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Entrevista com o Cacique Akiaboro Kayapó, líder geral da Nação Kayapó
da região do Xingu, no Norte do Brasil

Carlos Augusto Carneiro Costa

No dia 20 de julho de 2021, em sua casa, na zona urbana do município de São Félix do Xingu, Estado do Pará, o Cacique Akiaboro Kayapó me recebeu para uma entrevista. Junto de vários membros de sua família, o líder da Nação Kayapó estava na cidade por conta do tratamento de saúde de sua esposa, que não aparece na fotografia porque preferiu ficar deitada na rede logo atrás de nós. Mas seus filhos, netos e noras, os que estavam lá no momento, foram convidados e aceitaram fazer parte desse belo registro:

Fonte: Carlos Augusto Carneiro Costa.

A entrevista ocorreu aproximadamente um ano e meio após minha participação, junto com Akiaboro, do “Seminario Internacional PAZ: VISIONES, ESTRATEGIAS, LUCHAS”, organizado pelo Centro Maria Sibylla Merian de Estudios Latinoamericanos Avanzados – CALAS, sediado na Universidade de Guadalajara, ocorrido no período de 04 a 06 de dezembro de 2019, em Guadalajara, México, ocasião em que o Cacique apresentou a palestra Nhy be mē umari mej kam ne mē amī pytã: Inhô mebêngôkre kute ngô bê bytire kam amī it rã ã ne, mē ibê ngôkre kumrej (Nossa paz é nossa luta: A resistência do meu povo Kayapó na região do Xingu da Amazônia brasileira / Nuestra paz es nuestra lucha: la resistencia de mi pueblo Kayapó en la región del Xingu en la Amazonia brasileña), e eu apresentei a palestra Luta indígena na Amazônia brasileira na narrativa A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (“La lucha indigena en la Amazonia brasileña en la narrativa La caida del cielo: palabras de un chaman yanomami”).

Nossa ida a Guadalajara foi condicionada por um conjunto de atividades de pesquisa e extensão desenvolvidas no Instituto de Estudos do Xingu desde 2014, sobretudo no contexto das atividades do hoje extinto Grupo de Pesquisa Representações da Violência na Narrativa Brasileira Contemporânea. Além disso, tem ligações com o período em que me afastei da instituição, a fim de concluir o curso de Doutorado em Letras: Estudos Literários, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), de setembro de 2017 a novembro de 2019.

Assim, em 2016, por meio do “Programa de Fortalecimento de Grupos de Pesquisa da UNIFESSPA”, gerido pela PROPIT – Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação Tecnológica, consegui recursos para levar ao Instituto de Estudos do Xingu o Prof. Dr. Elcio Loureiro Cornelsen, meu orientador de doutorado na UFMG e bolsista de produtividade do CNPq. Na ocasião, o professor desenvolveu atividades junto aos nossos alunos (minicursos e palestras), ao longo de uma semana, a respeito das relações entre “Literatura, Memória e Testemunho”. No primeiro semestre de 2017, organizei o “I Colóquio Arte e Estado de Exceção no Brasil: veredas da resistência”, que contou com a participação de docentes do próprio Instituto e de dois professores convidados da Universidade Federal do Pará: Prof. Dra. Tânia Sarmento-Pantoja e Prof. Dr. Augusto Sarmento-Pantoja. A primeira docente é bolsista de produtividade do CNPq e sua participação também foi custeada com recursos do “Programa de Fortalecimento de Grupos de Pesquisa da UNIFESSPA”. Já a participação do segundo docente foi custeada com recursos do próprio instituto. O evento ainda contou com a participação de discentes da UNIFESSPA e de outras instituições da região. Entre os convidados locais, representantes da sociedade civil, o evento teve a honra de contar com a participação e palestra do Cacique Akiaboro Kayapó, que falou sobre a luta de seu povo na região do Xingu.

No ano seguinte, em 2018, tive a oportunidade de realizar Estágio de Doutorado Sanduíche na Alemanha, junto à Universidade de Bielefeld, com supervisão do Prof. PhD Joachim Michael, a quem relatei a experiência das atividades de pesquisa e extensão realizadas na UNIFESSPA de São Félix do Xingu, e a quem também falei da importante atuação do Cacique na região, sobretudo no que diz respeito à defesa dos interesses dos povos indígenas do Xingu. Aproximadamente um ano após o estágio, Akiaboro e eu, a convite do Prof. Joachim, seguimos para o México.

