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Roda Cultural de Olaria

Um estudo sobre arte de rua e resistência

Priscila Telles De Oliveira

Resumo

As Rodas Culturais se configuram, em grande medida, como eventos independentes, sem aportes financeiros ou institucionais, marcadas pelo encontro de diferentes grupos e múltiplas atividades: recebem MCs para disputar batalhas de rimas, dançarinos de break, grafiteiros, artistas circenses, reús de xarpi, entre outros. É possível contabilizar mais de cem Rodas Culturais que, semanalmente, fazem uso das ruas e praças públicas de diversos bairros cariocas. Entretanto, percebe-se que elas vêm ao longo dos anos sofrendo uma série de repressões por parte do poder público e, ainda, conflitos e disputas permeiam e constituem as relações, seja com os moradores do entorno ou entre os próprios produtores e frequentadores. Nessa direção, busco estudar os diferentes usos dos espaços onde se estabelecem as Rodas Culturais, que os produtores culturais e frequentadores qualificam como uma forma de “Resistência Cultural”. Proponho pensar os sentidos da noção de “resistência cultural” e a forma como esse conceito molda o comportamento e as ações dos seus organizadores e frequentadores em sua relação com agentes públicos, moradores e outros atores sociais: contra o que e como eles “resistem”? De que forma eles negociam com os diversos agentes (moradores, vizinhos, polícia, prefeitura)? A Roda Cultural de Olaria se revelou, assim, como um importante lugar para a realização desta pesquisa. Nela, especialmente, observa-se uma série de situações nas quais as práticas e discursos de “resistência cultural” ganham destaque.

Palavras-chaves

Roda Cultural; resistência; conflito.

Introdução

A cidade está longe de ser um lugar que possa ser estudado em sua totalidade. Seus habitantes cultivam estilos particulares de entretenimento, mantém vínculos de sociabilidade e relacionamento, criam modos e padrões culturais diferenciados. Com isso, percebe-se que, marcada pela sua diversidade e heterogeneidade, a cidade se encontra como lugar privilegiado para análise de uma multiplicidade de atividades e formas de participação. Dentre essas formas de participação, as expressões artísticas, em suas diversas dimensões – sonoras, visuais e performativas –, têm se mostrado um objeto relevante para se pensar essa urbe.

A rua, cada vez mais, tem se tornado palco de diferentes tipos de manifestações artísticas e culturais. Em uma caminhada vespertina pelo centro da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, é possível ver músicos de rua, artistas circenses, entre outros, que encontram nesses espaços o lócus para suas atividades. Afastando-se um pouco do Centro, nota-se que em diversos bairros das Zonas Norte e Oeste, as praças também têm sido logradouro de manifestações deste cunho. Trata-se de um fenômeno relativamente recente e que vem, há algum tempo, me despertando um profundo interesse: as Rodas Culturais.

Se em 2010 era uma Roda de Rima na Lapa, em 2011 se transformou no Circuito Carioca de Ritmo e Poesia (CCRP)[1] e, hoje, é possível contabilizar, cerca de cento e vinte Rodas Culturais que ocorrem diariamente, sempre em logradouros públicos, com participação aberta a todo e qualquer artista e de forma gratuita (Alves, 2016). Em grande medida, essas Rodas Culturais se configuram como eventos independentes, sem aportes financeiros ou institucionais de prefeituras e secretarias de cultura. No início a proposta era reunir MCs[2] ao lado de caixas de som para disputar batalhas de rimas e jogos de palavras. Atualmente elas compreendem um evento marcado pelo encontro de diferentes grupos e múltiplas atividades: recebem MCs, dançarinos de break[3], grafiteiros, artistas circenses, reús de xarpi[4], entre outros.

Entretanto, embora elas se configurem como um evento cuja finalidade é, de acordo com seus produtores culturais[5], ocupar o espaço público para incentivar, valorizar e promover arte, cultura e entretenimento para os mais diversos habitantes citadinos, percebe-se que elas vêm ao longo dos anos sofrendo uma série de repressões por parte do poder público, visto que ainda não há uma lei que regulamente essas Rodas Culturais, cabendo então à Região Administrativa do bairro a liberação do documento do Nada Opor[6].

