsáveis por tal feito, isto é, os usineiros e os fazendeiros abastados, desfrutavam de alto status na hierarquia local. José Cândido de Carvalho, ilustre escritor campista, em O Coronel e o Lobisomem, através do projeto de vida do personagem Ponciano, ilustra um pouco do que representava ser usineiro em Campos: “Comecei com jeito de grandeza. Meu ideal era ser usineiro, viver no último andar de trezentos mil sacos de açúcar! “.
Uma de minhas principais interlocutoras, Nídia Lysandro de Albernaz — atualmente falecida, mas, na ocasião da pesquisa, com 83 anos —, em sua narrativa, também contribuiu para a compreensão do que era pertencer a uma família de usineiros. Tal senhora era uma dos quatros filhos de Bartolomeu Lysandro de Albernaz, que foi dono das Usinas de São João e Poço Gordo. Em suas palavras:
As usinas eram fábricas de produzir dinheiro e uma família como a nossa, que possuía duas, era uma coisa! Tudo que precisávamos para organizar qualquer evento conseguíamos com a maior facilidade. Era só pedir que todos faziam questão de nos atender. Você não pode avaliar… Tínhamos muito prestígio (Nídia Lysandro).
Algumas dessas famílias realizavam “obras de caridade” e ainda outros investimentos na cidade de Campos, tornando-se conhecidas como importantes “beneméritos da sociedade”. O Educandário São José Operário, por exemplo, foi idealizado por Nídia Lysandro e outras senhoras da sociedade, que ficaram conhecidas como “damas de São José”. Em suas palavras, Nídia conta que:
O primeiro benfeitor da instituição foi papai. Disse a ele que um grupo de senhoras estava fazendo uma campanha para ajudar e ele deu 10 mil. Quando contei às meninas, Marília Aquino disse que iria pedir a Joaquim Tomás (seu sogro) porque, se meu pai tinha dado 10 mil, ele ia querer contribuir também (Nídia Lysandro).
Imagem 1. Jantar Dançante São José Operário, 1956

Fonte: Arquivo Privado Nídia Lysandro de Albernaz.
Essas senhoras promoviam concorridos bailes de gala nos salões dos clubes locais para angariar fundos para as suas ações. Contavam também com o apoio econômico de seus maridos, pais e sogros. A coluna social do jornal A Notícia, em 1956, relata uma das festas, chamada de “promoções”, para a arrecadação de dinheiro para a construção do Educandário: “Foi de grande êxito o jantar dançante realizado domingo no Automóvel Clube Fluminense pelas damas do São José Operário. […] Agradou muito também, a todos, os dizeres de um quadro iluminado: A Caridade é o segundo mandamento em ação”.
Outra família que se destaca nesse cenário é a Pereira Pinto, proprietária das usinas Santa Maria e Santa Isabel, também conhecida como a responsável pela construção da Santa Casa de Misericórdia de Campos. Segundo me contaram alguns interlocutores, tal obra teria sido realizada por essa família e, em ocasião solene, com toda a “pompa e circunstância”, inaugurada pelo senador José Carlos Pereira Pinto na presença do então presidente Getúlio Vargas. A placa com o nome da família encontra-se afixada na parede da Santa Casa do lado de fora com o nome de seus “benfeitores”.
Nesses dois exemplos, as famílias “benfeitoras” são de usineiros que, além de desfrutar de enorme poderio econômico e prestígio social, configuravam-se também como uma ampla e articulada rede de apoio político e trocas de favores entre si. Muitos deles se candidataram diretamente ou apoiaram a candidatura de parentes próximos a importantes cargos do Legislativo e do Executivo em âmbito nacional, como no exemplo referido acima do senador José Carlos Pereira Pinto. Muitos outros são os exemplos dos que se tornaram prefeitos, deputados, vereadores e senadores. O prestígio dessas famílias pode ser facilmente evidenciado quando se constata que muitas transformaram-se em nomes de ruas e escolas públicas em Campos dos Goytacazes.
No interior do grupo “da sociedade” campista, havia distinção de status de acordo com a projeção econômica, ocupacional e política de cada integrante na sociedade mais ampla. Essa diferenciação refletia-se na posição e no papel ocupado por cada um no interior do grupo. Os papéis de maior destaque cabiam aos usineiros e proprietários abastados, que ficavam no topo dessa hierarquia. Essa sociedade subdividia-se em grupos menores formados por parentes e amigos que se conheciam e mantinham relações de maior ou menor grau há algumas gerações.
Um subgrupo, por exemplo, que ficou muito conhecido em Campos, nessa “época áurea”, foi o “Chacrinha”. Entre as décadas de 1960 e 1970, em um casarão na rua Treze de Maio, de Olympio Pinto, médico e abastado fazendeiro da cidade, o grupo realizava uma série de intensas e animadas atividades sociais. Uma de suas filhas e genro, respectivamente, Stela e Solano Braga, realizavam, nessa casa, festas concorridas na “sociedade”, chegando a ficar conhecida como uma espécie de “clube privé”. Diferentemente dos salões dos clubes da cidade, para participar das festas no Chacrinha, era necessário um convite pessoal. Obviamente, os salões dos clubes sociais não eram espaços democráticos ou acessíveis a toda cidade, mas as famílias “da sociedade”, em geral, tinham ali sua entrada garantida. Diferente, no entanto, era o que se passava nas festas fechadas do “Chacrinha”. Faziam parte do “Chacrinha”, além do núcleo doméstico de Olympio Pinto, muitos primos e amigos de elevado destaque social.
