Adriana Dorfman e Luana Casagranda[2]
Introdução
Temos em mente a advertência de Milton Santos, na introdução do livro A natureza do espaço:
Discorrer, ainda que exaustivamente, sobre uma disciplina, não substitui o essencial, que é a discussão sobre seu objeto. Na realidade, o corpus de uma disciplina é subordinado ao objeto e não o contrário. Desse modo, a discussão é [deve ser] sobre o espaço e não sobre a Geografia (2002, p. 18-9).
Discutir as formas de publicação dos textos que tratam de fronteiras na América Latina é ainda menos essencial. O propósito deste artigo é identificar as revistas mais destacadas nos estudos fronteiriços latinoamericanos, permitindo revelar características dessa produção. Além disso, observaremos se os periódicos aparecem nos portais acadêmicos de indexação, haja vista o contexto periférico do campo. Esperamos ainda propor algumas interpretações dessa configuração, inspiradas numa transposição da teoria dos dois circuitos da economia urbana proposta por Milton Santos. Finalmente, elencaremos algumas estratégias para valorizar nossas revistas e esforços como pesquisadores. Nossa opção pela bibliometria pode ser justificada pela agenda voltada à construção do campo de estudos, tanto na qualificação dos seus canais de comunicação (publicação), quanto na tentativa de estabelecer parâmetros para revisões bibliográficas sistemáticas, indispensáveis para o avanço da discussão.
Cabe sublinhar que estamos tratando de veículos em acesso aberto, em que é possível pesquisar e publicar de forma gratuita, modalidade em que costumamos ler e editar. Conforme a Budapest Open Access Initiative, acesso aberto ou OA (a sigla em inglês) pressupõe disponibilidade gratuita na internet,
permitindo a qualquer usuário a ler, baixar, copiar, distribuir, imprimir, buscar ou usar desta literatura com qualquer propósito legal, sem nenhuma barreira financeira, legal ou técnica que não o simples acesso à internet. A única limitação quanto à reprodução e distribuição, e o único papel do copyright neste domínio é o controle por parte dos autores sobre a integridade de seu trabalho e o direito de ser propriamente reconhecido e citado”. (Budapest Open Access Initiative).
Quais são os periódicos relevantes para os estudos fronteiriços na América Latina?
As revistas aqui analisadas foram identificadas através de dois procedimentos. Primeiramente, utilizamos a coleção de periódicos do Portal de Acesso Aberto das Universidades Brasileiras sobre Limites e Fronteiras (https://www.ufrgs.br/unbralfronteiras/)[3]. Depois de cinco anos trabalhando apenas com teses e dissertações, em 2018 o projeto passou a coletar artigos de periódicos brasileiros relevantes nas áreas de estudos fronteiriços. Em 2022, para identificar os periódicos latino-americanos, trabalhamos com o listado compilado durante as articulações para a criação da Associação Latinoamericana e do Caribe de Estudos Fronteiriços (ALEF).
Quais revistas estão presentes no portal Unbral Fronteiras?
Em Dorfman et al. (2018) detalha-se como foram identificados os periódicos brasileiros. As revistas foram definidas a partir de perguntas respondidas naquele ano pela comunidade que desenvolve pesquisas na área. Um questionário foi elaborado pela equipe do projeto Unbral Fronteiras, apresentando as seguintes seções: (1) periódicos em que o/a entrevistado/a publicou artigos, (2) periódicos consultados como fontes de leitura, (3) caracterização do/a entrevistado/a e (4) considerações sobre a necessidade de uma revista especializada em estudos de fronteiras.
As perguntas foram enviadas a 419 pesquisadores – 99 responderam. De acordo com o questionário, 75% dos respondentes publicaram em revistas e periódicos científicos desde o ano 2000 e aproximadamente 87% consultaram essas fontes, o que demonstra a relevância da leitura e publicação de artigos para a comunidade (Dorfman et al., 2018, p. 34).
Essa pesquisa identificou 655 periódicos. Apesar do número extraordinário, há uma concentração significativa, já que somente seis revistas foram citadas mais de dez vezes e 23 periódicos foram mencionados mais de seis vezes (cabe explicar que a frequência = 6, considerada aqui para distinguir os periódicos relevantes, foi estabelecida estatisticamente). A Revista Geopantanal, editada pelo Mestrado em Estudos Fronteiriços da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS, Campus Pantanal, Corumbá), destacou-se como o periódico mais importante para o campo no Brasil, sendo mencionada 24 vezes.