Para além disso, notase ainda que conflitos e disputas permeiam e constituem as relações, seja com os moradores do entorno ou entre os próprios produtores e frequentadores. Muitas Rodas Culturais ocorrem em praças de bairros estritamente residenciais, como é o caso da Roda de Olaria. Sendo assim, alguns moradores não medem esforços na realização de denúncias contra as Rodas ao Batalhão local, dificultando, assim, a liberação do Nada Opor.

Nessa direção, busco estudar os diferentes usos dos espaços onde se estabelecem as Rodas Culturais, que os produtores culturais e frequentadores qualificam como uma forma de “Resistência Cultural”[7]. Proponho pensar os sentidos da noção de “resistência cultural” e a forma como esse conceito molda o comportamento e as ações dos seus organizadores e frequentadores em sua relação com agentes públicos, moradores e outros atores sociais: contra o que e como eles “resistem”? De que forma eles negociam com os diversos agentes (moradores, vizinhos, polícia, prefeitura)? Ainda guiada por essas questões, busco entender em que medida os conceitos de tática e estratégia, desenvolvidos pelo historiador Michel de Certeau (1994), contribuem para pensar esses diferentes usos do espaço e a “resistência cultural”.

Parto do pressuposto de que a abordagem etnográfica e a observação empírica me permitem realizar esta análise de forma detalhada. Para Magnani (2003) a etnografia é uma forma especial de operar em que o pesquisador entra em contato com o universo dos pesquisados e compartilha seu horizonte, não para permanecer lá ou mesmo para captar e descrever a lógica de suas representações e visão de mundo, mas para, numa relação de troca, comparar suas próprias representações e teorias com as deles e assim tentar sair com um modelo novo de entendimento ou, ao menos, com uma pista nova, não prevista anteriormente.

Deste modo, a Roda Cultural de Olaria se revelou como um importante lugar para a realização desta pesquisa. Nela, especialmente, observa-se uma série de situações nas quais as práticas e discursos de “resistência cultural” ganham destaque. Toda quinta- feira, a partir das oito horas da noite, a Praça Grande Otelo – também conhecida como “Quadras gêmeas” – torna-se palco deste evento que há quatro anos luta para continuar “ocupando” o espaço público.

Das rimas na Lapa à Roda em Olaria

Em novembro de 2016, estive no debate sobre Arte Urbana em uma das edições do “Vamos Desenrolar”. Trata-se de uma de uma iniciativa do Instituto Raízes em Movimento – uma organização não governamental com sede no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro – que visa reunir pesquisadores com trabalhos desenvolvidos no Complexo do Alemão e da Penha, cuja finalidade é estabelecer uma troca entre eles e os vários atores que atuam no território. A proposta do evento foi refletir sobre as “resistências e criatividade” na construção dos espaços que geralmente são construídos no vácuo de políticas públicas culturais. Rico Neurótico, MC e um dos produtores culturais da Roda de Olaria, foi um dos convidados e compartilhou com os que estavam ali presentes um pouco da história da Roda.

Segundo ele, no ano de 2005 havia, na casa de shows Fundição Progresso, localizada na Lapa, um espaço chamado CIC (Centro Interativo de Circo). Lá ocorria a Batalha do Real. Em 2009, no mesmo local, ocorreu durante um ano o programa chamado “reciclando pensamentos”, desenvolvido pelo coletivo Comando Selva, do qual Rico é um dos integrantes. Neste mesmo ano, houve um incêndio no espaço e os equipamentos foram destruídos: transmissores de uma rádio comunitária, acervo para televisão comunitária, dez computadores, câmeras, além de uma área que era utilizada pela comunidade hip hop. Após o incêndio, Rico afirma que a Fundição Progresso não voltou a “fechar negócio” com o gestor do espaço.