Imagem 2. Baile à fantasia no Chacrinha, 1965

Fonte: Arquivo Privado de José Carlos Pereira.
O grupo compunha-se também de amigos e parentes distantes de não tão elevado poderio econômico, mas que, no entanto, estabeleciam-se através de outros valorizados atributos ao convívio social: mostravam-se convivas sempre educados e agradáveis para os jogos de vôlei, de carteados e para as festas. Norbert Elias, em Sociedade de Corte (2001), mostra como e por que os indivíduos que ocupam posições inferiores na corte acabam tornando-se, por exemplo, excelentes “estrategistas de conversação”.
Todas essas pessoas reunidas formavam uma espécie de “família extensa”. Tal “família” foi descrita como uma “corte” por uma de minhas interlocutoras, Diva Goulart, atualmente falecida — na ocasião da pesquisa, estava com 89 anos. Colunista social e membro “da sociedade”, relatou sobre o Chacrinha: “Como eles eram uma família muito grande e conhecida, tinha uma corte de amigos também rodeando. Então, essa corte meio que se incorporou à família” (Diva Goulart).
Imagem 3. Festa de Réveillon no Chacrinha, 1967

Fonte: Arquivo Privado José Carlos Pereira.
Embora não desfrutassem exatamente do mesmo poderio econômico que os usineiros e os abastados proprietários rurais, de grande prestígio social usufruíam também certos médicos, advogados, professores e comerciantes na estrutura organizacional mais ampla. Ainda que, economicamente, houvesse uma diferença grande entre esses, formavam, porém, um mesmo grupo: o da “sociedade” campista. Sobrepunha-se à diferenciação econômica o que chamam de “boa educação” e “berço” ou, ainda, o refinamento do gosto e os hábitos em comum. Diversas eram as famílias, portanto, que não dispunham de muito recurso, mas, ao longo das gerações, adquiriram prestígio pela esmerada educação ou pelo destaque no âmbito profissional. Tais famílias também conquistaram algum espaço no interior desse grupo. Nas palavras de Rosely Sanz Blasi, atualmente com 89 anos e, na ocasião da pesquisa, com 77 anos:
Uma família sem ter muito dinheiro, mas que é educada, sabe tratar as pessoas e se apresenta bem na sociedade, tem seu lugar, né? Minha família veio de baixo, mas quando faziam festa, todo mundo sabia que a festa que tinha na nossa casa era com tudo do bom e do melhor. Meu pai era um comerciante muito popular, era muito bem-visto. Sua bisavó era modista, conhecia todo mundo e ajudava a organizar as festas…fazia também muita caridade. Assim, foram se tornando conhecidos com o passar dos anos (Rosely Sanz Blasi).
A “sociedade” campista subdividia-se, portanto, em alguns agrupamentos de parentesco e convívio ou “famílias extensas”. A “chefia” de cada uma dessas “famílias extensas” era exercida por uma figura que se sobressaia aos demais pelo poder econômico e prestígio social e político. Pelos atributos necessários, não é difícil imaginar que, quase sempre, os “chefes” desses subgrupos eram usineiros ou abastados fazendeiros. Em torno deles, flutuavam parentes e amigos de status menos elevado que o seu. Através das entrevistas por mim realizadas tornou-se claro que, apesar de possuírem origem e situações econômicas variadas, em meados do século XX, essas famílias se conheciam e mantinham relações, políticas, econômicas e sociais há duas ou, em alguns casos, três gerações. O “princípio da antiguidade” atuava, portanto, como um forte elemento propiciador da coesão social existente entre essas famílias, bem como no paradigmático caso Winstor Paiva, analisado por Elias & Scotson (2000).
Apesar da diversidade interna do grupo no que diz respeito à poderio econômico e prestígio social, essas famílias consideradas “da sociedade”, em geral, podiam contar com a condescendência e a proteção, bem como que tomem posição política em bloco, como destacou Oracy Nogueira (1962) ao estudar a classe dominante de Itapetininga. Em contraste com o restante da população da cidade, os abastados usineiros, os industriais, os médicos, os professores e os comerciantes, formavam um grupo único: a “sociedade” campista. Foi esse grupo de famílias que elegeu Atafona como seu balneário, fazendo com que, entre as décadas de 60 e 80, alcançasse destaque entre outras praias da região. Nas palavras de Diva Goulart: “Atafona torna-se para a sociedade campista um corolário de vida. Toda família de maior conceito de Campos tinha uma casa em Atafona”.
III. Das formas de sociabilidade das famílias “da sociedade” campista em Atafona
No início do século XX, Atafona passou, aos poucos, a ser procurada e frequentada por veranistas de Campos dos Goytacazes. Nessa ocasião, não havia água encanada, rede de esgoto, luz elétrica e outros serviços básicos. Para os poucos campistas que a frequentavam, esse foi um período de “muita rusticidade” no balneário. Atafona foi o lugar escolhido por muitas dessas famílias como o balneário no qual desfrutariam as tão esperadas férias de fim de ano. Nesse período inicial, poucos eram os moradores de Atafona. Os habitantes mais próximos eram os pescadores das vizinhas ilhas da Convivência e do Pessanha e os moradores da cidade de São João da Barra. Apesar de diferentes, as motivações iniciais para a frequentação do lugar estão associadas ao mesmo elemento: seu “clima privilegiado”.
