Bianca Freire-Medeiros
Mobility (n.)
early 15c., “capacity for motion, ability to move or be moved, property of being easily movable,” from Old French mobilité “changeableness, inconsistency, fickleness” and directly from Latin mobilitatem “activity, speed,” figuratively “changeableness, fickleness, inconstancy,” from mobilis “movable, easy to move”. Socio economics sense of “possibility of movement between different social levels” is from 1900 in sociology writing.
Mobile (adj.)
late 15c. (Caxton), “capable of movement, capable of being moved, not fixed or stationary,” from Old French mobile (14c.), from Latin mobilis “movable, easy to move; loose, not firm,” figuratively, “pliable, flexible, susceptible, nimble, quick; changeable, inconstant, fickle,” (…). Sociology sense of “able to move into different social levels” is by 1927. Mobile home “large trailer permanently parked and used as a residence” is recorded by 1936. Mobile phone is by 1983.
(The Concise Oxford Dictionary of English Etymology, 2003)
Não cabe aqui uma genealogia do termo mobilidade e de seu campo semântico. Mas a breve etimologia, que o dicionário nos oferece, explicita um desvio de rota, uma certa ambivalência, que merecem atenção: na origem (século 15), mobilidade e móvel aludiam a movimento físico e mutabilidade, velocidade e inconstância, encontrando na fixidez e na estática o seu oposto. No correr do século 20, essas conexões espaciais se perdem, na medida da incorporação da mobilidade ao léxico estritamente socioeconômico. O conjunto de 22 textos que a leitora tem em mãos representa um esforço extremamente bem-sucedido de recentramento das variáveis socioespaciais nos estudos que tomam a mobilidade como objeto, lente e método.
Lembremo-nos de que, para Georg Simmel, a mobilidade seria derivada da capacidade humana de imprimir intencionalidade ao movimento, do “desejo de conectar-se”, do poder da imaginação humana de nos projetar no tempo e no espaço (Simmel, 1996). Deriva desse entendimento, que dá centralidade à potência da imaginação e da memória expressas por meio de diferentes suportes, outro princípio fundamental: a interdependência entre a mobilidade corpórea e a mobilidade de outros entes materiais e simbólicos. Simmel defendia a existência de uma correlação, que desafia a lógica do senso comum e de uma certa tradição da teoria social, entre a qualidade da sociação e a grade espaço-temporal onde ocorre o movimento.
Alinhado com essas premissas de Simmel, que inspiram o chamado giro móvel na defesa da mobilidade como mais do que um objeto circunscrito, esse trabalho coletivo e polifônico recupera o léxico das mobilidades como grade analítica. São termos consagrados e emergentes que se complementam entre si e dialogam com o conjunto de textos reunidos em “Términos clave para los estudios de movilidad en América Latina” publicado em 2018. Novamente Dhan Zunino Singh, Guillermo Giucci e Paola Jirón logram o feito de organizar uma coletânea extremamente harmônica a partir de um conjunto de nada menos do que três dezenas de autoras e autores de várias esquinas disciplinares. São geógrafas e geógrafos, sociólogas e sociólogos, arquitetas e arquitetos, historiadoras e historiadores, comunicólogas e tantos outros cujas filiações institucionais remetem a Argentina e Alemanha, Brasil e Reino Unido, Chile e Estados Unidos, México e Espanha.
A despeito da variação entre os aparatos teóricos e os recursos metodológicos empregados no mapeamento de cada termo, a leitura da obra convence sobre dois pontos fundamentais. O primeiro tem a ver com a natureza móvel do próprio conhecimento: a estabilização de um conceito ou ideia é em si um processo contínuo, nenhuma formação discursiva chega a ser plenamente concluída (Bowker e Star, 2000). Assim, tão importante quanto definir determinada palavra-chave, é observar como sua utilização em contextos situados no tempo e no espaço. O segundo, de caráter analítico, ressalta como as diferenças, que cada palavra-chave guarda em relação a outros termos, são fundamentais na compreensão e construção das mobilidades como um campo epistêmico. Como já foi bem observado pelos organizadores desta coletânea (Zunino Singh, Giucci y Jirón, 2018), essa tarefa de construção da grade analítica das mobilidades não deve se confundir como um simples giro semântico.
Há um empenho compartilhado pela totalidade das autoras e autores em identificar e definir cada um dos termos em relação ao chão empírico e epistêmico da América Latina. Essa, sem dúvida, é a contribuição mais singular desse projeto editorial. Se, como nos diz Michel De Certeau (referência citada por varias autoras e autores neste e no volume anterior), “toda definição é mais que uma fixação, é um ato culturalmente criador” (de Certeau, 1996), a coletânea reúne e disponibiliza contribuições analiticamente criativas que advêm do nosso próprio contexto cultural e dialogam diretamente com nossos legados históricos. Contexto e legado que não podem ser dissociados do desenvolvimento de aparatos institucionais e de um campo de saber específico, mas que também estão intimamente ligados às condições materiais de produção do conhecimento em escala transnacional.
Configura um truísmo afirmar que a divisão internacional do trabalho intelectual e a cartografia geopolítica de produção, circulação e legitimação do conhecimento, acadêmico ou não, são resultado das muitas desigualdades que informam as agendas e os cânones da produção científica. Tampouco constitui propriamente uma novidade dizer que determinado texto, ideia ou teoria, uma vez posto em movimento, deixa de pertencer apenas àquela pessoa identificada como sua autora. Cada capítulo nos convida a desdobrar essas constatações, já um tanto gastas, e acompanhar os rumos e os alcances dessas circulações entre tradições intelectuais, quadros simbólicos de interpretação, ambientes institucionais e conjunturas sociopolíticas. Como bem adverte Edward Said em “Travelling Theory Revisited”, no processo de exílio, as ideias e conceitos adquirem não só outros usos, mas também um novo ethos (Said, 2000).
Com as autoras e os autores aqui reunidos aprendemos que, porque móveis e provisórias, as ideias sofrem alterações ao longo de seu percurso no tempo e no espaço: ao aportar em novos contextos geohistóricos, são confrontadas com axiomas locais e precisam se fazer úteis, de algum modo, à interpretação dessa nova realidade empírica para seguir se movendo. Graças ao esforço coletivo e ao talento das autoras e dos autores aqui reunidos, nós leitoras aprendemos sobre esse ir e vir das palavras que se fizeram úteis às nossas demandas interpretativas e que, nas páginas desse livro, seguirão em movimento.








