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Emigrantes que partem,
famílias que se juntam

As viagens dos “brasileiros” no século XIX

Alexandra Esteves[1]

Introdução

O ato de viajar encerra um significado que não se esgota na simples movimentação no espaço, pois inclui uma subjetividade passível de mutações ao longos tempos, resultante das motivações que o suportam e que, em Oitocentos, se relacionam, cada vez mais, com a procura da novidade e da diferença, a fuga à rotina do quotidiano e à fruição de novas experiências.

O século XIX foi marcado por uma série de avanços em diversos domínios, cujos alicerces se encontram em décadas anteriores, que levaram a alterações significativas na forma de ser e estar do Homem ocidental. Entre as mudanças mais relevantes, podemos destacar as que se verificaram nos transportes, materializadas, nomeadamente, na facilitação da circulação das pessoas e bens e na possibilidade de serem vencidas mais rapidamente grandes distâncias. Neste âmbito, tem-se dado especial relevo aos benefícios económicos advenientes dos progressos nos meios de transporte. Importa, todavia, não minimizar o impacto social e cultural desses avanços, uma vez que, juntamente com as pessoas, circulam não apenas mercadorias, mas também ideias e valores. Por outro lado, não eram, nem são, apenas os negócios a ditar a deslocação de pessoas, mas também, e cada vez mais, a busca de lugares dedicados ao lazer, entre outras razões.

O turismo começou a afirmar-se em Oitocentos, quando se organizam as primeiras excursões, surgem as primeiras agências de viagens e se assiste, cada vez mais, à procura de modos de fruição de momentos de lazer, seja no campo, nas termas ou na praia, e, consequentemente, de destinos, nem sempre próximos, que satisfaçam esse objetivo. O comboio vai-se impondo, então, como o meio de transporte que facilita o acesso às localidades onde se situam a as estâncias termais e balneares, contribuindo, assim, para a sua fama e desenvolvimento. Todavia, o barco continuava a levar os viajantes a terras distantes, como acontecia com muitos emigrantes que, em busca de melhores condições de vidas, deixavam as terras do Alto Minho em direção ao Brasil.

O nosso estudo incide sobre o Alto Minho, uma região do norte de Portugal, que confina com a província espanhola da Galiza, tomando em consideração dois dos seus concelhos: Ponte de Lima e Paredes de Coura. Trata-se de duas circunscrições territoriais que, apesar de contíguas, apresentam características bem distintas. A primeira, mais desenvolvida, foi favorecida pelas vias de comunicação que a colocavam na rota de vários destinos, nomeadamente dos de cariz religioso. A outra, encravada numa zona montanhosa e de difícil acesso, sofreu, durante todo o Oitocentos, os efeitos do isolamento na vida da sua população. Apesar dos cenários diferenciados, ambas assistiram ao êxodo das suas gentes para outras paragens, especialmente para o Brasil.

Com raízes em Seiscentos, a emigração alto minhota rumo a terras brasileiras surgiu, em boa parte, para dar resposta à desproporção entre o crescimento populacional e os meios de subsistência então disponíveis (Sá, 2000, pp. 117-133). Perante a inexistência de alternativas para garantir uma vida digna, e até a própria sobrevivência, a muitos não restou outra solução que não fosse partir em busca de um futuro melhor e, quiçá, da fortuna. A emigração não era proibida, mas era encarada com reservas pelas autoridades, pelas consequências nefastas que acarretavam para o reino.

A diáspora para o Brasil acentuou-se no século XIX, na sequência da crise agrícola que se fez sentir na primeira metade desta centúria, da descida dos preços dos cereais e das pragas que afetaram a cultura da vinha (Rodrigues, 1995). A instabilidade política, a pobreza crónica e o desemprego que grassava no seio da população urbana e rural também levaram muitos a partir. Por outro lado, as leis respeitantes aos morgados e à progenitura também compeliam os filhos não primogénitos a emigrar em busca de melhores oportunidades de vida (Russell-Wood, 1997, pp. 158-168).

