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“Nem tudo que reluz é verde”

Ecologismo acrítico
como ideologia da dependência

Tadeu Mattos Farias

Introdução: o Brasil no centro do debate (e desastre) ecológico

A Declaração da Cúpula dos Povos rumo à COP30[1], que esteve reunida em novembro de 2025 em Belém do Pará – Brasil, afirmou de maneira categórica que a causa principal da crise climática que vivemos está no modo de produção capitalista e que as falsas soluções, em especial aquelas via mercado, devem ser enfrentadas e não fomentadas. A Declaração ainda alerta para o caráter financeirizado da proposta que foi o carro-chefe do Governo brasileiro, anfitrião da COP30, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), uma proposta que, além de reproduzir a hegemônica aposta em um capitalismo verde, sequer chegou perto de garantir os recursos almejados[2].

À revelia das denúncias e análises da Cúpula dos Povos, em Belém era sediada a COP30, em relação à qual o Governo brasileiro adotava um discurso exultante – nas palavras do presidente Lula, a “COP da verdade” -, mas que contou com o maior número de lobistas do setor de combustíveis fósseis até então em tais reuniões[3]. Concomitantemente, aconteciam grandes protestos dos povos indígenas, logo reprimidos.

O cenário histórico de seu acontecimento expressa de forma quase caricatural a contradição apontada pela Cúpula dos Povos em buscar-se, na COP, alternativas por dentro do capitalismo. Meses antes à realização do evento, o Estado brasileiro autorizou pesquisas para exploração de petróleo próximo à foz do Rio Amazonas, parte da chamada Margem Equatorial[4], apesar dos gigantescos riscos de impactos ambientais e sociais e, em leilão ocorrido em junho, foram arrematados 34 lotes na região, com a maioria dos blocos ficando com capitais estrangeiros[5]. Essa autorização aconteceu após um processo de fortes pressões do próprio presidente do país.

Além disso, em agosto de 2025, foi publicado o Decreto nº 12.600/2025[6], que incluiu as hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND), passando para o controle do capital privado o controle da navegação nesses rios (Brasil, 2025a), além de ter ganhado força o projeto de construção da Ferrogrão, uma ferrovia para favorecer o escoamento de grãos do Centro-Oeste (Sinop/MT) chegando ao Porto de Miritituba (PA)[7]. Ambas as iniciativas estão voltadas para os interesses do chamado agronegócio e demais setores extrativistas e exportadores, gerando alto impacto na região amazônica. Também de enorme impacto negativo sobre povos indígenas e o meio ambiente amazônico foi a aprovação, pelo senado brasileiro, do marco temporal como emenda à constituição, dificultando a demarcação de terras indígenas e favorecendo o uso extrativista de terras que foram ocupadas por meio de expulsões, deslocamentos forçados, grilagem e outros processos históricos violentos contra esses povos originários[8].

Ainda, no sentido do fortalecimento das burguesias agrária e mineradora brasileiras, está em curso a consolidação de um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, com o Brasil atuando de forma bastante ativa para sua efetivação[9]. Trata-se de um acordo que ampliará o caráter de economia extrativista, exportadora e pouco industrializada dos países do bloco latino-americano.

Também, de forma a reforçar o caráter heteronômico, subordinado e extrativista da economia dependente brasileira, foi lançada a Política Nacional de Data Centers (ReData), que busca atrair os grupos estrangeiros ligados a processamento de dados sobretudo a partir de incentivos fiscais (Brasil, 2025b). Essa política, além de reforçar a subordinação aos monopólios internacionais sob uma lógica de colonialismo digital, aumentará a pressão sobre recursos hídricos e energéticos com alto impacto para o ambiente e povos e comunidades locais, processo que já vem acontecendo com os Data Centers instalados no país[10]. Acrescente-se a esse cenário a aprovação, em agosto, pelo parlamento brasileiro, do Projeto de Lei 2.159/2021, conhecido como “PL da Devastação”, cujo núcleo trata de flexibilizar – a ponto de tornar inócuos – os processos de licitação ambiental, enfraquecer órgãos de fiscalização, conceder vantagens para o agronegócio, entre outros aspectos (Brasil, 2021).