A entrevista recupera, portanto, por um lado, algumas questões apontadas pelo Cacique em sua palestra na Universidade de Guadalajara, principalmente as relacionadas à degradação do meio ambiente e aos debates sobre a tese do chamado “marco temporal”, que restringe direitos indígenas sobre suas terras. Por outro lado, situa o leitor no contexto das dificuldades enfrentadas pelos Kayapós desde o começo da pandemia da Covid-19, a relação conflituosa com o governo brasileiro atual e os impactos sobre suas vidas. A entrevista ainda aborda algumas histórias contadas por Akiaboro que deram origem à sua luta em defesa do povo Kayapó.

Carlos Augusto Costa: Boa tarde! Você poderia se apresentar?

Akiaboro Kayapó: Boa tarde! Meu nome é Ak’jabôr [Akiaboro], um líder na nação Kayapó. Eu sempre defendo a Amazônia, a população de índios do Brasil, sempre brigo pelo direito de todos. E hoje, a questão da Covid-19 tá prendendo a gente, impedindo de viajar pra Brasília. As lideranças que vão [doentes] pra cidade morrem no hospital. Nós, que estamos dentro da aldeia, não morremos. Nós estamos tomando remédio caseiro. Nós temos remédio contra Covid-19 e até hoje eu ainda tomo esse remédio da natureza. Covid-19 já me pegou, mas eu, minha esposa, minha família toda, nós tomamos remédio da natureza. Hoje eu estou aqui, ainda. Aqui no Brasil, deputado federal, deputado estadual, governo federal, essas pessoas estão aproveitando a Covid-19 pra que a gente fique preso nas aldeias, não ir pra cidade, não ir pra Brasília. Essas pessoas estão aproveitando pra criar essa lei 490 pra não demarcar as terras indígenas. É por isso que hoje eu estou aqui calado, quieto. Eu ia viajar pra Brasília. Os brancos estão dizendo que não podemos viajar porque a Covid está aí, não podemos viajar com Covid-19. Então, eu fiquei quieto aqui no meu canto. É por isso que os deputados, se aproveitando dessa Covid, estão fazendo esse projeto que se chama 490 pra não demarcar as terras indígenas, pra fazer rodovias, pra legalizar rodovias no meio das terras, pra legalizar terras indígenas pra garimpeiros, pra legalizar a plantação de soja, também, dentro da área, pra legalizar tudo. Essa lei significa a diminuição das terras indígenas. Então, é esse projeto que estão votando no Congresso. Semana passada que eu fiquei sabendo e fiquei muito triste. Ninguém está apoiando nada. Tem um pouco de deputados que estão apoiando a gente. A maioria dos deputados federais está a favor desse projeto. Então, é o seguinte: hoje, nós, índios, estamos segurando a Amazônia. Se os índios não existissem dentro da Amazônia, o mundo não teria ar, não teria ar para respirar. Então, eu estou sofrendo porque estou preso aqui perto da minha aldeia, em São Félix do Xingu, onde estou. Esse governo federal não é bom pra nós. Esse projeto que estão implementando dentro do Congresso Nacional é do governo. É por isso que nós, índios, já sofremos e estamos sofrendo juntos com a Amazônia. Os índios sofrem, a Amazônia sofre, todos nós estamos sofrendo por causa desse presidente. É por isso que estou mandando essa mensagem, pra ver quem pode nos ajudar, pra não deixar aprovar esse projeto perigoso que deve acabar com a gente. E hoje estou preso aqui, ainda, por causa da Covid-19. Por isso estou mandando mensagem, pra ver se vocês de fora do Brasil, de dentro do Brasil, quem é a favor da Amazônia (claro, não é só o índio, mas é ele que tá dentro da Amazônia), não deixem destruírem a Amazônia. Nós não queremos a água poluída. Se esse projeto for aprovado, acabou, não tem mais rio, não tem mais Amazônia.

