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Colonialismo ou ecossocialismo

O futuro da América Latina

Michael Löwy

Introdução

Somos confrontados nos nossos dias com uma crise do atual modelo de civilização, a civilização ocidental moderna capitalista/industrial, baseada na expansão e acumulação ilimitadas de capital, na “mercantilização de tudo” (Wallerstein, 2001), na exploração impiedosa do trabalho e da natureza, no individualismo, na competição brutal e na destruição maciça do ambiente. A ameaça crescente de rutura do equilíbrio ecológico aponta para um cenário catastrófico – o aquecimento global – que põe em perigo a própria sobrevivência da espécie humana. Estamos perante uma crise de civilização que exige uma mudança radical.

Há alguns anos, quando se falava dos perigos de catástrofes ecológicas, os autores se referiam ao futuro dos nossos netos ou bisnetos, a algo que estaria no futuro logínquo, dentro de cem anos. Agora, porém, o processo de devastação da natureza, de deterioração do meio ambiente, e de mudança climática se acelerou a tal ponto que não estamos mais discutindo de um futuro a longo prazo. Estamos discutindo processos que já estão em curso – a catástrofe já começou, esta é a realidade. Os imensos incêndios de florestas, as secas, o desaparecimento de rios, as gigantescas inundações, as temperaturas estivais de 50° são alguns dos sintomas da crise. E realmente estamos numa corrida contra o tempo para tentar impedir, brecar, conter esse processo desastroso.

Como se sabe, o processo de mudança climática resulta da acumulação na atmosfera dos gases de efeito de estufa emitidos pelas energias fósseis (petróleo, carvão, gás) utilizadas pela indústria, agronegócio e sistema de transporte existentes nas sociedades capitalistas modernas. O capitalismo funciona, há três séculos, graças à utilização massiva das energias fósseis e não mostra nenhum sinal de procurar abandoná-las. As energias renováveis (sol, vento, água) existem e se desenvolvem, mas como complemento, não para substituir as fósseis. Esta é a razão por que as mortíferas emissões de gases não cessam de aumentar e de se acumular na atmosfera, produzindo um clima cada vez mais quente.

Esta mudança climática, que já começou, terá como resultado não só o aumento da temperatura em todo planeta, mas a desertificação de setores inteiros de vários continentes, a elevação do nível do mar e o desaparecimento de cidades marítimas – Veneza, Amsterdam, Hong-Kong, Rio de Janeiro – debaixo do oceano. Uma série de catástrofes que se colocam no horizonte dentro de – não se sabe – vinte, trinta, quarenta anos, isto é, no futuro próximo.

Tudo isso não resulta do excesso de população, como dizem alguns, nem da tecnologia em si, abstratamente, ou tampouco da má vontade do gênero humano. Trata-se de algo muito concreto: das consequências do processo de acumulação do capital, em particular na sua forma atual, da globalização neoliberal sob a hegemonia do império estadunidense. Este é o elemento essencial, motor desse processo e dessa lógica destrutiva que corresponde à necessidade de expansão ilimitada – aquilo que Hegel chamava de “má infinitude” –, um processo infinito de acumulação de mercadorias, acumulação do capital, acumulação do lucro, que é inerente à lógica do capital.

Não se trata da “má vontade” de tal ou qual multinacional, ou governo, mas, da lógica intrinsecamente perversa do sistema capitalista, baseado na concorrência impiedosa, nas exigências de rentabilidade, na corrida atrás do lucro rápido; uma logica que é necessariamente destruidora do meio ambiente e responsável da catastrófica mudança do clima.

A questão da ecologia, do meio ambiente, é a questão do capitalismo. Parafraseando a observação “se você não quiser falar do capitalismo, é melhor não falar do fascismo”, cunhada pelo filósofo da Escola de Frankfurt Max Horkheimer (1939, p. 115), eu diria também: se você não quer falar do capitalismo, não adianta falar do meio ambiente, porque a questão da destruição, da devastação, do envenenamento ambiental é produto do processo de acumulação do capital. Logo, a questão que se coloca é a de uma alternativa, mas de uma alternativa que seja radical.