Tais contradições e exemplos bastante atuais ajudam a revelar alguns elementos a partir dos quais pretendemos discutir como o ecologismo acrítico se expressa como uma ideologia da dependência. Em primeiro lugar, as COP são, em termos mundiais, a principal iniciativa política, nos marcos de manutenção da ordem econômica e política do capital, de debate e proposições ao redor dos problemas ambientais mais prementes para a vida humana, em especial a mudança climática. Sendo assim, são a representação máxima do que o capitalismo “aceita” oferecer para conter a destruição das condições de vida na terra. Por esse motivo, iniciamos utilizando como exemplo para desencadear o debate.

Em segundo lugar, como manifestação da dinâmica de reprodução do capital, expressam ideias que legitimam as relações sociais de produção capitalista e ajudam a ocultar as raízes da crise ecológica, fundadas na própria lógica de reprodução do capital. Nesse sentido, a COP é espaço privilegiado da manifestação da ideologia do capitalismo verde e possui duas dimensões que se entrelaçam: são um grande espaço para favorecer os negócios promovidos pelo capitalismo verde e ajudam a promover o chamado greenwashing, imprimindo tons de verde em agentes que são parte fundamental do próprio processo destrutivo do capital. Exemplo disso foi a presença privilegiada, nos debates da COP30, da Vale S.A, empresa que foi parte de dois dos maiores crimes ambientais cometidos no Brasil nos últimos dez anos, os rompimentos das barragens de rejeitos de mineração em Mariana (2015) e Brumadinho (2019)[11].

Por fim, o ecologismo acrítico, expresso de forma ampliada na COP, mas de maneira alguma restrito a tal espaço, atua nos países de capitalismo dependente de forma a reforçar os próprios mecanismos da dependência, se manifestando também como ideologia da dependência (Maldonado, 2017). Esses três aspectos se apresentam de forma entrelaçada nos exemplos trazidos e a partir deles faremos algumas reflexões, ainda que introdutórias, sobre o debate ambiental no contexto de capitalismo dependente. Essa realidade não é restrita ao Brasil, conforme abordaremos, contudo a realização da COP30 atraiu as atenções para o país e nos ajuda a evidenciar os problemas que aqui queremos debater.

1. Ecologismo acrítico como ideologia: gênese e função social

Ainda que a preocupação com o impacto da ação humana sobre a natureza e a própria possibilidade de manutenção de recursos fundamentais para a reprodução da vida humana não seja algo recente, tendo o próprio Marx (2013) travado debate sobre o tema, o impulso à discussão em escala global e a noção de que a vida humana está ameaçada por tais fenômenos datam do final dos anos 1960 (Silva, 2010). Esse é também um período de crise do capitalismo e de busca por caminhos para retomar a acumulação, como processos de reestruturação produtiva, repressão às organizações de trabalhadores e trabalhadoras, aumento do desemprego e do exército de reserva, desmonte de políticas sociais garantidas pelo Estado, ciclos de privatizações de empresas e serviços públicos, crescimento da esfera financeirizada do capital, exportação de plantas produtivas de grandes empresas dos países centrais para a periferia do sistema em busca de melhores condições de exploração do trabalho e do meio ambiente – garantindo que os ativos da acumulação sejam transferidos para o centro, enquanto os países periféricos arcam com os passivos sociais e ambientais da exploração -, surgimento de novos nichos mercantilizados para geração de lucro, entre outros (Carcanholo, 2008; Harvey, 1992). Essas transformações nos processos de produção e circulação do capital também implicam um incremento na competição e fragmentação da classe trabalhadora e no recrudescimento de perspectivas individualistas sobre a ação humana.