CAC: Há pouco você falava das queimadas na região que poluem o meio ambiente e você mencionou as fezes dos bois que caem no rio. De que maneira vocês percebem essa poluição?

AK: Tem muitas fazendas na beira do rio. As fezes do boi caem na água. Então, o peixe tá comendo e ele tá com problema. Então, é por isso que nós queremos pesquisadores porque nós comemos peixe e o peixe fica com o cheiro do gado. Então é isso que tá acontecendo dentro da nossa região, aqui no Pará.

CAC: Sobre os impactos da Covid-19 e as dificuldades que as comunidades indígenas têm com o deslocamento para hospitais e acabam se tratando dentro das próprias aldeias, você tem conhecimento de casos de mortes por Covid-19 aqui na região, entre membros das comunidades indígenas?

AK: Veio a vacina e disseram que tínhamos que tomar, senão, não iam liberar dinheiro pra nós. Eu penso nisso como discriminação, como uma provocação que estão fazendo, como se fôssemos crianças. Negativo! Quem não quer, não quer. Quem quer, quer. Tudo bem! Então, é o seguinte: nós temos remédio que nós descobrimos entre nós mesmos. É por isso que quando nossos índios começaram a morrer, nós conseguimos remédio e hoje todo mundo está bem. Quem foi pra cidade se tratar, foi por conta de outras doenças. Mas, pra tratar de Covid-19 não se vai pra cidade. Fica na aldeia e melhora mais rápido. Se levar o indígena pra hospital, ele morre lá. É o que está acontecendo aqui. Tem pelo menos quatro lideranças aqui do Pará que morreram por Covid-19. Por quê? Foram levados pra hospital. Nós tentamos tirar de lá pra tentar fazer tratamento com os pajés da aldeia, mas ficaram no hospital e morreram lá mesmo. Então, eles disseram que quem está com Covid-19 não deve sair. Nós não temos medo. Disseram que tínhamos que manter distância. Negativo! Nós abraçamos, nós pegamos e tomamos remédio e não pegamos doença, não. É por aí que acabamos com a Covid-19. É por causa disso aí que não estamos podendo ir pra cidade.

CAC: As lideranças não podem ir para Brasília lutar contra o PL490, por causa da Covid-19, e por essa razão você acredita que ele será aprovado?

AK: Tá passando, tá lá dentro do Congresso. Meu povo foi lá, meu pessoal foi no Congresso, pediu pra não aprovar, mas os deputados estão aproveitando pra aprovar. Quem já tomou vacina foi lá brigar. No mês de agosto vai ter briga grande lá. Vai ter outra votação do projeto 490. Vai ter briga grande. Lá, vai ter flecha, vai ter bomba. Isso aí vai acontecer. Esse é o trabalho do governo do Brasil que tá acontecendo com a gente hoje.

CAC: Por falar nisso, tenho lido sobre os conflitos no estado de Roraima, entre garimpeiros e indígenas Yanomami, e aqui no Pará, em Jacareacanga, também entre garimpeiros e indígenas Munduruku e Sai Cinza. Aqui na região de São Félix do Xingu tem havido algum conflito dessa natureza, atualmente?

AK: Não, aqui não. Na área Kayapó, mesmo, até agora, não tem. Não tem conflito, não. Os garimpeiros estão trabalhando nas terras de algumas pessoas, de alguns indígenas lá, de forma ilegal, mas aqui não tem nenhum conflito. Se tivesse conflito aqui, com a morte de um único indígena, aí teriam problemas sérios com os kayapós. Porque os kayapós brigam todos juntos e acabam com garimpeiros. Então, até agora não tá acontecendo. Mas se acontecer… Um dia, não sei se você se lembra de uns assaltantes que mataram uns parentes perto da aldeia, bem aqui no P9 [pequenas colônias de trabalhadores rurais], onde chamam P9, um pessoal que vende castanha. Assaltantes mataram os parentes e os guerreiros se juntaram aos parentes e mataram os assaltantes. Então, se acontecer isso com um Kayapó, todos se juntam. Até agora, graças a Deus, não tem nenhum conflito nessa área kayapó.

CAC: Sobre a “Semana dos Povos Indígenas”, realizada em São Félix do Xingu todos os anos, como você avalia seus impactos nas comunidades indígenas da reunião? Muda alguma coisa para vocês?

