Inhô mebêngôkre kute ngô bê bytire kam amī it rã ã ne, mē ibê ngôkre kumrej
Akiaboro Kayapó
Boa noite! Meu nome é Akiaboro Kayapó. Eu vou falar primeiro em minha língua. Depois, eu traduzo para o português, e o Joachim traduz para o espanhol para vocês.
Jãkam aryỳm ne ba bôx.
Jãkam ne ba México kam bôx.
Ga me ijuwa ba bôx.
Myỳkam ne ba bôx?
Inhõ pyka kam myỳj já mex kêt.
Brasil kam me ijã pijà’à kêt.
Nã aryỳm me ibê me kane djà obikeỳn o mõ.
Nã me ibê bà obikeỳn o mõ.
Nã me ibê FUNAI obikeỳn o mõ.
Nã me ibê ngô obikeỳn o mõ.
Ba kam ga me ijuwa ba bôx ne kam ikabeỳn kadjy.
Itàndjwyỳ ikra kam amuỳ itàndjwyỳ umar mex kadjy. Kiỳnh kadjy. Ã’ã kadjy ajte.
Anhyỳrỳ bê. Jãkam México kam bôx. Kriỳ rax bê.
Jãkam ije me amã ikabeỳn ga me aje ikabeỳn mar ikôt kangônh jabej.
Gêt brasileiro me jã pijà’à.
Me inhõ pyka pijà’à.
Gêt me inhõ bà pijà’à.
Jã ne ba jareỳnh mã bôx.
Nã benjadjwyỳr me inhõ presidente kabeỳn punu bit jareỳnh o mõ. Me ikam kukràdjà punu bit jareỳnh o mõ.
Iniỳngêt Ropni ã kabeỳn mõ kubê. Myỳj õ kôt?
Kati! Tãm ne õ mytyrwyỳ amajkryt amej amajkryt ne amajkryt mã teỳ. Nhym bej iniỳngêt bê Ropni dja benjadjwyỳr ã ty. Ba dja ba ibenjadjwyỳr ã ty.
Tãm ne kubê política kam ne bôx kam kabeỳn jareỳnh o nhym.
Aryỳm me ibê myỳj jã kuniỳ o bit keỳn o teỳ.
Jã ibôx ikabeỳn.
Acabei de chegar hoje.
Cheguei hoje ao México.
Vocês pediram para eu vir.
Por que vim?
Na minha terra a coisa não está boa.
No Brasil não nos respeitam.
Nesse momento, nossa saúde indígena está acabando.
Nesse momento, nossa floresta está acabando.
Nesse momento, nossa FUNAI está acabando.
Nesse momento, nossos rios estão acabando.
Estou aqui, vocês pediram para eu vir, para eu falar.
Para meus netos, meus filhos sobreviverem, para ficarem felizes. Por isso eu ainda continuo. Hoje eu cheguei ao México. Nesta cidade.
Eu, aqui, digo para vocês sobre a causa indígena. Quero que saibam e me ajudem a lutar pela causa indígena.
Que o brasileiro respeite o povo indígena!
Respeite nossa terra!
Respeite nossa floresta!
Eu cheguei para explicar isso.
Nosso presidente Jair Bolsonaro só fica falando mal de nós.
Dizendo mal da nossa cultura e de quem é o meu parente Raoni. Vai continuar?
Não! Ele vai durar dois, quatro anos. Mesmo se meu parente Raoni morrer, eu vou continuar a sua luta até morrer.
Chegar aqui, falar dessa política, explicar.
Já estou aqui falando dessas coisas todas, da luta que carrego.
Eu cheguei aqui, é a minha fala.[2]
É por isso mesmo que eu vim aqui. Joachim, muito obrigado pelo convite para vir até aqui, juntamente com o professor Carlos, para falar que nós temos um problema lá no Brasil. Todo país tem um problema. É por isso que eu venho aqui, a Guadalajara, para falar dos problemas que estão acontecendo no Brasil.[3]
A dança e o canto que apresentei significam a paz e a guerra.[4] Primeiramente, ao levantar, eu cantei a paz, e, ao chegar aqui, na mesa, eu cantei a guerra. Cantei os dois lados. Por quê? Porque nós temos um problema sério lá no Brasil. Os ruralistas querem acabar com a Amazônia. É por isso que, hoje, deputados federais, deputados estaduais, senadores, o governo, governadores, todos os que estão no poder são ruralistas e não nos respeitam.
