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Conectando trajetórias

Genealogias e redes migratórias transnacionais (Itália, Brasil e Argentina, séculos XIX e XX)

Marinilse Candida Marina[1]

Introdução

Neste estudo de caso são analisados os movimentos de alguns grupos familiares de italianos –além de seus descendentes–, provenientes da parte ocidental da região do Friuli[2] Venezia Giulia, localizada no nordeste da Itália, que emigraram inicialmente para o Brasil meridional. O estudo configurou-se como análise de casos específicos dentro de circuitos migratórios transnacionais, apontando para redes e estratégias adotadas pelas famílias imigrantes entre as últimas décadas do século XIX e início do XX. Selecionaram-se as famílias Filippon e De Cecco e suas ramificações, ambas originárias do Friuli Ocidental (FO)[3], especificamente do comune[4] italiano denominado Frisanco[5]. A partir das duas últimas décadas do século XIX, esses núcleos familiares se estabeleceram no Brasil, mais especificamente na região nordeste do estado do Rio Grande do Sul, na localidade denominada Dona Isabel. Já nos primeiros anos de 1900, os núcleos parentais fizeram novas migrações para a Argentina[6], mas mantiveram os contatos estabelecidos ainda na Itália.

Anterior à grande emigração para o Brasil, cujo período-ápice ocorreu entre 1876 e 1901[7], as transferências migratórias entres as regiões (montanha e planície) para outras partes da Europa, principalmente Europa Central, eram corriqueiras. As ditas migrações sazonais proporcionavam o aperfeiçoamento e/ou o aprendizado de novos ofícios, caracterizando-se como migrações laborativas e consequentemente qualificadas. Entre aqueles adeptos às migrações internas pela Europa, os friulanos, embora caracterizados como campesinos por tradição, desenvolveram também o ofício de artesãos[8] como fonte de renda.

Portanto, o questionamento central que orientou a pesquisa foi: como se dão os processos de transmutação cultural de friulanos nos espaços de destino migratório, principalmente no campo dos ofícios e das estratégias matrimoniais, para determinar sua fronteira étnico-cultural? Para respondê-lo, foram comparadas múltiplas fontes.

Com instrumentos de pesquisa disponibilizados pela internet somados a fontes paroquiais, buscou-se perceber como se reconstituiu detalhadamente a comunidade friulana enquanto grupo organizativo nas esferas dos ofícios, matrimônios e consequentemente de estratégias e de manutenção socioeconômica e cultural, mantidas através de redes[9] parentais, principalmente na emigração para a colônia Dona Isabel –na parte do atual município de Monte Belo do Sul, estado brasileiro do Rio Grande do Sul– e posteriormente para Mar del Plata, na Argentina.

Zanini (2004: 53) explica que, no momento da emigração dos italianos no final do século XIX:

[Eles] não se sentiam italianos no sentido de um pertencimento nacional, mesmo porque a unificação italiana se dera havia pouco, e muitos não concordavam com ela. Eram moradores de um paese[10] e pertencentes a determinada localidade, que se comunicavam por meio de dialetos específicos.

Partindo desse princípio, visa-se a perceber como esses grupos familiares se reorganizaram em locais específicos da América Latina.

Conforme exemplifica Franzina (2006), diferentemente da planície, nas regiões montanhosas prevalecia a pequena propriedade. No contexto emigratório, esses pequenos proprietários seriam os primeiros prejudicados pela crise que a Europa enfrentava e, por isso, motivados a emigrar: embora não fossem os mais pobres, eram “os pequenos arrendatários, os pequenos proprietários, ou seja, os pequenos produtores capazes de inserir-se no mercado por si mesmos, mas incapazes, por causa da sua objetiva fragilidade, de resistir à violência das crises conjunturais” (Franzina, 2006: 39). Também os emigrantes analisados eram proprietários de pequenos lotes na recém-unificada Itália e sujeitos àquela instabilidade econômica.

Em relação ao Friuli, Grossutti (2018: 30, tradução nossa) defende que “A montanha e a pedemontana, vale dizer as zonas majoritariamente interessadas nas emigrações sazonais nos países do centro da Europa, são aquelas que […] apresentam uma fisionomia mais evoluída e onde os habitantes demonstram as mais altas taxas de alfabetização […]”, o que também foi observado entre os friulanos em análise por meio da troca de correspondências que existiu entre os grupos e da presença de condições para poder empreender uma migração em redes familiares, fatores determinantes para o reagrupamento dos friulanos nas novas instalações em terras americanas.