Com isso, o MC entrou em contato com Maomé do grupo Cone Crew Diretoria[8] na tentativa de se unir para continuar fazendo alguma atividade na rua. Foi a partir deste encontro que surgiu a ideia de organizar a primeira roda de rima na Lapa, no dia 1 de abril de 2010, numa quinta-feira.

Logo após o incêndio ocorrido no CIC, em 2009, a batalha migra para a frente da Fundição, debaixo dos arcos, marcando o prenúncio das rodas culturais no formato CCRP. (Cura, 2017) .

Depois de certo tempo, segundo Rico, as pessoas começaram a cobrar dele o porquê de não fazer uma Roda de Rima em Olaria, o bairro em que nasceu e em que vive até hoje.

“A rapaziada local começou a me cobrar: qual é, mano, tu faz uma Roda de Rima a léguas de distância da tua casa, por que você não faz uma onde você mora? Rico responde: OK, mano, vamos fazer. Mas VAMOS fazer. Não é ‘eu’ fazer. Eu acho que o primeiro objetivo assim do pensar em fazer a parada é reconhecer ‘a gente’ como ‘eu’. Nos reconhecemos, nos unimos e começamos a fazer. (Rico Neurótico)

Desde 2012, a Praça Grande Otelo vem, então, se tornando palco de um evento protagonizado por pessoas de diferentes faixas etárias, moradores do bairro de Olaria e adjacências. Afirma Rico que, sensíveis às dificuldades de segurança, educação, saúde etc., um grupo de artistas e produtores culturais locais, em uma iniciativa comunitária, começaram a “movimentar” a praça com encontros musicais e esportivos. Antes, o local vivia em situação de abandono, com muitos assaltos e logradouro para moradores de rua.

Com a chegada das obras do BRT[9] em Olaria no ano de 2013, todos os entulhos eram despejados na Praça. Por conta disso, durante este período a Roda ficou sem acontecer. Com o término da obra, a praça voltou a ser “ocupada” e, sem nenhum tipo de apoio governamental, os produtores culturais, com a ajuda de colegas mais próximos, conseguiram colocar iluminação na praça, gerando o aumento da circulação de alguns moradores e visitantes no bairro.

Primeiro impacto: a multa

Todavia, ao retomar a Roda em 2014, houve um primeiro impacto: a multa. Ainda na montagem do som, chegou, nas palavras de Rico, “um cidadão” da IRLF (Inspetorias Regionais de Licenciamento e Fiscalização) e disse que não poderiam realizar o evento. Um ano antes, Rico e alguns companheiros de outras Rodas Culturais foram até o Eduardo Paes, prefeito da cidade do Rio de Janeiro na época, que assinou um decreto de lei que legitimava as Rodas na cidade, sendo então dispensadas de qualquer documento de Nada Opor. O decreto recebeu o nome de “Pacto do Rap” e reconheceria o circuito e estabeleceria ajuda financeira e estrutural (através de órgãos como a Guarda Municipal e a CET-Rio).

A multa, no valor de R$ 487,00 custou a chegar pelo correio. Chegou apenas quinze dias depois no valor de R$ 647,00. Por considerarem uma atitude arbitrária por parte do poder público, Rico e os outros produtores da Roda optaram pelo não pagamento e buscaram dialogar com a prefeitura. Foram então até um encontro no Complexo da Maré em que Eduardo Paes estaria presente e, com a multa na mão, tentaram estabelecer um diálogo. Uma tentativa mal sucedida, pois dez dias depois chegou novamente pelo correio a multa, mas desta vez no valor R$ 993,00.

Mesmo com isso, voltaram a fazer a Roda e, segundo Rico, a multa foi paga com a ajuda de um companheiro. No entanto, passadas duas semanas, dois policiais militares do 16º batalhão de Olaria interromperam o evento de forma arbitrária, exigindo a retirada das caixas de som e esvaziamento do local.

A única forma que a gente tem de diálogo com o poder público é de forma truculenta”, que é com a polícia. A polícia não entende quando você chega num espaço e quer ocupar para mudança; é revitalização do espaço a princípio de tudo. Tivemos essa truculência com a polícia, mas mesmo assim a gente continuou fazendo’’ (Rico Neurótico).