As tentativas de soluções “moderadas” se revelam completamente incapazes de enfrentar esse processo catastrófico. Os governos abertamente ecocidas (a exemplo de Donald Trump) recusam qualquer medida ecológica. Por sua vez, os mais “razoáveis” (representados pela Europa) propõem resolver o problema das emissões de gases de estufa através do assim chamado “mercado dos direitos de poluir”: as empresas que emitem mais CO2 vão comprar de outras, que poluem menos, direitos de emissão. Isto seria “a solução” do problema para o efeito estufa. Obviamente, as soluções que aceitam as regras do jogo capitalista, que se adaptam às regras do mercado, que aceitam a lógica de expansão infinita do capital, não são soluções, afinal, são incapazes de enfrentar à crise ambiental – uma crise que se transforma, devido à mudança climatica, numa crise de sobrevivência da espécie humana.

1. Dependência e crise climática global

As principais vítimas do dramático processo de aquecimento global são os países do Sul Global e, entre eles, a América Latina (ou afro-indo-América ou Abya Ayala). Apesar de formalmente independentes, os países latino-americanos não deixam de ser colonizados pelos impérios do Norte e em particular pelo imperialismo estadunidense. Isto já havia sido previsto por José Carlos Mariátegui em 1928:

Contra a América do Norte capitalista, plutocrática, imperialista, só é possível opor eficazmente uma América, latina ou ibérica, socialista. A época da livre concorrência na economia capitalista terminou em todos os campos e todos os aspectos. Estamos na época dos monopólios, isto é, dos impérios. Os países latino-americanos chegaram com atraso na competição capitalista. Os primeiros lugares já estão definitivamente repartidos. O destino destes países, dentro da ordem capitalista, é o de simples colônias (Mariátegui, 1971, p. 241).

Esta colonialidade, já analisada pela teoria da dependência nos anos 1960 e 1970, se manifesta também no terreno ambiental ou ecológico. Através do extrativismo de energias fósseis – petróleo, carvão, gás – ou de minerais, os impérios que controlam, de forma direta ou indireta, as economias latino-americanas, provocam estragos ambientais irreversíveis, em particular nas florestas tropicais, mas também nos rios e no solo. Mesmo governos anti-imperialistas, como o de Hugo Chávez, que nacionalizou o petróleo, não conseguiram se libertar da dependência em relação ao mercado mundial, e a Venezuela continuou a ser um país que exporta petróleo, mas tem que importar sua alimentação. O mesmo vale, em certa medida, para o Brasil, com a agravante que a companhia nacional, a Petrobras, partilha a exploração do petróleo com empresas multinacionais. Este petróleo, além da destruição dos ecossistemas locais, contribui para o processo de mudança climática que atinge cada vez mais as populações do continente.

Outro aspecto desta dependência semicolonial é o agronegócio capitalista, frequentemente controlado, de forma direta ou indireta, pelas multinacionais imperialistas. No caso do Brasil – mas o mesmo vale para vários outros países do continente – o agronegócio promove ativamente, através da criação de gado e do plantio de soja, a destruição sistemática da Floresta Amazônica, com consequências dramáticas não só para os povos da floresta – indígenas, camponeses, quilombolas – mas para todos os brasileiros, que dependem dos rios de chuva da Amazônia para sua sobrevivência. Sem falar do impacto global, já que a Amazônia é um dos últimos grandes “poços de carbono” que absorve o CO2 da atmosfera e limita o aquecimento. Cabe acrescentar que este modelo agrícola é baseado no uso massivo de pesticidas, com consequências desastrosas para a biodiversidade (desaparecimento das abelhas, por exemplo) e para a saúde da população.

