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Apresentação

Hernán Mamani e Jussara Freire

Este livro reúne uma parte significativa dos trabalhos apresentados na I Jornada Latino-americana de Estudos sobre Pequenas e Médias Cidades, realizado na cidade de Campos dos Goytacazes em outubro de 2017. Constitui mais um passo no fortalecimento e na ampliação de uma rede de interlocuções formada, inicialmente, entre pesquisadores brasileiros e argentinos da Universidade Federal Fluminense (UFF/Campos), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), do Instituto de Altos Estudios en Ciencias Sociales da Universidad Nacional de San Martín (IDAES/UNSAM) e da Universidad Nacional de La Plata (UNLP). Buscamos estimular comparações, por contraste, das configurações de agendas acadêmicas e de pesquisas empíricas com o intuito de contribuir para o atual debate em estudos urbanos e em contexto latino-americano.

A partir das primeiras discussões, observamos que várias pautas da agenda de pesquisa dos estudos urbanos tendiam a tomar, muitas vezes, como taken for granted, o binarismo “rural/comunidade” x “urbano/sociedade”. Como consequência deste binarismo, os estudos urbanos, tanto no Brasil quanto na Argentina, formaram-se como uma “área” voltada para a compreensão do “fenômeno urbano”, exclusivamente enquadrada a partir da cidade de contexto metropolitano e “moderna”, tida, na literatura clássica, como impessoal, anônima e cujos moradores deveriam ser, para se ajustar “bem” ao seu habitat, razoavelmente blasés. O que escaparia destes problemas referenciais que fundamentaram, durante muito tempo, a análise da cidade se mantém em suspenso e se depara com o peso do binarismo, orientador dos “estudos urbanos”. Desse modo, estudar “pequenas” e “médias cidades” constituiria uma agenda diferenciada nem sempre compatível com as inflexões analíticas das “pesquisas urbanas”. Estas não problematizam as situações em que as fronteiras entre o “urbano” e o “rural” podem ser francamente borradas ou naquelas em que o “rural” e o “urbano” se apresentam como “vasos comunicantes”. Este fato parece ser uma crescente característica de configurações de atuais estudos sobre periferias urbanas, sociabilidades, religiões, meio ambiente, segurança pública, violência urbana ou, entre outros, políticas habitacionais. Trabalhos atuais realizados em contexto latino-americano vêm, de um lado, redefinindo substantivamente as consequências de tais binarismos que marcaram a trajetória das ciências sociais e, por outro, apresentando claros pontos de interseção e de continuidade entre contextos tidos, na trajetória dos estudos urbanos, como dicotômicos.

Tornamos pública, neste livro, uma parte bem significativa dos trabalhos apresentados na I Jornada Latino-americana de Estudos sobre Pequenas e Médias Cidades, que buscou estimular o debate e a reflexão sobre a trajetória de estudos urbanos e atuais pesquisas em contexto brasileiro, chileno e argentino, com base em trabalhos que apresentam resultados de pesquisas empíricas cujos pressupostos foram postos à prova. Infelizmente, não será possível reproduzir o debate propiciado naquela oportunidade, mas os artigos certamente permitiram retomar as questões e ampliar a discussão até o próximo encontro. O livro está organizado em três sessões. Na primeira, problematizam-se os obstáculos teóricos da dualidade rural/urbano na pesquisa urbana. A segunda explora a experiência urbana, as representações e a ação coletiva na cidade. E a terceira sessão trata das sociabilidades e das moralidades em cidades pequenas e médias.

O primeiro artigo, escrito por Gabriel David Noel (IDAES/UNSAM), intitulado “‘Small is Difficult’: algunas propuestas para una agenda para las aglomeraciones medianas y pequenas en las Ciencias Sociales Contemporáneas”, apresenta e discute o quadro teórico-metodológico desenvolvido para tratar de “aglomerações ‘anômalas’”. Brinda-nos, assim, com o marco teórico e as articulações que orientam a sua pesquisa num conjunto de pequenas cidades ao sul da grande La Plata (Provincia de Buenos Aires, Argentina), para as quais o binarismo urbano/rural, as noções de centro/periferia revelam-se inadequadas.

O segundo artigo, de Manuela Blanc (UFES), com o título “‘Au, au, au, vai descer quem mora mal’: os sentidos do morar pequeno-urbanos ou sobre a categoria (vivida) pequena cidade”, reflete “sobre os efeitos da política de descentralização administrativa para a construção dos imaginários sociais, em termos do sentimento de pertencimento e dessas experiências citadinas”. De encontro à valorização metropolitana que prima na sociologia urbana, este trabalho pergunta como uma “cidade pequena assume uma representação simbólica superior com relação ao habitar o distrito de outra cidade, mesmo que essa seja maior e mais relevante do ponto de vista da dinâmica regional”; como “assumem sua pequenez em termos de potencial de influência e centralidade”.

O terceiro trabalho, de Hernán Armando Mamani (PPGDAP/UFF; PPGPS/UENF; CEP28), nomeado “Para além da Gema: notas sobre a invisibilidade da urbanização e dos públicos em cidades fluminenses”, esboça “um programa de investigação sobre a urbanização e os problemas públicos em cidades pequenas e médias”. Com base em pesquisas já realizadas, o autor afirma que está em curso um processo de urbanização extrametropolitana ao longo da rede urbana do Rio de Janeiro, mas que essa nova morfologia das cidades não afeta a relação entre cidades e comunicação. As cidades e a rede em que se inserem permanecem como espaços de públicos e de publicização articulados numa rede de cidades difusão cuja centralidade permanece restrita.