“Continuaremos a ocupar o espaço público com cultura e arte

Quando comecei a acompanhar as atividades da RCO[10], ainda através do Facebook, pude perceber que os convites feitos por meio da página para participar do evento já não apareciam apenas com o nome “Roda Cultural de Olaria”, mas vinham seguidos do subtítulo “Resistência Cultural”. Segundo a descrição da página, esse movimento de resistência surgiu como forma de repúdio à atitude do 16º Batalhão da Polícia Militar ao proibir as atividades, alegando que os organizadores não tinham a documentação necessária para realizar o evento.

De acordo com a lei nº 5429, promulgada no dia 5 de junho de 2012, compreendem-se como atividades culturais de Artistas de Rua, o teatro, a dança, a capoeira, o circo, a música, o folclore, a literatura e a poesia. O documento expressa também que as manifestações culturais de Artistas de Rua no espaço público aberto, tais como praças anfiteatros, largos, boulevards, independem de prévia autorização dos órgãos públicos municipais, desde que: sejam gratuitas para espectadores (permitindo doações espontâneas); permitam a livre fluência do trânsito e a passagem e circulação de pedestres; tenham duração máxima de até quatro horas e estejam concluídas até às dez horas da noite; não tenham patrocínio privado que as caracterize como um evento de marketing; entre outros.

Mas em que medida as Rodas Culturais se enquadrariam nessa lei? Ao acompanhar as atividades, percebe-se alguns pontos cruciais que contribuem para o seu não enquadramento: 1) não se trata de um artista ou grupo fazendo uma apresentação, mas o encontro de múltiplas atividades (skate, break, basquete, batalhas de rimas etc.); 2) o som ultrapassa as dez horas da noite; e 3) se configuram como eventos que vêm adquirindo a cada dia grande visibilidade, a começar pela quantidade de frequentadores. Semanalmente a RCO recebe de trezentas a quinhentas pessoas de diferentes bairros, cidades e até mesmo estados.

No dia 13 de maio de 2016, a Prefeitura do Rio de Janeiro baixou o Decreto nº 41.703 autorizando todas as Rodas Culturais da cidade. Ou seja, elas estariam dispensadas de quaisquer documentos como o Nada Opor ou alvará. Entretanto, ao nível do Estado, existe o decreto 44.617/14 que exige o Nada Opor dos órgãos de segurança para eventos em geral, o que incluiria as Rodas Culturais. A Indicação Legislativa nº 182/2016, em trâmite na Casa Civil do Governo do Rio de Janeiro, já traz essa mudança para as Rodas Culturais, que também estarão dispensadas de solicitar o Nada Opor aos órgãos de segurança, mas enquanto não há uma lei definitiva, toda semana os produtores da RCO necessitam ir até a região administrativa do bairro de Ramos para solicitar a documentação.

Passar pela Praça Grande Otelo, em uma quinta-feira à noite e ver uma das quadras tomada por diversas pessoas com um evento deste porte é algo que me impressiona semanalmente. Do lado de fora da quadra, inúmeros jovens[11] reunidos em grupos, conversando, tocando violão, bebendo. Um lugar onde amigos se encontram, conhecem pessoas e até mesmo possíveis “paqueras”. Do lado de dentro da quadra há “bar da Roda”: uma tenda branca montada em um canto, com um isopor com cervejas e água.

Em todo o espaço da quadra percebe-se rodas espontâneas de conversas que, por vezes, desencadeiam em freestyles[12]. No centro, uma enorme lona suspendida por cordas presas nas grades da quadra. Embaixo, o DJ, a mesa com o computador, as caixas de som, os MCs batalhando e as pessoas ao redor, eufóricas pelas rimas, poesias e batalhas. É ali, às quintas-feiras, às oito horas da noite que está a Roda Cultural de Olaria.

