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Introdução

Os editores

O sexto volume de Studia Heideggeriana reúne alguns dos trabalhos apresentados no III Congresso da Sociedade Iberoamericana de Estudos Heideggerianos, que aconteceu no Rio de Janeiro, Brasil, de 19 a 21 de Outubro de 2015. O tema do congresso foi apresentado na forma da pergunta de Hölderlin “Há uma medida sobre a Terra?”. O tópico foi sugerido como forma de promover estudos históricos e filológicos, mas também abordagens críticas e interpretativas sobre o problema da medida na obra de Heidegger.

Em sua contribuição, Alberto Rosales examina a evolução do pensamento sobre dois temas centrais na obra de Heidegger: ser como descobrimento e diferença ontológica, considerando inicialmente a formulação madura em Ser e Tempo e as transformações que paulatinamente conduzem às noções de verdade como des-cobrimento, seer como ocultar patentizador e acontecimento. Dedicando-se aos ensaios clássicos de Heidegger no final dos anos vinte, mas também aos escritos sobre o pensamento do acontecimento apropriativo (Ereignis), o estudo do prof. Rosales oferece uma abrangente exposição do desenvolvimento das noções de ser, verdade e diferença ontológica, culminando com reflexões críticas sobre a articulação destas noções na obra de Heidegger. O trabalho de Adrián Bertorello propõe uma leitura do conceito heideggeriano de intimidade (Innigkeit) do mundo como uma maneira complexa e conflitiva de pensar o conceito greimasiano de função semiótica. Para tanto, começa por expor este conceito a partir de um fragmento da novela de Saer, Nadie nada nunca, analisa a noção husserliana de intimidade da fusão (Innigkeit der Verschmelzung), e, por fim, aborda o conceito de intimidade no âmbito das conferências A Origem da Obra de Arte e  A Linguagem, nas quais são apresentados, respectivamente, o conflito mundo/terra e o conceito de quadratura (das Geviert). No seu artigo, Irene Borges Duarte discute o tema da medida tendo como contraponto a tentativa de Werner Marx – em sua obra Gibt es auf Erden ein Mass? – de “edificar uma ética pós-metafísica sobre a base dos acenos lançados por Heidegger”. A autora percorre todo o arco da obra heideggeriana em sua discussão com Marx, mas seu foco está na possibilidade de um habitar poético, raro e individual, no seio da era técnica. O termo desse habitar seria a “feliz experiência do desmedido”. Na contribuição de João Carlos Brum Torres é enfrentada a questão sobre se haverá uma medida sobre a terra não como um problema ético, como o fez Werner Marx, por ele evocado no início do artigo, mas numa perspectiva historial. Compara as várias facetas das filosofias da história de Hegel e Heidegger, problematizando, em ambas, o privilégio do pensamento filosófico sobre o que mais usualmente se entende como “história universal”. Defende, ao final, que se hoje é insustentável o otimismo histórico hegeliano, tampouco é defensável o imperativo de “admitirmos que nossa desmedida está a pôr em risco os equilíbrios mais fundamentais do planeta Terra”. Renunciar ao “espírito de ilimitação”, propõe, seria “renunciar à condição humana”. A contribuição de Luis Rossi merece ser qualificada como crítica e não apenas reconstrutiva das ideias políticas de Heidegger no período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais do século passado. De maneira atenta às nuances do pensamento heideggeriano, Rossi examina a introdução do conceito de polis e que compreensão de política pode dele ser derivada. Esta é uma tarefa complicada, uma vez que Heidegger não formulou explicitamente uma filosofia política. Contudo, esta tarefa é factível, uma vez que a reelaboração fenomenológica da política a partir da caracterização do vínculo inicial de união de uma agrupação na forma da “comunidade”. Em seu artigo, Marcos Silva formula a proposta de um modelo de racionalidade baseado na contingência e na finitude. Tal modelo é construído com base em teses wittgensteinianas sobre a normatividade da linguagem e do conhecimento, as quais, por sua vez, foram formuladas a partir da investigação do papel e da natureza de medidas nas atividades teóricas e práticas das sociedades dos seres humanos. As conclusões do estudo avançam na seguinte direção: não se pode argumentar em favor da existência de uma medida real no mundo, uma vez que a razão está articulada à finitude humana, além do que as práticas humanas são precárias. Uma das conseqüências dessa conclusão é a seguinte: a objetividade de nossos juízos e práticas está ancorada em normas públicas estáveis (jamais definitivas) da comunidade, na qual se está obrigatoriamente inserido. No trabalho que encerra o presente volume, Roberto Rubio parte da caracterização heideggeriana da experiência da obra de arte como “estremecimento e refutação” da experiência cotidiana, procurando esclarecer a noção de medida utilizada em tal afirmação. Para tanto, apresenta a concepção ontológica de medida elaborada no contexto de Ser e Tempo e a distingue do novo marco teórico desenvolvido a partir das reflexões sobre a arte, enfatizando a peculiar noção de figura (Gestalt) ali elaborada, que, diferentemente da formulação realizada no âmbito da ontologia fundamental, acentua o status nascente e o caráter de tensão da medida.

Para finalizar esta introdução, gostaríamos de agradecer à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro por acolher generosamente em suas dependências o III Congresso da SIEH, assim como ao Departamento de Filosofia da PUCRio, à UNIOESTE, à CAPES e ao CNPq, sem cujo apoio dificilmente este evento teria sido realizado.

 

Rio de Janeiro, Maio de 2017.



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