O caso do Colégio Estadual Professor José de Souza Marques (Rio de Janeiro, Brasil)
Claudia Patrícia de Oliveira Costa
y Rita de Cássia Ribeiro da Silva[1]
Introdução
O Colégio Estadual Professor José de Souza Marques (CEPJSM), locus escolhido para nossa ação, serve à população dos bairros de Brás de Pina, Vila da Penha, Cordovil, Parada de Lucas, Vigário Geral, Jardim América, Vista Alegre e adjacências há mais de 20 anos. O nome do bairro, onde está localizado, alude ao antigo proprietário de suas terras, o português Brás de Pina, que lá possuiu um engenho de cana-de-açúcar no século XVIII. As terras da fazenda se estendiam até as margens da Baía de Guanabara. Ali, Brás de Pina mandou construir o antigo Cais dos Mineiros, com o objetivo de escoar a produção de açúcar de seu engenho e óleo de baleia, produto fundamental para a iluminação pública. O acesso ao cais se dava pela Estrada do Porto Velho, que mantém esse nome até os dias de hoje, margeando as construções que integram os conjuntos habitacionais da Cidade Alta e desembocando na Avenida Brasil.[2] A dinâmica de ocupação da região sofreu significativas mudanças a partir do início do século XX, quando foi inaugurada a estação de Brás de Pina, da Estrada de Ferro Leopoldina, em 1910.
O processo de fracionamento do solo e urbanização teve início quando a Companhia Imobiliária Kosmos, cujo dono era Guilherme Guinle, adquiriu as terras do antigo engenho e promoveu o loteamento do terreno, erguendo casas em estilo neocolonial e arborizando o novo bairro. Inicialmente, o bairro foi chamado de “Vila Guanabara” e, depois, Brás de Pina, em homenagem ao antigo dono das terras. Ao longo do século XX, o bairro ainda viria sofrer o impacto das significativas alterações no seu espaço, com a construção de diversos conjuntos habitacionais. O objetivo principal era que esses conjuntos pudessem absorver a população deslocada por remoções forçadas, operadas em comunidades situadas na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, entendidas em um contexto de remodelação do espaço urbano com vistas a atender às demandas turísticas e da especulação imobiliária.
Atualmente, Brás de Pina e a comunidade escolar enfrentam os desafios impostos pela pandemia da Covid-19 e pelo crescimento desordenado do bairro. Esse crescimento vem gerando significativo aumento nos índices de criminalidade e frequentes disputas territoriais, entre facções criminosas, pela posse de partes estratégicas do bairro e dos citados bairros vizinhos, que se localizam na confluência de importantes vias de acesso da cidade, tais como: a Estrada de Ferro Central do Brasil, a Avenida Brasil e as Rodovias Presidente Dutra e Washington Luís.O Colégio Estadual Professor José de Souza Marques está situado na Estrada do Quitungo, uma das vias que corta o bairro e desemboca as margens da ferrovia, em um espaço de 1600m2 que já pertenceu a um colégio particular. Com a falência do mesmo, a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC/RJ) alugou o prédio por cerca de 15 anos, onde instituiu essa unidade escolar. Em 2015, graças à mobilização da comunidade escolar frente a uma ordem de despejo, o prédio foi finalmente adquirido pela SEEDUC/RJ. O espaço conta, hoje, com 10 salas de aula, secretaria, sala de leitura, sala dos professores, coordenação pedagógica, direção, mini auditório, sala maker, quadra de esportes, cozinha e refeitório. O colégio assiste, atualmente, a cerca de 1000 alunos do Ensino Médio Regular, em três turnos de funcionamento.[3]