AK: Era justamente sobre isso que eu ia falar, também. Nós acabamos de falar desses projetos que estão tramitando. Os kubẽ (os brancos) não respeitam nossas tradições, não respeitam nossa língua, não respeitam a gente. Então, o que pensamos? “Quanto tempo faz que fomos pra Brasília, quanto tempo que estamos brigando pelos nossos direitos e os kubẽ não respeitam a gente?” Os deputados que apoiamos, em quem votamos, que colocamos nesse lugar onde estão, não lembram da gente, do nosso sofrimento. Portanto, vamos pensar: como é que vamos construir essa festa pra mostrar nossa cultura para os brancos verem no Youtube, na televisão, para as pessoas verem que realmente ainda existimos, ainda existe nossa língua, ainda existem nossos direitos, pra ver se respeitam a gente? É por isso que nós conversamos e decidimos fazer todos os anos essa festa grande, dentro da cidade, no dia 19 de abril, que chamamos de “Semana dos Povos Indígenas”. Muita gente vem de fora ver que nós, índios, existimos ainda. Nós não viramos brancos, não ficamos iguais aos brancos. Muitos kubẽ falaram que os índios já são iguais aos brancos, que não têm mais cultura, não têm mais língua. Nós vamos mostrar que nós realmente ainda temos dança, cultura, tradição. Todos os anos, em 19 de abril, nós vamos mostrar. Então, foi assim que nós construímos esse evento, a “Semana dos Povos Indígenas”. Então, nós nos sentamos com o prefeito, Antônio Levino, o que morreu, conversamos com ele sobre como fazer e fizemos a “Semana dos Povos Indígenas” para as pessoas verem que, realmente, nós ainda temos tradição, cultura e língua, que nós estamos preservando nossos costumes, tradições e a língua de todos. Então, foi isso que nós construímos. Foi por causa disso que construímos a “Semana dos Povos Indígenas”. E, até agora, não estão nos respeitando. Mesmo quando mostramos e dizem: “ah, é índio ainda”, não estão nos respeitando. Até agora não tem resultado isso aí, ainda.

CAC: O fato de vocês usarem celular, Internet, assistirem a filmes, andarem de carro, usarem roupas, modifica a sua essência como indígena, interfere na sua vida cultural?

AK: Olha, Carlos, é o seguinte: naquele tempo, nós éramos isolados, sem contato com nada, nem com o branco. Hoje em dia, o governo federal gastou dinheiro pra emancipar a gente. Depois disso, a Igreja veio pra acabar com a nossa língua. Mas nós, kayapós, nos juntamos pra não perder nossas tradições. Porque Deus mandou pra nós cada tradição. Se Deus disser: “Eu vou tirar esses cabelos do branco e colocar na sua cabeça e você se tornará branco”, tudo bem. Agora, eles falam que vão fazer documentos para os índios ficarem parecidos com os brancos. Não, tá errado! Pra mim, eu já pesquisei demais, eu estudo um pouquinho, mas eu sei mais ou menos sobre essas coisas aí, também. Eles falam que nós vamos ser iguais aos brancos. Bom, nós vamos andar, nós vamos andar. A FUNAI, o governo, a primeira coisa que eles fizeram com a gente foi dizer pra tirarmos identidade, CPF, essas coisas aí. Pronto! Aí, depois, eles trouxeram roupas dos brancos pra nós. Vieram construindo. Bom, nós podemos vestir, porque nós somos seres humanos, seres humanos como qualquer outro. Então, é o seguinte: eu posso usar a Internet, posso andar de avião, eu posso usar roupa aqui na cidade. Quando eu chegar na minha aldeia, eu estou na minha cultura. Mesmo que eu me vista, ande de carro, assista a televisão, viaje, essas coisas todas… mesmo assim, a minha língua, a minha tradição, os meus costumes, eu não vou abandonar, eu vou deixar que fiquem sempre preservados pra nós. É por isso que nós queremos mostrar para o mundo, pra que as pessoas vejam que nós ainda temos tradição. Hoje nós estamos aqui. Amanhã eu tenho uma festa, aí eu tenho outra tradição, minha tradição. É isso que estou colocando.

