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7 Salvador da Bahia: um percurso [e algumas paradas] para entender o dispositivo de pacificação dos espaços públicos

Maria Isabel Costa Menezes da Rocha[1]

Experimentando o método-caminho

O caminhar em meio urbano era o nosso foco inicial, assim como era também foco das políticas de apaziguamento das mobilidades, aquelas que priorizam a presença do pedestre nos espaços públicos. No entanto, o contexto urbano de Salvador, onde foi se dar o trabalho de tese, nos provocou outras questões à medida em que passávamos à experiência habitante cotidiana, intensificada sobretudo a partir de finais de 2013 e praticada até finais de 2015. O estranhamento provocado pela nova experiência urbana foi responsável por deslocar nosso foco inicial, ou, segundo as palavras de Mariza Peirano, foi responsável por acionar o nosso instinto etnográfico, enquanto urbanista, e nos fazer adotar uma postura etnográfica durante o período citado.

Peirano reitera que etnografia não é apenas método, é também teoria, visto que o que se entende por postura etnográfica foi se delineando teoricamente a partir das primeiras incursões, quando “os etnógrafos de um século atrás iam a campo com um projeto aberto, sempre dispostos a reconfigurar as questões originais e colocar outras” (Peirano, 2014: 381). Assim, “a disposição a nos expor ao imponderável e a vulnerar a nossa própria cosmologia” (Ibid, p.382), juntamente com outras características de uma postura[2] foram sendo reconhecidas como teoria ou “formulações teórico-etnográficas” (Ibid, p.383), e nos inspiraram a “desvendar novos caminhos” (Ibid, p.389), em termos metodológicos, para realizar o nosso percurso de pesquisa em Salvador.

O convite havia sido feito e, assim, levamos em conta a necessidade de engajamento e de disponibilidade ao que Felix Guattari (1992) chamou contaminação afetiva ou/e apreensão transversal. Este modo de captação das subjetividades mutantes “a partir de percepções e de estados de alma banais”, segundo Guattari (Ibid, p.114), possibilita a passagem para fora do que é padronizado, e nisto se inclui, no nosso caso, o discurso sobre a mobilidade urbana pedestre. Ao integrar a contaminação afetiva como prática cotidiana e método, a distinção entre o trabalho de campo e o uso enquanto habitante dos espaços públicos da cidade resta injustificada. Estávamos em campo à medida em que habitávamos Salvador. Embora houvéssemos programado algumas idas à Avenida Sete e demais caminhadas pela cidade, os momentos de observação programada e de vivência habitante integraram igualmente o processo de apreensão urbana, da mesma forma, tanto os livros de história quanto notícias do período e outros suportes também somaram-se na nossa contaminação afetiva. Neste sentido, a mudança para a cidade foi um facilitador da experiência da alteridade como modo de apreensão da realidade urbana. Nosso método experimental se baseia, finalmente, na potência crítica do caminhar errante, aberto e disponível aos afetos e perceptos do ambiente urbano, em contrapartida às propostas objetivadoras para os espaços (a serem) vividos. Condiz então com o “elogio” de Paola Jacques à prática da errância, como desvio dos modos técnicos de pensar e fazer cidade.

Essa postura crítica e propositiva com relação à apreensão e compreensão da cidade, por si só, já constitui uma forma de resistência tanto aos métodos mais difundidos da disciplina urbanística […] quanto ao próprio processo de esterilização da experiência, de espetacularização das cidades contemporâneas e de pacificação de seus espaços públicos. (Jacques, 2012: 24)

Presenciamos então em Salvador, um período de transformações urbanas, quando o discurso objetivo (que se quer) hegemônico, sobretudo trazido ou fortalecido pela Copa do Mundo da FIFA veio disputar o espaço público com muitos outros os modos de vida, desejos e usos. Desta forma, o conflito se configura com a chegada de novas concepções do urbano e novos modos de ocupar o espaço público que confrontam os primeiros que ali se davam.

Trazemos aqui algumas situações que vivemos, alguns processos que acompanhamos em nossa apreensão cotidiana, os quais nos fizeram perceber a atuação de um dispositivo de pacificação dos espaços públicos urbanos, visando transformar o lugar da experiência urbana cotidiana em um espaço para uma experiência formatada (e passageira) de cidade.

Primeiros passos estrangeiros

A nossa busca por apreender como seria um espaço público disponível à apropriação pedestre, nos levou à prática da caminhada na cidade. Sem conhecer bem a cidade de Salvador, participando do cotidiano de pesquisa[3] e também do cotidiano habitante da cidade, caminhamos sobretudo na sua região mais central.

Nos enxergamos então na condição de estrangeiras, de acordo com o entendimento de Simmel: aquela pessoa que não está de passagem, nem pode-se dizer do lugar onde se encontra. “O estrangeiro é um elemento do grupo, como também o são os pobres e os demais ‘inimigos internos’. É um elemento cuja posição supõe ao mesmo tempo exterioridade e confrontação.” (Simmel, 2012 [1908]: 21, tradução nossa).[4] Seguindo esta afirmativa, enquanto estrangeiras, podemos dizer que nos aproximamos da condição de estrangeiros em que vivem outros habitantes; os pobres e os “inimigos internos”? Tal questionamento vem compor a problematização sobre os processos de pacificação dos espaços públicos na medida em que interroga também quem são os sujeitos autorizados a permanecer em um espaço público pacificado (ou seja, coerente com as concepções urbanísticas) e, em contrapartida, quem são os sujeitos estrangeirizados nesse processo.