Além dos já mencionados, outros motivos, como, por exemplo, a fuga ao serviço militar ou às malhas da justiça também contribuíram, igualmente, para alimentar os fluxos migratórios. Muitos dos foragidos conseguiam escapulir-se usando passaportes falsos, conseguidos com documentos adulterados ou com nomes inventados (Pereira, año, pp. 205-206). [2] Outros, a quem não era concedido passaporte para saírem do reino por se acharem em idade de recrutamento, chegavam a acordo com os capitães dos navios, que os incluíam no rol dos registados e assim escapavam ao cumprimento do serviço militar[3].

Ao tempo, o Brasil era o destino preferencial do movimento migratório, para o que contribuía a afinidade linguística, a similitude de costumes e até a existência de ligações familiares (Klein, 1993, p. 242). O êxodo dos primeiros membros de uma determinada comunidade ou da família, tinha, por vezes, o efeito de arrastão, levando outros a seguir as mesmas pisadas, movidos pelo sentimento de partilha e identidade. A presença de parentes podia ser um importante fator impulsionador e de ligação entre a terra de partida e o lugar de destino, facilitando a integração dos recém-chegados na nova morada (Cruz, 1986/1987, pp. 12-13).

Havia ainda outros fatores que incentivavam a partida dos mais desfavorecidos, nomeadamente as facilidades de pagamento das passagens, concedidas pelos proprietários dos navios, e o aliciamento levado a cabo por engajadores. A angariação de potenciais emigrantes preocupava as autoridades portuguesas, desde logo porque o futuro quase paradisíaco que lhes era prometido pouco ou nada nada tinha a ver com a realidade, até porque o Brasil não estava propriamente interessado em recrutar mão-de-obra qualificada, mas sim braços fortes para substituir o trabalho escravo nas imensas explorações agrícolas e nas grandes obras públicas.

O desenvolvimento de redes de aliciadores, que recorriam a mecanismos propagandísticos e procuravam tirar proveito do isolamento e da ignorância das populações, verificou-se a partir de 1830, tendo como alvos prioritários os jovens do sexo masculino, fisicamente bem constituídos, a quem propunham contratos de locação de trabalho (Alves, 1998, pp. 413-424). Muitos acediam e, levados talvez pelo desespero, hipotecavam as suas propriedades, outros gastavam os primeiros anos de trabalho no pagamento da viagem.

Nem todos os que partiam para terras brasileiras regressavam à terra natal. No entanto, entre os “brasileiros” que retornavam, havia alguns que, bafejados pela sorte, tinham granjeado fortuna e faziam questão de a ostentar, fosse através das casas apalaçadas que mandavam construir, das doações que faziam ou dos legados que instituíam, conseguindo, assim, perpetuar o seu nome na história das terras de origem. Outros, sobre os quais abunda a documentação, fizeram-se notar na política e no exercício de importantes cargos públicos. A vida e a obra de alguns foram exaltadas em biografias apologéticas e divulgadas pela imprensa da época. No entanto, muitos permanecerão esquecidos nas páginas do tempo se não for feito o esforço, por parte do investigador, de procurar o seu rasto. Trata-se de homens que regressaram sem terem conseguido o ambicionado pé-de-meia e que procuraram digerir, na terra mãe, as agruras do seu fracasso (Alves, 1993, p. 260 e Machado, 2005, p. 54).

Durante muito tempo, a historiografia rotulou os “brasileiros” de rudes e incultos, de portadores de hábitos boçais, próprios de um novo-riquismo, que a literatura oitocentista satirizou e até perpetuou, como se pode observar em algumas personagens das novelas camilianas ou na obra de Júlio Dinis. Importa, todavia, evitar as generalizações infundadas e preconceituosas, uma vez que muitos desses homens, ainda em terras brasileiras, além do sucesso alcançado na atividade a que se dedicavam, refinaram os seus hábitos, gostos e práticas, cuidaram a sua instrução e mantiveram uma vida social ativa, feita de almoços, jantares, festas, saraus e viagens.