CAC: Quando você falou das quatro lideranças indígenas mortas em decorrência da contaminação pela Covid-19, afirmou que se tivessem ficado nas suas respectivas aldeias, provavelmente teriam sobrevivido, pois teriam feito tratamento com remédio caseiro e com os pajés. Quer dizer, apesar do desenvolvimento das vacinas, vocês preferem fazer o tratamento com medicamento caseiro, é isso?

AK: É, depois que começou a Covid-19, todos os indígenas saíram da cidade e foram para as aldeias, que foram fechadas e isoladas. Mas não tem jeito. Não tem jeito! Porque o ar tá correndo, tá levando pra lá. Então meu genro e meu irmão já pegaram, mas ninguém soube. Daí, minha filha veio buscar a gente, da outra aldeia, e, ao chegar lá, meu genro quase morre. Quase nos mandaram pra cidade. Ainda bem que meu genro disse: “Não, se eu for pra cidade, eu vou morrer. Estou pra morrer, mas seu pai tá me tratando com remédio aqui, estou começando a melhorar, e eu não vou, não”. E ele não foi, não morreu. Aí, ele fez todo o tratamento, terminou, e logo depois Covid me pegou. À noite, conversando com as pessoas, eu já me sentia ruim. E eu dizia: “Agora me pegou!” Por volta de meia noite, eu já estava quente, já começou a fechar meu coração, a minha língua já estava amarga e eu disse: “É Covid, mesmo!” Aí, pronto! De manhã cedo, eu me levantei. Mas, antes, eu já tinha visto no sonho. Ele chegou igual a uma luz, me viu. Ele me viu, queria me acertar, então eu caí e me escondi. Eu levantei e falei: “Não, você não vai me matar, não!” Aí, eu corri. É Covid! Veio me procurar e me achou. É igual àquela luz da noite, que tem duas que me viram. Eu sonhava que eu caía e me escondia dele. Quando eu levantei, eu disse: “Não, você não vai me matar, não!” De manhã cedo, eu fui lá no mato, peguei o remédio, tomei banho. Em mais ou menos dois dias, acabou, foi embora. Aí, outro dia, chegaram uns pesquisadores, um pessoal chegou de helicóptero, fez teste, e não tinha nada. Outro dia, outro pessoal veio fazer de novo e nada. Então, eu tomei remédio pra não ir pra cidade, porque se eu fosse, eu morreria lá mesmo.

CAC: E você já tomou a vacina?

AK: Não, eu não tomei a vacina, até agora. Não, ninguém tomou a vacina. Ah, sim, alguns tomaram. Tem muita gente que já tomou. Agora, eu, minha esposa, minha família, não. Até agora ninguém tomou, ainda. Ainda bem que eu aprendi um pouco a fazer o remédio.

CAC: Você falou que quando os indígenas eram isolados, a sua cultura era mais bem preservada. Depois, veio a Igreja. Hoje, você costuma mencionar Deus em seus agradecimentos. Que Deus é esse?

AK: É como eu já expliquei. Deus é comum. Nós temos um Deus que chamamos dois, né? O Deus que nós temos é Jesus, é só um. Então, é o seguinte: a história que vem de longe diz que o nosso Deus é Ôjro. Nosso Deus é Ôjro e Tàkàkkudjô, os dois. Eles que nós chamamos de Deus. Eles que fazem as coisas. Quando alguém morre, se se pede pra ele levantar, ele levanta. Essa história é uma história antiga. São Ôjro e Tàkàkkudjô que fizeram os peixes, as frutas, tudo. Então, é o seguinte: acho que tem só um Deus. Na nossa língua, Deus é Tàkàkkudjô e Ôjro, que é Jesus. Eu penso assim. Porque a história é a mesma, tem o pai e tem o filho. Então, é a isso que nós chamamos Deus. Porque pode se chamar Deus o Ôjro, Deus o Tàkàkkudjô, mas tem só um Deus. Agora, aquelas pessoas que mexem com espírito ruim, mal, essas pessoas nós chamamos de Mekarõ, em nossa língua. Os kubẽ falam que é satanás. Então, a história é a mesma. Vem do Kayapó que eu aprendi. E aprendi com as igrejas, várias igrejas, não só dos católicos, mas dos evangélicos, que existe só um Deus.