O agronegócio produz commodities para o mercado mundial, a soja serve para alimentar os porcos nos países do Norte Global. A economia do país depende, portanto, das flutuações desse mercado, como no caso do petróleo e dos minerais no modelo extrativista. Através desses mecanismos extrativistas e agrícolas, as economias da América Latina são controladas pelas multinacionais e atreladas ao mercado capitalista mundial, dominado pelas potências imperialistas – com consequências ambientais profundamente negativas a curto, médio e longo prazo.

Os governos da América Latina, com muitas poucas exceções, defendem o modelo existente em nome do “desenvolvimento”. Argumenta-se que o petróleo – ou os minérios, ou as commodities do agronegócio – vai financiar o desenvolvimento. Mas se trata, como já havia apontado há muitos anos André Gunder Frank (1966), do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”. A miragem que projetam as elites do continente é a de “alcançar o primeiro mundo”, e copiar, em seus países, o modo de vida estadunidense. Como demonstra a história da América Latina há mais de um século, isto não é possível, pelas razões já assinaladas por José Carlos Mariátegui em 1928. Além do que, um tal projeto é ecologicamente inviável: já se calculou que se o conjunto da população do planeta vivesse segundo o American way of life seriam necessárias cinco Terras para fornecer as matérias-primas necessárias[1].

Os povos da Afro-Indo-América precisam de outros modelos de desenvolvimento, que não privilegiem o extrativismo ou a exportação de commodities. Uma primeira condição para isto é a decolonização da economia, da política e da sociedade, uma ruptura com a dominação e o controle exercido pelos centros imperialistas sobre a América Latina. Expropriar as multinacionais, recusar o pagamento da exorbitante “dívida externa” e expulsar as bases militares estadunidenses são algumas das medidas necessárias.

A economia deve estar a serviço das verdadeiras necessidades da grande maioria da população, respeitando os equilíbrios ecológicos: hospitais, escolas, redes de esgotos, habitações, produtos de primeira necessidade. Mas não há razão para que isso não possa ser feito com um sistema produtivo que respeite o ambiente e se baseie em energias renováveis. Estes países terão de produzir grandes quantidades de alimentos para a sua população faminta: a luta pela soberania alimentar é fundamental. Isto pode ser muito melhor conseguido – como os movimentos camponeses organizados em todo o mundo na rede da Via Campesina têm vindo a defender há anos – através de uma agricultura biológica camponesa baseada em unidades familiares, cooperativas ou explorações coletivistas, em vez dos métodos destrutivos e antissociais do agronegócio industrializado, baseado na utilização intensiva de pesticidas, produtos químicos e organismos geneticamente modificados (OGM).

A produção industrial deve estar orientada para necessidades sociais, em vez de servir ao consumismo das elites enriquecidas: em vez de automóveis de luxo, yachts, aviões privados, é importante produzir bondes, ônibus e metrôs para um transporte coletivo gratuito. Do mesmo modo, o espaço urbano deverá privilegiar as bicicletas e os pedestres, não os automóveis. O transporte de mercadorias pelo trem ou por via fluvial substituirá os caminhões, nefastos para o meio ambiente pela poluição e emissão de CO2 que produzem.

Algumas destas propostas podem ser realizadas se houver suficiente auto-organização e mobilização popular, ainda nos limites do capitalismo. No Brasil, o MST se tornou um ator político essencial no desenvolvimento de uma agricultura ecológica, voltada para a alimentação popular, tendo se tornado o principal produtor de arroz orgânico do país.

Mas para realizar as mudanças fundamentais e salvar os ecossistemas ameaçados é necessário romper com a lógica do sistema capitalista e iniciar uma transição em direção ao ecossocialismo.