A presença estrangeira considerada “amiga”, por outro lado, foi fortemente levada em conta nas formulações sobre a imagem das cidades brasileiras. Muitos relatos de viagem se tornaram referências para estudos contemporâneos, na busca por conhecer os contextos anteriores e compreender a situação atual das cidades brasileiras. A partir de tais formulações, seria possível entender a relação entre as configurações e as práticas socioespaciais de ontem e de hoje. Além de serem base para textos historiográficos, tais relatos podem ser comparados atualmente a textos de cunho etnográfico.

Há ainda que se considerar a diferença entre estrangeiros e aventureiros. André Botelho (2013), ao estudar a narrativa de viagem de Mário de Andrade ao Amazonas –intitulada O turista aprendiz– observa que “suas viagens guardam um sentido próximo ao da ‘aventura’, tratado por Georg Simmel como uma experiência de ruptura com o fluxo do cotidiano, e também com certa abertura empática em relação ao desconhecido” (Idem:18, grifo nosso).

Tomando o gancho de Botelho, convidamos a percorrer algumas situações em Salvador, observando como as reformas propostas pelos gestores municipais –em consonância com os interesses do capital empresarial, sobretudo da indústria movimentada pelo turismo– manipulam ações e noções relativas aos diferentes usos dos espaços públicos ditos estratégicos. Assim se fazem (usuários) turistas e estrangeiros, que servirão para caracterizar e descaracterizar lugares.

No texto de Botelho, o autor traz trechos de uma carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira escrita durante a sua viagem –de turista aprendiz– à Amazônia. A carta evidencia sentimentos do turista que remetem a uma passivização:

O êxtase vai me abatendo cada vez mais. Me entreguei a uma volúpia que nunca possuí à contemplação destas coisas, e não tenho por isso o mínimo controle sobre mim mesmo. A inteligência não há meios de reagir nem aquele poucadinho necessário para realizar em dados ou em bases de consciência o que os sentidos vão recebendo. (Andrade Apud Botelho, 2013: 19)

Aqui, associamos este efeito sobre o corpo aos objetivos da chamada espetacularização urbana, já denunciada desde a década de 1960[5].

Em Salvador, o espetáculo materializa-se especialmente em momentos eventuais. O seu carnaval é o apogeu do que podemos entender aqui como espetáculo urbano pré-fabricado; quando diversas áreas da cidade se transformam com estruturas móveis para dar passagem aos enormes trios elétricos. A Avenida Sete de Setembro contém algumas dessas áreas que se fantasiam para o carnaval, principalmente nas proximidades do Farol da Barra e nas proximidades do Campo Grande.

A maquiagem, no entanto, não é apetrecho utilizado apenas em dias festivos. A Secretaria de Ordem Pública (Semop), da gestão recém-eleita em finais de 2012 (para o exercício 2013-2016), fez um pronunciamento considerando a emergência de uma reformulação na imagem da cidade, ao que a secretária chamou de “maquiagem”, afirmando haver “dificuldades na estética da cidade”.

Ordem pública

Rosemma Maluf, a secretária de Ordem Pública, afirmou, em dezembro de 2012; “Enfrentamos dificuldades na estética da cidade. Precisamos realizar um trabalho de maquiagem para receber [os visitantes]… Mas não só para isso, mas também tornar a cidade boa para quem mora aqui. Esse que é o objetivo principal”.[6] Assim como o carnaval, o foco dessa nova gestão é no espetáculo voltado para o entretenimento de quem vem de fora. Sem dúvida, o carnaval também se constitui em entretenimento para os habitantes de Salvador. Assim também, a maquiagem urbana de que fala a secretária objetiva atrair uma parte da população que não utiliza e os espaços públicos centrais.

Por outro lado, o discurso da Ordem Pública também evidencia o foco de atuação da secretaria sobre os vendedores ambulantes.

Vamos dar uma atenção grande ao comércio das ruas, porque realmente ele está tomando as calçadas. Mas tudo isso de forma calma, tranquila, com o diálogo com as lideranças de cada segmento. A arma principal da minha gestão será o diálogo com as lideranças e um trabalho técnico e efetivo na busca de resultados dentro dos objetivos da secretaria. (Bahia Notícias, 15 de dezembro de 2012).

O ordenamento dos vendedores ambulantes se torna uma obsessão da nova gestão municipal, especialmente na região central onde vai implementar o programa Território Empreendedor, no qual nos deteremos mais à frente.

Por enquanto, gostaríamos de salientar a relação entre a ordem pública, a iminência da Copa do Mundo de 2014 e o urbanismo espetacular. Como fio condutor, observamos aqui a prática das transformações urbanas efêmeras para a realização das chamadas Festas de Largo, muito presentes na cidade de Salvador. São momentos de ruptura do fluxo cotidiano, mas que já fazem parte de uma certa rotina urbana, visto que estão presentes no calendário da cidade há muitos anos.