O quarto artigo, intitulado “Experiencias urbanas de clase en La Plata. Tendencias hacia la fragmentación socio-espacial en una ciudad intermedia de la Argentina”, de Ramiro Segura (IDAES/UNSAM e Universidad Nacional de La Plata), trata dos “processos de fragmentação social e espacial na cidade de La Plata considerando a mobilidade cotidiana. Descreve, assim, os circuitos, as sociabilidades e as práticas de atores sociais desiguais para aproximar-se das “experiências de classe”. Defende que a “fragmentação não se reduz a um fenômeno residencial nem a ausência de vínculos sociais […]. “Refere-se, também, aos modos em que se estabelecem e se experimentam os laços sociais na cidade contemporânea”.

O quinto artigo, “Grafiteir@s, Pixador@s e a produção coletiva de livros urbanos”, de Elis Miranda (PPGDAP/UFF; PPG/UFF; CULT; INCT-RPP), estuda a “forma com que artistas se apropriam do espaço urbano, da rua em particular”, em cidades não metropolitanas. Trata-se de pensar “a cidade para além das permissões dos órgãos públicos e/ou dos sistemas de gostos das pequenas burguesias locais”. Parte do suposto que os artistas urbanos” ocupam simbólica e/ou concretamente o espaço a partir de expressões artísticas e criam lugares de sociabilidade na cidade”. O método desenvolvido, denominado de “mensagens nas/das ruas” consiste “na busca de capturar as ideias disseminadas” na cidade mediante fotografias, dado que essas “expressões marcam lugares, temporalidades e contextos socioeconômico-culturais e políticos de cada lugar”.

O artigo “Territorialidade, Estado e Mercado: algumas considerações sobre margens e regimes territoriais na cidade do Rio de Janeiro”, de Márcia Pereira Leite (PPCIS/UERJ; CEVIS/UERJ; CIDADES/UERJ), busca “perscrutar os regimes territoriais que desenvolveram nas favelas cariocas, quando nelas estava em curso o Programa de Pacificação de Favelas através da implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs)”; e se interrogar sobre seus possíveis desdobramentos. O foco nas UPPs “constitui um recurso heurístico para analisar como uma política governamental, em que se combinam Estado e mercado, com o concurso de Ongs e igrejas, […] no contexto dos megaeventos, deixou clara a existência de regimes territoriais diferenciados nesses territórios”.

O artigo de Juliana Blasi Cunha (PESCARTE/UENF), intitulado “Um balneário em ruínas: o “avanço” do mar sobre Atafona e a crise econômica das famílias ‘da sociedade’ de Campos dos Goytacazes, na região norte fluminense”, trata das alterações na dinâmica das relações sociais implicada na vida cotidiana no balneário de Atafona, frequentado, até a década de 1990, predominantemente, por famílias “da sociedade” da cidade vizinha, Campos dos Goytacazes, na região norte do estado do Rio de Janeiro. Esse balneário, cujo “período áureo” foi entre as décadas de 1960 e 1970, convive “desde o final da década de 1970, com um intenso processo de erosão marinha, que […] tem destruído inúmeras casas de pescadores locais e residências de vilegiatura desses veranistas”. Contribui, também, para o declínio do “antigo estilo de vida desse balneário” a crise econômica da década de 1980 que “se abateu sobre as famílias ‘da sociedade’ de Campos […] com o processo de insolvência de muitas usinas de cana de açúcar”.

O sétimo artigo, “Pentecostalismo, território e governança: reflexões sobre a Baixada Fluminense (RJ)”, de Carly Machado (PPGCS/UFRRJ; Observatório Fluminense/UFRRJ), propõe “uma reflexão acerca da relação entre pentecostalismo, território e governança a partir de uma análise das práticas da Assembleia de Deus dos Últimos Dias (ADUD), igreja liderada pelo Pastor Marcos Pereira, localizada na cidade de São João de Meriti, na Baixada Fluminense (RJ)”. Trata, então, “da relação entre religião e política na Baixada Fluminense, das práticas de governanças de ministérios pentecostais nesta região, e da governança político-religiosa local a partir das Comunidades Terapêuticas e do ‘problema das drogas’”.

Por último, Jussara Freire (PPGDAP/UFF; PPGPS/UENF; CEP28), no artigo “Ser ‘familiar de vítima de violência urbana no interior’: voz, experiência e engajamento público em contexto não metropolitano do estado do Rio de Janeiro”, apresenta caminhos analíticos possíveis para tratar dos “efeitos da linguagem da ‘violência urbana’ no que tange aos engajamentos públicos de “familiares de vítimas no interior da Região Norte Fluminense.” Volta a sua atenção para situações nas quais “esta linguagem é problematizada em uma cidade média, interiorana e não metropolitana”: a cidade de Campos dos Goytacazes. Trata-se de acompanhar os “processos de investigações” “e suas experiências públicas após a perda de filhos assassinados por narcotraficantes em um contexto marcado pelo que algumas mães, em pesquisas anteriores, denominaram de ‘indiferença generalizada'”.



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