CAC: Então você faz reverência ao Deus das igrejas católica e protestante?

AK: Carlos, eu estudava e pensava, pedia pra Deus: “Deus (Tàkàkkudjô), me salva, me dá ideia boa, inteligência, pra eu saber como você caminhou aqui na nossa terra. Se você nos deu a terra, você veio nos acompanhar”. Aí, eu pensava: “Tem doze companheiros dele, doze, de Jesus. Então, quando ele voltou, depois da sua morte, pra sua terra, onde ele tem um pai, ele distribuiu a Igreja a esses doze companheiros. Igreja Batista etc… Eu acho que a Igreja Católica é a mãe de Jesus, Maria foi quem fez essa Igreja”. Daí eu pedi pra Deus me dar ideia pra pesquisar isso. Eu estava pensando nisso. Eu sempre falo que Deus é Deus, que nós temos Tàkàkkudjô e Ôjro, que se alguém morre, dois ou três dias depois, se se pede para ele [Tàkàkkudjô e Ôjro] levantar, ele levanta. Ele faz muita coisa aqui na terra. Até o fogo já está dentro da Bíblia. O fogo veio acabar com as pessoas. A água veio acabar com todo mundo. Até na Bíblia tem, também, como Noé nos salvou e, por isso, estamos aqui, nesse momento. Então, na história da Bíblia, o rio [a água, o dilúvio] acaba com tudo. A terra já pegou fogo, faz tempo. Então, eu acho que são os dois, Tàkàkkudjô e Ôjro, Jesus e o pai. Carlos, eu já me afastei um pouco da liderança da Nação Kayapó. A nova liderança é uma mulher, filha do Pajakã [Pajakan], a Cacica. Então, as únicas pessoas que o pessoal tem somos o Cacique Raoni e eu, ainda. Estamos esperando ele se levantar, ficar bom. Cacique Raoni também está de resguardo, no Mato Grosso, porque a mulher dele morreu. Porque, quando a minha mulher morrer, eu não poderei falar nada, nem sair, nem gritar, nada. Tenho que ficar bem isolado, de resguardo, durante um ou dois anos. Não se pode falar nada, nem brigar, nem gritar, nada, não se sai na rua, nada. Então, é o seguinte: está acontecendo isso, como aconteceu agora, com o Cacique Raoni, meu tio, e vou esperar ele melhorar pra encontrar com ele, juntar o povo pra levantar mais.

CAC: Você conheceu Dom Eurico Kräutler, que dá nome à escola municipal Dom Eurico? Ele é tio do Dom Erwin Kräutler, bispo da Diocese do Xingu.

AK: Eu não conheci o Dom Eurico, mas o Dom Erwin eu conheço. Tem uns padres de lá que sempre conversam comigo, eles acompanham a gente, brigam com a gente contra esses projetos. Tem um de Belém e outro de Redenção. Vou conversar com eles pra ver o que podem falar pra mim, saber onde está Dom Erwin. Na última vez que ele esteve aqui, muita gente veio ver. Lotou a Igreja. Daí eu conversei com ele, viajamos juntos de Belém pra Brasília. Ele é muito meu amigo. Ele me disse pra eu continuar a luta. Me disse: “Deus está acompanhando você, Deus está junto com você”.

CAC: Como as comunidades indígenas lidam com a atuação dos missionários aqui na região do Xingu?