Festa de Iemanjá

Antes de chegarmos à Avenida Sete, como exemplo, trazemos aqui a festa que ocorre, tradicionalmente, no dia 2 de fevereiro, desde a década de 1970, quando passou a ser reconhecido o seu potencial turístico, o que a tornou, assim como o carnaval, uma marca (ou marco) da expressão cultural da/na cidade.[7] A Festa de Largo dedicada ao Orixá Iemanjá é, originalmente, uma manifestação religiosa, que reúne diversas comunidades seguidoras (principalmente) do candomblé para levarem seus presentes à entidade que rege as águas do mar, portanto, a padroeira dos pescadores.

Presenciamos em 2014, ano da Copa, a Festa de Iemanjá, no litoral do Rio Vermelho, onde sempre se dá, e vimos, naquele ano, a intenção de ordenar, estetizar, controlar a festa. Tal intenção casava os interesses do poder público, em consonância com o poder privado de determinadas empresas, interessadas diretas no controle da festa.

Este casamento, era revelado desde a chegada na festa, com as logomarcas estampadas no pórtico que dava acesso à mesma. Além da própria logomarca da festa, vemos as logos da Prefeitura Municipal juntamente com aquela da cerveja Schin. Esta cerveja comprou os direitos de comercialização na festa e os policiais que guardavam a entrada também fiscalizavam os vendedores ambulantes, para garantir que se cumprisse o contrato da Prefeitura e vendessem apenas a cerveja da “patrocinadora”.

É importante salientar que as manifestações de religiões de matriz africana foram abominadas em um Brasil que teve um dos mais longos regimes escravagistas. Ainda hoje, existem pessoas que desrespeitam essas matrizes culturais e cometem crimes baseados na intolerância contra a cultura de povos que vieram para o Brasil em porões de navios para sofrer o exílio, a escravidão e a violência também da aculturação religiosa forçada.

Pórtico de entrada na festa de Iemanjá vigiado pela polícia. (fotografia da autora, 2014).

Nesse sentido, confrontamos duas acepções de espetáculo: a realização da festa em questão como uma representação espetacular da resistência dos cultos afro-brasileiros; e a sua espetacularização estratégica operada pelo poder público, seguindo o interesse privado. No primeiro caso, o espetáculo dos orixás nas festas de Largo da Bahia é considerado uma tática de resistência, como se o dar-a-ver fosse capaz de combater ou reverter a marginalização dos cultos, além de “tornar assimilável” a religião em si, como considerou Nina Rodrigues (1896:117).

Já no último caso, entendemos que há a intenção de dominação e domesticação do espetáculo religioso, visto que tomou grandes proporções, aumentando a potência de lucro de possíveis investidores. Segundo Henri-Pierre Jeudy, “A arte e a cultura se fazem objetos de um verdadeiro negócio de gestão, fundada na separação das relações entre vida e cultura.” (Jeudy, 1999: 7). Essa separação visa tornar tais manifestações culturais e artísticas facilmente consumíveis por aqueles que não as vivenciam em seu cotidiano, turistas que visitam momentaneamente o espaço da festa.

Podemos nos remeter à imagem da vitrine para ilustrar a separação do objeto do seu lugar de “vida real”, colocando-o com atrativo para quem está de passagem. Assim, se dá uma espécie de espetáculo para o consumo que em muito difere de uma terceira acepção de espetáculo; espetáculo cotidiano das ruas.

A rua é o lugar onde se dá o social também como espetáculo. Daí o seu fascínio. Como forma dramática, é um espetáculo que permite assumir certas identidades, desempenhar determinados papéis e, até certo ponto, escolher os enredos dos quais se vai participar. É o palco por excelência do social. (Ferreira dos Santos, 1985: 83)

Salientando a imagem da vitrine como separação, aquele ano foi a primeira vez em que houve delimitações físicas do lugar da festa. A delimitação da rua principal, estabelecendo um dentro e um fora, visava definir o espaço ordenado pelas empresas cujos nomes estavam estampados nos gradis e demais estruturas.

A dependência de limites físicos para proporcionar um maior controle de determinados espaços públicos pode ser encontrada em diversas situações e contextos históricos, inclusive de Salvador. Aqui, em se tratando de estruturas temporárias, vimos exacerbado este modelo disciplinar (Foucault, 2014) na hipermidiatizada festa da Fifa.

FIFA Fun Fest

Enquanto na festa dedicada a Iemanjá nos perguntávamos se “políticas (urbanas) de matriz identitária podem ser estrategicamente planejadas?” (Arantes, Vainer, Maricato, 2011: 14) –visto que houve uma preocupação em capturar o espaço-tempo da festa, em consonância com os anseios de empresas diretamente envolvidas, interessadas em se beneficiar do novo negócio– a transformação do espaço público da orla da Barra para a festa “padrão Fifa”, parecia buscar desprover o lugar, e sua ambiência, da matriz identitária. O lugar –o Farol, o mar, o pôr-do-sol, as pessoas– foi levado a tornar-se cenário, pano de fundo para o empreendimento do mundial. A reforma urbana operada na área, especialmente o alisamento do piso, pretendia tornar o espaço em frente ao Farol uma imensa área neutra, destinada a receber as estruturas móveis do grande capital envolvido na festa da Fifa. A reforma também visava favorecer as empresas que utilizam o espaço durante o carnaval, impondo-se às diferentes apreensões, percepções, apropriações dos sujeitos que por ele transitam e o habitam cotidianamente.