Outra esfera considerada relaciona-se às práticas matrimoniais: conforme Fornasin (2011), em determinadas áreas montanhosas, estabeleciam-se casamentos endogâmicos. Esses fatores agregados, que caracterizam as populações em questão, direcionam para o entendimento da ocupação de espaços para além da Itália.

O grupo central de imigrantes analisado e suas redes regionais partiram da mesma província e de comuni muito próximos. Além dessa delimitação espacial, para ser possível traçar a trajetória desses imigrantes friulanos, elencam-se em específico as famílias Filippon e De Cecco e suas redes com outros núcleos friulanos. As respectivas ramificações estabeleceram relações de matrimônios e compadrios com as famílias Tramontina, Filippi[11], entre outras. O sobrenome Filippon –originário de Frisanco, localizado no FO– é a linha inicial que orienta a investigação nas diversas séries documentais, auxiliando na distinção de sujeitos, estratégias e organização das comunidades por meio da própria composição das famílias, que se mantiveram majoritariamente endogâmicas no Brasil até a terceira geração e exerceram o ofício de ferreiros até a quinta geração.

As principais fontes analisadas para reconstruir as trajetórias familiares foram: registros paroquiais (matrimoniais e batismais) e cartoriais (certidões de nascimento, matrimônio e óbito e os testamentos) localizados no Brasil[12], na Itália[13] e na Argentina[14]; livros de impostos, boletins consulares italianos, álbuns de família; correspondências trocadas entre o grupo (cartas e cartões postais); diários sobre a economia familiar; e fontes orais. A facilidade de acesso às informações disponibilizadas on-line possibilitou elaborar parte significativa das genealogias e/ou o confrontamento de múltiplas informações –servindo-se da linha de análise da micro-história italiana–, confirmadas pelas fontes orais, ou vice-versa. Assim, visa-se ao aspecto qualitativo das fontes, portanto, cruzá-las[15] possibilita perceber e comprovar a ligação que havia entre os indivíduos.

Instalação dos friulanos em Monte Belo do Sul, Brasil

Em Monte Belo do Sul[16], os friulanos estudados se instalaram nas duas últimas décadas do século XIX. A Linha Argemiro passou a abrigar 51 proprietários de lotes, sendo que 40 deles eram oriundos do FO; já a linha vizinha, Santa Bárbara, do total de 60 famílias, 31 provinham da região do FO. Na povoação de novas terras, os imigrantes procuravam reproduzir os vínculos com o lugar de origem. Os friulanos nas linhas coloniais Argemiro e Santa Bárbara eram responsáveis pela produção artesanal de ferramentas elaboradas a partir do ferro, atuando por meio do papel profissional exercido tanto no desenvolvimento agrícola, quanto no transporte –que nas colônias acontecia por tração animal–. Nesse sentido, os ferreiros eram de certa forma dinamizadores da economia rural.

Averiguando o tema dos laços matrimoniais no FO em período anterior à emigração para a América Latina, constatou-se que as pessoas com mais probabilidade de se casarem dentro da comunidade dos pais eram os filhos de agricultores e pequenos produtores (Wall, 1996; Rabino-Massa, Prost & Boëtsch 2005 como citado em Fornasin, 2011). Esses aspectos sobre o cotidiano de grupos montanhosos no FO estão diretamente ligados aos núcleos em análise, uma vez que também eram provenientes daquela região e registrados como agricultores.

No Quadro 1, observam-se matrimônios cujas redes são fundamentais para compreender a complexidade das migrações que ocorreram posteriormente ao estabelecimento dos friulanos no território sul-rio-grandense. Destacam-se os integrantes da família frisanchina[17] de Domenico Filippon e Catterina Franceschina. Dos cinco filhos, três homens e duas mulheres, a prole do casal Davide Filippon e Anna Maria Filippi Tomè, o terceiro na ordem, migrou para a Argentina.