As seis revistas que foram citadas mais de dez vezes são as seguintes:
- Geopantanal (24 citações)
- Confins (Paris) (14 citações)
- Boletim Gaúcho de Geografia (12 citações)
- Tempo da Ciência (12 citações)
- Territórios e Fronteiras (11 citações)
- Geographia (11 citações)
Essas foram as revistas consideradas relevantes. Observe-se que não se trata de revistas especializadas na área. Cada periódico foi examinado visando identificar e incorporar os artigos caracterizados como pertencentes ao campo dos estudos fronteiriços à base do Unbral Fronteiras. Na coleta, foram analisadas todas as edições publicadas desde o ano 2000. Os critérios de inclusão também resultaram de um questionário, aplicado em 2014, com pesquisadores da área, com a finalidade de entender o objeto científico fronteira e suas limitações. Naquele momento, considerou-se que os estudos fronteiriços englobam temáticas físicas e históricas, questões étnicas, culturais, ambientais, midiáticas etc. (Dorfman, Monte Mezzo e França, 2015). O termo fronteira é objeto de estudo transdisciplinar, trabalhado por profissionais de diferentes áreas, que publicam em revistas disciplinares (de áreas como geografia, história, ciências sociais, etc.), multidisciplinares ou especializadas.
No momento da elaboração desse texto, o portal contava com as coleções das seguintes revistas (e nossa intenção é seguir ampliando as coletas até recobrir os 23 periódicos citados mais de seis vezes):
- Ambivalências – 2013 a 2020
- Anuário Unbral das Fronteiras Brasileiras – 2014 a 2018
- Boletim Gaúcho de Geografia – de 2000 a 2020
- Confins (Paris) – de 2008 a 2020
- Fronteiras e Debates – 2014 a 2020
- Geographia (UFF) – de 2001 a 2020
- Geonorte – de 2013 a 2020
- GEOPantanal – de 2013 a 2020
- Ideação – de 2000 a 2020
- ParaOnde?! – de 2007 a 2020
- Revista da ANPEGE – de 2003 a 2020
- Revista de Geopolítica – 2010 a 2020
- Revista Fronteiras: Estudos Midiáticos – 2004 a 2020
- Revista Perspectiva Geográfica – 2011 a 2019
- Tempo da Ciência – de 2006 a 2020
- Territórios e Fronteiras – 2008 a 2020
Desde 2018, a equipe do projeto Unbral Fronteiras realiza periodicamente a coleta de artigos em novas edições das revistas selecionadas, alimentando continuamente sua base. No processo de coleta de artigos para a base do Unbral são registrados os seguintes dados bibliográficos: título, autor, resumo, assuntos, identificador, ISSN, tópico temporal, local de publicação, fonte (periódico de origem), ano, tipo, idioma, formato e abrangência. Como dito anteriormente, 579 artigos de periódicos integram a base do portal[4].
A revista Geopantanal também se destaca aqui, sendo o periódico com o maior número de artigos (115) na base do Unbral. Na sequência aparecem as revistas Confins (67), Perspectiva Geográfica (61), Boletim Gaúcho de Geografia (52), Geonorte (46), Territórios e Fronteiras (46) e Tempo da Ciência (42). Um gráfico com o número de artigos por periódico pode ser observado na figura 1. Essa dinâmica está ligada à publicação de dossiers com anais de eventos, especialmente o Seminário de Estudos Fronteiriços (SEF), organizado pelo Mestrado em Estudos Fronteiriços da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (MEF-UFMS, Campus Pantanal, Corumbá) e parceiros. A importância do MEF de Corumbá para a nossa comunidade vai além do evento e da revista, pois a própria origem do Unbral Fronteiras e da Associação Latinoamericana e do Caribe de Estudos Fronteiriços está ligada ao diálogo ali ancorado (Dorfman e França, 2015).
Figura 1. Quantidade de artigos dos periódicos mais relevantes para os estudos fronteiriços brasileiros no Portal Unbral Fronteiras (2022)

Fonte: Elaborado por Dorfman e Casagranda (2022) a partir de dados do Portal Unbral Fronteiras (2022).