Entre tantas impressões[8] que pudemos tirar daquele espaço que se pretendia asséptico e internacional, aqui, (sejamos breves) podemos dizer apenas que até as baianas do acarajé[9] tiveram de se curvar ao famigerado “padrão Fifa”. No espaço cercado da Barra, o destaque era destinado às marcas parceiras do evento, aquelas que foram eleitas para lucrarem com ele. O superdimensionamento das estruturas que emolduravam os telões maravilhava os transeuntes que podiam adentrar o espaço não-mais-público e deixava-os pequeninos, passivos.

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Palco-telão na área destinada à festa da Fifa, em frente ao Farol da Barra, final da Av. Sete. (fotografia da autora, 2014)

Especialmente no tocante às baianas do acarajé, vimos na época da Copa serem levantadas várias questões a respeito do seu trabalho, sobretudo quanto à higiene e a estética (vestimenta, maquiagem) com que se apresentam ao público dos jogos. Muitas notícias[10] divulgaram o conflito das baianas com a Fifa e a adequação ao tão invocado padrão Fifa, que viria a desestabilizar algumas profissionais em seus modos de fazer tradicionais. Além de receberem instruções de higiene, também tiverem que adequar suas condutas de “atendimento ao público” e adequar-se ao fogão elétrico no lugar do fogão a gás, por motivos de segurança. O processo de adaptação das baianas ao padrão Fifa nos serve para ilustrar as formas de pacificação dos sujeitos ocupantes dos espaços que se tornam foco do poder estratégico, já que apenas as baianas atuantes no perímetro do evento tiveram que atender às novas normas. Mostra também como as questões de disciplinamento e códigos de conduta[11] ainda apresentam suas reminiscências nos mecanismos de gestão de espaços públicos com vistas a sua gourmetização. Ao desestabilizar a prática de produção e venda de alimentos, a imposição do novo padrão evidencia a atuação daquilo que Milton Santos chamou de “ordem desordeira” (Santos, 2001: 86). O acarajé gourmet vem então com os adicionais de limpeza, beleza e segurança, permitindo que os visitantes estrangeiros tenham a experiência do consumo do Outro com “risco zero”. Sugere assim, que a garantia de uma “boa” experiência daquilo que é típico, ou popular do lugar –diferenciando-a da experiência habitante cotidiana– depende da sua pasteurização. Todos esses termos, referentes aos processos de gourmetização, disciplinamento, ordenamento público, higienização, vem integrar o que entendemos como dispositivo de pacificação; um dispositivo que visa assegurar que os usos e sujeitos tidos como dissonantes, se não são excluídos do espaço de interesse estratégico, sejam adaptados (pacificados) a esse interesse, eliminando-se assim o conflito existente entre a espetacularização estratégica e o uso cotidiano.

A vendedora do Porto

O que conhecemos como baianas, hoje associadas à venda do acarajé, é apenas um segmento da classe das ganhadeiras, que de tudo vendiam nas ruas da cidade, quando as ruas eram consideradas sujas e perigosas demais paras as classes abastadas, sobretudo para as mulheres dessas classes. Em nosso processo de apreensão do espaço público em Salvador, pudemos conviver com movimentos táticos de outras mulheres, empreendedoras ou não, que enfrentam cotidianamente a intervenção estratégica observada em certos lugares da cidade. Uma dessas mulheres é Jô, permissionária de um dos quiosques que foram demolidos na orla da Barra. O alisamento do piso, citado anteriormente, implicou na demolição de todos os quiosques destinados à venda de coco. Nós acompanhamos mais de perto o caso do quiosque do “Coco da Jô”, que ficava em frente ao Forte Santa Maria, no Porto da Barra.

Antes da reforma, o quiosque. Depois, o carrinho e o ponto alugado. (http://www.anr-muse.fr/#porto-do-barra; https://www.vanezacomz.com.br/2015/04/agua-de-coco-por-r250-na-barra.html; acervo da autora, 2014.)

O Porto da Barra –trecho litorâneo da Avenida Sete– viu acontecer a festa da Fifa em obras, assim como outros locais da cidade que deveriam estar prontos para a Copa e não estavam. Tudo estava móvel, ambulante. Os permissionários para venda de coco foram instruídos a utilizar o carrinho (no lugar do quiosque), portando uma quantidade bastante reduzida de cocos e sendo proibidos de portar o facão, também por razões de segurança.

Afim de manter o mesmo padrão com que vinha trabalhando, Jô não abriu mão do uso do facão, por isso, preferiu fazer um esforço financeiro para alugar um ponto próximo ao antigo quiosque, onde pudesse continuar trabalhando também com a quantidade habitual de cocos que armazenava semanalmente. A sua decisão foi motivada por acreditar na promessa de reconstrução do quiosque pela Prefeitura. No entanto, teve que esperar por quase quatro anos, período em que continuou pagando os impostos como permissionária e também o aluguel do ponto temporário, mesmo sem a certeza de que teria seu quiosque reconstruído.[12]