Os preparativos dessas famílias “da sociedade” para o verão começavam em fins de dezembro, quando já se organizavam os objetos e utensílios que seriam transportados para Atafona. Levava-se desde louças, panelas, roupas de cama, colchão, camas, fogão, até os funcionários de sua preferência com os quais já estavam acostumados em Campos. Até 1896, quando se inaugurou a linha férrea, a única forma de se chegar a Atafona era através dos vapores pelo mar ou, mais comumente, das “pranchas” pelo rio Paraíba do Sul. Era comum, nessa época, que os poucos veranistas fossem nessas pranchas, que saíam às 22h da Beira Rio em Campos, a favor da correnteza e contra o vento nordeste, e chegava a Atafona às 6h da manhã.
Com a inauguração da estação ferroviária em Atafona, em 1896, o trem passou a ser a opção mais procurada entre os veranistas para lá chegar, transportando seus utensílios. Depois de 1930, o que era apenas uma trilha ligando Campos ao balneário passou a ser uma estrada de chão batido, intransitável na época das chuvas e das cheias do rio Paraíba. A viagem por essa estrada durava no mínimo três horas e passou também a ser uma opção para aqueles que possuíam carro e, sobretudo, coragem e disposição.
Grande parte das atividades sociais nesse período inicial realizava-se no âmbito doméstico. As reuniões, restritas a amigos e parentes, em festas e refeições familiares eram características nas residências de vilegiatura que aos poucos eram construídas na região. Após o almoço, a reunião na varanda era sempre movida por brincadeiras e, em alguns casos, acompanhadas de música tocada ao vivo por alguns dos convivas. Diversão de criança, na ocasião, era esperar a hora de ajudar os pais a preparar os lampiões para quando chegasse a noite. Como não havia energia elétrica, os passeios restringiam-se a visitas aos vizinhos que se reuniam para jogar víspora.
Imagem 4. Reunião na varanda da Jangada Ypiranga, 1949

Fonte: Arquivo Privado Rosely Sanz Blasi.
Era comum também que as residências de vilegiatura dessas famílias recebessem nomes como: “Vila Rosita”, “Vivenda Gaby”, “Vila Dora”, “Vivenda Boeschestein” e “Vila Dois Irmãos”. Tais nomes eram fixados na parede da varanda. Além de homenagear a “dona-do-lar”, figura tutelar dessas casas e famílias, por vezes, esses nomes parecem servir para marcar a identidade das famílias no balneário. Através deles, era possível identificar a localização de uma casa e seu respectivo dono. As casas estavam diretamente relacionadas à identidade das famílias a que pertenciam.
A casa da minha família, por exemplo, foi construída em 1947 e recebeu o nome de “Jangada Ypiranga”. Seu fundador, João Sanz, meu bisavô, era filho de imigrantes espanhóis e representante comercial da marca de tintas Ypiranga na cidade de Campos dos Goytacazes. A casa foi construída próximo ao mar em um terreno doado pela Marinha. Nessa época, as poucas casas em Atafona ficavam próximo à estação de trem, considerada a área central do balneário e relativamente distante de onde foi construída nossa casa. As fotos antigas fizeram com que minha avó se lembrasse e ressaltasse o detalhe, visível na imagem abaixo, de que, na região em que a casa foi construída, na época, não havia nada por perto. Em suas palavras: “Era tudo areia”.
Imagem 5. Jangada Ypiranga, 1948

Fonte: Arquivo Privado Rosely Sanz Blasi.
Os objetos presentes na varanda, desde a sua fundação até os presentes verões, trouxeram à tona o que se pode chamar de “potencial latente” das fotografias, revelando histórias e traços que não são visíveis na imagem, isto é, a sua dimensão simbólica, que só pode ser alcançada por lembranças acompanhadas de narrativas. A casa foi nomeada, por João Sanz, de Jangada Ypiranga devido à semelhança com tal embarcação no que diz respeito à sua simplicidade e singeleza. O Ypiranga é proveniente de seu envolvimento profissional, isto é, de onde ganhava o dinheiro que lhe propiciava a construção da casa e a vivência do lazer com sua família em tal balneário. A identidade construída no mundo profissional perpassa, assim, a face da vida doméstica. Em 1947, quando a residência da família terminou de ser construída, junto a uma placa com o nome Jangada Ypiranga fixada na parede da varanda, João Sanz pendurou também dois remos que se cruzam e, no meio, colocou uma boia com a inscrição “Mens Sana in Corpore Sanz” fazendo um trocadilho com o seu sobrenome.
Imagem 6. João Sanz na Jangada Ypiranga, 1957

Fonte: Arquivo Privado de Rosely Sanz Blasi.