Várias outras revistas relevantes também são publicadas por instituições públicas de ensino atuando em regiões de fronteira. É o caso da
- Ideação, publicada pelo Centro de Educação, Letras e Saúde da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus de Foz do Iguaçu);
- Perspectiva Geográfica, do Curso de Graduação e Pós-Graduação em Geografia do Campus de Marechal Cândido Rondon da Universidade Estadual do Oeste do Paraná;
- Território e Fronteiras, editada pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Mato Grosso, cuja área de concentração é “História, Territórios e Fronteiras”; e da
- Tempo da Ciência, do Curso de Graduação em Ciências Sociais da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus de Toledo).
Com relação ao ano de publicação dos artigos, 2016 foi o ano com mais registros, seguido dos anos de 2013, 2020 e 2017 (figura 2).
Figura 2. Quantidade de artigos dos periódicos mais relevantes para os estudos fronteiriços brasileiros no Portal Unbral Fronteiras, por ano de publicação (2022)

Fonte: Elaborado por Dorfman e Casagranda (2022) a partir de dados do Portal Unbral Fronteiras (2022).
Alguns fatores do campo levam a essa distribuição. Examinando os itens no portal, encontramos a explicação para o grande volume em 2013 na publicação de dois dossiers: um da revista Ideação, outro da Revista Geonorte (com textos de um encontro sobre Geografia Política e Fronteiras). Da mesma forma, em 2016, temos o dossier na revista Perspectiva Geográfica (com trabalhos do III Geofronteras). Em 2020, a revista Confins traz um dossier construído a partir do Grupo de Estudios Territorios Poder y Ecologías desde el Sur. Vemos claras características da publicação em fronteiras: o impacto dos dossiers, por vezes publicados por grupos de pesquisa, e outras a partir de eventos.
Na América Latina, e não no Brasil!
O propósito deste artigo ultrapassa as fronteiras do Brasil, buscando pensar na escala da América do Sul e mesmo da América Latina, não sendo suficiente analisar a produção de fronteirólogos brasileiros. Para identificar as revistas relevantes na escala latino-americana, tomaremos como base a lista de revistas elaborada durante as articulações para a fundação da Associação Latinoamericana e do Caribe de Estudos Fronteiriços (ALEF, https://www.alefestudiosfronterizos.com), passando por reuniões, troca de e-mails e levantamentos junto aos colegas de diferentes origens geográficas e disciplinares. Foram realizados colóquios virtuais de editores (1) no seminário Repensar as Fronteiras Latinoamericanas e Caribenhas (em 29 de outubro de 2020) (figuras 3 e 4), (2) numa reunião de periódicos convocada pelos editores da revista Pueblos y Fronteras Digital (em 16 de junho de 2021) e (3) na mesa temática Asociaciones y Publicaciones Científicas sobre Estudios Fronterizos y Transfronterizos, no VI Encuentro Latinoamericano de Estudios Transfronterizos (em 23 de setembro de 2021) (figura 5).
Figura 3. Apresentação da secretária Guadalupe Sánchez sobre a revista Estudios Fronterizos no seminário Repensar as fronteiras latinoamericanas e caribenhas (2020)

Fonte: Adriana Dorfman (2022).
Figura 4. Participantes da mesa sobre revistas de temática fronteiriça no seminário Repensar as fronteiras latinoamericanas e caribenhas (2020)

Fonte: Adriana Dorfman (2021).
Figura 5. Mesa temática Asociaciones y Publicaciones Científicas sobre Estudios Fronterizos y Transfronterizos, no VI Encuentro Latinoamericano de Estudios Transfronterizos (2021)

Fonte: Diana Arellano (2021).
No email recebido em 22 de junho de 2021, assinado por Miguel Lisbona Guillén, temos uma síntese dos propósitos dessas reuniões:
proponemos que las ponencias planteen un balance acerca de los temas, enfoques y regiones considerados en los artículos publicados en sus revistas. Una reflexión de esta índole permitirá, como resultado de la mesa citada, ubicar una agenda de la reflexión fronteriza en América Latina y el Caribe que identifique temas, enfoques y regiones. Lo relevante, creemos, es que tal agenda emane de la sistematización de las contribuciones que por años se han expresado en las revistas. (Lisbona Guillén,)
Entre os participantes dessas reuniões, temos representantes dos seguintes periódicos. Em negrito, revistas que não tinham aparecido, até então como “relevantes”
- Anuário Unbral das fronteiras brasileiras
- Estudios Fronterizos*
- Frontera Norte*
- GeoPantanal
- Journal of Borderland Studies*
- Liminar*
- Línea Imaginaria*
- Revista Pueblos y fronteras digital*
- Sí Somos Americanos*
- Territórios e Fronteiras
- Tefros*
As três reuniões seguiram uma dinâmica semelhante: a apresentação de cada periódico e a discussão das problemáticas que limitam a continuidade no tempo (pois uma revista é um projeto de longo prazo), a indexação (a obtenção de indexadores considerados como indicadores de destaque e de repercussão) e a qualificação (no sentido de adaptação aos padrões de publicação científica, extremamente rigorosos, exigidos para a inclusão em repositórios como o SciElO, Scientific Electronic Library Online)[5]. Como fruto dessas reuniões, criou-se uma lista, chamada em espanhol Listado. Para fins deste artigo, as revistas constantes desse documento foram consideradas periódicos latino-americanos relevantes para os estudos fronteiriços.