O entrelaçamento entre o debate ecológico que emerge nesse período e as transformações aludidas se expressa no conjunto de ideias que podemos caracterizar como ecologismo acrítico (Foster, 2002; Medeiros; Sá Barreto, 2013). Tratam-se de elaborações políticas, econômicas, filosóficas e científicas que, embora expressem valores de preocupação com a crise ecológica, não questionam as estruturas sociais e econômicas que a produzem, cuja raiz está na ruptura metabólica promovida pela lógica de reprodução do capital (Foster, 2005). Sem desvelar como a dinâmica do sistema de reprodução do capital resulta na crise em tela, as preocupações ambientais se desdobram em preceitos éticos abstratos, afirmações de valor subjetivo sem sustentação material (Medeiros; Sá Barreto, 2013).

Em debate com teóricos de seu tempo, Marx (1867/2013) mostrou como o processo de reprodução do capital e sua tendência de concentrar nas cidades a força motriz histórica da sociedade capitalista, produz também uma tendência que leva ao desvirtuamento do metabolismo entre sociedade e natureza. A subordinação da terra à grande indústria, as expropriações que precisam sempre ser repostas de forma a garantir a mercantilização da força de trabalho e a transformação de meios de vida em capital, as formas de renda da terra que entram no circuito de acumulação, a necessidade de aceleração dos ciclos de rotação do capital como forma de contrarrestar a tendência às crises, a tendência à mercantilização de todas as esferas da vida, inclusive os elementos naturais, entre outros aspectos, submetem o meio ambiente a uma pressão insustentável (Foster, 2005; Silva, 2010). A racionalidade capital, valor em expansão é, portanto, irracional do ponto de vista da preservação dos recursos necessários à reprodução da vida humana.

O tema dos combustíveis fósseis, tão central para a agenda ecológica atual, exemplifica bem essa questão. Como sistema regido por uma lógica de constante expansão da produção de riqueza sob a forma de capital, que demanda uma indústria de larga escala (Marx, 1867/2013), o modo de produção capitalista encontrou no carvão vegetal coque uma fonte de energia que deu um enorme impulso à industrialização, uma vez que, junto ao vapor, eram combustíveis mais baratos, além de terem permitido maior controle sobre trabalhadores e trabahadoras (Angus, 2023). O capitalismo, que desde sua gênese se constituiu como expropriante, explorador, expansivo, então tornava-se capitalismo fóssil (Angus, 2023). O petróleo, por sua vez, ainda que descoberto no século XIX, teve seu ponto de virada definitivo como motor energético do capitalismo após a segunda guerra, sendo, não à toa, o principal agente da Grande Aceleração (Angus, 2023). Assim, é possível identificar na forma de produção energética dominante a sua subsunção às necessidades da reprodução expansiva do capital.

Em linhas gerais, o ecologismo acrítico possui diferentes formas de manifestação, muitas vezes amalgamadas, focando em mudanças comportamentais individuais, apostando nas soluções de mercado (como a economia verde, mercado de carbono etc.), em mudanças institucionais e regulamentações estatais (como o caso do natimorto Green New Deal), aprimoramento de capacidades tecnológicas (reciclagem, energias de fontes renováveis), ou até certa concepção de uma mudança ética geral, de abandono do consumismo e outros elementos ideológicos e comportamentais anti-ecológicos (Sá Barreto, 2022; Silva, 2010). Nesse sentido, o ecologismo acrítico atua ocultando as determinações da crise ecológica, o caráter de classe da produção dos problemas e dos efeitos sofridos, mas também é parte do impulso a novas formas de acumulação que passam pelo discurso verde.