Esse é o contexto e cenário onde pensamos o projeto “História Local e Ensino de Humanidades: do reconhecimento à valorização da comunidade escolar e de seus sujeitos históricos”. Esse projeto partiu do desejo de Claudia Costa, professora de História atuante no referido colégio, de estabelecer um laboratório em ambiente escolar que privilegiasse os estudos sobre o local, em uma perspectiva que se desdobrasse na produção de uma historiografia tanto escolar quanto acadêmica. Portanto, buscou-se a articulação com o Núcleo de Estudos sobre Biografia, História, Ensino e Subjetividades sediado no Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Nubhes/Uerj) e coordenado pela professora Márcia de Almeida Gonçalves. O projeto concorreu e foi contemplado por um edital, aberto pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) no final do ano de 2021. Esse edital visava ao apoio e à melhoria das escolas públicas sediadas no estado do Rio de Janeiro, de modo que, ao final do ano de 2022, foi liberada a verba para a construção gradual de tal laboratório, bem como foram concedidas bolsas em três modalidades: Treinamento e Capacitação Técnica (voltada para professores da unidade escolar), Iniciação Científica (contemplando estudantes do curso de graduação em História da Uerj) e Jovens Talentos (direcionada para estudantes do Ensino Médio do próprio colégio). Assim, hoje somos uma equipe que conta com três professoras da Uerj, uma bolsista do Programa de Apoio Técnico às Atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão da Uerj (PROATEC), quatro bolsistas de Treinamento e Capacitação Técnica (TCT), quatro bolsistas de Iniciação Científica (IC) e quatro bolsistas Jovens Talentos (JT).
Brás de Pina é o local![4]
A partir da admissão de sujeitos historicamente excluídos, a historiografia brasileira passa a ser redimensionada em sua função de legitimadora de um ideal homogeneizador de determinada concepção de comunidade nacional. Trata-se, entre outras possibilidades, de pensar o micro em constante relação dialógica com o macro e, nessa perspectiva, podemos dialogar com importantes contribuições da Micro-História italiana, em particular as que possuíram interseções com os desdobramentos do “giro lingüístico”, no âmbito das tendências historiográficas contemporâneas (Avelar; Gonçalves, 2015). Alargaram-se, então, os estudos que levassem em conta o local, com sua potencialidade para se constituir em eixo de indagações, produção de pesquisas e desdobramentos, particularmente, no ensino da história.
Nesse sentido, a ancoragem no conceito de escala de observação que, de acordo com Jacques Revel, “não equivale a representar em tamanhos diversos uma realidade constante, e sim a transformar o conteúdo da representação mediante a escolha do que é representável”, pode ser uma interessante opção para o desenvolvimento de trabalhos estruturados em torno do local (Revel, 2010). Tal conceito traz fôlego às análises no campo da História Social, na medida em que relativiza o foco nas macro-abordagens ou na longa duração e na premissa de uma escrita da história de viés totalizante. Ou ainda, como propõe Márcia Gonçalves, a escala de observação torna-se “relevante ao enfocar as análises sobre as relações entre o local e o nacional como um dos caminhos de esquadrinhamento, e talvez de outra cartografia das identidades sociais” (Gonçalves, 2013).
Com efeito, o local emerge como um campo de reflexões instigantes, ao possibilitar a pesquisa de recortes temáticos que atendam às demandas interpostas pelas vivências da comunidade escolar selecionada para esse projeto, assim como aquelas expressas pelas orientações curriculares em vigor. Tal constatação adquire particular relevância na medida em que, por meio da própria escala de observação, é possível recortar e selecionar do todo aquilo que fará sentido para docentes, estudantes e para a própria instituição escolar. A ferramenta teórica e metodológica associada ao conceito de escala de observação permite-nos uma abordagem do local focada no ato de ajustar nosso olhar, partindo de aspectos específicos e singulares para entender as interpolações entre o local, o nacional e o global. Para tanto, essa abordagem “procura também entender a maneira como movimentos ou transformações coletivas são possíveis, mas não a partir desses movimentos em si e da capacidade autorrealizadora que se lhes imputa, e sim a partir das percepções que cada ator toma deles…” (Revel, 2010). Nesse sentido, compreendemos que a noção de local pode corresponder a um grupo ou comunidade, um bairro, uma cidade, uma região: ela depende do “ajuste” à escala de observação.