Revisões bibliográficas sistemáticas relevantes
Seguindo com a análise, cotejamos os periódicos identificados pelo Unbral e os do Listado, excluídos os itens repetidos e as revistas que não são de acesso aberto (Journal of Borderland Studies). Dessa forma, chegamos a 33 periódicos considerados relevantes para o campo dos estudos fronteiriços na América Latina, todos publicados em português ou espanhol e circulando em acesso aberto.
No Quadro 1, as 33 revistas estão organizadas alfabeticamente, com as seguintes informações: nome do periódico, ISSN, país onde é publicado, se estão presentes no portal Unbral Fronteiras, links de acesso no SciELO (sendo o caso). A última coluna testa a hipótese de que uma revisão bibliográfica sistemática pode se basear em consultas a ambos os portais.
Quadro 1. Periódicos relevantes para os Estudos Fronteiriços Latinoamericanos
Periódico | ISSN | País de publicação | Está no Unbral Fronteiras? | Está no SciELO? | Está no Unbral Fronteiras ou no SciELO? |
Ambivalências | 2318-3888 | Brasil | Sim | – | Sim |
Anuario de Historia Regional y de las Fronteras | 2145-8499 | Colômbia | Não | https://bit.ly/3sVMUeM | Sim |
Anuário Unbral das Fronteiras Brasileiras | 2525-913X | Brasil | Sim | – | Sim |
Boletim Gaúcho de Geografia | 0101-7888 | Brasil | Sim | – | Sim |
Confins (Paris) | 1958-9212 | França-Brasil | Sim | – | Sim |
Cuadernos de Geografía | 0121-215X | Colômbia | Não | https://bit.ly/4161tZJ | Sim |
Diálogo Andino. Revista de Historia, Geografía y Cultura Andina | 0716-2278 | Chile | Não | https://bit.ly/3N8qwpc | Sim |
Estudios Atacameños | 0718-1043 | Chile | Não | https://bit.ly/3SZjQxy | Sim |
Estudios Fronterizos | 2395-9134 | México | Não | https://bit.ly/3QUvW8w | Sim |
Fronteira – estudos midiáticos | 1984-8226 | Brasil | Sim | – | Sim |
Fronteiras e Debates | 2446-8215 | Brasil | Sim | – | Sim |
Fronteras de la Historia | 2539-4711 | Colômbia | Não | https://bit.ly/3sPrcZY | Sim |
Frontera Norte | 2594-0260 | México | Não | https://bit.ly/3uBsc4i | Sim |
Geographia (UFF) | 1517-7793 | Brasil | Sim | – | Sim |
Geonorte | 2237-1419 | Brasil | Sim | – | Sim |
GeoUSP: Espaço e Tempo | 2179-0892 | Brasil | Não | https://bit.ly/3Rns4hR | Sim |
Ideação | 1982-3010 | Brasil | Sim | – | Sim |
Línea Imaginaria de Investigación de Estudios Sociales y de Frontera | 2244-7040 | Venezuela | Não | – | Não |
Mercator | 1984-2201 | Brasil | Não | https://bit.ly/40YbFnf | Sim |
Para Onde!? (UFRGS) | 1982-0003 | Brasil | Sim | – | Sim |
Perspectiva Geográfica | 1808-866X | Brasil | Sim | – | Sim |
Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais | 2317-1529 | Brasil | Não | https://bit.ly/46xRjlX | Sim |
Revista da ANPEGE | 1679-768X | Brasil | Sim | – | Sim |
Revista de Geopolítica | 2177-3246 | Brasil | Sim | – | Sim |
Revista Fronteras | 0719-4285 | Chile | Não | – | Não |
Revista Geográfica de América Central | 2215-2563 | Costa Rica | Não | https://bit.ly/3R0GHWT | Sim |
Revista Geopantanal | 1517-4999 | Brasil | Sim | – | Sim |
Revista Mexicana del Caribe | 1405-2962 | México | Não | – | Não |
Revista Pueblos y fronteras digital | 1870-4115 | México | Não | – | Não |
| Revista TEFROS | 1667-9229 | Argentina | Não | – | Não |
Scripta Nova | 1138-9788 | Espanha | Não | – | Não |
Tempo da Ciência | 1981-4798 | Brasil | Sim | – | Sim |
Territórios e Fronteiras (UFMT) | 1984-9036 | Brasil | Sim | – | Sim |
Fonte: Elaborado por Dorfman e Casagranda (2022) com dados da plataforma SciELO e dos sites das revistas.