Dentro da Constituição Federal, tem a lei dos povos indígenas. Nós temos a Constituição Federal, o Artigo nº 231, Parágrafo 2º, que autoriza para o índio a posse da terra. Mas, mesmo assim, eles querem fazer uma emenda à Constituição Federal para diminuir a terra dos índios. Querem explorar madeira, querem explorar ouro, querem legalizar tudo. A terra nos pertence, mas eles querem legalizar as coisas, os recursos naturais, dentro da nossa Amazônia. Nós não queremos acabar com a Amazônia. Lá tem fruta, lá tem animal, lá tem remédio, lá tem todas as coisas, água, peixes. Nós queremos viver com tudo isso aí.
Nós criamos, no governo passado (nós, eu, Akiaboro, junto com meu povo), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), para tratar dos indígenas do Brasil. E, hoje, esse presidente atual está acabando com nossa saúde. Eles querem municipalizar a saúde e nós não queremos. O município não dá conta de assumir, por isso vai ficar pior pra gente. É isso que nós queremos defender. Nós não queremos municipalizar. Nós queremos tratamento diferenciado.
A respeito da mineração, tem vários parentes, outras lideranças lá do Pará, que mexem com garimpo. Por que os parentes estão mexendo com garimpo? Porque o governo federal pediu recurso de fora do país para preservar o meio ambiente e esse recurso não chega lá na ponta. Como é que os parentes vão viver? Como é que outras pessoas vão viver? Aquele recurso que foi pedido para outros países, para preservar, para segurar o “pulmão do mundo”, aquele recurso não chega lá. Não chega lá na ponta, onde nós estamos.
Eu estou lá, dentro do limite, dentro da demarcação, onde tem a minha aldeia. Eu estou lá e não tem estradas. Eu estou carregando as coisas nas costas até a minha aldeia, no mato, e preservando, brigando para não acabarem com o meio ambiente. Enquanto isso, outros estão recebendo muito bem, estão comendo bem, e nós estamos preservando para eles. Por isso que eles pedem recursos de fora do Brasil para preservar, mas nós não recebemos.
Já mataram parentes lá. Ano passado, nós, kayapós, enquanto levávamos castanhas para vender, para sobreviver, fomos atacados por assaltantes, que mataram um parente. Chegaram tomando nosso dinheiro e mataram um parente. Os outros parentes, revoltados, mataram todos os assaltantes. É isso que está acontecendo com a gente. Por isso, afinal, o que significa paz? Eu vou falar: governo, pare com isso! Governo, pare com isso! Nós queremos paz. Nós queremos sobreviver. Nós somos seres humanos, nós somos iguais a vocês. As nossas dores são as mesmas. Nós dormimos da mesma forma. Nós comemos as mesmas coisas. Nosso sangue é a mesma coisa. Pare com isso! Nós queremos paz!
Tem mais duas coisas que eu quero falar. Foi criada a FUNAI.[5] A FUNAI está acabando porque ela está ajudando na nossa proteção. Mas, mesmo assim, o governo de Bolsonaro e os parlamentares estão acabando com a FUNAI. Eles querem acabar com a FUNAI para fazer o que querem. Eles querem entregar o título das terras indígenas, o que significa que nós já temos outro governo. Não é mais o governo brasileiro. É outro governo. No tempo de Collor de Mello, isso começou, quase entregaram, só que uma mulher agarrou sua gravata e lhe disse: “Não pode entregar”. Se nós sairmos do governo federal, entra todo mundo, vão acabar com a floresta. Então, a melhor proteção é a permanência desses títulos com o governo, para a proteção da gente. Por quê? Porque os parentes não têm nenhum parente que seja deputado federal, os parentes não têm nenhum senador, os parentes não têm nenhum representante político, apenas advogados.