2. O que é o ecossocialismo?

O ecossocialismo é uma tentativa de oferecer uma alternativa civilizacional radical para o futuro, uma alternativa que propõe um outro horizonte histórico, mais além do capitalismo, mais além das regras de acumulação capitalista e da lógica do lucro e da mercadoria. Trata-se de uma proposta baseada nos argumentos do movimento ecológico e da crítica marxista da economia política. Opõe ao “progresso destrutivo” capitalista (Marx, 2011) uma política econômica fundada em critérios não monetários e extraeconômicos: as necessidades sociais e o equilíbrio ecológico. Esta síntese dialética, tratada por um largo espectro de autores, de James O’Connor a Joel Kovel e John Bellamy Foster, e de André Gorz a Ian Angus e Daniel Tanuro, é ao mesmo tempo uma crítica da “ecologia de mercado”, que não contesta o sistema capitalista, e do “socialismo produtivista” (representado pela URSS), que ignora a questão dos limites naturais. Na América Latina, o ecossocialismo tem encontrado um interesse crescente: vários encontros ecossocialistas continentais tiveram lugar, no Brasil existe uma Rede Ecossocialista Brasileira, e vários autores, como o peruano Renan Vega, ou os brasileiros Arlindo Rodrigues e Sabrina Fernandes, têm contribuído para a reflexão ecossocialista.

A proposta ecossocialista é válida tanto para os países industriais avançados do Norte como para os países do Sul Global – é claro que com modalidades adaptadas às características de cada região ou país. Na verdade, há mais possibilidades de que um ou vários países da América Latina tomem o caminho do ecossocialismo do que os Estados Unidos. Como já havia apontado José Carlos Mariátegui, existem em muitos países de Abya Ayala tradições coletivistas e comunitárias indígenas, bem como uma relação destas comunidades com a natureza, que prefiguram o ecossocialismo. Hugo Blanco, o célebre líder indigenista peruano, declarou certa vez: “Nós, os indígenas, já praticamos o ecossocialismo há cinco séculos!”.

O ecossocialismo exige uma mudança radical do aparelho produtivo. Há que suprimir setores inteiros do sistema produtivo – a começar pelos combustíveis fósseis (petróleo, carvão) responsáveis pelas alterações climáticas – ou reestruturar novos setores, sob a condição necessária do pleno emprego de toda a força de trabalho, em igualdade de condições de trabalho e de salário. Esta condição é essencial, não só porque é uma exigência de justiça social, mas também para garantir o apoio dos trabalhadores ao processo de transformação estrutural das forças produtivas. Este processo é impossível sem o controle público dos meios de produção e da planificação, ou seja, sem as decisões públicas sobre os investimentos e as mudanças tecnológicas, que devem ser retiradas dos bancos e das empresas capitalistas – locais e multinacionais – a fim de servir ao bem comum da sociedade.

A sociedade, e não uma pequena oligarquia de proprietários – nem uma elite de tecnoburocratas –, poderá escolher democraticamente as linhas de produção a privilegiar e os recursos a investir na educação, na saúde ou na cultura. Os próprios preços dos bens não seriam deixados às “leis da oferta e da procura”, mas, em certa medida, determinados de acordo com opções sociais e políticas, bem como com critérios ecológicos, levando a impostos sobre certos produtos e a preços subsidiados para outros. O ideal seria que, à medida que a transição para o ecossocialismo avançasse, cada vez mais produtos e serviços fossem distribuídos gratuitamente, de acordo com a vontade dos cidadãos. Longe de ser “despótica” em si mesma, a planificação é o exercício, por toda uma sociedade, da sua liberdade: liberdade de decisão e libertação das “leis econômicas” alienadas e reificadas do sistema capitalista, que determina a vida e a morte dos indivíduos e os encerra em uma “gaiola de ferro” econômica (Weber, 2004). O planejamento e a redução do tempo de trabalho são os dois passos decisivos da humanidade para aquilo a que Marx chamou “o reino da liberdade”. Um aumento significativo do tempo livre é, de fato, uma condição para a participação democrática do povo trabalhador na discussão e gestão democrática da economia e da sociedade.

A concepção socialista da planificação não é outra coisa senão a democratização radical da economia: se as decisões políticas não devem ser deixadas a uma pequena elite de governantes, por que não aplicar o mesmo princípio às decisões econômicas? Deixo de lado a questão da proporção específica entre os mecanismos de planejamento e de mercado: durante as primeiras fases de uma nova sociedade, os mercados manterão certamente um lugar importante, mas à medida que a transição para o socialismo avança, o planejamento tornar-se-á cada vez mais predominante, em oposição às leis do valor de troca.