Podemos ver destacadamente essa vinculação entre as práticas cuja face ideológica é o ecologismo acrítico e o novo estágio de reprodução do capital na grande presença da esfera financeira, que passa a englobar a natureza e o enfrentamento à crise ecológica. A mudança climática e sua gestão passaram à esfera das preocupações da lógica de acumulação financeira (Soares, 2023). Assim, o capitalismo mantém seu processo de garantir novos nichos para a acumulação, sobretudo pela forma fictícia e com a grande proliferação de serviços financeiros relacionados ao campo do combate à mudança climática, como é o caso de derivativos para créditos de carbono e títulos verdes, Certificados de Recebíveis do Agronegócio Verdes (CRA Verdes), direcionados à produção de commodities agrícolas sustentáveis, entre outros (Soares, 2023). É nesse cenário que há, por exemplo, uma imensa mercantilização das florestas, com iniciativas para atrair investimentos do capital para projetos de preservação e captura de carbono (como os REDD+), que colocam a acumulação financeira no coração da floresta, diversificam as fontes de lucro, e intensificam conflitos com povos e comunidades locais.

Dessa forma, ainda que possamos identificar elementos positivos no desenvolvimento do debate ecológico, como é o caso do conjunto de tecnologias que permitem reduzir o impacto da atividade produtiva sobre o planeta e a massificação da temática, essas perspectivas estão estruturalmente vinculadas à reprodução do capital e expressam, em linhas gerais, vários dos elementos das transformações do modo de produção capitalista para buscar sair de sua crise nos anos 1970 e, posteriormente, da crise de 2007/2008. No limite, são formas de transformar problemas gerados pela reprodução do sistema em lucro.

2. A dialética capitalismo dependente e ecologismo acrítico

O desenvolvimento do capitalismo em nível global se dá de forma desigual e combinada, de maneira que o desenvolvimento das economias centrais é garantido a partir do subdesenvolvimento das economias subordinadas (Rodney, 2022). Dessa forma, a dependência é a contraface do imperialismo e esses dois aspectos se desenvolvem de forma dialética (Katz, 2020).

Para os objetivos do presente texto, nosso foco será o capitalismo dependente latino-americano, em especial, o contexto brasileiro. As raízes da dependência latino-americana estão no processo de colonização, por meio do qual a região foi incorporada e passou a abastecer o sistema mercantil que se formava, sobretudo com matérias-primas e alimentos, garantindo as bases para o desenvolvimento industrial capitalista. Em que pesem as diferenças nos processos coloniais dos países da América Latina e caribe, como atestam Bambirra (2019), Cueva (2023) e outros(as), tal processo estabeleceu as bases das relações subordinadas entre centro e periferia do sistema em termos políticos, econômicos, ideológicos e culturais, além de definir os marcos a partir dos quais a estrutura econômico-política interna dos países dependentes se desenvolveu.

Para Marini (2022), foi na fase monopolista do capitalismo, na configuração da divisão internacional do trabalho (DIT), que os países latino-americanos, já formalmente independentes de suas ex-metrópoles, se tornaram dependentes. Essa subordinação estrutural implica um conjunto de mecanismos de transferência de valor da periferia para o centro, o que leva as burguesias dependentes, classes dominantes dominadas (Bambirra, 2019), a buscarem compensar a dificuldade de acumulação por meio de mecanismos de superexploração (Luce, 2018; Marini, 2022). Assim, a dependência implica uma dupla articulação: do ponto de vista externo, é parte do processo de acumulação nos centros imperialistas; concomitantemente, articula um conjunto de processos e legalidades particulares internas nas realidades dependentes que garantem a reprodução dessas formações sociais enquanto tais.

A superexploração é a categoria fundamental da dependência e se caracteriza por mecanismos que restringem ao trabalhador e à trabalhadora a restauração de suas capacidades físicas e mentais em caráter crítico, sistemático e estrutural, seja com formas de aumento da intensidade do trabalho, da jornada ou com pagamento da força de trabalho abaixo de seu valor (Carcanholo, 2013). Nesse sentido ainda, um aspecto que recebeu pouca atenção dos teóricos da dependência, mas é de extrema relevância em nossa realidade, está relacionado àquilo que Marx (1867/2013) chamava de aspecto histórico-moral do estabelecimento do valor da força de trabalho. Além de aspectos ligados ao estágio da luta de classes que permitem a incorporação de novos artigos à cesta de consumo dessa classe e, consequentemente, o incremento de seu valor, elementos de hierarquização social gestados ou incorporados pelo capitalismo, são de grande importância para os mecanismos de superexploração operarem, como são os casos do racismo e da estrutura patriarcal (Souza, 2020).