Assim, a História Local – pelo menos em sua perspectiva renovada – é, segundo Guillen e Nascimento Jr., “necessária por oferecer esse contraponto, por viabilizar o entendimento do entorno do discente e por articular o passado e o presente nos vários espaços onde esse indivíduo frequenta, como por exemplo, escola, casa, cidade, trabalho, e por situá-lo nas problemáticas do momento” (Guillen; Nascimento Júnior, 2016). Essa perspectiva busca dar conta de uma gama de novos objetos, que permanecem excluídos ou invisibilizados nas narrativas disponíveis nos materiais didáticos tradicionais. Para que possamos construir novas possibilidades de historiografia escolar e narrativas históricas didatizadas, dotadas de sentido para essa comunidade, atividades com o aporte na História Oral adquiriram particular interesse, na medida em que:
A história oral […] lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação. Admite heróis vindos não só dentre os líderes, mas dentre a maioria desconhecida do povo. Estimula professores e alunos a se tornarem companheiros de trabalho. Traz a história para dentro da comunidade e extrai a história de dentro da comunidade. Ajuda os menos privilegiados, e especialmente os idosos, a conquistar dignidade e autoconfiança. Propicia contato – e, pois, a compreensão –entre classes sociais e entre gerações. E para cada um dos historiadores e outros que partilhem das mesmas intenções, ela pode dar um sentimento de pertencer a determinado lugar e a determinada época (Thompson, 2002).
Em diálogo com as considerações de Paul Thompson acerca da História Oral, alinhamos essa proposta no sentido de conhecer, reconhecer e registrar os relatos e a existência de locais de memória (Assmann, 2011), compreendidos pelo bairro no qual se localiza o colégio e nos bairros adjacentes. Nesse sentido, “a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo” (Pollak, 1992). Os discursos da memória e sua potencialidade, enquanto elemento forjador de identidades, revigoram-se no âmbito da História do Tempo Presente (Delgado; Ferreira, 2014). A partir da polifonia ou confrontação de vozes e relatos simultâneos, revelam-se, não só indícios relevantes para acessar as memórias dos entrevistados, como também constituem-se pontos de partida para a problematização da história em uma perspectiva de articulação de diversas temporalidades e espacialidades.
Ao apostarmos em abordagens que recaem sobre experiências e relatos de vida dos “atores comuns” que integram a história local, nos remetemos a alguns argumentos desenvolvidos por Leonor Arfuch. Para a pesquisadora argentina, o caráter biográfico presente nas narrativas de vida é composto por elementos denominados biografemas, que são as partes constitutivas que tornam aquele sujeito único e impossível de ser enquadrado por estereótipos totalizantes. Dentre os vários biografemas presentes nas narrativas que comportam algo de biográficas, Arfuch identifica as mobilizações acerca do “ser comum” como uma interessante forma de pensarmos os jogos de escalas entre o global e o local. Nessa medida, as “vidas comuns” constituem-se em exemplos próximos, que nos despertam para as relações de pertencimento a respeito daquilo que considerávamos distantes. Trata-se de colocar em foco “o afastamento, que mede – e justifica – a diferença, e a proximidade, que lembra o pertencimento a uma humanidade comum” (Arfuch, 2010).
O aporte metodológico da História Oral nos permite ouvir, registrar e analisar o que as vozes locais têm a nos dizer a respeito de suas experiências e expectativas, fomentando a construção do conhecimento histórico escolar e promovendo a reconexão entre comunidade e escola. Como sugerem Santhiago e Magalhães, o trabalho com a História Oral em sua dimensão didático-pedagógica pode ser iniciado de forma aparentemente despretensiosa, com entrevistas realizadas com familiares ou vizinhos. Também é um tipo de projeto que favorece a integração interdisciplinar, na medida em que os processos de elaboração das questões, registro das falas, transcrições e revisões envolvem habilidades e competências que extrapolam o campo das Ciências Humanas (Santhiago; Magalhães, 2015) e, portanto, ajustam-se às disposições preconizadas pela Base Nacional Comum Curricular, no que diz respeito às competências específicas para as Ciências Humanas e Sociais Aplicadas para o Ensino Médio (BRASIL, 2018). Além disso, tal premissa permite um desdobramento típico dos projetos que se utilizam da História Oral como metodologia: a realização de um trabalho com entrevistas que permita um retorno aos sujeitos que se mobilizaram e se envolveram nesse processo e transformando a escola e seus sujeitos – docentes e discentes – no centro das operações de pesquisa, guarda e produção de narrativas historiográficas.