Enquanto no capitalismo o valor de uso é apenas um meio, muitas vezes um truque a serviço do valor de troca e do lucro – o que explica, aliás, por que tantos produtos da sociedade atual são substancialmente inúteis –, em uma economia socialista planificada o valor de uso é o único critério para a produção de bens e serviços, com consequências econômicas, sociais e ecológicas de grande alcance.

Em uma produção racionalmente organizada, o plano diz respeito às principais opções econômicas e não à administração de restaurantes, mercearias e padarias locais, pequenas lojas, empresas artesanais ou serviços. É importante sublinhar que o planejamento não é contraditório com a autogestão dos trabalhadores das suas unidades produtivas. Enquanto a decisão de transformar uma fábrica de automóveis em uma fábrica de bondes elétricos é tomada pela sociedade no seu conjunto, através do plano, a organização interna e o funcionamento da fábrica devem ser geridos democraticamente pelos seus próprios trabalhadores. Tem havido muita discussão sobre o caráter “centralizado” ou “descentralizado” do planejamento, mas pode argumentar-se que a verdadeira questão é o controle democrático do plano, em todos os seus níveis: local, regional, nacional, continental e, esperemos, internacional. Questões ecológicas como o aquecimento global são planetárias e só podem ser tratadas efetivamente em escala global. Poder-se-ia chamar a esta proposta de planejamento democrático global, isto é, o oposto do que é normalmente descrito como “planejamento central”, uma vez que as decisões econômicas e sociais não seriam tomadas por nenhum “centro”, mas democraticamente decididas pela população interessada.

O planejamento ecossocialista baseia-se, portanto, em um debate democrático e pluralista, a todos os níveis em que as decisões devem ser tomadas. Diferentes propostas são apresentadas às pessoas interessadas, sob a forma de partidos, plataformas ou quaisquer outros movimentos políticos, e os delegados são eleitos em conformidade. No entanto, a democracia representativa deve ser completada – e corrigida – pela democracia direta, em que as pessoas escolhem diretamente – a nível local, nacional e, mais tarde, global – entre as grandes opções sociais e ecológicas: os transportes públicos devem ser gratuitos? Os proprietários de automóveis particulares devem pagar impostos especiais para subsidiar os transportes públicos? O horário de trabalho semanal deve ser reduzido para 30 horas, 25 horas ou menos, mesmo que isso implique uma redução da produção? O caráter democrático do planejamento não é contraditório com a existência de especialistas. Porém, o seu papel não é decidir, mas apresentar os seus pontos de vista – muitas vezes diferentes, se não contraditórios – à população, e deixá-la escolher a melhor solução.

A passagem do “progresso destrutivo” capitalista ao ecossocialismo é um processo histórico, uma transformação revolucionária permanente da sociedade, da cultura e das mentalidades. Essa transição conduziria não só a um novo modo de produção e a uma sociedade igualitária e democrática, mas também a um modo de vida alternativo, a uma nova civilização ecossocialista, para além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente produzidos pela publicidade, e da produção ilimitada de mercadorias inúteis e/ou nocivas ao meio ambiente. É importante enfatizar que tal processo não pode começar sem uma transformação revolucionária das estruturas sociais e políticas, e o apoio ativo, pela vasta maioria da população, de um programa ecossocialista. O desenvolvimento da consciência socialista e da consciência ecológica é um processo em que o fator decisivo é a própria experiência coletiva de luta dos povos, desde os confrontos locais e parciais até a mudança radical da sociedade.

