Thiago Allis[1]
Quando se postula um debate sobre mobilidades escolares, a dimensão espacial talvez seja a mais óbvia e marcante, afinal, a escola, como continente físico, institucional e simbólico, está presente no cotidiano de praticamente todas as sociedades do mundo. Mas, de forma bastante mais ampla e auspiciosa, um tal “paradigma” das mobilidades convida pesquisadores(as) a identificar e entender muitas dimensões que as mobilidades ‒mas também as imobilidades‒ produzem e por elas são influenciadas: objetos, mensagens, imagens, imaginários, modelos, ideias… Em síntese, “sistemas de mobilidade são organizados em torno de processos que colocam em circulação pessoas, objetos e informação em várias escalas espaciais e velocidades” (Elliot & Urry, 2010, p. 19). De um jeito ou de outro, tudo está se movendo, sendo movido ou imobilizado; em qualquer caso, a inércia ‒com recurso metafórico‒ nunca será uma opção analítica.
Por essa razão, afiliando-se a este dito “paradigma” ou “virada” das mobilidades que se processa nas ciências sociais ‒muito bem contextualizados em sua Introdução‒, este livro joga luz sobre distintas agendas das trajetórias juvenis contemporâneas, em que pese suas mediações institucionais ‒ou seja, a escola‒ e outros contextos cotidianos. O livro, então, repercute a noção de “vidas móveis” ‒que, como é preciso recordar, implica também muitas imobilidades e fricções‒ como condição contemporânea em torno da qual as trajetórias pessoais e coletivas se produzem e reproduzem. Em uma frase, “o paradigma das mobilidades […] está se convertendo em algo cada vez mais central para a formação e re-formação da identidade contemporânea” (Elliot & Urry, 2010, p. 7).
A experiência escolar, numa perspectiva da juventude, por si só nos faz refletir sobre trânsito geracional, considerando que jovens estão em franco processo de produção de autonomias e subjetividades, em direção à vida adulta. E sua posição no mundo bem como as formas como a sociedade os trata realmente merece uma análise particular. Não sendo uma criança, um ou uma jovem pode explorar circuitos urbanos em seus momentos de lazer ou nas rotinas obrigatórias, aspectos tratados neste livro (Capítulos 1 e 5). Mas também esses indivíduos estão condicionados a uma visão normativa, que a sociedade lhes atribui ‒neste caso, particularmente em Buenos, Córdoba e São Paulo‒. Assim, as políticas públicas que produzem experiências escolares estarão eivadas de princípios que aquele contexto é capaz de produzir, estimulando jovens para trajetórias de desenvolvimento pessoal autônomo ‒com atenção às performatividades como destacado pelo Capítulo 3‒ ou, em outra direção, tratando as subjetividades como elemento a ser domesticado ‒ou “prescrito”‒ pela institucionalidade do sistema escolar.
Isso deixa claro que as mobilidades ‒como operador analítico-metodológico (Freire-Medeiros & Lages, 2020, p. 123), e não como simples objeto de análise‒ são um arcabouço mais do que pertinente para as discussões que o livro proporciona. Afinal, se a dimensão espacial ‒que se refere a movimento de corpos‒ é apenas uma, haverá um sem-número de outros abordagens para decodificar e escrutinar o universo das juventudes na contemporaneidade, ainda mais quando se reconhece as iniquidades presentes da vida cotidiana em função de classe, raça, gênero, religião e outros marcadores sociais.
Por exemplo, a interface da vida material com as redes e o universo digital (outro aspecto que o livro aborda, no Capítulo 2): como os padrões, desejos, modelos bombardeados incessantemente nos ambientes digitais ‒e hoje disponíveis para farto e afobado consumo‒ modulam os percursos formativos de jovens, seja em práticas escolares institucionalizadas, seja nas mediações que eles e elas performam em suas sociabilidades cotidianas? Recentes medidas de proibição de acesso a celulares durante o período escolar, de países que vão da Finlândia ao Brasil, parece ser uma medida drástica que só reforça o desespero das instituições para lidar com a sobreposição das dimensões da vida: a presencial e a digital. Sua separação, por força da regra, é a melhor resposta? O que se ganha, do que se protege e o que se perde quando a profusão dos fluxos digitais é momentaneamente apartada das rotinas escolares? Essas são perguntas em aberto, mas para que ‒tal e qual faz o livro‒ o amplo arcabouço das mobilidades, com suas metodologias em constante aperfeiçoamento, pode ser muito oportuno.