Outra coisa. Meu tio, Raoni, viajou para a ONU. Eu ia também, só que eu perdi a viagem, porque tive que ir a pé até a fazenda para pegar o carro e chegar à cidade. Só ele que foi. Ele se sentiu desmoralizado. Esse presidente levou uma mulher que se diz representante dos indígenas do Brasil.[6] Mas ninguém a conhece, ninguém sabe o nome dela. Então, o Cacique Raoni foi desrespeitado. O presidente disse que ele não é nada. Cacique Raoni e eu, Akiaboro, nós vamos morrer como lideranças. Agora, ele vai ficar quatro anos e já vai embora do governo. Nós não sairemos, porque não somos políticos. Ele poderia respeitar a gente, mas ele está ameaçando a gente, ele está desrespeitando a gente. É por isso que queremos paz.
Nós não vamos ficar calados, não. Nós vamos morrer, nós vamos brigar pelos nossos direitos, juntos. Nosso sangue vai correr, nós vamos morrer juntos. Nós somos lideranças. Sempre brigamos pelo nosso povo. Nós temos duas lideranças. Aliás, três lideranças Kayapó. Uma é o Cacique Raoni, meu tio Cacique Raoni, que é uma grande liderança, conhecido. Eu sou Cacique geral da Nação Kayapó. E tem os kayapós Xikrin, que estão do nosso lado. Então, temos três tipos de kayapós. Nós dois, que mandamos nos kayapós, eu e o Cacique Raoni. Eu e ele vamos brigar. Nós vamos defender a nossa floresta. Nós vamos brigar pelo nosso povo. Por isso, nós pedimos que respeitem nossa língua, nosso canto, nossa tradição. Tem que ter respeito pela gente, nós somos iguais.
O governo comprou os parentes de Altamira, mas nós respeitamos os parentes de lá. Por isso que o governo construiu Belo Monte. Agora, eles querem fazer outro projeto na área dos kayapós, um reservatório. Eles querem fazer outra barragem, perto das terras dos kayapós. Vai ser uma briga grande. Esse projeto vai começar em 2020. Nós estamos preparados para não deixar isso acontecer. Ali, mesmo, é que vai correr sangue.
Eu recebi um convite para estar em Paris, mas o convite daqui chegou primeiro. Sempre que eu viajo, eu não fico calado, eu fico junto com o meu povo. Todo o meu povo ficou preocupado, mas feliz, quando eu disse que vinha pra cá. Por isso, eu agradeço muito por estar aqui. Eu vou embora muito alegre de levar essas conversas e discussões sobre os problemas de vários países para o meu povo Kayapó. Era isso o que eu queria dizer.
Muito obrigado
- Nossa paz é nossa luta: A resistência do meu povo Kayapó na região do Xingu da Amazônia brasileira. Nuestra paz es nuestra lucha: La resistencia de mi pueblo Kayapó en la región del Xingu en la Amazonia brasileña.↵
- A tradução do trecho em Kayapó para o português é de autoria de Cledson Mendonça Júnior, formado em Letras pelo Instituto de Estudos do Xingu, com Mestrado, e agora cursando Doutorado em Linguística e Línguas Indígenas junto ao Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. ↵
- Com exceção do trecho referido acima, a palestra na Universidade de Guadalajara, 06 dezembro de 2019, foi transcrita por Carlos Augusto Costa, a partir da gravação de áudio e vídeo feita por ele mesmo. ↵
- Ao ser chamado para a palestra, Akiaboro iniciou uma dança e um canto, o canto do guerreiro, utilizado como abertura de um debate sempre que um guerreiro fala sobre política e sobre a causa indígena. O canto ajuda a enfrentar um desafio. É um rito realizado antes do discurso ao outro (nota do tradutor do trecho em Kayapó).↵
- Fundação Nacional dos Povos Indígenas, criada em 1967 como órgão oficial do Estado do Brasil, com sede em Brasília [nota dos editores].↵
- Ysani Kalapalo nasceu no Alto Xingu e integrou a comitiva do presidente Jair Bolsonaro à 74ª Assembleia Geral da ONU em setembro de 2019 (Istoé, 26.09.2019, https://istoe.com.br/uma-indigena-youtuber-do-xingu-na-comitiva-brasileira/) [nota dos editores].↵