Jô conseguiu manter o mesmo padrão de atendimento, apesar de a localização do ponto não ser tão favorável quanto o quiosque que, por estar no espaço público, possibilitava uma participação intensa da vida do lugar. A forma de cortar o coco continua impecável: com um primeiro golpe, ela aplaina a base do coco para que o mesmo possa ser apoiado em qualquer superfície horizontal, com mais três golpes de facão certeiros, ela esculpe no coco um pequeno chapéu, sob o qual se encontra a abertura para a água, onde entra canudo. Jô limpa o coco com uma flanela antes e depois de abri-lo, assim como faz com o facão reluzente. O coco aberto, ela envolve a sua base em um papel-toalha e, só então, o entrega ao cliente, que se serve de um dos canudos individualmente embalados para beber a água. Se, depois de terminada a água, o cliente quiser comer a polpa do coco, Jô novamente veste as luvas e limpa o facão para, com outros três golpes, partir o coco em terços. De cada terça parte, ela cava com uma colher, soltando a polpa para facilitar o seu consumo com um garfinho plástico que entrega ao cliente em espera. Este tem sido o seu padrão de atendimento, mas, se o cliente preferir comer o coco do modo tradicional, Jô limpa bem a casca para arrancar dela, com outros golpes de facão, espátulas de fibra de coco, com as quais o próprio cliente pode retirar e comer a polpa.

Todo esse saber-fazer artesanal era impossibilitado com o uso do carrinho, daí a sua persistência em preservar uma prática aperfeiçoada em anos de trabalho. Se o gourmet se refere a uma graduação de qualidade de serviços e produtos, podemos dizer que o Coco da Jô teria obrigatoriamente esse selo.

Feira da Cidade

A destruição dos quiosques e o estímulo a uma presença mais passageira dos vendedores no espaço público, provocaram a indagação sobre qual seria o interesse do poder público em afastar ao máximo, daquilo que se entende por espaço público, as possibilidades de estabelecimento de redes de relações sociais inerentes do lugar. Ao lado das intervenções desestruturadoras de tais arranjos sociais –como as diversas padronizações e limitações impostas, a exemplo do padão Fifa– observamos ainda a promoção de uma “praça de alimentação” ambulante que vem ocupar, em formato de evento, uma vez por semana, uma nova localidade pública da capital baiana. A nova tendência da oferta de comida ambulante se baseava no modelo dos chamados foodtrucks.[13] Assim, o gourmet apareceu em nosso percurso também de forma ambulante, ou itinerante. Nos fez questionar a espetacularização urbana em curso, pois propunha uma experiência de cidade não passiva, no seu discurso.

A proposta do evento “A Feira da Cidade”, é a de “revelar o que há de melhor em Salvador”, segundo sua página nas redes sociais. Para tanto, propõe a venda da dita alta gastronomia de chefs renomados em versão fastfood, ou melhor, em versão ambulante, a preços acessíveis às classes médias (em torno de 15 reais). A proposta é fruto de uma parceria público-privada e tem a intenção de trazer para a “rua” uma população elitizada –de empreendedores e de consumidores– que a renegou durante séculos de história e que, hoje, só vem a utilizá-la nas situações/lugares excepcionais, espetacularizados pelos “fazedores de cidades”. Entre estes, além dos tradicionais arquitetos e urbanistas parceiros do poder público, vemos atualmente diversos tipos de empreendedores que intervém, fazem e pensam a cidade, como afirmou Carla Maciel, produtora e idealizadora d’a Feira da Cidade; “A Feira é isso, é pra pensar, pra construir esse espaço público juntos.”[14] Pela sua fala, busca atuar independentemente das grandes corporações, para que não haja disputa de marcas (especialmente de bebidas).

Aqui vemos a captura do sentido de feira, por um empreendimento privado e verticalmente planejado, diferentemente das feiras tradicionais. Se tomamos a diferença entre tática e estratégia em Michel de Certeau, aqui temos um claro exemplo de feira estrategicamente concebida, o contrário das feiras originadas e cotidianamente transformadas pelas táticas habitantes. Além disso, ainda que as feiras populares tenham suas estruturas desmontáveis e móveis, elas se associam fortemente ao lugar onde se implantam, sempre o mesmo e sempre na mesma periodicidade. Por outro lado, a Feira da Cidade vem propor uma ocupação genérica dos espaços públicos da cidade, sem construir uma relação duradoura com nenhum deles, mas com a cidade, como elemento subjetivo totalizante, quase imaterial.

Quanto aos demais empreendedores que atuam no espaço público, estes são submetidos a uma pacificação seja no sentido de exclui-los, seja no sentido de torná-los adequados ao padrão de espaço público que interessa ao poder econômico das grandes empresas. Estes, devem pagar regularmente os impostos que garantem a permissão de trabalhar no espaço público. Ao passo disto, ocupações mais elitizadas como a Feira e outras iniciativas gourmet recebem incentivo e patrocínio municipal para ocuparem os espaços públicos. As propostas de feiras gourmets se baseiam no argumento da promoção cultural, que, no discurso, se sobrepõe à lucratividade das empresas envolvidas.