Se no início a “ocupão” se dava de forma “orgânica”, segundo os produtores, sem equipamentos de som e apenas com roda de rima, hoje, a RCO é marcada pelo encontro de diferentes grupos e múltiplas atividades: recebem MCs para disputar batalhas, dançarinos de break, grafiteiros, artistas circenses, reús de xarpi, entre outros.

Entretanto, não são apenas pessoas em busca de entretenimento e lazer que se utilizam daquele espaço. Muito embora a Roda não possua fins lucrativos, uma vez que o dinheiro arrecado com o “bar da roda” é utilizado para aluguel de equipamentos (caixa de som, microfone, mesa do DJ, tenda etc.), alguns comerciantes locais encontram nela uma oportunidade de “fazer dinheiro”. Na Roda de Olaria há semanalmente um pipoqueiro, o “cara” do churrasquinho, uma mesa improvisada montada com diversos tipos de doces (balas, chicletes, pirulitos) e cigarros no varejo.

Através da página do Facebook é possível acompanhar as atrações da Roda para a próxima semana. Foi assim, inclusive, que tomei conhecimento dela. As chamadas geralmente são: “Tragam seus instrumentos, desenhos, tintas, skate, bola de basquete, suas rimas e poesias… Atividades: campeonato de Best Trick – ‘longboard’, exposição de telas de artistas locais, RODA DE RIMA, Reú de Xarpi etc”. A página também é uma ferramenta de divulgação para os vídeos produzidos pela RCO Filmes[13]. São vídeos com duração de três a seis minutos que oferecem um panorama de como foi a Roda, mostrando as telas expostas, as pessoas circulando de skate, jogando basquete e algumas batalhas de rimas.

Com o equipamento montado no meio da quadra, o DJ tocava músicas de rappers brasileiros bastante conhecidos como Criolo e Black Alien. Também tocava músicas famosas de hip hop, como aquela da abertura da série norte-americana chamada “The Fresh Prince of Bel Air, lançada no Brasil no canal aberto SBT como “Um maluco no pedaço”. Enquanto alguns circulavam pela quadra com seus skates fazendo manobras, artistas prendiam nas grades da quadra telas com pinturas ou grafite, outros jogavam basquete e pessoas passavam vendendo rifas[14]. Neste dia, havia em torno de quinhentas pessoas. Eram quase dez horas da noite e o evento estava apenas começando.

As Batalhas: uma guerra de Rimas

De acordo com Veríssimo (2015) as Batalhas são o momento central das Rodas Culturais. Nelas, os MCs, com um talento acima do comum, compõem versos de improviso. E de fato, embora na Roda de Olaria haja o encontro de diferentes grupos e diversas atividades, são as Batalhas de Rimas – também conhecidas como Batalhas de MCs – que configuram um dos momentos mais importantes da noite. Trata-se de confrontos onde o que importa é ser bom na rima, no improviso, e no ataque verbal ao oponente.

Existem dois tipos de Batalha: 1) a Batalha de Sangue, que é uma briga de rimas, na qual o MC deve ofender o oponente; e 2) a Batalha do Conhecimento, quando o público ou o apresentador (Mestre de cerimônia da noite) escolhe um tema. No geral, a escolha pelas Batalhas de Sangue é unânime. Nestas, as pessoas vão à “loucura”, dando bastante risada e gritando eufóricas quando a ofensa é criativa. Embora este tipo de batalha tenha por objetivo desmoralizar o oponente, alguns MCs conseguem elaborar rimas críticas e discursos bastante politizados.

Fechadas as inscrições para a batalha, Rico assume a posição de mestre de cerimônias e convida as pessoas para se aproximarem. Elas rapidamente formam uma roda em torno dos dois primeiros MCs sorteados e antes da disputa começar, Rico grita:

“Roda Cultural de Olaria, O que vocês querem ver?

E o público responde euforicamente:

Saaangueeee!! Saaangueeee!!”