Todos os anos, até os dias atuais, quando da chegada do verão, tais objetos são religiosamente fixados na parede da varanda pela família, marcando a abertura da casa para mais um verão em Atafona. Ao fixar tais objetos, marca-se o início das férias e ainda a presença e a identidade da família e da casa nesse balneário. Ao final da temporada de verão, chega o momento de “fechar a casa”, que tem seu desfecho final com a retirada desses objetos da varanda. Tal momento destaca, na vida social cotidiana, o encerramento de mais uma temporada de verão dessa família em Atafona. Os objetos foram sempre muito bem guardados, de maneira que, no verão seguinte, fossem encontrados em perfeito estado para ser novamente pendurados.
Por esses símbolos e processos de nominação, era possível associar as casas aos seus donos. Formava-se, assim, uma espécie de mapa cognitivo mental do balneário que orientava tanto os veranistas como também os moradores locais para a entrega e a venda de mercadorias. Os prestadores de serviços locais sempre souberam perfeitamente o nome das famílias e onde ficavam suas casas, a quem vendiam verduras, frutas, queijos e, sobretudo, peixes, camarões e caranguejos. Essas casas, por vezes, são centenárias e inscreviam a identidade das famílias no balneário. Através das narrações da construção, inauguração e das reformas, meus interlocutores muito me revelaram sobre a história de suas famílias em Atafona. A partir da casa, rememoravam episódios, pessoas e querelas.
Um dos poucos encontros dessas famílias no espaço público, nesse período inicial de Atafona, era o “banho de mar”. A beira do mar era bem distante e, como muitos interlocutores destacaram, a faixa de areia era muito extensa, de forma que era comum que fossem de jipes até a praia. Na “beira-mar”, as famílias ficavam reunidas em grupos de acordo com os pontos de vizinhança e os laços de parentesco. Até a década de 1950, esse era o principal ponto de encontro fora do ambiente doméstico. Era ali que se podia “ver e ser visto”, uma vez que o restante das atividades sociais era realizado no interior ou nas varandas de suas residências de vilegiatura.
Imagem 7. Banho de mar, 1957

Fonte: Arquivo Privado José Carlos Pereira.
Imagem 8. Jogo de bola à beira-mar, 1957

Fonte: Arquivo Privado José Carlos Pereira.
Até 1950, o balneário foi marcado por rusticidade e esse, para fins de análise, pode ser classificado seu período inicial. A presença desses veranistas na região atraiu, ao longo de sua história, a prestação de diversos serviços destinados a prover uma melhor estrutura para a temporada de verão. Pela sua intrincada rede de relações sociais e políticas, essas famílias de Campos trouxeram investimentos para o local que elegeram como balneário. À frente de praias vizinhas, Atafona começou a contar com água encanada, luz elétrica, posto telefônico, pensões, um cassino, uma estrada asfaltada ligando-a a Campos, um clube, alguns bares, restaurantes e até um improvisado cinema.
Ao que tudo indica, construída em fins da década de 1950, a estrada asfaltada ligando o balneário a Campos, ao reduzir o tempo do deslocamento e facilitar o acesso ao lugar, pode ser pensada como um marco que acabou por atrair mais serviços e atividades recreativas, fazendo com que Atafona se tornasse o balneário por excelência das famílias “da sociedade” de Campos. Em uma de suas muitas tiradas irônicas, Diva Goulart me disse: “Atafona é o Biarritz do campista”.
O lugar atinge notoriedade entre as praias da região. A fama é a de um balneário frequentado por famílias “da sociedade” campista em busca da vivência do lazer. O lazer corresponde a uma liberação periódica do trabalho, seja no fim do dia, da semana ou, como nesse caso, no fim do ano. Dumazedier faz questão de enfatizar a distinção entre o lazer nas sociedades modernas e a ociosidade característica da classe aristocrática das sociedades tradicionais. A categoria lazer, segundo Dumazedier, diferencia-se da ociosidade porque não suprime o trabalho, mas, sim, o pressupõe[5].
Os meses passados em Atafona compensavam e complementavam a rotina de um ano inteiro de trabalho na cidade de Campos dos Goytacazes. Para fins da análise socioantropológica, pensando no lazer como um período em que se busca um afastamento de certos tipos de atividades, sobretudo profissionais, a pesquisa procurou pensar quais os tipos de atividades que se intensificavam ou reforçavam entre essas famílias nesse período de férias passado em Atafona. Ao invés de “negativar” o período do lazer, pensando apenas na ausência de atividades economicamente produtivas, buscou-se pensar nos tipos de atividades realizadas pelas famílias “da sociedade” campista nesse período.
As práticas sociais cotidianas desenvolvidas por essas famílias no balneário compõem um repertório variado de formas de convivência ou de “estar junto” buscando atividades recreativas que se destinam a passar o tempo, à distração, enfim, ao entretenimento. O “banho de mar”, o voleibol, as caranguejadas e festas oferecidas em suas residências, os concorridos carteados, os passeios em noites enluaradas, os jogos de víspora, as serenatas e, mais tarde, os restaurantes, bares e bailes no Atafona Praia Clube caracterizam as formas de sociabilidade dessas famílias nas férias.
Nas décadas de 1960 e 1970, a construção das residências de vilegiatura intensificaram-se consideravelmente marcando presença nas ruas do balneário. A paisagem de enormes “buracas” de areia e pitangueiras foi tomando, aos poucos, formato de amplas avenidas com quadras bem delimitadas. Através de suas residências de vilegiatura e serviços que atraíram, essas famílias foram imprimindo as marcas de seu grupo no espaço. Novas relações se estabeleciam entre elas pela vizinhança em que o balneário as inscrevia. Atafona era um lugar onde o grupo se organizava e se distribuía pelo território de uma maneira distinta da de Campos. Famílias que, em Campos, tinham pouco ou nenhum contato, lá se tornavam convivas, por exemplo, pela relação próxima de vizinhança.