A formação da classe trabalhadora latino-americana remete ao processo de escravização de indígenas e africanos e africanas, além das políticas de migração promovidas desde a colonização. No Brasil, a abolição da escravidão foi garantida como uma transição pelo alto, preservando o poder político e econômico de velhas e novas classes dominantes, e barrando o acesso a terra e ao trabalho por parte de ex-escravizados (Moura, 2021). Pelos processos de peneiramento social promovidos, àqueles e aquelas que vieram das fileiras da escravidão e seus descendentes, restou ocupar a franja marginal do exército de reserva, sendo a parcela da população que mais dramaticamente sofre os efeitos dos mecanismos de superexploração (Gonzalez, 2020; Moura, 2021).

A inserção subordinada na DIT colocou, desde a inserção dos países dependentes no mercado mundial, um cenário para as classes dominantes locais em que a fase de circulação do capital se dá sobretudo no mercado externo. Tal processo acentua a manutenção das estruturas de concentração de terras e de economias que tendencialmente se voltam para a exportação de matérias-primas e alimentos, com processos de industrialização parciais, incompletos, atrasados ou residuais (Bambirra, 2019). Vale dizer que não se tratam de países menos capitalistas ou de capitalismo por amadurecer, mas do tipo de capitalismo próprio da condição dependente (Marini, 2022).

Outra consequência é uma estrutura produtiva que não se organiza prioritariamente para satisfação das necessidades das massas, o que, associado aos baixíssimos salários, implica um mercado interno restrito e possibilidades de manter um enorme exército de reserva, com grandes consequências do ponto de vista das condições de vida da classe trabalhadora (Marini, 2022). Para manter as condições de reprodução da dependência, o Estado cumpre um papel fundamental, tanto nos aspectos coercitivos que tomam parte de uma contrarrevolução preventiva permanente (Fernandes, 2020), como nos aspectos de consenso ideológico.

Com o avanço da neoliberalização global, como afirmamos anteriormente, há uma reconfiguração da produção capitalista e transformações nas relações entre países imperialistas e dependentes. Isso intensificou os mecanismos da dependência por meio de uma série de ajustes, como as contrarreformas de Estado de corte neoliberal feitas nos países latino-americanos, com destaque para as novas formas de transferência de valor, muitas delas garantidas pela entrada de capital financeiro, e o efeito dessas transformações sobre a superexploração da força de trabalho e da natureza nesses países (Carcanholo, 2011).

O freio no ciclo industrializante que havia ocorrido entre os anos 1930 e 1980 potencializou o caráter extrativista e exportador dessas economias, agora sob a batuta do capital financeiro, que se espraiou para todo o tecido produtivo. Vale ressaltar que a necessidade de valorização dos ativos financeiros pressionam a produção extrativa, intensificando os processos destrutivos dessas atividades (Martins, 2024). Assim, nessa nova etapa da dependência, as veias abertas da América Latina são escancaradas e se, como afirmou Marx (1867/2013), o capital é “trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga” (p. 307), o capital financeiro eleva essa capacidade e necessidade do sangue não somente de trabalhadores e trabalhadoras, mas dos territórios periféricos.

Atualizando essas tendências, nos últimos anos, o capitalismo dependente latino-americano vem se configurando pelo que Osório (2012) caracterizou como padrão exportador de especialização produtiva. Nesse sentido, destacam-se a produção cada vez mais voltada a nichos definidos pelo capital imperialista e o predomínio produtivo de setores como commodities agrícolas, mineração, montadoras e manufaturas de médio valor agregado, uma grande dependência de insumos, máquinas e tecnologia importados, e crescente transferência de valor, com intensa precarização do trabalho (Osorio, 2012).