Uma rápida leitura do quadro mostra que, dos 33 itens, 11 estão presentes na biblioteca SciELO, e que a maioria (27) das revistas está ou no Unbral ou no SciELO. Com relação aos países, predominam os periódicos brasileiros (18) (por influência do levantamento realizado pelo Unbral Fronteiras), seguidos de México (04), Chile (03), Colômbia (03) e Argentina, Costa Rica, França, Espanha e Venezuela, com um periódico citado de cada um dos países.
Podemos afirmar que um/a pesquisador/a que queira realizar uma revisão sistemática qualitativa no campo dos estudos fronteiriços latino ou sul-americanos em periódicos de acesso aberto pode contar com os portais Unbral Fronteiras e SciELO para recobrir os periódicos relevantes. Essa escolha é mais restrita do que a recomendada em guias para revisões sistemáticas, como o disponibilizado pela Biblioteca da UDESC, facilmente encontrado online (Vazquez e Souza, 2020).
Os dois circuitos da economia urbana de Milton Santos e as revistas em Estudos Fronteiriços
Entre os geógrafos brasileiros é bastante conhecida a teoria dos dois circuitos da economia urbana. Essa teoria, proposta por Milton Santos há meio século, surgiu com o propósito de analisar fenômenos dos países subdesenvolvidos nos seus próprios termos, e não como comportamentos deficientes em relação ao modelo europeu ([1979] 2008). Logo de saída ele afirma que o emprego de padrões exógenos dificulta a compreensão e a intervenção em processos locais. A partir de revisão bibliográfica e trabalhos de campo, Santos propõe a existência do circuito superior e do circuito inferior, aproximando-os à proposta de Geertz (1978), de economia centrada em firmas e economia de bazar, respectivamente.
A teoria dos dois circuitos tem sido usada nos estudos fronteiriços em análises sobre o contrabando e de outras atividades identificadas com o circuito inferior, com a ilegalidade, com comportamentos de margem. Mas essas não são as características apontadas por Santos. Vejamos o quadro 2.
Quadro 2. Os dois circuitos da economia urbana nos países subdesenvolvidos
| Circuito Superior | Circuito Inferior |
Tecnologia | Uso Intensivo de Capital | Uso intensivo de mão-de-obra |
Organização | Burocrática | Primitiva, não estruturada |
Capital | Importante | Escasso |
Mão-de-obra | Limitada | Abundante |
Salários regulares | Prevalecentes | Não requeridos |
Estoques | Grande quantidade e/ou alta qualidade | Pequenas quantidades/baixa qualidade |
Preços | Fixos (em geral) | Negociáveis entre comprador e vendedor (regateio) |
Crédito | De banco, institucional | Pessoal, não institucional |
Margem de lucro | Pequena por unidade mais importante, dado o volume dos negócios (exc. Itens de luxo) | Grande por unidade, mas pequena em relação ao volume dos negócios |
Relação com fregueses | Impessoal e/ou por escrito | Direta, personalizada |
Custos fixos | Importante | Negligenciáveis |
Propaganda | Necessária | Nenhuma |
Reutilização das mercadorias | Nenhuma (desperdício) | Frequente |
Capital de reserva | Essencial | Não essencial |
Ajuda governamental | Importante | Nenhuma ou quase nenhuma |
Dependência direta de países estrangeiros | Grande; orientação para o Exterior | Pequena ou nenhuma |
Fonte: Santos (2008 p. 44).