Em Atafona, formavam-se grupos que só existiam durante a temporada de verão. São os “amigos da praia”, que, durante o ano, encontram-se apenas ocasionalmente em reuniões de amigos em comum. Nas palavras de Diva Goulart:
Nem sempre as famílias que tinham casa e ficavam íntimas durante a temporada de verão, permaneciam com esse relacionamento em Campos. Então, se você tinha uma casa do lado de Manoel Vieira e lá faltava um pouco de açúcar, batia na casa da Diva aqui e pegava. Em Campos, seu Manoel Vieria morava na Rua Sete e eu na Beira Rio, compreendeu? Então, lá na praia a convivência era muito diferente (Diva Goulart).
Nas décadas de 1960 e 1970, marcou o balneário o surgimento de espaços voltados para as atividades recreativas dessas famílias. Foi nessa época que, aos poucos, se instalaram em Atafona, “no verão”, bares e restaurantes para atender à demanda dos campistas. Além disso, por iniciativa de algumas das muitas famílias que lá veraneavam, um grupo se reuniu e, em 1959, fundou o Atafona Praia Clube. Uma das principais razões apontadas para sua fundação era não mais ter que interromper a temporada de verão para “brincar” o carnaval nos salões dos clubes sociais de Campos. Nas décadas de 60 e 70, muitas foram as atividades sociais promovidas por essas famílias para o desfrute do seu grupo: shows com artistas de destaque nacional, bailes do Hawaii, festas à fantasia e concursos para eleger a “rainha do verão”. Entre todas essas atividades, é dos bailes de carnaval que os interlocutores se recordam com maior entusiasmo.
Imagem 9. Desfile de fantasias de carnaval no Atafona Praia Clube, 1971

Fonte: Arquivo Privado César Caldas.
Imagem 10. Baile de Carnaval no Atafona Praia Clube, 1969

Fonte: Arquivo Privado César Caldas.
Tais espaços foram frequentados e aproveitados, principalmente, pela “nova geração”, que, nas colunas sociais, era conhecida como “geração goiabada”. São os jovens que, na década de 70, tinham “vinte e poucos anos” e procuravam um pouco mais de liberdade fora do âmbito doméstico das atividades realizadas em suas residências, onde ficavam sempre sob as vistas de parentes e conhecidos. Esses, em alguns casos, já faziam parte da terceira geração na sua família de frequentadores do balneário. Seus avós seriam os pioneiros do início do século. Seus pais foram os jovens que frequentaram a Atafona rústica ou, nas palavras de Santafé, “selvagem e romântica” da década de 40.
Os novos espaços voltados para a sociabilidade dessas famílias, sobretudo dos jovens, em nada alteravam a atividade que se destaca como a marca principal delas no balneário: as reuniões de parentes e amigos no âmbito doméstico. O Clube, os bares e restaurantes não suplantaram as antigas reuniões que as famílias realizavam em suas residências de vilegiatura. As festas, os churrascos, almoços ou caranguejadas aconteciam no quintal das suas casas. Já as visitas breves, recebidas com um suco ou café, davam-se sempre nas varandas, marcando a diferença nas formas de apropriação do espaço dessas residências, sempre de acordo com as atividades e com o grau de intimidade com quem era compartilhada.
Era nessas residências de vilegiatura que predominantemente as famílias reuniam seu agrupamento de parentesco e convívio para desfrutar a vivência do lazer em Atafona. Assessoradas por uma equipe contendo, em média, cinco funcionários domésticos, em sua grande maioria com os que já trabalhavam em Campos[6], com frequência, abriam as portas de suas residências para “receber” parentes e amigos. Diversos eram os motivos que animavam suas festas e reuniões, podendo ser um aniversário, a chegada de algum membro do grupo que estava viajando ou um recital infantil. Independentemente do motivo aparente, o que parecia movê-las mesmo era o encontro entre os convivas, animados por boas comidas, bebidas e bate-papos.
O carteado tinha lugar de destaque entre os “passatempos” dos veranistas, sobretudo os de “meia-idade”. Havia grupos fixos de jogadores entre as casas dos quais a partida se revezava. Esse passatempo era concorrido tanto pelos homens como por suas senhoras. Os casais iam juntos para a residência onde ocorreria a partida e lá se dividiam em equipes por gênero. Era comum que homens jogassem o pôquer ou o “pif-paf” enquanto as mulheres, a “biriba”.
Nesses jogos, a competição é direta, dependendo do resultado, ao mesmo tempo, da habilidade do jogador e do azar. Os jogadores do grupo revezavam-se na função de “receber” seus parceiros de carteado em suas residências ao menos uma vez por semana, mantendo a prática ativa. O jornal A Notícia, de 09/01/73, destacava: “Marinela e Walter Zuchner receberam grupo de amigos formado por Nídia e Aylton Damas dos Santos, Stelinha e Solano Braga, Moema e Carlos Abdelcaber para carteado”.