AK: Olha, é o seguinte: eu vou contar de novo a minha história, que eu já te contei, né? Eu sou índio isolado. Meu pai, minha mãe foram isolados dentro da selva. Eu tinha mais ou menos nove anos, dez anos, por aí. Depois disso, o missionário, o Padre Antônio, pela Igreja Católica, mas também teve missionário da Igreja Evangélica, eles foram lá, amansaram, junto com o pessoal do SPI, o pessoal do Kubēkrãkê. Então levaram pra lá uma turma grande, começaram a dar remédios. O padre mesmo que tratava, ele mesmo que dava remédio, ele mesmo que estava vacinando, ele mesmo que estava resolvendo os problemas porque nós não tínhamos nada. Aí, pronto! Depois disso, depois que eles já tinham construído igrejas católicas e igrejas evangélicas lá na aldeia Kubēkrãkê… então eu estou lá estudando, né? nas duas igrejas. As lideranças fizeram uma reunião e disseram: “Vão buscar os parentes isolados pra virem aqui estudar, os jovens”. Então, nós, jovens, que estávamos dentro do mato, nós não sabíamos de nada, do quê que era. Aí nós viemos embora de lá. Dois guerreiros foram lá, quase matamos eles, mas eles conseguiram com a turma da gente. O papai é brabo e guerreiro. Aí, depois, eles conversaram e amansaram a gente durante dois dias. Aí, o guerreiro disse: “É bom levar logo esses jovens porque muita gente já tem contato com os brancos e o missionário já tá dando aula pra todo mundo. É bom levar esses jovens pra estudar. Mais tarde eles podem se defender sozinhos, mais tarde eles podem defender o povo deles. É bom levar”. Aí, meu pai, minha mãe, meu tio… uma turma, lá, resolveu. Nós fomos lá na aldeia Kubēkrãkê. Quando eu cheguei lá na aldeia Kubēkrãkê, eu fiquei meio estranho. Eu não tinha visão do branco. Quando eu cheguei lá, eu disse: “Papai, eu quero ir pro mato, eu quero viver na selva, não quero viver aqui, não”. Aí, foi, foi, foi… até eu conseguir me acostumar. Pronto! Aí, depois disso, duas pessoas foram lá na minha casa, duas pessoas que falam bem a nossa língua. Uma se chama Gorete e, a outra, Dona Mariana, missionárias da Igreja Evangélica. Elas foram lá conversar comigo. Na hora que chegaram, tinha um americano, chamado Horácio. Quando eu cheguei, ele chegou. E ele disse: “Ah, você chegou hoje e eu cheguei hoje. Então você vai se chamar Horácio”. Me deu o nome dele. Meu nome, mesmo, é Akiaboro. Aí, depois, conversou comigo: “Akiaboro, vamos conversar?” Eu disse: “Não!” “Vamos fazer oração?” “Pra quem?” Eu estava sem saber de nada. Aí, nós conversamos, conversamos, até eu aprender. Aí, ele disse: “Akiaboro, é o seguinte: é bom você estudar, porque nós estamos vendo vocês. Deus está escolhendo vocês. Mais tarde, você vai defender seu povo. É bom você aprender a ler, aprender português, pra você defender seu povo mais tarde.” Eu falei: “Não, não quero, não. Eu quero ir pro mato”. Aí, depois, eu fui lá na escola. Aí, o pessoal começou a falar a letra até chegar na minha. Aquela turma, os jovens que estavam lá já sabiam ler, já sabiam tudo. Aí chegou a minha vez: “Agora é tu! Agora é tu!” Aí, eu: “O que que eu vou falar? Eu não sei de nada, sou isolado, como é que eu vou falar, como é que eu vou ler?” Aí, o pessoal me chamava de burro, porque eu não sabia. Aí eu perguntei aos meus colegas o que era “burro”. Aí eles me explicaram na nossa língua que eu era chamado de “burro” porque eu não sabia de nada. Aí eu peguei e fui embora de novo. No outro dia, a mesma mulher foi lá de novo. Conversou de novo comigo, fez oração, me disse: “Bora fazer oração, Deus está escolhendo você”. Aí, pronto! Eu comecei a estudar, comecei a aprender a ler a nossa língua, primeiro, depois o português, aí eu gostei. Aí, não passeei mais, não brinquei mais na rua, nem nada. Aí, eu pedi pro papai fazer uma lamparina e eu comecei a estudar alto, na minha casa, amanhã na escola, aí nunca saí mais, não. Eu só queria estudar. Agora eu queria estudar, mesmo! Eu passei