Como vemos, o circuito superior é constituído por atividades econômicas de grandes dimensões, com uso intenso de tecnologia, grande disponibilidade de capital e de estoques e organização mais burocrática. O circuito inferior, com uma organização mais primitiva e com menor disponibilidade de capital, estoques e acesso à tecnologia, é subordinado aos padrões do circuito superior.
Fazendo um paralelo com o campo da produção científica, conseguimos observar a reprodução dos dois subsistemas também aqui – a própria expressão “produção” induz a esse paralelo. Oliveira, Kowaltowski e Silber (2022) afirmam que o modelo de produção científica se tornou um negócio altamente lucrativo, sendo uma das atividades econômicas mais rentáveis. Com todas as tecnologias, propaganda e capacidade de estabelecimento de normas, com sua relação com a inovação e a indústria de ponta, com seu alcance global, é nítido que certas revistas ditas de primeira linha exibem características que as enquadram no circuito superior da economia.
As transformações nas estratégias de publicação
O modelo de publicação científica transforma-se rapidamente, com implicações ainda incertas. A ideia de conhecimento livre, em conjunto com o movimento de software livre, milita pela diminuição do custo e das barreiras para o acesso às ferramentas digitais e outros objetos de difusão do saber. Na Europa, foi lançado o Plano S, que tem como ponto de partida a consideração de que a ciência só tem a ganhar sendo cada vez mais pública: financiamento público, dados e publicação em acesso aberto, O estranho para nós é que o Plano S mantém o pagamento de taxas para publicar. Os autores passam a pagar para colocar seu produto nas revistas de prestígio.
Acesso aberto ouro significa que o artigo fica acessível assim que for publicado, mediante uma taxa, por vezes bem elevada. Um exemplo no nosso campo é o Journal of Borderland Studies, publicado por Taylor & Francis, que no momento da escrita deste artigo cobra USD2885 por artigo publicado em golden open access (figura 6).
Figura 6. Publicando seu artigo em Golden Open Acces

Fonte: https://lc.cx/M0vtjY.
Acesso aberto verde é o que temos no Brasil, com um repositório como o Periódicos Capes, que assina as revistas e as disponibiliza para a comunidade acadêmica https://www.periodicos.capes.gov.br. Existe ainda o acesso aberto negro, que descreve iniciativas mais radicais, como a Sci-Hub, um portal criado por uma cientista e programadora cazaque que garante acesso gratuito a artigos e livros acadêmicos que, de outra forma, só poderiam ser acessados ao custo de assinaturas caras ou por valores individuais fora da alçada de grande parte de estudantes mundo afora.
Essa tendência não inclui a maioria das revistas do nosso campo, dadas as suas características mais artesanais e locais. A publicação nos Estudos Fronteiriços tende a ser relevante apenas localmente, marginal. Suprir a necessidade de organização e disponibilização dos trabalhos científicos sobre as fronteiras brasileiras, diminuindo a dispersão da produção é uma das principais motivações para a construção do Portal Unbral Fronteiras. O que separa a maioria das revistas que indexamos através do nosso projeto e os periódicos capazes de atender aos requisitos do SciELO deveria ser nosso principal desafio: qualificar a publicação em fronteiras.
Reflexões finais: importância para a comunidade X indexação e valorização
As revistas aqui consideradas relevantes para os Estudos Fronteiriços, em que circuito se inserem? Na América Latina, a publicação científica se faz, majoritariamente, em periódicos editados nas universidades e por associações científicas, com financiamento público e acesso aberto. É verdade que nossa publicação envolve experts em diferentes posições: os editores e assistentes, o comitê editorial, os diagramadores e programadores, os autores, os pareceristas e os bibliotecários, os tradutores, quase todos empregados pelas universidades públicas. Mas trata-se, em grande parte, de trabalho voluntário: editores são professores que se desviam de suas funções para tratar da revista, se sobrecarregam. Diagramadores e programadores são, frequentemente, estudantes com bolsas de curto prazo e valor baixo, comprometendo a continuidade dos projetos editoriais. O financiamento de nossas revistas, em geral, se limita ao pagamento das bolsas de iniciação científica e do serviço de editoras que se encarregam de formatar os artigos seguindo as minúcias da publicação científica (em que cada sinal gráfico tem que ser escolhido com atenção, em que os parâmetros de formatação se tornaram linguagem computacional). De forma um pouco arbitrária, podemos dizer que se trata de uma atividade do circuito inferior.