Quadro 1 – Prole do casal Domenico Filippon e Catterina Franceschina

Primeiros
imigrantes

Domenico Filippon e Catterina Franceschina

Origem
das famílias

Frisanco

Filhos

Nascimento

Padrinhos e/ou testemunhas

Matrimônio

Cônjuge

Nascimento do cônjuge

Descendência do cônjuge

Padrinhos / testemunhas

Gabrielle Angelo Filippon

Frisanco (prov. em 1848)

Frisanco (19/03/1880)

Lucia Beltrame

Frisanco

Friulana

Antonio De Carli e Pietro Roman

Osvaldo Filippon

Frisanco (1854)

Frisanco (06/04/1882)

Maria Filippi

Frisanco

Friulana

Pietro Roman e Pietro Marcolina

Davide Filippon

Frisanco (prov. em 1858)

Frisanco (18/02/1883)[18]

Anna Maria Filippi Tomè

Frisanco

Friulana

Luigi Tonello e Pietro Roman

Maria Filippon

Frisanco (aprox. em 1860)

Dona Isabel (1888)

Antonio Roman Ross

Frisanco

Friulana

Rosa Filippon

Frisanco (prov. em 1866)

Dona Isabel (1888)

Carlo Santin

Mezzomonte, Polcenigo (prov. em 1865)

Friulana

Fontes: Archivio di Stato di Udine; Registros civis do cartório de Monte Belo do Sul. Legenda: aprox. – aproximadamente; prov. – provavelmente.

Pelos registros encontrados, Domenico Filippon era filho de Giacomo Filippon e Domenica Bernardon. Já a esposa, Catterina, era filha de Giovanni Franceschina e Rosa Della Zana. Todos eles, nascidos em Frisanco. No quadro, observa-se que, dos cinco filhos do casal Domenico e Catterina, três casaram-se em Frisanco, inclusive dentro de uma rede parental. Os dois filhos que contraíram matrimônio no Brasil também se casaram com friulanos, observando-se uma variação apenas no comune de nascimento do cônjuge de Rosa Filippon. Elencam-se as redes matrimoniais dos sujeitos que se articularam com friulanos de Frisanco instalados em Mar del Plata, Argentina.

Em relação à emigração italiana, Gonçalves (2012: 39) destaca que “a região do Prata era o principal destino daqueles que se dirigiram à América (68% do total), seguida pelos Estados Unidos (16,5%) e Brasil (8,9%)”. A emigração direcionada para o Brasil tinha, entre outros propósitos, o branqueamento da população, que apresentava grande percentual de afrodescendentes (38%, em 1819). Esse não era, contudo, o caso específico da Argentina, cuja população era 70% composta por brancos (Fausto & Devoto, 2004). Mesmo tendo iniciado em momentos diferentes, com objetivos um pouco distintos, a imigração italiana para Argentina e Brasil fez com que em números absolutos ambos os países fossem os maiores receptores de italianos na América Latina. Conectando os friulanos em Mar de Plata, Grossutti (1995: 284, tradução nossa) ressalta que:

Na Argentina, a comunidade de frisanchini se concentra praticamente em Mar del Plata, na província de Buenos Aires. As preferências por Mar del Plata não são claras. Apesar de que os núcleos mais consistentes chegam nos primeiros cinquenta anos do nosso século [século XX], já em 1887 se transfere para a cidade atlântica Giacomo Rosa Donati, de Casasola. Nascido em 1855, primeiramente havia emigrado para Alemanha, Romênia e França de onde, em 1885, embarcou para a Argentina.

Antes de migrar para Mar del Plata, Giacomo Rosa Donati exerceu o ofício de pedreiro/construtor nas reestruturações da casa do governo argentino em Buenos Aires (Barili, 1995 como citado em Grossutti, 1995). Tendo por base vínculos parentais e relações de compadrios, as redes se expandem, bem como se transformam em tramas familiares transnacionais. A família Rosa Donati volta a surgir neste estudo, indicando o entrelaçamento entre os imigrantes de Monte Belo do Sul com aqueles analisados por Grossutti (1995).

Tomando como fio condutor determinados sujeitos e seguindo seus percursos, na presente análise o transnacional é entendido como processo em que o migrante constrói um campo social de interação e conexão que ultrapassa fronteiras nacionais, como aquela do seu país de origem a outros em que se fixa (Ambrosini, 2009). Parte do grupo, inicialmente fixado em Monte Belo do Sul, já nos primeiros anos de 1900, reforçava os vínculos com as famílias de origem friulana que se encontravam em Mar del Plata. Os deslocamentos do Rio Grande do Sul em direção ao litoral da Argentina, viabilizados através de suporte de rede parental, eram compostos principalmente por funileiros/ferreiros que recebiam informações enviadas por correspondência sobre oportunidades de trabalho no setor.