pra oitava série só na nossa língua. Aquele pessoal que me chamava de burro ficou todo pra trás. Lá na frente, eu fui ser professor deles. Aí comecei a estudar português. Daí, mesmo, que eu aprendi um pouquinho e saí da aldeia e fui pra Abaetetuba. Comecei a estudar lá e a FUNAI descobriu: “Rapaz, esse índio tá muito inteligente. É bom parar o estudo dele porque, senão, ele vai se formar e vai acabar com a FUNAI”. O que a FUNAI fez? Fez uma armadilha. Fez um documento que saiu do posto da aldeia Kubēkrãkê. Aí, foi lá na casa da minha mãe: “Seu filho, lá em Abaetetuba, todo dia tá chorando. Não tem roupa, não tem comida. Todo dia tá chorando”. Aí, minha mãe ficou abatida. Doeu. Chorou muito: “Não, nunca tratei mal o meu filho. Como é que…? Kubẽ tratou mal o meu filho? Não!” Aí, o pessoal do posto disse pra ela, assim: “Então, quer que seu filho volte?” “Não! Quero que meu filho volte logo!” “Então assine este documento”. Ela botou o dedo, sem saber de nada. E logo, logo, a Federal foi lá me buscar. Aí, pronto! Eu peguei o avião e vim embora. Rapaz, eu saí de lá chorando. Eu queria me formar, mesmo! Eu chorava, chorava, chorava… até chegar a Gorotire. De Gorotire, eu vim chegar aqui em Kubēkrãkê. Cheguei em Kubēkrãkê e perguntei a minha mãe. Aí, minha mãe falou: “Não, é porque eles falaram isso, isso, isso…”. Eu falei: “Mamãe! Lá eu estou bem, estou estudando. Lá eu como todo dia, eu tenho roupa, eu tenho tudo, eu estou estudando! Isso é armadilha feita pela FUNAI! Aí, peguei a borduna [um porrete] e fui lá, fui bater no posto da aldeia. Assim começou minha luta. Bati nele, na mulher dele também e mandei pra fora. Ele me tirou da cidade e eu tirei ele da aldeia. Ele foi embora. Por aí começou minha luta. Aí depois eu fui lá em Goiânia. Conversei com o Romeu Tuma, naquele tempo do grande delegado da Polícia Federal, Dr. Lincoln. Aí, nós conversamos e ele me disse pra ficar no quartel do exército, lá em Goiânia. Passou um tempo, aí meu pai não queria que eu ficasse muito longe, não: “Volta, logo. Não quero filho meu muito longe. Já doeu demais. Eu acho bom que você volte”. Eu peguei e voltei. Por aí mesmo que eu parei de estudar e passei só a lutar. Depois disso, quando eu saí, fui ao gabinete do presidente da República, ao Congresso Nacional, levar documento. Lá eu me lembrei que as duas mulheres falaram a verdade pra mim, que era pra eu estudar que “mais tarde você vai defender seu povo”. Aí eu lembrava: “Ah, realmente!” Então, é o seguinte: é por aí a minha história, a minha luta. E veio até eu me tornar chefe dos guerreiros, na aldeia. Depois foi, foi, foi… até eu me tornar o Cacique das aldeias. E depois eu saí de Kubēkrãkê e montei Môxkàrkô e fiquei lá como cacique. Depois teve eleição de todos os kayapós e eu me tornei líder da Nação Kayapó. Depois, eu fui pra Brasília criar e ser membro da “Comissão Nacional de Política Indigenista” e passei a ser o representante do Pará. Então, essa é minha história. É triste, mas eu cheguei a esse ponto. É por isso que hoje eu estou cansado, aguardando. Estou só cuidando da minha esposa, hoje. Espero que ela melhore pra eu retornar, de novo. E espero que a pandemia acabe, também. Aí, eu começo a lutar de novo. Eu continuo Cacique. Eu não entreguei o meu cargo pra ninguém, até agora.

CAC: Muito obrigado, Akiaboro, pela entrevista! Fique à vontade para fazer algumas considerações finais.

AK: Carmen e Joachim, mando um abraço pra vocês, já estou com saudade de vocês, porque, no dia em que eu e o professor Carlos viajamos juntos e encontramos vocês, foi um encontro muito bom. A luta vai continuar. Na pandemia, tudo parou e estamos na aldeia. Quando tudo acabar, nós vamos retornar à luta. Vamos nos encontrar e lutar juntos com essa nova geração que está vindo aí. Um abraço muito forte pra vocês, um abraço para o povo de Guadalajara.



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