Além da imagem de estratificação e relação oferecida pela teoria dos dois circuitos, uma importante lição está na origem dessa teoria. Na década de 1970, Milton Santos, descontente com as explicações que apenas recriminavam a economia urbana dos países subdesenvolvidos e prescreviam reformas modernizadoras, soube propor uma teoria que reconhecia as características das cidades. De forma similar, podemos pensar na publicação científica em Estudos Fronteiriços como ela é, e não de forma prescritiva.
Nossas revistas servem para registrar e compartilhar dados, para construir um quadro da diversidade fronteiriça e de seus pesquisadores, registrando nossos eventos e os resultados dos percursos dos grupos de pesquisa. Elas têm cumprido esse papel, conforme mostramos anteriormente. Nossas revistas são enraizadas e regionais, são acessíveis a pesquisadores em diferentes momentos de suas carreiras. Por todas essas razões, sua existência é relevante.
Melhorar os metadados ampliará a visibilidade dos artigos publicados nas revistas. Enquanto não estivermos todos no SciELO, buscamos parceiros para apoiar a indexação das revistas de seus países e para a tradução do Portal Unbral Fronteiras para o espanhol, incorporando a produção dos periódicos em um só repositório e permitindo ampliar sua utilidade e utilização para os Estudos Fronteiriços latinoamericanos.
Bibliografia
Budapest Open Access Initiative. Disponível em http://www.budapestopenaccessinitiative.org/ Data da consulta: 03/05/2022.
Dorfman, A., Cagliari, B., Froehlich, C., Mazer, D., Caye, L. A., Rocha, R. P., Leobeth, T. e Prestes, V. A. (2018). Periódicos relevantes para os Estudos Fronteiriços Brasileiros: a elaboração, a aplicação e os resultados do Questionário Umbral Fronteiras. Anuário Unbral das Fronteiras Brasileiras, 5.
Dorfman, A. e França, A. B. C. (2015). Apresentação: As origens e o desenvolvimento do Unbral Fronteiras em 2014. Anuário Unbral das Fronteiras Brasileiras, 1, 07-12.
Dorfman, A. Monte Mezzo, V. G. e França, A. B. C. (2015). Circunscrição temática do Unbral Fronteiras a partir da análise do questionário para experts em Estudos Fronteiriços. Anuário Unbral das Fronteiras Brasileiras, 1, 67-85.
Geertz, C. (1978). The Bazaar Economy: Information and Search in Peasant Marketing. The American Economic Review, 68, 2, 28-32. https://www.jstor.org/stable/1816656.
Oliveira, M. F., Kowaltowski, A. e Silber, A. M. (2022). No lucrativo mercado da Ciência aberta, quem paga a conta? Ciência Hoje, 387. https://cienciahoje.org.br/artigo/no-lucrativo-mercado-da-ciencia-aberta-quem-paga-a-conta/.
Santos, M. (2002). A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP (1,. ed.1996), 392p.
Santos, M. (1979). O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
Vazquez, A. A. B., Souza, M. R. (2020). Pesquisa em bases de acesso aberto. Santa Catarina: Universidade do Estado de Santa Catarina. https://www.udesc.br/arquivos/udesc/id_cpmenu/12352/BU_capacita___Bases_de_acesso_aberto_15954421216953_12352.pdf.
- Algumas ideias aqui apresentadas foram esboçadas em Dorfman, A (2022). Circuito superior e circuito inferior na publicação de periódicos científicos, 26, São Paulo: Espaço e Tempo. https://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/195555. Data do acesso: 28/05/2022.↵
- Universidade Federal do Rio Grande do Sul.↵
- Desde 2013, o portal Unbral Fronteiras vem selecionando e analisando teses e dissertações sobre a temática fronteiriça publicadas no Brasil a partir do ano 2000.↵
- Estamos trabalhando na coleção Natureza e Fronteira, atendendo à demanda do projeto “Conflitos e vulnerabilidades socioambientais em um Estado securitário: agendas dissonantes na Faixa de Fronteira brasileira”, coordenado pelo prof. dr. Luis Paulo Batista da Silva, da Universidade Federal da Bahia (edital CNPq/MCTI/FNDCT Nº 18/202), e através dessa nova coleta foram incorporados outros 35 artigos.↵
- Portal online destinado à divulgação de artigos científicos, que reúne publicações de diversos países da América Latina e de Portugal, Espanha e África do Sul, sendo considerada uma das principais bibliotecas digitais do nosso continente.↵