O ecossocialismo exige uma espécie de decrescimento qualitativo. Isso significa acabar com o monstruoso desperdício de recursos do capitalismo, baseado na produção, em grande escala, de produtos inúteis e/ou nocivos. A indústria bélica é um bom exemplo, mas uma grande parte dos “bens” produzidos no capitalismo – com a sua obsolescência intrínseca – não têm outra utilidade senão gerar lucro para as grandes corporações. A questão não é o “consumo excessivo” em abstrato, mas o tipo de consumo prevalecente, baseado na apropriação conspícua, no desperdício maciço, na alienação mercantil, na acumulação obsessiva de bens e na aquisição compulsiva de pseudonovidades impostas pela “moda”. Uma nova sociedade orientaria a produção para a satisfação de necessidades autênticas, a começar por aquelas que se poderiam qualificar de “bíblicas” – água, alimentação, vestuário, habitação – mas incluindo também os serviços de base: saúde, educação, transporte e cultura. A obsolescência programada será substituída pela produção de bens duráveis e reparáveis, o que permitirá reduzir consideravelmente a quantidade produzida. Na América Latina, a fim de satisfazer as necessidades sociais, será necessário desenvolver infraestrutura e serviços públicos em grande escala. O decrescimento seletivo terá como alvo principal o agronegócio exportador, os bens de consumo das elites, e, como nos países do Norte, a obsolescência programada.

Como distinguir as necessidades autênticas das artificiais, falsas e improvisadas? Estas últimas são induzidas pela manipulação mental, ou seja, a publicidade. O sistema publicitário invadiu todas as esferas da vida humana nas sociedades capitalistas modernas: não só a alimentação e o vestuário, mas também o esporte, a cultura, a religião e a política são moldados de acordo com as suas regras. Invadiu as nossas ruas, caixas de correio, telas de televisão, jornais, paisagens, de uma forma permanente, agressiva e insidiosa, e contribui decisivamente para hábitos de consumo conspícuo e compulsivo. Além disso, desperdiça uma quantidade astronômica de petróleo, eletricidade, tempo de trabalho, papel, produtos químicos e outras matérias-primas – tudo pago pelos consumidores – em um ramo de “produção” que não só é inútil, do ponto de vista humano, como está em contradição direta com as reais necessidades sociais. Se a publicidade é uma dimensão indispensável da economia de mercado capitalista, não teria lugar em uma sociedade em transição para o socialismo, na qual seria substituída por informações sobre bens e serviços fornecidos por associações de consumidores. O critério para distinguir uma necessidade autêntica de uma necessidade artificial é a sua persistência após a supressão da publicidade (Coca Cola!). É claro que, durante alguns anos, os velhos hábitos de consumo persistirão, e ninguém tem o direito de dizer às pessoas quais são as suas necessidades. A mudança nos padrões de consumo é um processo histórico, bem como um desafio educacional.

O ecossocialismo baseia-se em uma aposta que já era de Marx: a predominância, em uma sociedade sem classes e liberta da alienação capitalista, do “ser” sobre o “ter”, isto é, do tempo livre para a realização pessoal através de atividades culturais, desportivas, lúdicas, científicas, eróticas, artísticas e políticas, em vez do desejo de uma posse infinita de produtos. A aquisição compulsiva é induzida pelo fetichismo da mercadoria inerente ao sistema capitalista, pela ideologia dominante e pela publicidade: nada prova que faça parte de uma “natureza humana eterna”, como o discurso reacionário nos quer fazer crer.

Isso não significa que não surgirão conflitos, sobretudo durante o processo de transição, entre as exigências de proteção do ambiente e as necessidades sociais, entre os imperativos ecológicos e a necessidade de desenvolver infraestruturas básicas, sobretudo nos países pobres, entre os hábitos de consumo popular e a escassez de recursos. Uma sociedade sem classes não é uma sociedade sem contradições e conflitos. Estes são inevitáveis e caberá à planificação democrática, a partir de uma perspectiva ecossocialista, liberta dos imperativos do capital e do lucro, resolvê-los, através de uma discussão pluralista e aberta, que conduza à tomada de decisões pela própria sociedade. Esta democracia de base e participativa é a única forma, não de evitar erros, mas de permitir a autocorreção, pela coletividade social, dos seus próprios erros.

