Paisagem e patrimônio: impressões da história no ambiente natural
Analisar a relação entre os seres humanos e o ambiente natural ao largo do processo histórico é pensar em interações dinâmicas, não somente nos diferentes contextos, mas também nas distintas esferas de uma sociedade. Dessa relação, se constroem paisagens socioambientais, onde a exploração do recurso natural e as atividades relacionadas ao trabalho são resultantes da mútua atuação entre humanos e não humanos sobre o meio.
Sendo compreendidas as paisagens como manifestações espaciais dessa atuação contínua, são oferecidos objetos de estudo aos historiadores/as ambientais, enquanto ferramentas de compreensão sobre as variadas facetas das sociedades, desde os conflitos à preservação; desde os discursos à atuação. Frente as emergências ambientais da atualidade, a ideia de patrimônio natural/cultural tem ganhado protagonismo não somente ao que se refere à valorização de ecossistemas ameaçados de extinção. Institucionalizados ou não, os patrimônios paisagísticos, como são considerados na presente publicação, além das tentativas de preservação do universo natural, inclui igualmente a presença humana no meio e as consequentes transformações sócio ecológicas.
Assim, este volume procura apresentar reflexões e estudos de caso sobre referencias histórico-culturais impressos na paisagem, evidenciando as percepções do meio e a sua inter-relação com as populações humanas pretéritas e atuais. Portanto, reunimos trabalhos de historiadores/as ambientais da Argentina e do Brasil com a intenção de apresentar investigações atuais sobre o tema nos dois países vizinhos.
Os trabalhos de Juan Manuel Cerdá e Facundo Martín, Cristina Prieto Olavarría e Horacio Chiavazza, Facundo Rojas e Lucrecia Wagner e de Osvaldo Sironi e Marcelo Giraud, abordam temáticas como a domesticação da paisagem vitivinícola no Valle de Uco, em Mendoza; a construção da paisagem e o patrimônio nas montanhas do centro argentino; o inventário de glaciais na Argentina: polémicas públicas e disputas de sentido e finalmente, o patrimônio mineiro e territórios de proteção socioambiental: uma proposta para o reforço do projeto de Lei de Área Natural Protegida Uspallata-Polvaredas na província de Mendoza. Os trabalhos estão definidos geograficamente no oeste da República Argentina, na região de Cuyo, em especial as províncias de Mendoza e San Juan.
Osvaldo Sironi e Marcelo Giraud buscam refletir criticamente sobre as controvérsias sociotécnicas associadas aos projetos e interesses em disputa em áreas de mineração da província de Mendoza, desde a década de 1970. O trabalho de arquivamento e entrevistas com atores-chave são a base deste trabalho de valorização da propriedade e do uso sustentável do território.
Juan Manuel Cerdá e Facundo Martin apresentam um trabalho sobre o Vale do Uco, que nos últimos duzentos anos passou por diversos processos de ocupação humana e foi explorado para a produção de diversas atividades. No entanto, a partir da conversão de vinhos do final do século passado, quando esse espaço “natural” se tornou ícone da nova empresa vinícola argentina, a paisagem foi domesticada para a produção de bens e serviços associados a esse espaço.
Facundo Rojas e Lucrecia Wagner, em seu trabalho sobre o inventário de geleiras na Argentina, controvérsias públicas e disputas de significado, examinam a trajetória de dois dos atores centrais para a realização da segunda sanção da lei das geleiras: o setor científico e as assembleias socioambientais. Ao descrever essas trajetórias e as evidências das controvérsias que levaram um dos atores a iniciar um processo contra o outro, se reflete sobre as potenciais consequências dessa discordância em relação à atual situação da lei das geleiras.
Cristina Prieto Olavarría e Horacio Chiavazza apresentam em seu capítulo uma primeira abordagem ao papel da arqueologia nos processos de patrimonialização da região montanhosa do norte de Mendoza. A partir de um arcabouço conceitual que define o patrimônio como construção social das propostas da arqueologia paisagística e da revisão de bens declarados e pesquisas arqueológicas e patrimoniais, os autores refletem sobre o papel que tem tido a disciplina e as ações que poderiam melhorar na sua interferência no campo do patrimônio.
Do lado brasileiro, o capítulo de autoria de Dora Shellard e Jaime Tadeu Oliva é um exercício orientado à reflexão sobre as imagens criadas e a elaboração da narrativa. A partir dessas imagens criadas, os autores propõem identificar os possíveis fragmentos dos seguintes cenários: as terras circunscritas pelos rios Paraná, Paranapanema, Tibagi e Iguaçu e cortadas pelos rios Ivaí e Piqueri, no atual estado do Paraná (Brasil), entre os séculos XVII e XIX. Assim, buscam apresentar uma metodologia que se aplique aos estudos das paisagens do passado.
Também com a tentativa de trazer à tona, informações obscurecidas nos documentos históricos, Rogério Oliveira, Adi Lazos Ruiz e Marcela Kropf apresentam o entendimento da paisagem natural como produto da agência e do trabalho humano. O capítulo se concentra em duas vertentes: a primeira reconhece nos estudos paisagísticos o papel da sucessão ecológica e da erosão geomorfológica, que podem atuar em conjunto para esconder as marcas de trabalhos anteriores nas paisagens; a segunda considera que os/as historiadores/as ambientais podem estar inseridos em contextos culturais e tecnológicos distantes do objeto estudado, causando leituras errôneas sobre as paisagens. Segundo os/as autores/as, métodos que recriam as condições físicas e culturais do trabalho podem trazer à tona histórias não contadas oficialmente. Muitas dessas histórias se encontram atualmente ocultas em áreas de preservação ambiental valorizadas como patrimônios naturais, porém, em sua maioria, não destacam o trabalho humano pretérito em suas paisagens.
Já no capítulo de Diogo Cabral, a prática da escrita é trabalhada como agente no processo de criação de espacialidades. Em seu texto são discutidas as implicâncias geográficas relacionadas ao alfabetismo no transcurso da colonização portuguesa no Brasil durante os séculos XVI e XVII. O autor parte do princípio de que qualquer texto escrito é uma representação comprimida de ambientes concretos e um esquema para percebê-los e enfrentá-los. Por meio da espacialização colonial das práticas alfabéticas teria sido produzida a legibilidade de novas geografias humanas sobre as paisagens e meios de subsistência nativos. Desta maneira, novas paisagens se criavam na medida em que se transformava não somente o meio biofísico (ocupação), mas também o seu sentido imagético.
Por fim, no capítulo escrito por Marcela Kropf, Silvia Ferro e Rogério Oliveira, a questão das áreas de proteção de fronteiras é abordada como relevante nas políticas de conservação da natureza, permitindo o cooperativismo e integração política, social e cultural do território. O objetivo da pesquisa é contribuir para os estudos baseados em análises comparativas entre áreas protegidas de fronteira do continente europeu e americano, com especial atenção a América Latina. Como resultado da pesquisa, destaca-se a importância social e geopolítica do patrimônio natural gerenciado por meio da cooperação transnacional para a conservação dos atributos culturais e ecológicos das paisagens.
Esperamos que aproveitem o recorrido pelas diferentes paisagens a serem exploradas nesse volume e que a pesquisa em história ambiental possa contribuir para o processo de conhecimento, educação e preservação das paisagens sócio-ecológicas de nossa querida América Latina.
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