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Paternidade e masculinidades

Representações de paternidade na revista
Pais & Filhos (1968-2021)

Cíntia De Paula Borges Menezes [1]
e  Luis Fernando Martins Lopes [2]

O presente texto tem por objetivo dialogar sobre masculinidades e representações sociais de paternidade na revista brasileira Pais & Filhos. A pesquisa analisou exemplares da revista em busca de reportagens e anúncios relacionados a “pai” e “paternidade”. A partir da análise das revistas, foi possível visualizar a modificação de comportamentos masculinos e da divisão sexual de funções maternas e paternas durante os anos de 1968 a 2021. Diante das reflexões, constatou-se a alteração da simbologia esperada para a paternidade e a mutação na representação da figura paterna como expectador e coadjuvante para afetuosos e participativo.

Considerações iniciais

Segundo Del Priori[3], por séculos, a palavra “pai” se relacionava ao Eterno, Deus-Pai; ele era onipresente e cruel com os erros dos/as filhos/as (Priore, 2013) . O pai de carne e osso era ausente. Ainda assim, ele gozava de poder sem freios, comandava, castigava e era responsável por transmitir valores. Em sentido oposto, a mãe era pessoa mais acessível. Com as revoluções e transformações socioculturais, ampliou-se o papel do pai. Ainda que em alguns lares subsista a figura do pai ausente e/ou autoritário, inegável que esta paternidade não cabe mais na sociedade contemporânea.

Desenvolvimento

Como a maternidade, a paternidade também é permeada de estereótipos de gênero. Para compreender a paternidade, é preciso discutir masculinidades enquanto conjunto de características e símbolos socioculturais aceitos e esperados dos homens.

Para Connell e Pearse[4], “ninguém nasce masculino, é preciso tornar-se um homem” (Connell, 2015: 38). De acordo com Connell[5] há uma narrativa na construção das masculinidades no sentido de que os homens devem se afastarem daquilo que os aproximarem do feminino (Connell, 1995).

Até a década de 80 o pai era representado como aquele que participava das experiências maternas. O pai aparecia brincando com os/as filhos/as, acalentando o bebê no colo da mãe, passando a mão na barriga da gestante. (Schwengber; Silveira, 2011)[6]. Para Del Priori (2013) o desmantelamento da figura do pai autoritário ocorreu a partir dos anos 1970 ou 1980; a família deixa de ser ‘patriarcal’ e torna-se ‘conjugal’.

Somente a partir dos anos 90, o pai é definitivamente representado na revista Pais & Filhos como mais participativo e mais interessado na educação, cuidados e atividades dos/as filhos/as. Destaca-se o modelo de pai ativo e afetuoso. O pai é visto como amigo e participante, não mais mero expectador tímido. Suas experiências e dúvidas na criação dos/as filhos/as ganham espaço. Os pais passam a protagonizar mais matérias e terem voz ativa nas reportagens (Schwengber; Silveira, 2011).

Considerações finais

A paternidade é uma construção histórico cultural social que não se constitui apenas pela filiação biológica ou socioafetiva; ela se constitui nas relações cotidianas entre pai e filho/a. Com novas expectativas sociais sobre o que é “ser pai”, a paternidade assumiu novos significados, o que também possibilita repensar novas masculinidades.

Esta pesquisa serve-se como mais um estudo científico capaz de dialogar sobre a historicidade da paternidade e das masculinidades; serve-se como mais um estudo científico capaz de refletir sobre masculinidades plurais e paternidades mais afetivas.


  1. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Três Lagoas/MS, beneficiária de auxílio financeiro da CAPES – Brasil. E-mail: cintia.pabome7@gmail.com.
  2. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Três Lagoas/MS. E-mail: prof.luis_fernando@hotmail.com.
  3. Priore, Mary del (2013) Pais de ontem: transformações da paternidade no século XIX. In: Priore, Mary del; Amantino, Márcia (Org.) (2013). História dos homens no Brasil. São Paulo: Unesp, p. 153-184.
  4. Connell, Raewyn; Pearse, Rebecca (2015) Gênero: uma perspectiva global. São Paulo: Nversos.
  5. Connell, Raewyn (1995). Políticas da masculinidade. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 185-206, jul./dez.
  6. Schwengber, M. S.; Silveira, Catharina da Cunha (2011) Paternidade em deslocamento: o caso do pai amigo e presente. FACED, Salvador, n.19, p.91-101, jan./jun.


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