O nosso trabalho ocupa-se dos “brasileiros” que se notabilizaram, não apenas pelas fortunas e pelas festas que organizavam ou frequentavam, mas também pelos seus percursos de vida, que a imprensa local registava e divulgava, pelas obras de beneficência que promoviam ou financiavam, pelas viagens que realizavam, procurando, ainda, avaliar o impacto que tiveram nas terras que os viram nascer.

As viagens

As viagens começam a interessar a imprensa periódica do Portugal oitocentista. Noticiam-se partidas e chegadas, descrevem-se despedidas, registam-se os itinerários andados e os destinos visitados, num tempo em que as deslocações, apesar dos avanços no setor dos transportes, eram morosas e dispendiosas, pelo que, mesmo os mais abonados podiam ficar largos períodos sem ver os seus familiares.

Não é fácil historiar as emoções e muito menos conhecer a evolução do conceito de felicidade, pela subjetividade que este conceito encerra. Todavia, nos textos que relatam as separações e os reencontros há referência a momentos de grande emoção, os protagonistas são adjetivados, as manifestações de alegria ou de tristeza são evidenciadas.

Aquando da partida, se, por qualquer motivo, não havia oportunidade de fazer, pessoalmente, as despedidas de familiares e amigos, os viajantes recorriam às páginas dos periódico locais para deixar mensagens coletivas. Este ato servia também para exibir o crédito e as relações sociais que se tinham e se queriam cultivar, apesar da distância. Em 1866, José de Sá Coutinho Júnior, impossibilitado de se despedir de todos quantos faziam parte do seu círculo de relações, que se repartia pelos concelhos de Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Ponte de Lima, serviu-se do jornal O Echo do Lima, publicado nesta vila, para publicitar a sua ida para Angola, mais precisamente para Benguela, onde iria exercer a função de delegado e procurador da Coroa, e, ao mesmo tempo, deixar uma nota de despedida dirigida às pessoas que com ele privavam.[4] No ano seguinte, Gonçalo Manuel da Rocha Barros, de partida para a India, recorreu ao mesmo periódico com idêntico objetivo.[5] Já em 1909, o jornal O Comércio do Lima publicava a seguinte mensagem:

Virginia Gonçalves Pereira dos Santos, tendo retirado hoje desta villa com destino ao Rio de Janeiro, e não podendo ter-se despedido pessoalmente de todas as pessoas das suas relações de amizade, vem faze-lo por este meio, oferecendo a todos os seus serviços naquela cidade, onde vai fixar residência. Ponte de Lima, 29 de maio de 1909.[6]

Como seria expectável, as viagens da família real eram as que suscitavam mais interesse e curiosidade, sendo, por isso, noticiadas ao pormenor. Todavia, nem sempre mereciam a aprovação da opinião pública, designadamente as que tinham como destino países estrangeiros. Em 1865, quando começou a constar que D. Maria Pia pretendia visitar o seu pai, na Península Itálica, ergueu-se uma série de clamores contra essa deslocação, devido à instabilidade e à insegurança que se verificavam em várias regiões da Europa, pelo que se considerava uma altura imprópria para viajar e um destino pouco aconselhável para a família real portuguesa.[7] Dois anos mais tarde, em 1867, a imprensa dava conta da preparação de uma viagem régia, mas que não se veio a concretizar, cujo itinerário incluía a passagem pela Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Inglaterra e Itália. Anos antes, as viagens de Pedro V, realizadas em 1854 e 1855, também dividiram opiniões, havendo quem as achasse meras futilidades e sem qualquer proveito (Vicente, 2003).