A batalha é estruturada da seguinte forma: são dois rounds e os MCs decidem no par ou ímpar quem inicia a batalha. Decidido isso, o DJ começa tocando um beat[15]. O MC “A” tem 45 segundos para rimar e ofender seu oponente e o MC “B” tem o mesmo tempo de resposta. Depois o MC “B” é quem começa, com 45 segundos de ataque, e o MC “A” tem o mesmo tempo para contra-atacar. A cada batalha, o vencedor é escolhido pelo voto das pessoas ao redor, que levantam as mãos para o que consideram ser o melhor MC. Em casos de empate, há o terceiro round.

A princípio, as batalhas são livres. Porém, na RCO existem algumas regras que, caso sejam desrespeitadas, implicam na eliminação do MC. As regras são: 1) sem pederastia, 2) sem xenofobia (discriminação de cor, credo, raça, religião e opção sexual),

3) sem “panelinha” (ou seja, não torcer para o MC só porque é amigo, mas torcer pela melhor rima).

Embora as batalhas de MCs não configurem uma briga no sentido literal, ela é marcada pela dualidade, pelo conflito e pelo confronto verbal. Não se derruba o oponente com um soco ou “pontapés”, mas uma frase é capaz de destruí-lo moralmente, colocando-o, de certo modo, no chão”.

O Xarpi Rap Festival

No dia 8 de dezembro de 2016, a RCO promoveu o Xarpi Rap Festival: um tradicional festival de Xarpi e rap que ocorre há dez anos no Rio de Janeiro. Nele, grandes “relíquias” e artistas de rua já foram premiados. É uma espécie de “Oscar” do Xarpi carioca. No evento, o público votava em diversas categorias de Xarpi. O objetivo da brincadeira é manter a tradição do Xarpi carioca, pois, mesmo havendo rivalidades, a ideia é reconhecer, aplaudir e premiar quem se destacou durante o ano.

O evento lotou! Infelizmente não consegui ficar até o final. Neste dia saí por volta das onze horas da noite. Soube depois que ficaram até 00h30 na praça. Houve alguns desentendimentos entre alguns pichadores, soltaram muitos fogos e na saída picharam diversos muros.

Isso, de certo modo, fez com que as denúncias realizadas (por alguns moradores da região) se agravassem. Desde janeiro, o então comandante da Polícia Militar do 16º batalhão vem se recusando a entregar o Nada Opor. Por conta disso, no mês de março de 2017, os produtores da RCO voltaram a mobilizar a chamada “resistência cultural”. A Roda não tem acontecido com aquela mesma proporção, com lona, tenda para o “bar da roda”, batalhas de MCs, mas toda quinta-feira a praça é ocupada. As pessoas se reúnem no horário e local marcado, levam seus instrumentos, skates e telas, e fazem uso daquele espaço que, segundo os produtores e frequentadores, é de “cultura e resistência”. Também são organizados alguns debates com as pessoas do Ocupa Alemão[16]. Um deles, por exemplo, foi sobre a questão da reforma da previdência.

Considerações finais: “A rua é nosso campo de atuação”

Certeau (1994) evidencia as maneiras de fazer cotidianas, as quais compreendem não um consumo dócil e passivo, mas que são dotadas de criação anônima, astuciosa e do tipo tático. Trata-se de um usuário ordinário que inventa o seu cotidiano através de mil maneiras de caça não autorizada. Ou seja, mesmo submetidos aos mecanismos disciplinares e estratégicos, não se conformam, mas os rejeitam, subvertendo-os e modificando-os.

Ao que Certeau chama de “artes de fazer”, “astúcias sutis”, “táticas de resistência” que vão alterando os objetos e os códigos, e estabelecendo uma (re)apropriação do espaço e do uso ao jeito de cada um. Ele acredita nas possibilidades de a multidão anônima abrir o próprio caminho no uso dos produtos impostos pelas políticas culturais, numa liberdade em que cada um procura viver, do melhor modo possível, a ordem social e a violência das coisas. (Duran, 2007: 119)

É neste sentido que reconhece dois tipos de comportamento: o estratégico e o tático. As estratégias são sancionadas por forças dominantes e se manifestam pela presença de um “lugar próprio” de operação (escritórios, matriz, quartel-general etc.), atrelado aos seus produtos (leis, linguagem, rituais, produtos comerciais, literatura, arte, invenções, discursos). A tática, em contrapartida, é o que o autor chama de a arte do fraco. É determinada pela ausência deste lugar próprio, mas que opera golpe por golpe, lance por lance. Ela aproveita as ocasiões e é capaz de neutralizar a influência de uma estratégia.