É nesse cenário que a própria ideologia da dependência se reconfigura atendendo às novas dinâmicas do capitalismo dependente latino-americano e, em específico, brasileiro. Segundo Maldonado (2017), a ideologia da dependência expressa os interesses da burguesia dependente em sua condição particular, uma vez que é uma classe dominante do ponto de vista interno e subordinada do ponto de vista da DIT (Bambirra, 2019). Como manifestação necessária e parte da condição dependente, a ideologia da dependência é inseparável da estrutura dependente e cumpre papel fundamental na sua reprodução, legitimando as formas de transferência permanente de valor, justificando políticas alinhadas às necessidades das burguesias dos centros imperialistas, atuando para neutralizar projetos de emancipação e confrontação à condição dependente e naturalizando o circuito fechado da dependência (Maldonado, 2017).

É a partir disso que podemos dizer que o ecologismo acrítico, ainda que não seja uma ideologia restrita aos países dependentes, atua por aqui como ideologia da dependência, reforçando e legitimando seus mecanismos, no sentido da dupla articulação de responder aos interesses imperialistas e atuar nos mecanismos internos de dependência. É importante salientar que as classes dominantes também se apoiam em ideias abertamente anti-ecológicas, algo intensificado no cenário atual. Isso, contudo, não elimina o fato que correntes que reivindicam o combate às manifestações da crise ecológica, ao se direcionarem por um ecologismo acrítico, assumem, direta ou indiretamente, uma defesa do sistema que, em última instância, é a raiz da crise que advogam combater.

Tal posição ideológica, nas realidades dependentes, emerge, por exemplo, quando pensamos em políticas de remuneração ao agronegócio com os CRAs Verdes como “incentivo a práticas sustentáveis”. Sob o manto da sustentabilidade, abre-se margem para mais um nicho em que o investimento financeiro encontra valorização fortalecendo econômica e politicamente os latifúndios. Vale ressaltar que a concentração de terras e a propriedade latifundiária no Brasil, cujas raízes estão no sistema colonial, está de mãos dadas com o desemprego, a precariedade das condições de trabalho no campo, a migração para as cidades e incremento do exército de reserva e, consequentemente, os mecanismos de superexploração, seja no campo ou na cidade (Ianni, 2019). Além disso, a expansão da fronteira agrícola por conta das atividades produtivas na agricultura e na pecuária monopolistas, é a grande promotora de desmatamento e invasão de terras de povos originários e outros povos e comunidades tradicionais (Martins, 2024).

Outro exemplo que nos ajuda a perceber o ecologismo acrítico como um motor da dependência está na expansão dos empreendimentos para geração de energia a partir de fontes renováveis, com destaque para os parques eólicos no Brasil. Tais empreendimentos, que mobilizam intensamente um imaginário de sustentabilidade, vêm provocando enormes impactos sociais e ambientais nos territórios, sobretudo para povos e comunidades tradicionais e se tornaram um grande nicho para a acumulação de capital para monopólios internacionais e para o capital financeiro que investe largamente nesses empreendimentos (Brannstrom et al., 2019). Assim, além dos impactos ambientais das próprias estruturas tecnológicas, reforçam os mecanismos estruturais de transferência de valor e superexploração, promovem expropriações e concentração de terras (Brannstrom et al., 2019).

Além de atuar na “limpeza” da imagem de práticas econômicas destrutivas e como impulso à atividades para acumulação de capital nas esferas que reforçam a condição dependente, o ecologismo acrítico ainda serve como elemento de distensionamento do conjunto do sistema produtivo da economia dependente em relação à questão ambiental e climática. A própria condição de economia dependente configura relações produtivas que submetem os sistemas ecológicos locais a uma intensa destrutividade (Palar; Granato, 2023). A exploração destrutiva dos recursos naturais é elemento que mantém o próprio ciclo da dependência, como podemos ver nos impactos das atividades petrolífera e agro-mineiro-exportadoras. Frente a essa realidade, apoiar-se nas diferentes manifestações de ecologismo acrítico, ainda que em franca contradição com a estrutura produtiva, atua no sentido de ocultar os fundamentos da destrutividade ambiental na realidade dependente.