Tratando-se de gente da alta sociedade local e nacional, eram noticiadas não apenas as viagens de negócios ou de lazer, mas também as motivadas por problemas de saúde, que levavam homens, mas sobretudo mulheres, para as termas e estâncias balneares nacionais e até estrangeiras. Em maio de 1865, o jornal o Lethes noticiava a ida para o estrangeiro de Casal Ribeiro, a fim de tratar graves problemas de saúde.[8]

Além das saídas de reis e rainhas, ou de pessoas ilustres, que se deslocavam para as termas e praias nacionais ou para diversos destinos europeus, também era motivo de notícia, mas por razões bem distintas, a partida dos sentenciados ao desterro. Embora se tratasse de um espetáculo chocante e degradante, o embarque de levas de condenados despertava a curiosidade das gentes e a atenção dos jornais, que não se eximiam de relatar com todo o pormenor os crimes que tinham justificados tais penas.

Assim, o mundo das viagens começa a entrar no quotidiano de muitos portugueses de Oitocentos, não só de quem as experienciava, pois que, através das páginas dos periódicos, era satisfeita a curiosidade dos leitores sobre os protagonistas, os lugares visitados e as paisagens e as gentes que deles fazem parte.

Centrando-nos nas viagens efetuadas pelos “brasileiros”, importa distinguir as que faziam entre os dois lados do Atlântico, motivadas por negócios ou pela visita a familiares e amigos, das que faziam pela Europa, mas agora por recreação, para conhecer os países e os povos tidos como mais civilizados, ou até por negócios também. Independentemente das razões e dos objetivos, interessavam o grande público e, por conseguinte, eram noticiadas nos jornais.

A imprensa dava notícia da chegada dos “brasileiros” a terras lusas, muitas vezes depois de longos anos de ausência. Em 1880, nas páginas de O Comércio do Lima, constava a seguinte informação: Do império do Brasil, para onde tinham ido há anos, chegaram a esta vila, no dia 13 do corrente, os nossos estimáveis patrícios, o sr. Bento Correia do Sá e dois filhos do sr. Tomas José Barbosa. Enviando-lhes um aperto de mão, damos-lhes as boas vindas.[9] O mesmo acontecia nos periódicos de Paredes de Coura, que saudavam o regresso à terra natal, nuns casos definitivo, noutros apenas temporário, de casais que haviam partido há largos anos para o Brasil.[10]

A vinda dos “brasileiros” era motivo de celebração: não se poupavam palavras a contar a história de vida dos ilustres conterrâneos, a população reunia-se para os receber e as localidades engalanavam-se para dar as boas-vindas aos filhos da terra que tinham partido à procura de uma vida melhor. Após a chegada ao lugar de origem, as deslocações, dentro e fora de Portugal, das personalidades mais distintas e renomadas passavam a ser acompanhadas pela imprensa local. Foi o caso de José António Rodrigues, da freguesia de Castanheira, concelho de Paredes de Coura, que, regressado há pouco tempo do Brasil, viu a sua deslocação ao Porto, em maio desse mesmo ano, ser noticiada.[11] Em 1897, Luís da Silva Gomes deixou o Brasil em direção a Portugal, mais precisamente a Arcos de Valdevez. Porém, a sua viagem era notícia no concelho vizinho de Paredes de Coura. Tratava-se de um “brasileiro” que, tendo emigrado em 1866, acabou por se instalar em Manaus, onde constituiu família e conseguiu granjear fortuna. Chegou a lançar-se na vida política, como deputado, e foi coronel das guardas nacionais do Alto Amazonas. Após uma ausência de muitos anos, vinha apresentar a família à sua mãe.[12] O seu regresso a Manaus também interessou a imprensa local, sobretudo por causa do acontecimento inusitado que o marcou: a sua esposa deu à luz, a abordo do paquete que os transportava.