“Conhecer o lugar”, “Inspirar as pessoas” e “Intervir no espaço”. A Feira da Cidade é um projeto pioneiro já consolidado em Salvador e que ganhou o amor da cidade com a transformação dos espaços públicos em locais de convívio, cultura, arte e lazer com foco nas pessoas. As ocupações inspiram e estimulam as relações entre as pessoas, e entre as pessoas e a cidade, oferecendo qualidade de vida as comunidades e incentivando os cidadãos a se envolverem nas transformações urbanas. (release disponível para download na página <www.afeiradacidade.com.br> na aba imprensa)

Podemos dizer que a Feira da Cidade é uma espécie de miniatura da atuação estratégica sobre o território, pois visa conquistar –ao invés de praticantes ordinários (De Certeau, 2013) e participantes cotidianos da cidade– consumidores de um modelo eventual de cidade. Vê-se, portanto, o foco (dos investimentos públicos) em um tipo de participação também efêmera nos espaços públicos urbanos. O que nos remete à contraposição que fizemos no início deste artigo, entre o estrangeiro e o aventureiro ou turista. Eventos como a Feira da Cidade acabam promovendo a visitação fantasiada (ou maquiada, para retomar a expressão da secretária da Semop) de participação. Tal “participação” é estimulada desde que se respeitem as normas estabelecidas pelo projeto do evento, e estas se pretendem tão inquestionáveis quanto os benefícios que o evento traria para a cidade e as “comunidades” afetadas, apresentados incessantemente pela divulgação. Afinal, os “cidadãos” que questionem uma iniciativa considerada (ou vendida como) saudável para a cidade, ou aqueles que desejem participar de modo mais ativo, debatendo a proposta de ocupação, correm o risco de serem excluídos do projeto de cidade empreendedora que se constrói, estrangeirizados.

Território Empreendedor – shopping a céu aberto

Adentramos, finalmente, através do tema do empreendedorismo, na região de maior atividade comercial da cidade, aquela que é estruturada pela Avenida Sete de Setembro.[15] Este trecho da Avenida se tornou foco da gestão municipal, especialmente da secretaria de Ordem Pública, notadamente por apresentar um vivo comércio de rua praticado por vendedores ambulantes.

A questão do comércio ambulante na região é objeto de estudos e propostas desde a década de 1990, no entanto, a operação de ordenamento começou mais fortemente em vista da Copa do Mundo de Futebol, no início de 2014. O “Estado de Exceção” declarado em nome da Copa –amparado pela Lei Municipal nº 8414/2013, que dispõe sobre medidas relativas à Copa das Confederações Fifa de 2013 e a Copa do Mundo Fifa de 2014 e dá outras providências[16]– possibilitou uma “ação emergencial” sobre diversos pontos da cidade, entre eles a Avenida Sete. Aqui, no centro urbano comercial, a ação dizia-se no sentido de desobstruir os passeios com a requalificação das vias transversais transformadas em pequenas feiras de ambulantes.

Nesta Avenida Sete, as ações emergenciais iniciais vêm a ser continuadas durante e depois daquele ano de 2014, quando é proposto o Programa Território Empreendedor, atuando de forma genérica para a “promoção da área”. Segundo o prefeito, o projeto faz parte das “ações da administração municipal para devolver a cidade à população” (AGECOM, 09/12/2014),[17] ignorando, desta forma, a forte presença popular existente na área. Assim, a administração cria um discurso de crise sobre a Avenida Sete que não é coerente com o que se observa in loco, induz e norteia a percepção da realidade, ou fala apenas para uma camada da população que não a frequenta, sobre a qual poderíamos interrogar o seu caráter de “turistas internos” –seguindo a lógica da noção de “inimigos internos” em Simmel– que passam sem estabelecer um vínculo mais duradouro, ou exercer uma participação mais a(fe)tiva no/com o lugar.

Os ordenamentos, aqui exemplificados com o caso dos ambulantes da Avenida Sete, fazem parte de um projeto mais amplo de instauração da ordem. Esta ordem quando colocada no espaço público da cidade, concerne diretamente à gestão urbana, baseando-se em argumentos técnicos que induzem ao consenso, como o de “garantir o livre acesso” ou, mais genericamente, “tornar a cidade boa para quem mora aqui”. Mais sintomático ainda do disciplinamento estratégico, é quando a “Semop objetiva transformar a Avenida Sete em um shopping center a céu aberto”, segundo foi publicado no Diário Oficial do Município do dia 29 de abril de 2015. Desta forma, a secretaria entende o seu Território Empreendedor: para além da estruturação do espaço físico, se trata de uma questão de gestão daquele espaço. A referência ao modelo de gestão privada do espaço comercial esclarece a intenção de controle de um espaço delimitado e deixa entrever um processo de privatização daquele ambiente público.

Nesse sentido, o ordenamento do comércio ambulante responde também a um desejo de adequar determinados espaços públicos a um modelo estético dominante, como já havia sido feito no início do século XX, momento da abertura da Avenida Sete, obedecendo ao desejo civilizatório das elites urbanas, com base no modelo haussmanniano que se importava, à época ao Brasil. A escolha dos lugares a serem civilizados obedecia, sobretudo, às conformações topográficas. Hoje, propõe-se um “retorno ao seu estado áureo” –como nos disse pessoalmente um funcionário da Semop– do Setor de Proteção à Estética da Cidade (SEPEC).