Núcleos familiares friulanos em Mar del Plata, Argentina

Para a compreensão dos núcleos familiares na Argentina, foi necessário deter-se em dois casais das famílias Filippon e De Cecco que se uniram em laços matrimoniais ainda em Frisanco e que emigraram por meio de rede parental para o Rio Grande do Sul e, posteriormente, para Mar del Plata. Da prole do casal de imigrantes friulanos Domenico Filippon e Catterina Franceschina (Quadro 1), interessou a constituição familiar do filho Davide Filippon. Esse ramo permitiu entender quais laços existiam entre os friulanos antes da emigração para o Brasil, bem como a união deles no além-mar.

O casal Davide Filippon e Anna Maria Filippi Tomè contraíram núpcias em Frisanco, na data de 18 de fevereiro de 1883, partindo com a família para o Brasil. Geraram cinco filhos, dos quais se destacam as estruturas familiares das filhas Carlota e Maria, para compreender os laços parentais que aproximaram os friulanos do Brasil e da Argentina. A prole do casal Davide Filippon e Anna Maria Filippi Tomè entrelaçou-se em novos matrimônios entre primos, através da união com os filhos de Davide De Cecco e Lucia Filippi Tomè[19]. Nesse sentido, as matriarcas, Anna Maria Filippi Tomè e Lucia Filippi Tomè, eram irmãs. O último casal teve filhos que se conectaram com a família Tramontina[20].

No Quadro 2, observa-se a prole de Angelo De Cecco e Carlota Filippon com as redes de compadrios na Argentina.

Quadro 2 – Prole do casal Angelo De Cecco e Carlota Filippon

Filhos

Nascimento

Padrinhos de batismo

Local

Erminda Lucia[21]

09/04/1909

Humberto Filippon e Lucia Magnan

Mar del Plata, Argentina

Alfonso David

28/01/1911

Osvaldo Rosa Donati e Vicenta Rosa Cesca

Mar del Plata, Argentina

Hugo

28/03/1913

Luiz De Cecco e Itália Tramontina

Mar del Plata, Argentina

Rinaldo Arturo

17/04/1918

Arturo Del Bianco e Adalgisa Vascelo

Mar del Plata, Argentina

Delia Maria

14/01/1921

Caytano Niglia e Victoria Rosa Cesca

Mar del Plata, Argentina

Fonte: Parroquia de Santa Cecilia. bit.ly/3PoBw2f

Dos padrinhos de batismo, apenas os que possuem os sobrenomes Vascelo e Niglia não são de origem friulana. Já os sobrenomes Cesca e Del Bianco são encontrados em diferentes comuni do FO, enquanto Rosa em Frisanco e Maniago. Isso indica o estabelecimento de vínculos com conterrâneos que haviam emigrado de um mesmo local da península itálica, mas imigrado para partes distintas na América Latina.

No Quadro 3, observa-se a prole de Felice De Cecco e Maria Filippon também com as redes de compadrios na Argentina.

Quadro 3 – Prole do casal Felice De Cecco e Maria Filippon

Filhos

Nascimento

Padrinhos de batismo

Local

Ana

30/07/1910

Antonio Dreon e Itália Di Bernardo

Mar del Plata, Argentina

David Jordano

21/11/1912

Arturo Del Bianco e Adalgisa Vascelo

Mar del Plata, Argentina

Rita Elma

08/01/1918

Enrique Beltran e Paulina Beltran

Mar del Plata, Argentina

Maria Elsa

22/12/1920

Santo Dreon e Marina Dreon

Mar del Plata, Argentina

Fonte: Parroquia de Santa Cecilia. bit.ly/3PoBw2f

Novamente verifica-se o sobrenome Vascelo entre os compadrios de um dos filhos do casal. Embora não haja ligação direta desse sobrenome com o Friuli, provavelmente Adalgisa Vascelo era casada com Arturo Del Bianco, cuja origem era friulana. A única ocorrência do sobrenome Beltran (o adequado seria Beltrame[22]), bastante comum em localidades friulanas, foi verificada no Quadro 3. São evidentes as redes iniciadas em Frisanco entre as famílias migrantes, dando continuidade no Brasil aos vínculos instituídos por meio dos compadrios e matrimônios com conterrâneos que viviam em territórios brasileiro e argentino. A circulação de cartas entre imigrantes friulanos em diferentes países da América do Sul reforçava as redes e a garantia do estabelecimento de novos deslocamentos.