Além de ter realizado entrevistas com o casal anfitrião acima citado, tenho inúmeras recordações de infância dos jogos em sua casa, que é vizinha a da minha família no balneário. Lembro-me de Marinela Zulchner organizando com seus funcionários os preparativos para o jogo da tarde. Segundo ela, atualmente falecida, mas na ocasião da pesquisa com 75 anos, em sua casa, fazia parte dessas tardes de carteado, um “lanchinho com salgadinhos, bolos variados, café, refrigerantes, doces em calda feitos com as frutas da terra”.
Alguns dos meus interlocutores procuravam desconversar quando o assunto em pauta era o hábito dos carteados. O motivo para tal constrangimento parece ser o fato de tais jogos serem estigmatizados moralmente por envolverem dinheiro. Quando aceitavam conversar, ressaltavam logo que as apostas eram baixas, por exemplo, uma entrada de cinema. Outros diziam que o pouco dinheiro que ganhavam nas partidas doavam para instituições de caridade. Faziam questão de enfatizar que as apostas eram apenas porque “tem que ter um estímulo, senão não tem graça”. Para muitos, o carteado era mesmo uma atividade recreativa das tardes de verão em Atafona. Diversas, no entanto, são as histórias contadas de famílias riquíssimas “da sociedade” que chegaram à ruína por causa do “vício do jogo”. Lamego, em 1934, em A Planície do Solar e da Senzala, já ressaltava: “Todo ano é a mesma força trágica da jogatina, em exaustivas patifarias maquinadas, que arrasta irremissivelmente milhares de famílias campistas à ruína” (Lamego, 1934, p. 64).
Em todas essas ocasiões, o anfitrião devia, com naturalidade, demonstrar o conhecimento em relação a regras e normas da etiqueta. Cabia a ele saber adequar as regras a cada ocasião seguindo as prescrições a respeito da formalidade ou informalidade. Em Atafona, a descontração, por vezes, dava o tom desses encontros exigindo uma recepção menos formal. Devia-se saber, por exemplo, quando apresentar um ou outro aparelho de jantar e que bebidas servir de acordo com as exigências da ocasião. Pelas narrativas e colunas sociais, é possível apontar, como uma característica da maioria dessas reuniões, certo despojamento tanto na “recepção” como nos trajes dos convivas.
Tal despojamento torna-se marcante quando se estabelece uma relação de comparação com a maior formalidade que caracterizava os encontros e reuniões em Campos. Segundo a coluna social do jornal A Notícia: “A elegante sra. Marília Peixoto Aquino já abriu sua residência de veraneio em Atafona, onde as reuniões se sucedem, demonstrando em todas elas o bom gosto da anfitriã” (Jornal A Notícia, 13/01/1062, p. 5). Pode-se dizer que esse despojamento tinha que ser milimetricamente calculado visando ao sucesso da reunião. Grande parte dessas ocasiões eram noticiadas nas colunas sociais aumentando ainda mais a responsabilidade dos anfitriões em relação ao êxito da “recepção” oferecida em sua residência.
Essas famílias pareciam ter como obrigação se representar socialmente de acordo com a sua posição nessa “sociedade”. Segundo Norbert Elias (2001), em seu estudo sobre a corte francesa de Luis XIV:
alguém que não pode mostrar-se de acordo com seu nível perde o respeito da sociedade. Permanece atrás de seus concorrentes numa disputa incessante por status e prestígio, correndo o risco de ficar arruinado e ter de abandonar a esfera de convivência do grupo de pessoas de seu nível e status (Elias, 2001, p. 86).
Além de um intenso e aprazível momento de vivência de lazer, o “veranear” em Atafona, seguindo todo o modus vivendi relativo às formas de sociabilidade desse grupo, parece ter se tornado também, em meio a outras, uma excelente oportunidade ou mesmo obrigação para a afirmação ou reafirmação da existência social de muitas dessas famílias no interior do grupo.
Considerações finais
A partir de início da década de 80, começou, lentamente, a se tornar visível o processo de “avanço” do mar sobre essa região, destruindo casas de pescadores e residências de vilegiatura dessas famílias “da sociedade” de Campos. Em 15 de março de 1983, segundo o jornal Monitor Campista, o mar já havia destruído cerca de quatro ruas no Pontal de Atafona. Conspirou ainda contra o antigo estilo de vida desse balneário, uma crise que se abateu sobre a “sociedade” campista, a partir da metade da década de 80, com o processo de insolvência de muitas usinas, que entraram num complexo processo que as levou ao fechamento de suas portas (Neves, 1997). Esse processo impôs gravíssimas consequências na vida econômica e social da sociedade campista e, por consequência, também na sua sociabilidade em Atafona.
O fato é que muitas dessas famílias perderam suas casas com o “avanço do mar” sobre o balneário e outras tantas, por razões variadas, deixaram aos poucos de frequentá-lo. É comum que esses antigos veranistas de “famílias tradicionais” de Campos aloquem a responsabilidade dessas mudanças no avanço do mar sobre a região, nunca tocando, em suas narrativas, na questão das alterações pelas quais o próprio grupo passou. É com base nessas perspectivas que se buscou entender o processo de alteração nas relações de poder, no estilo de vida e frequentação que se abate sobre o balneário, sobretudo a partir da década de 90.