Os festejos de boas vindas sucediam-se quando os “brasileiros” chegavam do Brasil, mas também a propósito dos périplos que efetuavam pela Europa. Jornadas que começaram por ser penosas, em embarcações desconfortáveis, tornam-se mais cómodas, rápidas e populares, quando os veleiros passam a ser substituídos por barcos a vapor. Os jornais preenchiam algumas das suas páginas com relatos de idas e regressos e, muitas vezes, faziam até um balanço do tempo passado em Portugal.

No periódico O Libertador de Coura anunciava-se da seguinte forma a partida de um conterrâneo: Boa viagem – Partiu anteontem para Lisboa, de onde seguira viagem para o Rio de Janeiro, a bordo do «Cordillera» o sr. José António Rodrigues, nosso estimável conterrâneo e considerado membro da classe comercial fluminense. Boa viagem é o que sinceramente desejamos ao nosso amigo.[13] O Libertador de Coura noticiava do seguinte modo a visita à terra natal e o périplo por vários países europeus de João Campos Braga, residente no Rio de Janeiro:

Tendo projetado uma viagem à Europa em procura de lenitivo para antigos padecimentos, aproveitou esta ocasião para vir passar uma temporada junto de seu estimável empregado e nosso conterrâneo o sr. António Venâncio Teixeira, da freguesia de Cunha, deste concelho. Cumprimentamos muito afetuosamente o ilustre brasileiro e desejamos que os ares puros da nossa terra favoreçam o restabelecimento dos seus padecimentos.[14]

Ainda a este propósito, merece referência especial o caso de Francisco de Paula Rodrigues Alves, nascido em Guaratinguetá, em São Paulo. Era o terceiro filho de Domingos Rodrigues Alves, comerciante e rico latifundiário, natural da freguesia da Correlhã, concelho de Ponte de Lima, que tinha partido para o Brasil em 1845. Francisco formou-se em Direito e casou com a sua prima direita, D. Ana Guilhermina de Oliveira Borges, neta do Visconde de Guarantinguetá. Ainda muito jovem, iniciou uma intensa atividade pública e política, tendo desempenhado, entre 1900 e 1902, o cargo de Presidente do Estado de São Paulo. Entre 1902 e 1906, ocupou a presidência do Brasil, cargo para o qual voltou a ser eleito em 1918. Todavia, acabou por não assumir funções, por motivos de saúde. Em 1908, Rodrigues Alves visitou a Europa, tendo passado por Roma, Paris, Londres, entre outras cidades europeias.[15] Nesta digressão não esqueceu a terra de seu pai. No dia 29 de outubro daquele ano, visitou o Hospital da Caridade, sito em Viana do Castelo, onde encontrou um antigo serviçal, e deslocou-se a Ponte de Lima, onde foi recebido em apoteose pela população e pelas autoridades civis e eclesiásticas. Nesse mesmo dia, partiu para a cidade do Porto (Esteves, 2008, p. 250). Também em 1908, pela Europa, viajava António Manso. De Ponte de Lima, terra natal, dirigiu-se a Lourdes, importante santuário mariano e palco de peregrinações desde a segunda metade do século XIX. Daqui partiria para Paris e, depois, para as cidades alemãs de Berlim e Hamburgo, para tratar de negócios, antes de regressar à Baía.[16]

Estas viagens pela Europa tinham, na maior parte dos casos, um caráter privado e familiar. A imprensa local, que não perdia a oportunidade de as divulgar, acabava por funcionar, assim, como mecanismo de publicitação da fortuna e prestígio da família, condições fundamentais para a afirmação social.

Entre os “brasileiros” mais estudados pela historiografia portuguesa, aparece Miguel Dantas, a quem Júlio de Lemos, jornalista, investigador regionalista e historiógrafo com vasta obra publicada, dedicou uma biografia apologética. Esse interesse deve-se, sobretudo, ao contributo de Miguel Dantas para o desenvolvimento de Paredes de Coura, donde era natural. Em 1865, aquando da sua vinda a Portugal, aproveitou para visitar diversos países, nomeadamente a França, a Bélgica, a Alemanha e a Inglaterra. Desconhecemos, no entanto, se se tratou de uma viagem de recreio ou de negócios.