Há registros em arquivos familiares da comunicação estabelecida entre Mar del Plata e Monte Belo do Sul até 1976. Conforme informações de fontes orais, o contato se manteve com parentes que se encontravam em território argentino, bem como com os instalados na Filadélfia, nos Estados Unidos da América. Como a Argentina, a Filadélfia foi outro local onde se fixaram os friulanos. Segundo Grossutti (2013), após a Segunda Guerra Mundial, os imigrantes italianos que chegavam aos Estados Unidos preferiam se fixar nas grandes cidades, como Nova Iorque, ou em comunidades como Chestnut Hill, no norte da Filadélfia. Nesse sentido, as redes migratórias iniciadas por friulanos nos séculos XIX e XX ainda demonstravam sua eficácia e seu potencial (Grossutti, 2013: 22). A preferência pela Filadélfia como destino, somada ao relato de que houve troca de correspondências do núcleo familiar norte-americano com o de Monte Belo do Sul, reforça o papel das redes e dos vínculos entre os friulanos em nações distintas.

Considerações finais

Após a instalação dos núcleos familiares nas linhas coloniais da região nordeste do Rio Grande do Sul, onde se encontra a atual Monte Belo do Sul, observaram-se os matrimônios entre imigrantes que provinham do Friuli. Os casamentos, em sua maioria, davam-se entre pessoas aparentadas, mantendo, assim, uma prática que já existia nas áreas montanhosas friulanas de origem. As primeiras gerações nascidas no Brasil entrelaçaram-se a outros descendentes de friulanos não apenas por via matrimonial, mas também por redes de compadrios. Os vínculos foram reforçados e se estenderam através das redes para além de Monte Belo do Sul, chegando à região costeira da Argentina. E a comunidade frisanchina se concentrou principalmente em Mar del Plata.

Por meio das análises realizadas no caso do Rio Grande do Sul, a explicação para esse reagrupamento encontra força no âmbito profissional. O deslocamento do Brasil meridional para o território argentino ocorreu devido a informações de que havia mercado de trabalho para ferreiros/funileiros. Eram a troca de informações e o contato mantido entre famílias aparentadas friulanas que viabilizavam os novos deslocamentos e o reforço dos vínculos através de redes matrimoniais e de compadrios.

Defende-se, portanto, que a emigração foi planejada, articulada e organizada não só na partida em grupo de lugares pontuais da região do Friuli Venezia Giulia, especificamente do território pertencente ao FO, mas também na compra de lotes vizinhos no local de destino. Especificamente, analisou-se a migração para Mar del Plata, onde as famílias originárias de Frisanco mais se concentraram na Argentina; ali os migrantes deram continuidade à prática da endogamia entre as famílias e se mantiveram artesãos, apesar de serem campesinos por tradição.