Nídia Lysandro de Albernaz foi dona de uma das maiores residências de vilegiatura de Atafona. Apesar de veranear no balneário desde a infância, foi apenas em 1971, que resolveu construir sua imponente casa a aproximadamente 380 metros da beira-mar, com sete suítes e alguns salões. Nídia se recorda que da sua casa até a beira da praia iam de jipe, porque era muito distante:
Quando teve a primeira invasão da água lá na região dos pescadores, que se chama de Pontal, eu tive um grande pesar por eles. Agora, eu não podia imaginar que o mar chegasse até a nossa casa… Eu nunca mais fui à Atafona, desde que o mar se aproximou da nossa casa. Eu sabia […] eu tinha notícias, mas não queria saber como o mar estava […] não tinha interesse. O muro da minha casa era enorme e os portões de madeira com barras de ferro… eram três: um para entrada de carro, outro de entrada para a casa e outro de serviço. Primeiro, disseram que o mar tinha tombado os portões. Depois, não sei mais. Dizem até que a água chegou até a porta do living e dos quartos da frente… Eu e o arquiteto planejamos tudo de tal modo que sentada da minha mesa da sala de jantar eu via o alto-mar… a distância era imensa. O areal você não pode imaginar, mas….
Imagem 11. Casa de Nídia Lysandro de Albernaz

Arquivo privado César Caldas, 1972.
O “areal”, que distanciava a casa de Nydia do mar, sumiu no processo de erosão marinha que se abateu sobre a região. O mar, que Nídia da mesa da sala de jantar avistava de longe, hoje, tomou toda a sua residência de vilegiatura. As ruínas dessa casa são um dos mais chocantes exemplos do avanço do mar na região e tornaram-se ponto turístico de Atafona.
Imagem 12. Casa de Nidia Lysandro, 2005

Como a de Nídia, tantas outras foram as residênciasde vilegiatura destruídas pelo avanço do mar na região. Muitas foram e ainda são as casas destruídas que fazem parte da família há duas, três ou quatro gerações.
Imagem 13. Antigo frigorífico, 2006

Imagem 14. Portão da casa de Diva Goulart, 2005

Fotos de Juliana Blasi Cunha.
Além do mar, conspirou contra essas residências de vilegiatura a crise econômica que, a partir da metade da década de 1980, se abateu sobre a “sociedade” com o processo de insolvência de muitas usinas em Campos. Direta ou indiretamente, muitas foram as famílias da “sociedade” campista duramente afetadas por essa crise econômica. Como costumam dizer, “o dinheiro mudou de mãos”, e novas famílias passaram a se destacar em Campos. Segundo Paula Virgínia de Souza Oliveira, colunista do jornal Monitor Campista, “com a chegada dos anos 90… os espaços foram ocupados pelos chamados emergentes ou os novos ricos, outros sobrenomes passaram a frequentar e promover festas e outros eventos” (Santafé, 2002, p. 420).
A crise econômica alterou o antigo sistema de status pelo qual as citadas famílias se relacionavam entre si. É sob essa ameaça que passaram a evocar para si o título de “famílias tradicionais”, buscando, por meio do elemento “tradição”, distinguir-se dos “novos ricos” que surgem em Campos concorrendo por espaço na “sociedade” campista. Com a crise econômica, altera-se a antiga configuração do sistema de status através do qual essas famílias se classificavam e relacionavam. Junto com suas residências de vilegiatura em Atafona, muitas foram as famílias que ruíram econômica e socialmente. Um trecho da entrevista de Nídia Lysandro, que, além da casa do balneário, viu as duas usinas da família em ruínas, parece bem ilustrar um processo experienciado por muitas famílias de Campos: “você olha para trás e não consegue imaginar que raízes suas plantadas… tão profundas tenham se soltado da terra e ter ido não sei para onde”.
A adjetivação das famílias como “tradicionais” aparece também nas colunas sociais das décadas recentes. É possível perceber atualmente, em muitos membros dessas famílias, um desejo de reviver as “glórias do passado”. Através das fotografias de seus álbuns de famílias, é frequente construírem narrativas sobre os “bons tempos” da “sociedade campista”. Tais fotos em muito contribuem para essa idealização do passado, visto que não se fotografa qualquer coisa, mas apenas aquilo que desejamos destacar da fluidez da existência cotidiana e tornar não apenas eterno, mas exemplar. Não é das ausências, nem das brigas e contradições que permeavam seu cotidiano que falam as fotografias, mas sim de um
elo mais permanente e mais profundo que, subjacente àquelas relações, dá significado e consistência àquele grupo: os laços de sangue e afeto, os sentimentos de solidariedade e pertencimento que os une e a partir dos quais se identificam, diante de si mesmos e dos outros, como uma família feliz (Lins de Barros & Strozenberg, 1993, p. 22).
Essa idealização do passado, se expressa ainda em livros de recordações em que exaltam seus “anos de glória”. Nas palavras da colunista social, Maria Ester Balbi:
Tomava-se champagne Veuve Clicquot e whisky Old Park à vontade. Não se admitia repetir vestidos em festas a rigor que aconteciam com grande frequência. As casimiras inglesas, rendas francesas, mariscot e galpure enriqueciam os trajes do “society”. Nossa sociedade era rica. Rica e fechada (Santafé, 2002, p. 409).