Será isso utopia? No seu sentido etimológico – “algo que não existe (ainda) em lado nenhum” –, certamente. Mas as utopias, ou seja, as visões de um futuro alternativo, as imagens de uma sociedade diferente, não são uma caraterística necessária de qualquer movimento que queira desafiar a ordem estabelecida? A utopia socialista e ecológica é apenas uma possibilidade objetiva, não o resultado inevitável das contradições do capitalismo ou das “leis de ferro da história”. Não se pode prever o futuro, exceto em termos condicionais: na ausência de uma transformação ecossocialista, de uma mudança radical do paradigma civilizacional, a lógica do capitalismo conduzirá o planeta a catástrofes ecológicas dramáticas, ameaçando a saúde e a vida de milhares de milhões de seres humanos, e talvez mesmo a sobrevivência da nossa espécie.

Considerações finais

Sonhar, e lutar, por uma nova civilização não significa que não se lute por reformas concretas e urgentes. Sem ilusões quanto a um “capitalismo limpo”, há que tentar ganhar tempo e impor, aos poderes instituídos, algumas mudanças elementares: a proibição dos HCFCs (hidroclorofluorcarbonos) que destroem a camada de ozônio, uma moratória geral sobre os organismos geneticamente modificados, a redução drástica das emissões de gases com efeito de estufa, o desenvolvimento dos transportes públicos, a tributação dos automóveis poluentes, a substituição progressiva dos caminhões por trens, uma regulamentação severa da indústria das pescas, bem como da utilização de pesticidas e produtos químicos na produção agroindustrial.

Estas exigências ecossociais urgentes podem conduzir a um processo de radicalização, desde que não se aceite limitar os objetivos de acordo com as exigências do “mercado ” ou da “competitividade”. De acordo com a lógica daquilo a que os marxistas chamam “programa de transição”, cada pequena vitória, cada avanço parcial pode levar imediatamente a uma exigência maior, a um objetivo mais radical. Na América Latina, tem um papel decisivo as lutas contra os crimes ecocidas das multinacionais imperialistas, pela expropriação dos monopólios colonizadores e pela recusa de pagar a dívida odiosa.

Essas lutas em torno de questões concretas são importantes, não apenas porque as vitórias parciais são bem-vindas em si mesmas, mas também porque contribuem para aumentar a consciência ecológica e socialista, e porque promovem a atividade e a auto-organização a partir de baixo: ambas são precondições decisivas e necessárias para uma transformação radical, isto é, revolucionária, do mundo.

Não há razões para otimismo: as elites dominantes entrincheiradas do sistema são incrivelmente poderosas e as forças de oposição radical são ainda pequenas. Mas elas são a única esperança de travar o curso catastrófico do “crescimento” capitalista. Walter Benjamin definiu as revoluções como sendo não a locomotiva da história, como Marx escreveu um dia, mas a humanidade que aciona os freios de emergência do trem, antes que este se afunde no abismo.

Referências bibliográficas

Frank, A. G. (1966). The development of underdevelopment. Monthly Review: An Independent Socialist Magazine, 18(4). https://doi.org/10.14452/MR-018-04-1966-08_3.

Horkheimer, M. (1939). Die Juden und Europa. Studies in Philosophy and Social Science, 8(1). (Reimpressão: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1980).

Mariátegui, J. C. (1928). Aniversario y Balance. En Ideología y política (Obras completas, Vol. 13, p. 248). Ed. Amauta, 1971.

Marx, K. (2011). O Capital: crítica da economia política. Livro I – O processo de acumulação do capital (R. Enderle, Trad.; 2ª ed.). Boitempo.

Wallerstein, I. (2001). Capitalismo histórico e civilização capitalista (R. Aguiar, Trad.; C. Benjamin, Rev. técnica). Contraponto.

Weber, M. (2004). A ética protestante e o espírito do capitalismo. Companhia das Letras.




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