História Oral: Nascem, assim, nossas fontes históricas… e também jovens historiadores!
Ancorados no itinerário esboçado, as atividades do projeto tiveram início no segundo semestre de 2022, com a seleção dos bolsistas. Uma vez vencida essa etapa, entre o final de 2022 e os primeiros meses de 2023, foram realizadas atividades sistemáticas de formação dos estudantes selecionados. Tais atividades incluíram visitas a alguns locais de guarda e pesquisa de documentação histórica, como o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ) e o Centro de Pesquisa, Memória e História da Educação da Cidade de Duque de Caxias (CEPEMHEd). Além das visitas técnicas, foram realizadas a leitura e discussão socializada de textos sobre História Oral, bem como a realização de curso virtual sobre tal temática. Nesses encontros, foram discutidos os limites da História Oral enquanto método de pesquisa, apresentados os equipamentos de trabalho e debatidas as melhores formas de abordar e se comportar diante dos possíveis depoentes. Foram elaborados documentos de autorização de uso dos registros em áudio, produzidos pelas entrevistas, assim como um roteiro semi-direcionado, com indagações que o grupo considerou pertinentes para compor um cenário sobre as memórias compartilhadas conosco, acerca das vivências no bairro. Importante destacar que essas ocasiões foram mediadas pelos professores que integram o projeto, tanto aqueles que compõem a equipe do Nubhes, vinculados à Uerj, como por nós, bolsistas TCT/Faperj do projeto, vinculadas como docentes ao Colégio Estadual Professor José de Souza Marques, por meio da SEEDUC/RJ.
A etapa seguinte, na qual nos encontramos no presente momento em que escrevemos esse texto, compreende a realização, transcrição e revisão de entrevistas com moradores do bairro. Utilizamos como ponto de partida, para a seleção dos primeiros entrevistados, um questionário aplicado a todos os estudantes do colégio, no qual eles responderam questões que constavam de seus dados pessoais, identificações de gênero e religiosidade, assim como sobre sua relação com o bairro, há quanto tempo ali residia, aspectos positivos ou negativos identificados no local. Essa sondagem serviu para que direcionássemos nossos gravadores para famílias que já residiam em Brás de Pina há algum tempo. Assim, feito o primeiro contato, explicando sobre o projeto e marcada a entrevista, forma-se uma equipe composta por um ou dois professores/bolsistas TCT e mais um ou dois bolsistas, IC e/ou JT. Tais momentos têm se revelado em experiências de pesquisa muito instigantes, especialmente no que se refere a um cenário pós-pandêmico, quando as relações humanas e sociais foram tão duramente afetadas. Os bolsistas de IC nos revelaram, ao longo dessas ocasiões, que não há, no currículo de História da universidade, uma disciplina sobre História Oral e, talvez por isso, venham se interessando com bastante afinco, pela realização e transcrição das entrevistas. Para os bolsistas JT’s, é perceptível que muitas novidades se descortinam: a própria bolsa oferecida pelo projeto e as visitas técnicas, que têm os feito transcender a vida rotineira de estudante do Ensino Médio do subúrbio. Nesse contexto, o acompanhamento às entrevistas e o reconhecimento de aspectos do geral, nos casos específicos revelados por meio da escuta sensível de memórias e histórias de vida de pessoas que circulam pelos mesmos lugares que eles, têm contribuído para que se forme outro olhar acerca da História Ensinada.