O Visconde de Sá foi uma das personalidades “brasileiras” que mereceu a atenção da imprensa de Paredes de Coura, que, além de noticiar as suas visitas ao torrão natal, dava relevo às suas dádivas a diversas instituições religiosas, ao Asilo de Infância Desvalida e ao Hospital da Misericórdia. Para atestar a sua generosidade e perpetuar a sua memória, o seu retrato passou a figurar no salão nobre da Santa Casa daquela vila alto minhota. O Visconde de Sá, nascido em terras courenses, cedo foi trabalhar, como caixeiro, para a vila de Arcos de Valdevez. Em 1852, partiu para o Brasil, onde se dedicou à atividade comercial, que lhe permitiu fazer fortuna e obter o reconhecimento social, além de lhe valer a atribuição, pelo governo português, do cargo de vice-cônsul de Portugal em Manaus. Em 1897, acompanhado pela família, iniciou um périplo pela Europa. Após visitar várias cidades portuguesas, chegou a Sevilha, onde assistiu às solenidades da Semana Santa, e daí seguiu para outras localidades espanholas. Em maio daquele ano, escrevia de Madrid, donde iria continuar viagem[17]. À Espanha, seguiram-se, num itinerário descrito pela imprensa courense, a França, Itália, Suíça, Bélgica, Alemanha, Áustria, Rússia, Suécia e Inglaterra. Em 1899, o jornal local O Libertador de Coura, além de noticiar a sua passagem pelas terras de Paredes de Coura, não deixou de divulgar e enaltecer os seus gestos de filantropia:

Verdadeiros fidalgos são os que se distinguem na prática dos deveres impostos pela caridade, a mais sublime, grandiosa e santa das virtudes; e o nosso benemérito e respeitabilíssimo conterrâneo o snr. Visconde de Sá não precisava que a munificência régia lhe conferisse as honras e a nobreza d’um título –galardão devido aos seus reconhecidos méritos, como zeloso patrono de grande numero de portugueses residentes no Brazil (…).[18]

O Grand Tour do século XIX distinguia-se do século anterior, por estar voltado para o futuro, para as cidades que simbolizavam o progresso, como Paris e Londres. Os mais abastados já não procuravam Roma e os vestígios das civilizações antigas, embora incluíssem a Itália nas suas jornadas. O objetivo destas viagens era distinto, enquadrando-se num tempo novo, marcado pelo desenvolvimento tecnológico, pelo positivismo e pela crença na ciência e no progresso humano. Deste modo, podemos considerar que estas viagens eram igualmente educativas, permitindo aceder a outras realidades, a instituições variadas, como museus, fábricas, hospitais, e a respostas que não existiam no Portugal oitocentista.

Alguns dos “brasileiros” já instalados em Portugal iam, periodicamente, ao Brasil para cuidar dos negócios que mantinham. Em 1899, Francisco Bento de Sá, vereador da Câmara Municipal de Paredes de Coura, deslocou-se a Manaus, com a sua filha, para acompanhar os negócios de comércio e indústria que tinha nesta cidade brasileira.[19] Convém notar que os viajantes não eram apenas homens, até porque, habitualmente, faziam-se acompanhar de familiares do sexo feminino. Todavia, apesar da sua condição de protagonistas em deslocações que efetuavam, as viagens realizadas por mulheres nem sempre eram publicitadas, pelo que o conhecimento das mesmas é obtido, sobretudo, através de documentação particular e privada. Podemos mencionar, a título exemplificativo, a Viscondessa de Amoroso Lima, que viajou pela Europa. O seu marido, Manuel Amoroso Lima, nasceu em Ponte de Lima, a 30 de abril de 1823. Em 1839, foi trabalhar para o Brasil, onde, como negociante, conseguiu juntar fortuna, que lhe permitiu afirmar-se como capitalista no Rio de Janeiro e desenvolver uma vasta obra assistencial que se estendeu por escolas, asilos, hospitais e misericórdias, sendo de salientar os donativos concedidos às Misericórdias de Viana do Castelo e de Ponte de Lima (Rodrigues, 2008, pp. 223-224). Foi o principal fundador da Sociedade Portuguesa da Beneficência, sita no Rio de Janeiro, e, posteriormente, seu diretor. Conhecido pelo seu altruísmo, distribuiu esmolas por diversos estabelecimentos de beneficência e educação. Em 1884, o rei D. Luís agraciou-o com o título de Visconde. Faleceu sete anos mais tarde, longe da terra que o viu nascer, em Paris.[20]