Eu gostaria de acompanhar alguns dos procedimentos – multiformes, resistentes, astuciosos e teimosos – que escapam à disciplina sem ficarem mesmo assim fora do campo onde se exerce, e que deveriam levar a uma teoria das práticas cotidianas, do espaço vivido e de uma inquietante familiaridade da cidade (Certeau, 1994, p. 175).

Lembro-me que às vésperas da eleição de primeiro turno para prefeito do Rio de Janeiro, em outubro de 2016, três rapazes do Ocupa Alemão tomaram o microfone para se manifestarem pela liberdade de Rafael Braga[17]. Em seguida abriram espaço para doar camisas do “Ocupa” para cinco MCs que quisessem se manifestar através de rimas. Rapidamente os MCs se colocaram diante do público. Nesta oportuna ocasião, o MC Duclan mostrou, através do improviso a sua tática diante de um governo e de uma polícia corrupta:

Eu voto nulo ou não voto não

Prefiro pagar multa, mas também não pago não

Por isso que sou revoltado e dou calote no buzão

Aê, parceiro, na moral é nós que

Aê, parceiro, a gente tem que reagir, se revoltar

Aê parceiro, não aceite a conta

Esses político achando que o povo é barata tonta

Aê, parceiro, na disciplina e no respeito,

Mostro pros políticos o meu dedo do meio

É liberdade Rafael Braga, vamos protestar

Vamo reagir

É por isso que a gente faz a luta de um MC

Vo pode entender que aqui a gente vai criticar

Cada vez mais que eles quiserarregar

Na moral, parceiro, eu mudo o clima

O que eles têm de dinheiro eu tenho de rima

Aê parceiro, eu mando nessa tática

vou acreditar quando derem liberdade para Rafael Braga

Aê parceiro isso é mó adrenalina

Mas eu não acredito que um saco de pão virou um quilo de cocaína

Eles querem forjar, mas aqui a gente na rua e representa tua voz.

Seja nos debates ou até mesmo nas batalhas de MCs, percebe-se uma forte crítica a um status quo e a uma ordem social e econômica. Estes são temas recorrentes e que de algum modo caracterizam certos grupos que lutam, à sua maneira, pelo fim das injustiças, da miséria, das guerras, da exploração e da mediocridade da vida cotidiana.

Foi na Praça Grande Otelo, ou como preferem chamar, nas Quadras Gêmeas, que os produtores culturais e frequentadores encontram a cada dia suas próprias formas de uso; suas próprias maneiras de fazer. É, neste contexto, que a Roda Cultural de Olaria tenta toda quinta-feira, há cinco anos, fazer da rua, nas palavras de Rico, seu campo de atuação.

“Resistir” é estar na praça, seja andando de skate, jogando basquete, fazendo rodas de rima, reús de Xarpi, promovendo debates ou até mesmo organizando “mutirões de plantio” para reparo dos canteiros, ainda que seja por meio, como aponta Certeau (1994), de uma caça não autorizada.

Referências bibliográficas

Alves, Rôssi. Resistência e empoderamento na literatura urbana carioca. Estudos de literatura brasileira contemponea, n. 49, set/dez. 2016, p. 183-202.

Certeau, M. de. A invenção do cotidiano 1, Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

CURA, T. F. Tramas do rap: um olhar sobre o movimento das rodas culturais e a questão de gênero nas batalhas de rima e slams de poesia do Rio de Janeiro. In: XL Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2017, Curitiba. Anais do XL Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2017.

Duran, Marília Claret Geraes. Maneiras de pensar o cotidiano com Michel de Certeau. Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 115-128, set./dez. 2007.