Assim, enquanto se mantém os mecanismos de desenvolvimento dependente, sobretudo no que diz respeito à subordinação ao capital imperialista (notadamente o financeiro), às formas de transferência de valor (que se expressam, por exemplo, no intercâmbio desigual entre produtos primário-exportadores e produtos manufaturados, no pagamento de royalties, serviços da dívida, remessas de lucros e dividendos etc.), à predominância do latifúndio e das atividades extrativistas primário-exportadoras, intensificadas pela necessidade de remunerar os investimentos financeiros, e as formas de superexploração da força de trabalho, no Brasil se divulga uma agenda verde que ora reforça esses mecanismos, ora busca ocultá-los. Nesse sentido, a agenda político-econômica pautada pelo ecologismo acrítico tem sido uma aliada da dependência e do reforço das posições das classes dominantes dominadas no país e daquelas do capitalismo central.

Considerações finais

Iniciamos este texto apontando contradições entre o que a realização das COP, em especial a COP30, realizada no Brasil, promete promover, e uma série de fatos que vêm acontecendo na atual conjuntura brasileira. De um lado, o país aprofunda uma agenda de fortalecimento de seu caráter dependente, sobretudo como paraíso para a acumulação do capital financeiro e pelo fortalecimento de atividades primário-exportadoras como carro-chefe do modelo político-econômico adotado. De outro, busca atrair os olhares para um suposto compromisso com o combate à mudança climática, desmatamento e outros problemas ambientais prementes.

Contudo, o debate e a agenda ambiental promovidos, seja na COP, seja nas políticas adotadas e na perspectiva hegemônica no debate ambiental, não apontam para o enfrentamento às causas da crise ambiental. Ao contrário, às reforçam, por um lado impulsionando os negócios, a capitalização e o lucro com a crise promovida pela própria lógica de reprodução do sistema capitalista, por meio das soluções verdes do mercado, de outro como espaço para lavagem verde de empresas e atividades que promovem enormes impactos ambientais e sociais.

Para o contexto de capitalismo dependente, o ecologismo acrítico que busca dar sustentação ideológica para essas propostas reforça justamente as atividades produtivas e a lógica de produção que expressam a condição dependente, em sua vinculação subordinada ao capital imperialista e no reforço dos mecanismos da dependência, como a transferência de valor, a separação entre a estrutura produtiva e as necessidades das massas e a superexploração da força de trabalho. Destaca-se, nesse sentido, o impacto desses mecanismos alimentados pela ideologia do capitalismo verde sobre a classe trabalhadora no campo e na cidade, mas também sobre povos e comunidades tradicionais, povos indígenas e campesinato. É a dependência sob um verniz verde, como buscamos exemplificar.

Frente a esse cenário, é fundamental que a disputa pela sobrevivência das condições de vida humana, o enfrentamento à mudança climática e aos graves problemas ambientais de nosso tempo, para os povos latino-americanos, seja também a disputa por um projeto contra a condição dependente, ou seja, anti-imperialista. Como Marini (2019) ensinou, discutindo o golpe empresarial-militar, é fundamental definirmos o caráter da crise para estabelecermos o conteúdo da transformação necessária. Se, como vimos, o caráter da crise ecológica, em particular nas economias dependentes, tem a ver com o próprio desenvolvimento capitalista em sua particularidade, não é possível superá-la com mais capitalismo, seja verde ou não. A superação da crise ambiental só é possível superando a condição dependente e, portanto, o próprio capitalismo. É essa condição inevitável que o ecologismo acrítico busca velar.

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