Um exemplo disso é a fala de José, professor Colégio Estadual Professor José de Souza Marques e morador antigo do bairro de Brás de Pina. Em seu depoimento, ele comenta suas percepções sobre o bairro.
Primeiro assim, com relação a comércio: Brás de Pina foi um bairro que, na minha opinião, regrediu. Porque Brás de Pina, ali tinha na estação, tinha banco, banco se eu não me engano, era Banco Econômico. Na época tinha banco, já teve cinema, que hoje é a [Igreja] Universal… [5]
E refere-se ao aumento da violência como responsável pelo processo de degradação do local.
Aí, sinceramente, a gente vê que, acho que a violência… E o bairro foi regredindo, justamente, devido a esses problemas aí, dessas facções. Então, eu acho que o aumento dessas facções (…) Então, acho que foi a partir daí que a Leopoldina, Brás de Pina, de um modo geral, começou a entrar nesse processo de degradação. Acredito eu, que seja o principal deles, né… Sem contar também esses planos econômicos que a gente já passou alguns governos, na década de 90, como Collor, que quebrou algumas empresas… Então isso tudo… Mas eu acho que a violência deve ser o fator assim principal.[6]
No entanto, Rosa, também antiga moradora do Brás de Pina nos dá outros elementos para compreender as transformações no bairro. Perguntada sobre as lembranças das festividades, a entrevistada pontua sobre a tranquilidade do bairro e suas posteriores mudanças.
Olha, eu não sei te falar a data, mas foi até a época que começaram a fazer aquele conjunto ali que aí virou um inferno. (…) É, porque a gente não tinha isso [violência] aqui né. Por isso estou te falando, que sempre foi um bairro tranquilo. E até que mesmo com o conjunto o pessoal continuou os mesmos, eram antigos né. Então aqui tinha muito português, italiano, né? Muitas pessoas de outros países aqui. E a rua do Cairo é a que tinha mais né, era italiano, portugueses”.[7]
O tal conjunto citado por Rosa é o Conjunto Habitacional da Guaporé. Esse tipo de moradaria foi construída no fim da década de 1960, como parte de uma política de remoção de favelas empreendida pelo então Governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, e posteriormente Negrão de Lima. No caso específico dos conjuntos do Quitungo e Guaporé, localizados no bairro de Brás de Pina, eles foram construídos para receber os moradores da favela da Catacumba, situada da Lagoa Rodrigo de Freitas, que foi extinta.
Depoimentos como esses nos mostram a diversidade de olhares e pecepções sobre o local e suas transformações. Sendo assim, o exercício de escuta, registro e análise de entrevistas são fundamentais para realização de um trabalho que envolve vários sujeitos – alunos, professores e moradores de Brás de Pina.
Perspectivas futuras
Segundo o Edital Faperj de apoio e à melhoria das escolas públicas sediadas no estado do Rio de Janeiro, nosso projeto tem a previsão de se estender por dois anos. Em agosto de 2023, completaremos o primeiro ano de sua vigência e estamos preparando uma exposição audiovisual, a ser realizada no próprio colégio. Pretendemos que essa exposição reúna, além das fotografias, frutos da pesquisa dos bolsistas de IC, parte das entrevistas realizadas ao longo desse período. A logística prevê a confecção de banners integrando os registros fotográficos a trechos das entrevistas, previamente selecionados, a fim de instigar o cotejo das duas tipologias documental. Também foi prevista a edição de algumas entrevistas, cujos trechos seriam dispostos pelo espaço físico da exposição no formato original em áudio, acessível por meio de QR Code, a partir dos aparelhos de celular dos visitantes.