Da escolha desses espaços, também delineia-se o chamado Território Empreendedor. Este, apesar de não se constituir em um lugar assim referido, identificado por seus praticantes, habitantes ou usuários, surgiu em nosso percurso de maneira bastante provocadora, pois contém um discurso que visa estrangeirizar os empreendedores locais, desmontando a sua organização territorial e impondo-lhe uma nova estrutura à qual devem se adaptar. A qualidade de empreendedor ressalta a proposta do programa em gourmetizar o território, sendo –como o próprio selo gourmet– uma característica valorizada no universo empresarial. Segundo encontramos na página Internet do Sebrae: [18]

Numa visão mais simplista, podemos entender como empreendedor aquele que inicia algo novo, que vê o que ninguém vê, enfim, aquele que realiza antes, aquele que sai da área do sonho, do desejo, e parte para a ação. Ser empreendedor significa, acima de tudo, ser um realizador que produz novas ideias através da congruência entre criatividade e imaginação. (SEBRAE)

Com base nesta definição, podemos dizer que a região está de fato repleta de sujeitos e suas táticas empreendedoras. Seu Eduardo, é um exemplo desses sujeitos; afiador de tesouras, alicates e afins, construiu sua banquinha na largura exata da grade de proteção do prédio onde ficava o antigo Senado, “para não atrapalhar a passagem”.

Aqui poderíamos citar, não apenas vendedores, mas também pessoas e movimentos que ocupam o espaço público há anos e se veem impelidos a modificar a sua relação com o lugar. O chamado Movimento de Ocupação Cultural Poetas e Poetizas (MOCPOP) nos chamou a atenção já no primeiro momento de contato com a Praça, em 2011, por sua forma simples (apenas uma mesa com som, livretos, vinis) e sua feição engajada (evidenciada na padronização na cor preta). O movimento começou em 2007 e tornou-se cotidiano. Bob Baiano, seu idealizador, está sempre na área com outros personagens já típicos da Praça. Ele nos fala que seu trabalho é espiritual, o que quer dizer, seguindo a sua fala, ao mesmo tempo, uma forma de lidar com os espíritos que rondam o Centro –e que se revelam em alguns sujeitos que transitam por ali– e uma forma de conservar o espírito revolucionário e/ou subversivo do lugar.[19]

Movimento de Ocupação Cultural Poetas e Poetizas (fotografia da autora, 2011)

Considerações finais: revelando o dispositivo

Apresentamos aqui aspectos do nosso percurso que evidenciam alguns elementos do que entendemos como um dispositivo de pacificação dos espaços públicos. Devido à complexidade de relações que se tecem entre elementos de naturezas diversas –discursos, formas, ações, instituições, etc.– tomamos a pacificação como dispositivo de poder, segundo a noção de Michel Foucault. “O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos.” (Foucault, 2014: 364).

Em meio a esses elementos, podemos encontrar inclusive outros dispositivos, como é o caso do urbanismo, com seus enunciados, proposições, organizações específicas, ou a própria ordem pública que, no caso estudado, através da secretaria, abarca inclusive práticas urbanísticas. Ao lado dela, está ainda a pedestrinização do espaço público, expressado no alisamento do piso, o qual, no caso estudado é sobretudo favorável à realização de eventos espetaculosos, ou seja, à privatização eventual do espaço por seus patrocinadores.

O discurso hegemônico adotado pelo dispositivo pôde ser confrontado com as diversas narrativas construídas e vivenciadas junto aos muitos outros sujeitos (Ribeiro, 2015) do espaço público de Salvador. Nesse sentido, chamamos a atenção para a potência crítica do caminhar errante, aberto e disponível aos diversos encontros no espaço público, os quais nos fornecem elementos capazes de confrontar os discursos normatizadores do ambiente urbano. Este método-sem-método de pesquisa se constituiu a partir de uma necessidade e uma dificuldade em definir um método que desse conta do objeto a ser apreendido, visto que deve permitir relacionar os diversos elementos; da cidade e do dispositivo de pacificação dos seus espaços.

No corpo-a-corpo com a vida urbana cotidiana, podemos, além de exercitar a alteridade, penetrar em um “conjunto de temas proibidos”, como observou Ana Clara Torres Ribeiro, temas que não interessam às grandes organizações /corporações, e entre eles está o próprio cotidiano, deixado de lado em prol do espaço-tempo do (grande) evento. Da mesma forma, o chamado espaço banal (Santos, 2001) é desconsiderado em benefício do espaço espetacular (Debord, 2003 ), o qual é concebido muitas vezes com a pretensão de tornar-se vitrine, expondo o que pode ser consumível de uma localidade, notadamente, pela indústria do turismo.

Notamos finalmente, a tensão existente, quando do jogo de prioridades, entre uma prática de cidade passageira, que se aproxima do campo do turismo e outra prática de cidade habitante, que é estrangeira ao modo coorporativo de gestão. No primeiro caso, vemos como são propostos modelos ou roteiros de experiência urbana coerentes com os interesses de determinados grupos – a festa disciplinada, o acarajé e a feira gourmet, o shopping a céu aberto. No segundo, vemos a tentativa de captura ou de exclusão das formas de vida urbana não apenas destoantes de um ideal de cidade, mas estrangeiras à máquina de produção estratégica de lugares. No tocante a esses estrangeiros internos questionamos a sua relação de associação/dissociação com uma construção de imagem de cidade espetacularizada –são utilizados como elementos autênticos (Zukin, 2010) do lugar, ao mesmo tempo em que são mantidos à margem de tal espetáculo. Assim, as cidades vão sendo requalificadas a partir dos seus espaços públicos, utilizados como instrumentos para atrair o lucro, inclusive através dos turistas internos.