Já é suficientemente consolidada a ideia de que as mobilidades, como enfoque de análise, não encerram, em si mesmas, um campo teórico. Não parece ‒pelo menos pela escuta às principais vozes que advogam por esta “escola de pensamento”‒ que esta sequer seja uma pretensão. Mas, ao mesmo tempo, por se estruturar em um caleidoscópio disciplinar, parece que as mobilidades vão pavimentando o solo para agregação de conhecimentos, metodologias, conceitos e, mais importante, disposição de acadêmicos a olhar com atenção e profundidade as dimensões móveis e imóveis do mundo contemporâneo.
Ou seja, estudar qualquer assunto ou objeto pela perspectiva das mobilidades é uma confirmação de que o mergulho nos contextos e a análise ampla e desapegada de certos pedantismos disciplinares é um caminho auspicioso para os estudos que se assentam no grande campo das humanidades. Tomemos o turismo como referência: interdisciplinar por si, a maior parte de gerações de estudiosos deste fenômeno não têm uma origem disciplinar tradicional ou pura (sociologia, economia ou geografia, ainda que dialoguem amplamente com essas e outras áreas do conhecimento); por isso, empregar as lentes das mobilidades serve de convite franco e acolhedor para que cada pesquisador e pesquisadora componha seu enquadramento, sem a apreensão de se sentir eternamente um “outsider” ao adentrar terrenos que não conhecem de suas formações de base. Por suposto, há de haver rigor e concentração ‒talvez até maiores‒ quando se constrói um estudo de recorte transdisciplinar, sob risco de escapar ao formalismo e o rigor necessários de qualquer estudo que se pretende científico.
Por fim, é pertinente registrar a importância de uma obra produzida na América do Sul, que acrescenta camadas espessas a debates contemporâneos pela perspectiva das mobilidades. Por certo, pautar este debate a partir das inescapáveis (in)justiças que permeiam as mobilidades ‒que o Capítulo 4 põe em destaque‒ é algo especialmente pertinente em contextos onde são evidentes e persistentes fragmentação socioespacial e processos históricos repletos de exclusão e violência. Isso, por outro lado, não deveria ser entendido apenas como tragédia, senão como potência de produção de novos futuros. Com efeito, a “mobilidades alternativas” é uma ideia que casa muito bem como a diversidade de caminhos ensejados pelo mundo latino-americano: “por um lado, desenvolve-se uma nova lógica organizacional da vida cotidiana nas comunidades e, de outro, permite que as comunidades reforcem suas identidades culturais/sociais ao fazerem suas próprias histórias” (Nogueira, 2023).
Sem dúvida, um caminho muito auspicioso foi inaugurado pelo “Términos Clave para los estudios de movilidad en América Latina”, organizado por acadêmicos baseados em três países da região: Dhan Zunino Singh (Argentina), Paola Jirón (Chile) e Guillermo Giucci (Brasil e Uruguai). Esta e outras obras ‒inclusive o livro que agora vem a público‒ são aportes relevantes para se problematizar o mundo contemporâneo com um olhar do chamado Sul Global, o que, para além de apenas particularizar abordagens empíricas, certamente vai acrescentando novas interpretações e avanços epistemológicos a este vasto e promissor campo em desenvolvimento.
Referências
Elliot, A. & Urry, J. (2010). Mobile Lives. Routledge.
Freire-Medeiros, B. & Lages, M. P. (2020). “A virada das mobilidades: fluxos, fixos e fricções”. Revista Crítica de Ciências Sociais, 123, 121-142. https://doi.org/10.4000/rccs.11193
Nogueira, M. A. F. (2023). “Introduction”. En: Maria Alice de F. Nogueira. Alternative (im)mobilities (pp. 1-6). Routledge.
Singh, D. Z.; Giucci, G. & Jirón, P. (Orgs.) (2017). Términos clave para los estudios de mobilidad en América Latina. Biblos.
- Professor Associado da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo.↵