No campo esboçado pelos diálogos possíveis entre as memórias dos moradores de Brás de Pina e a historiografia que dá conta da cidade e/ou do estado do Rio de Janeiro, onde o bairro se encontra, a reflexão sobre a abordagem desenvolvida por Leonor Arfuch nos alertou para a necessidade de que o trabalho com entrevistas permitisse um retorno à população local, mobilizada e envolvida nesse processo. Na medida em que caminhamos no sentido de transformar essas entrevistas em documento para as Ciências Sociais, tais entrevistas, que Arfuch denomina “científicas”, pressupõem um estágio inicial “em direção à elaboração de um produto-outro” (ARFUCH, 2010). No presente caso, as entrevistas vêm representando o ponto de partida para a publicização dessas memórias, fomentando um debate que deve desembocar em uma possibilidade de escrita e ensino da história de Brás de Pina que destaque a voz das “pessoas comuns”. Em um contexto no qualas transformações aceleradas levam ao permanente questionamento acerca do que deve ser guardado ou do que é descartável, a publicização dessas narrativas pode ser o primeiro passo ou a primeira resposta às inquietações e clamores por reconhecimento ou pela superação do esquecimento que marca a história dos subúrbios.
Referências bibliográficas
Assmann, A. (2011). Espaços da recordação. Formas e transformações da memória cultural. Campinas: Editora da UNICAMP.
Avelar, A e Gonçalves, M. (2011). Giro linguístico e escrita da história nos séculos XX e XXI”. Em: MEDEIROS, Bruno Franco, SOUZA, Francisco Gouvea de; BELCHIOR, Luna Halabi; REANGEL, Marcelo de Mello; PEREIRA, Mateus H. F. Teoria e historiografia: debates contemporâneos. Jundiaí: Paco Editorial, p. 57-78.
Brasil (2018). Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília.
Costa, A. (2019). História Local. Ferreira, Marieta de Moraes; Oliveira, Margarida Maria Dias de. Dicionário de ensino de História. Rio de Janeiro: Editora FGV, p. 32.
Delgado, L. e Ferreira, M. (2014). História do tempo presente. Rio de Janeiro: FGV Editora.
Gonçalves, M. (2013). Próximos distantes: notas sobre História Local. Conferência de Encerramento proferida no II Seminário de Memória e Patrimônio Histórico de Queimados. Queimados.
Guillen, I. e Nascimento Júnior, M. (2011). História Local e o Ensino de História: das reflexões conceituais às práticas pedagógicas. Em: Anais do VII Encontro Estadual de História. V. 6: Feira de Santana – BA, pp. 1-11.
Pollak, M. (1992). Memória e identidade social. Em: Revista de Estudos Históricos. Rio de Janeiro, 5 (10),pp.200-215.
Revel, Jacques (2010). Micro-história, macro-história: o que as variações de escala ajudam a pensar em um mundo globalizado. Em: Revista Brasileira de Educação. vol. 15 nº. 45, pp. 434-590.
Santhiago, R. e Magalhães, V. (2015). História Oral na sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica Editora.
Thompson, P. (2002). A voz do passado: História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
Entrevistas
José. Entrevista realizada por Cláudia Costa, no dia 17 de abril de 2023.
Rosa. Entrevista realizada por Cláudia Costa, no dia 4 de maio de 2023.
- Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro. Correos electrónicos: cliouerj@yahoo.ity, ritaribeiro2012@gmail.com.↵
- Esse artigo é uma versão do projeto “História Local e o ensino das Humanidades: do reconhecimento à valorização da comunidade escolar e de seus sujeitos históricos”, que concorreu ao Edital de Apoio à melhoria das escolas públicas sediadas no Estado do Rio de Janeiro – 2021, lançado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).↵
- Informações extraídas do Projeto Político Pedagógico do colégio.↵
- Título do perfil em rede social, criado especialmente para a divulgação das atividades pertinentes ao projeto. Ver Instagram:@brasdepina_o_local↵
- José. Entrevista realizada por Cláudia Costa, no dia 17 de abril de 2023.↵
- Idem.↵
- Rosa. Entrevista realizada por Cláudia Costa, no dia 4 de maio de 2023.↵