Magnani, José Guilherme Cantor. A antropologia urbana e os desafios da metrópole. Aula inaugural realizada em 10 de março de 2003 na FFLCH/USP.

Veríssimo, Marcos. As Rodas Culturais e a “Legalização” da Maconha no Rio de Janeiro. Ponto Urbe [Online], 16 | 2015, 31 jul. 2015. Disponível em: <http://pontourbe.revues.org/2682; DOI: 10.4000/pontourbe.2682>. Acesso em: 07 de agosto de 2017.


  1. Trata-se de uma rede independente de produção, pesquisa e inovação cultural que estruturou um conjunto de encontros denominados, antes, rodas de rima, e agora, Rodas Culturais.
  2. Significa Mestre de Cerimônias. É aquele(a) artista convidado a apresentar algum evento musical ou apenas aqueles(as) que compõem e cantam suas próprias músicas.
  3. Também conhecido como Breaking ou B-boying em alguns lugares. É um estilo de dança de rua, parte da cultura do Hip-Hop criada por afro-americanos e latinos na década de 1970 em Nova Iorque, Estados Unidos.
  4. Reunião de Pichadores. Nessas “reús” aparecem desde pichadores iniciantes a pichadores renomados e ex-pichadores. Costumam ficar no evento com um caderno e uma caneta pedindo para outros pichadores deixarem “sua marca”. Esta, quando é de um pichador bastante conhecido, pode até mesmo ser vendida para outro pichador.
  5. Os organizadores dessas Rodas Culturais, embora não tenham formação técnica ou acadêmica na área, se reconhecem enquanto produtores culturais independentes.
  6. Documento de solicitação que permite por até um ano a realização da Roda Cultural. Em alguns casos, a solicitação deve ser feita semanalmente.
  7. Optei por utilizar entre aspas os termos entendidos como categoria nativa, ou seja, palavras utilizadas pelos meus interlocutores durante a pesquisa. Entretanto, tática e estratégia, uma vez que são categorias de análise, utilizarei em itálico como uma forma de diferenciá-los.
  8. Um grupo de rap brasileiro da cidade do Rio de Janeiro, atualmente composto pelo beatmaker Papatinho e pelos MCs Cert, Rany Money, Batoré, Maomé e Ari.
  9. BRT vem da sigla em inglês que significa Transporte Rápido por Ônibus. Na prática, representa um transporte articulado que trafega em corredor exclusivo e, por isso, é uma alternativa mais rápida de viagem para os passageiros.
  10. Abreviação comumente utilizada nas redes sociais (Facebook e Instagram) para se referir à Roda Cultural de Olaria.
  11. Grande parte dos frequentadores são jovens com idades entre 14 a 30 anos.
  12. Uma espécie de canto livre, feito na hora e no improviso.
  13. Trata-se de uma produtora independente criada por um dos produtores culturais da Roda e da qual atualmente faço parte.
  14. As rifas são variadas: desde camisas da Marcha da Maconha, a produtos como latas para grafitar e adesivos da RCO etc. É uma outra forma de contribuir para o funcionamento da roda. Este dinheiro também é utilizado para aluguel de equipamentos.
  15. A palavra beat no rap é sinônimo de “batida” ou compasso musical.
  16. Segundo a descrição da página do Facebook, o Ocupa Alemão nasceu pela morte, pela dor, causada pelo racismo institucional, pela violência do Estado ao negro e ao favelado. O Ocupa Alemão, de movimento virou um coletivo centrado nas questões de direitos humanos a fim de (re)virar um movimento organizado de favela de maioria negra.
  17. RCO também tem se colocado como um evento protagonizado pelos parentes e amigos de Rafael Braga. Acusado de portar material explosivo durante as manifestações de 2013 no centro do Rio de Janeiro, Rafael foi detido na Rua do Lavradio, na Lapa. Carregava material de limpeza, mas a Polícia Militar alegou ser Molotov (uma arma química incendiária geralmente utilizada em protestos e guerrilhas urbanas). E mesmo com a perícia indicando o ínfimo potencial explosivo do material, ele foi condenado.


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