Reviver as “glórias do passado” parece ser uma forma que essas famílias encontraram para se distinguir dos “novos ricos” que passaram a concorrer pelos lugares de prestígio na vida social de Campos. Diferenciam-se dos emergentes em nome do princípio da antiguidade ou o que chamam “tradição”. Orgulham-se de se conhecerem há três ou mais gerações e terem vivenciado juntos momentos e história em comum, seja em Campos ou veraneando em Atafona. Mais uma vez, o clássico estudo Os Estabelecidos e os Outsiders, de Elias & Scotson (2000), ajuda a pensar a relação dessas famílias e o “princípio da antiguidade”. Assim como as famílias por eles estudadas, as famílias “da sociedade” de Campos: “Atravessaram juntas um processo grupal que lhes dera um estoque de lembranças, apegos e aversões comuns” (Elias & Scotson, 2000, p. 38).
As alterações no interior desse grupo contribuem para as mudanças no estilo de vida e relações de poder do balneário que outrora frequentavam. Além daqueles que perderam suas casas no balneário pelo avanço do mar, muitos são os que deixaram de frequentá-lo por falta de condições financeiras, visto que, como foi descrito acima, veranear em Atafona não significava, para esse grupo, apenas estar lá. Era necessário “abrir a casa”, marcar sua existência social através de almoços, caranguejadas e as mais diversas “recepções”.
Soma-se a esses dois fatores, a questão também da sucessão do patrimônio. Muitos núcleos domésticos se reúnem como que por obrigação em torno de certas figuras, em alguns casos os próprios fundadores da casa. Com o envelhecimento ou morte das figuras tutelares da casa é comum que a família perca o compromisso de se reunir ali. Esse desinteresse não se dá apenas pela questão econômica, visto que em alguns casos passam a veranear em outros balneários que oferecem atrativos a seus filhos como Búzios, Guarapari e outros. Com isso é comum que vendam a casa e, em alguns casos, simplesmente a abandonem.
Idealizado e construído, essencialmente, para a frequentação das famílias da “sociedade” campista, o Atafona Praia Clube, em meados da década de 90, começa a viver uma séria crise gerada pelo alto índice de inadimplência dos seus sócios. Através de atas de reunião do Atafona Praia Clube é possível perceber a intenção de seus diretores na ocasião de anistiar seus antigos devedores. Ficou registrado nas atas das reuniões, no entanto, a preocupação em não vender títulos à preços promocionais, visando a manter a “qualidade dos sócios”. Tal fato parece indicar a alteração no estilo de vida e frequentação que já se fazia perceptível nessa época em Atafona.
Junto ao “avanço do mar”, as alterações no padrão socioeconômico de muitas famílias desse grupo parecem ter contribuído de maneira significativa para as mudanças no estilo de vida, formas de frequentação e sociabilidade no balneário Atafona. Essas famílias relacionavam-se entre si por meio de um complexo e hierárquico sistema de prestígio, cabendo a cada uma lugares e papéis sociais bem definidos. Suas formas de sociabilidade em Atafona no passado foram aqui também pensadas como uma das diversas exigências de representação social que orientava a ação dessas famílias em busca de prestígio no interior do grupo.
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Jornal
Colunas Sociais dos Jornais A Notícia e Monitor Campista, meses de janeiro, fevereiro e março; anos 1959, 1962, 1973, 1979, 1982, 1984.
Arquivos Privados
César Caldas, José Carlos Pereira, Rosely Sanz Blasi, Nídia Lysandro de Albernaz e Delso Araújo.
- A Mesorregião Norte Fluminense é composta pelos municípios de Campos dos Goytacazes, São Francisco de Itabapoana, Cardoso Moreira, São João da Barra, São Fidélis, Carapebus, Quissamã, Conceição de Macabu e Macaé. ↵
- Segundo o Censo IBGE de 2010, a população total do município de São João da Barra é de 35.595 habitantes, e sua área territorial compreende 458,6 Km².↵
- Para mais sobre a crise, ver, por exemplo, Neves (1997).↵
- Tais terras não mais pertencem ao município de São João da Barra. Após a emancipação, em 1996, passaram a fazer parte do município de São Francisco do Itabapoana.↵
- Segundo Veblen, as classes aristocráticas gastam seu tempo em atividades “não produtivas”, em primeiro lugar, pelo sentimento de indignidade em relação ao trabalho; e, em segundo lugar, para demonstrar a capacidade pecuniária de viver uma vida inativa. O trabalho, para a aristocracia, é a marca da pobreza e sujeição (Veblen, 1965).↵
- As famílias encontravam alguma dificuldade para trazer os funcionários de suas residências de Campos para Atafona. Muitos não queriam ir trabalhar “no verão” em Atafona porque já conheciam o “batidão” das casas sempre cheias, na qual o trabalho era dobrado ou até triplicado. Em primeiro de janeiro de 1959, na página 8, o jornal A Notícia anunciava: “Cozinheira – precisa-se. Paga-se Cr$ 1.500,00 por mês a uma boa cozinheira que apresente referências e queira ir passar o verão em Atafona. Tratar à rua Ipiranga, 70”. Muitos anúncios como esse são encontrados. Tal anúncio permaneceu por cerca de 20 dias nesse jornal, na página da coluna social. ↵