Referências

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  1. Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), São Leopoldo, Brasil.Bolsista de Pós-Doutorado em História pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil (CNPq).
  2. Para uma discussão mais específica dos movimentos de imigrantes friulanos e seus descendentes na América Latina, ver Marina (2022).
  3. Para compreender o local de partida dos sujeitos centrais da análise, aprofunda-se a descrição da região denominada Friuli. No momento da partida, o território fazia parte de Udine; com a divisão do espaço e consequentes mudanças de nomenclatura, passou a corresponder à província de Pordenone, que se refere ao FO. Pordenone foi uma das quatro antigas províncias administrativas, assim como Udine, Trieste e Gorizia, suprimidas em 2017, mas continua marcando “geograficamente” a localização das comuni situadas na região denominada Friuli Venezia Giulia (FVG). Entretanto, para evitar qualquer tipo de equívoco, quando se trata dos pontos de partida de forma generalizada, utiliza-se a designação estabelecida, FO.
  4. Comune, comuni no plural, é uma divisão administrativa que, para fins de comparação com o Brasil, é análoga ao município.
  5. Vale salientar que Maniago pertencia a Frisanco, portanto alguns registros de cunho civil apresentam a denominação ora como comune de Maniago, ora como de Frisanco. Exceto a família Tramontina, cujo ramo analisado é especificamente de Poffabro, a origem do restante das famílias é desses outros vilarejos, todos vizinhos, e esses núcleos familiares já apresentavam redes de compadrios desde período anterior à emigração para o Brasil.
  6. Para aprofundar a discussão sobre a migração do Rio Grande do Sul para Mar del Plata, consultar: Marina e Vendrame (2023).
  7. Emílio Franzina (1984) divide os fluxos emigratórios italianos na seguinte cronologia. O primeiro período, anterior a 1876, é definido como uma fase arcaica. No segundo período, de 1876 a 1886, ocorre o declínio no valor dos cereais. O terceiro período, de 1887 a 1901, corresponde à desilusão com o mercado de comercialização agrícola. Esses três primeiros períodos são os mais significativos no contexto emigratório para o Rio Grande do Sul. No quarto período, de 1902 a 1927, ocorre a emigração mais expressiva para os EUA. O quinto período, de 1927 a 1948, é marcado pela política fascista. E no sexto período, de 1948 a 1973, as migrações centram-se mais no interior do continente europeu, principalmente Alemanha, França, Bélgica e Inglaterra (Franzina, 1984 como citado em Buosi; Nicoletti, 1999).
  8. Grossutti (2018) demonstra que os friulanos desempenhavam nas migrações sazonais para o restante da Europa, em especial para a parte central, inúmeros ofícios, entre eles: construtores, vendedores, operários etc. Neste estudo de caso os sujeitos analisados exerciam o ofício de artesãos no Sul do Brasil.
  9. O emprego dos termos cadeias e redes, em suas acepções mais restritas ou abrangentes, procura sublinhar a circunstância de que muitos decidiam emigrar após se informar previamente das condições de vida com imigrantes anteriores, seja por carta, seja pessoalmente, quando retornavam (Truzzi, 2008: 203). Alguns autores pioneiros na discussão dos estudos sobre redes são: Ramella (1995; 2001), Grendi (1977) e Levi e Ramella (1989). Quanto ao estudo das cadeias migratórias na América Latina, destaca-se o trabalho de Devoto (1987).
  10. Paese é entendido não apenas como vila ou localidade, mas também como um conjunto de relações afetivas, plenas de significados imagéticos e relacionais, utilizados na Itália (Beneduzi, 2011: 15).
  11. Nos arquivos italianos, encontrou-se majoritariamente o registro Filippi; já no Brasil, a documentação registra Filippi-Chiella, provavelmente incorporando um apelido usado para distinguir os ramos da família, tradição que faz parte da cultura friulana, por se tratar de muitas famílias com casamentos entre si. De qualquer modo, optou-se pela forma mais recorrente registrada nos documentos civis italianos: Filippi.
  12. Entre os registros paroquiais, foram consultadas as paróquias de Monte Belo do Sul, Bento Gonçalves, Veranópolis, Santa Tereza e Guaporé (cujos documentos se encontram em parte na cúria de Passo Fundo), além da cúria diocesana de Caxias do Sul. Para se chegar a tais locais foi realizada uma pesquisa maior, que envolveu a busca em outras paróquias da Serra Gaúcha. Os registros cartoriais foram encontrados em Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Pinto Bandeira, Farroupilha, Faria Lemos, Monte Belo do Sul, Veranópolis, Lajeado, Muçum, São Valentim do Sul, Guaporé, Marau, Erechim e Passo Fundo.
  13. Os registros de nascimento e matrimônio e de propriedade de terra foram localizados de forma on-line no Archivio di Stato di Udine e no Archivio di Stato di Pordenone.
  14. Foram consultados de forma digital os registros da Parroquia de Santa Cecilia, Argentina.
  15. A metodologia que remete ao uso de cruzamentos de fontes está baseada principalmente em Grendi (1977), Ginzburg (1989) e Levi (2000).
  16. Monte Belo do Sul se tornou município no ano de 1992, anteriormente chamava-se Linha Zamith, que fazia parte da colônia Dona Isabel. Com a emancipação política da colônia, chamada posteriormente de Bento Gonçalves, a então localidade nomeada como Linha Zamith tornou-se Montebello. Atualmente adota-se a grafia Monte Belo do Sul.
  17. Oriundos de Frisanco.
  18. Os dados estão de acordo com o registro civil de Frisanco. Embora, segundo fontes familiares, o matrimônio religioso tenha ocorrido em 04 de março de 1883, optou-se por manter a data da fonte oficial encontrada.
  19. Não é abordada a genealogia deste casal, para não confundir o leitor na descrição de matrimônios entre primos e demais friulanos. Para aprofundar a discussão sobre árvores endogâmicas e consanguíneas, ver Marina (2022).
  20. Dois filhos do casal Davide De Cecco e Lucia Filippi Tomè contraíram matrimônio com a família Tramontina, são eles: Luiz De Cecco, que casou com Itália Tramontina; e Elisa De Cecco, que casou com Valentin Tramontina.
  21. Foi localizado o registro de matrimônio de Erminda Lucia De Cecco. Ela se casou com Pascoal Angeli, de descendência friulana, em 09 de maio de 1934, em Mar del Plata.
  22. Chegou-se a essa informação através do entrecruzamento de fontes de cunho civil e religioso.


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