A outros “brasileiros de torna-viagem” foram atribuídos títulos nobiliárquicos, o que nem sempre foi bem aceite pela sociedade portuguesa de Oitocentos. Outras formas de reconhecimento podiam incluir ainda a afixação do seu nome nas ruas, em praças e avenidas, ou pelo levantamento de estátuas. Entre as razões para que recompensas desta natureza fossem concedidas, estava o altruísmo de alguns “brasileiros” regressados ricos e dispostos a perpetuar a sua memória através, nomeadamente, da distribuição de esmolas, da construção de asilos, escolas e hospitais (Alves, 2004, p. 193-199). Todavia, da concessão de títulos, o Estado procurava tirar algum benefício, através dos chamados direitos de mercê.

Os gestos de filantropia eram comuns entre os “brasileiros”, que, mesmo do outro lado do Atlântico, se dispunham, muitas vezes, a apoiar instituições de assistência da terra natal. Foi precisamente o que fez José Maria Alves, natural de Paredes de Coura, residente em Itu, no Brasil, que, em 1897, enviou 200.000 réis para o Asilo de Nossa Senhora da Conceição.[21] Em reconhecimento pela graça concedida, além do agradecimento publicitado no periódico local, foi-lhe enviado o diploma que o distinguia como irmão benemérito da instituição.

A imprensa da época nem sempre era elogiosa ou condescendente com os “brasileiros”, que, por vezes, eram envolvidos em notícias falsas ou pouco dignificantes. Foi o que sucedeu a Bento da Cunha Ribeiro. Este “brasileiro”, natural de Paredes de Coura, viu-se confrontado com a necessidade de desmentir uma notícia publicada em vários jornais de Paredes de Coura, Lisboa e Porto, que o implicava no rapto de uma irmã sua e dos seus sobrinhos. Tal notícia resultou precisamente das viagens que Bento da Cunha fez por Aldreu, concelho de Barcelos, Paredes de Coura e Lisboa, na companhia da sua irmã e sobrinhos, sem autorização do seu cunhado.[22] Apesar de nem sempre merecerem um tratamento favorável por parte da imprensa, a verdade é que “brasileiros” houve que apoiaram e patrocinaram periódicos locais, dando um contributo decisivo para a sua existência.

Alguns dos “brasileiros” que chegavam a Portugal tinham como destino final outras paragens, nomeadamente para prosseguirem a sua formação académica. Em 22 de agosto de 1897, Bento Barbosa, aluno da Academia de Belas Artes de Lisboa, deixava Paredes de Coura com destino a Roma, a fim de completar a sua formação.[23] Havia ainda outros que chegavam a convite de amigos para passar uma temporada em terras lusas. Em outubro de 1897, depois de dois meses em Paredes de Coura, regressava ao Brasil João Nepomuceno de Campos Braga, juntamente com a sua família. Tratava-se de um importante comerciante do Rio de Janeiro, que veio conhecer Portugal a convite do seu amigo António Venâncio Teixeira, natural daquela vila do Alto Minho.[24]

Grande parte dos “brasileiros” que referenciámos na imprensa da época eram homens de fortuna, construída, essencialmente, com base na atividade comercial, que depois lhes permitia enveredar por outros ramos, como a política, bem como apoiar, nem sempre desinteressadamente, obras de beneficência. Alguns conseguiam regressar a Portugal e manter os negócios do outro lado do Atlântico, o que os obrigava a viagens frequentes. Francisco Bento de Sá, por exemplo, sobrinho do Visconde de Sá, era administrador substituto do concelho de Paredes de Coura e vereador da Câmara Municipal de Paredes de Coura. Contudo, tinha negócios em Manaus, o que o obrigava a deslocações regulares a esta cidade e permanecer alguns meses longe da terra de naturalidade.