Referências bibliográficas

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Zukin, S. (2010). The Naked City: the death and life of authentic urban places. New York : Oxford University Press.


  1. Universidade Federal da Bahia (UFBA).
  2. Em entrevista a Paola Berenstein Jacques, Alessia de Biase (2012) toca no assunto da “postura antropológica”, salientando que também pode ser adotada pelo arquiteto e urbanista que deseje perceber de outras maneiras a cidade –se isso for questão central ao seu trabalho– “no sentido de se abrir para a possibilidade de ver que, o mesmo lugar, se temos que falar de espaço, pode ser interpretado, visto e sentido de maneiras outras, e que essas maneiras outras participam da construção desse lugar, e essas outras maneiras constroem também a nossa maneira de olhar a cidade.” (Ibid, p.14)
  3. Juntamente com um grupo do Centre de Recherche sur l’Espace Sonore et l’environnement urbain (CRESSON) francês, participamos da pesquisa sobre “os enigmas sensíveis das mobilidades urbanas” (MUSE), cujo eixo sobre “o apaziguamento das mobilidades urbanas no século XXI”, tratava especificamente de duas localidades na cidade de Salvador; o Porto da Barra e a Praça da Piedade. Para mais informações sobre MUSE, acessar https://goo.gl/DRs8aT.
  4. “El extranjero es un elemento del grupo, como también lo son los pobres y los distintos ‘enemigos interiores’. Es un elemento cuya posición supone al mismo tiempo exterioridad y confrontación.” (Simmel, 2012 [1908]: 21).
    Na versão brasileira, temos a seguinte tradução: “Assim como o indigente e as variadas espécies de ‘inimigos internos’, o estrangeiro é um elemento do próprio grupo. São elementos que se, de um lado são imanentes e têm uma posição de membros, por outro lado estão fora dele e o confrontam” (Simmel, 1983: 183).
  5. Segundo a noção de sociedade do espetáculo, de Guy Debord (2003), onde ele coloca a “consciência espectadora” se fazendo dependente de um tempo espetacular, o qual é a “alienação necessária, o meio pelo qual o sujeito se realiza perdendo-se” (2003: 128).
  6. Disponível em https://goo.gl/A3yeKh. Consultado em 20/10/2017.
  7. Em outra oportunidade, propusemos uma narrativa da experiência da festa, vivenciada naquele ano de Copa do mundo, em artigo intitulado “A festa de Iemanjá: o espetáculo na vitrine” (Rocha e Migliano, 2016). No artigo, procuramos, a partir da narrativa de nossa experiência, compreender como tal manifestação religiosa existe, ainda, em resistência aos agenciamentos da espetacularização urbana.
  8. Algumas impressões sobre diversas cidades brasileiras que receberam os jogos podem ser lidas no blog pelada x copa: narrativas de outros jogos pelo brasil na copa 2014, disponível no link: https://goo.gl/ZZ6YLM. Acessado em 20/10/2017.
  9. “Baiana do acarajé” é como são conhecidas as mulheres que trabalham com a venda de comida típica nas ruas da cidade. Se vestem a caráter, evocando as suas pioneiras, descendentes diretas de África, presentes nas ruas de Salvador desde a época colonial, quando eram chamadas “ganhadeiras” e vendiam produtos os mais diversos.
  10. Como esta: https://goo.gl/EhDPsk. Consultada em 31/08/2016.
  11. Que já se fizeram fortemente presentes no momento das modernizações, pelas quais passaram as cidades grandes no início do século XX, sobretudo à exemplo do modelo da Paris Haussmanniana.
  12. Em março de 2018, recebemos a notícia do falecimento de Jô (por uma “complicação cirúrgica”), exatamente no mesmo mês em que deveria receber o seu novo quiosque.
  13. Os food trucks são pequenos camiões e Kombis adaptados para a venda ambulante de comidas e também têm a sua feira, evento autorizado pela Prefeitura, apesar de não ser atividade regularizada pelo poder público.
  14. Entrevista disponível em https://goo.gl/mUCDhn
  15. A Avenida Sete de Setembro cruza vários bairros soteropolitanos, começa no Centro Antigo e vai até a Barra, no entanto, é a sua porção onde há a predominância do uso comercial (dos lotes e das ruas) que é cotidianamente conhecida como Avenida Sete.
  16. Disponível em: https://goo.gl/irjpqh. Consultado em 12/07/2016
  17. Disponível em: https://goo.gl/3xPMK2. Consultado em 20/10/2017.
  18. Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Disponível online: https://goo.gl/q1VwRN. Consultado em 09/10/2018.
  19. Certa vez, Bob esclareceu que o MOCPOP é como se fosse um eco do Movimento dos Poetas da Praça, proposto nos últimos anos da ditadura brasileira, como forma de contestação. Além disso, sempre afirma a importância simbólica da Praça, como referência da Conjuração dos Búzios –também conhecida como Conjuração Baiana, ou Revolta dos Alfaiates, ou Movimento Revolucionário de 1798– quando os negros lutaram por “liberdade, igualdade e fraternidade”, ideais de sua contemporânea Revolução Francesa.


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