Conclusão

Importa referir, em jeito de conclusão, que, ao longo da sua existência, os homens sempre se deslocaram do seu lugar habitual, fosse por motivos familiares ou religiosos, fosse para tratar de negócios ou para melhorar as suas condições de vida, entre muitas outras razões. Contudo, será no século XIX que o ato de viajar se vai generalizando e tornando mais fácil, graças à melhoria dos meios de transporte. Assiste-se, ainda, à valorização do lazer. Homens e mulheres dirigem-se para termas e caldas e, ao mesmo tempo, intensifica-se o interesse e a vontade de conhecer outros lugares, povos e culturas. Tratava-se, no entanto, de práticas reservadas à elite, na qual se incluíam os “brasileiros” mais afortunados. As viagens, cada vez mais frequentes, que realizavam entre os dois lados do Atlântico, serviam não apenas para matar saudades da terra natal, mas também de ponto de partida para conhecer outros lugares da Europa, onde podiam permanecer meses a visitar cidades ou descansar no campo, na praia ou em estâncias termais. Assim, os “brasileiros” também se transformam num símbolo da modernidade, ao adotarem práticas e comportamentos próximos da elite europeia, que faziam da viagem uma experiência cultural e civilizacional.

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  3. AHGCVC, Correspondência com várias autoridades – Dezembro de 1852 a Maio de 1854, n.º 1.8.3.14, não paginado.
  4. AMPL, O Echo do Lima, 1866-09-30/1866-09-30.
  5. AMPL, O Echo do Lima, 867-02-24/1867-02-24.
  6. Arquivo Municipal de Ponte de Lima (doravante AMPL), O Comércio do Lima, 1909, n. 145.
  7. AMPL, O Lethes 1865-02-24/1865-02-24.
  8. AMPL, O Lethes, 1865-05-23/1865-05-23.
  9. AMPL, O Comércio do Lima nº 264 1880-12-15/1880-12-15
  10. Era o caso de Daniel José Rodrigues Guerra, natural da freguesia de Parada, concelho de Paredes de Coura, que regressou do Brasil, com a sua esposa, D. Joaquina Torres Galindo Guerra, em abril de 1897. Arquivo Municipal de Paredes de Coura (doravante AMPC), O Libertador de Coura, 18 de abril de 1897.
  11. AMPC, O Libertador de Coura, 2 de maio de 1897.
  12. AMPL, O Libertador de Coura, 27 de junho de 1897, n. º 22.
  13. AMPL, O Libertador de Coura, 1897-09-26/1897-09-26.
  14. AMPC, O Libertador de Coura, 15 de agosto de 1897, n. º 29.
  15. AMPL, O comércio do Lima, 1908, n. 77.
  16. AMPL, O comércio do Lima, 1908, n. 99.
  17. AMPL, O Libertador de Coura, maio de 1897.
  18. AMPC, O libertador de Coura, 26 de agosto de 1899.
  19. AMPC, O Libertador de Coura 1899-06-10/1899-06-10
  20. Agradecemos esta informação ao historiador Henrique Rodrigues.
  21. AMPC, O Libertador de Coura, março de 1897.
  22. AMPC, O Libertador de Coura, maio de 1897.
  23. AMPC, O Libertador de Coura, 22 de agosto de 1897.
  24. AMPC, O Libertador de Coura, 10 de outubro de 1897.


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