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A materialidade do sagrado
na construção da Santidade de Lôla

Mara Bontempo Reis

Introdução

No catolicismo devocional a força da materialidade do sagrado – objetos, relíquias, novenas, procissões, terços – tem sido pouco investigado no processo de construção de santidade. A hipótese é de que, no catolicismo devocional, o sagrado manifesto na cultura material é um dos elementos centrais na construção, embora ao lado de outros fatores como a hagiografia e a virtude.

Para esse estudo, apresentamos a história de Floripes Dornelas de Jesus – Lôla. Uma santa consolidada aos olhos de seus seguidores, todavia sem o reconhecimento oficial da Igreja. Em 2005 foi aberto um processo de beatificação e Lôla foi declarada pela Igreja uma “Serva de Deus”. O referido estudo é resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida na área de Ciência da Religião na Universidade Federal de Juiz de Fora.

Lôla tinha o hábito de presentear às pessoas com terços, santinhos, livros devocionais, óleo bento, anéis, imagens do Sagrado Coração de Jesus e tais objetos são tidos como sagrados por seus fiéis. Consideramos que esses objetos pertencentes aos seus devotos são elementos que estabelecem um processo social, e, a partir desses elementos, vão surgindo as narrativas integrando uma materialidade religiosa, sendo importante para pensar a constituição da figura da Candidata à Santa. 

Na presente pesquisa, partimos do pressuposto de que os objetos considerados sagrados pelos seguidores lolescos, representa ou apresenta a Santa e a torna presente na vida de seus fiéis como memória viva. Propomos pensar de que forma poderíamos compreender a dinâmica da relação estabelecida entre a Serva, materialidade do sagrado – relíquias e objetos – e os devotos. Para isso levamos em consideração a força do reconhecimento da sua santidade pela comunidade. Das diversas características atribuídas pelos nativos a cada objeto, constatamos que esses objetos são a religião expressa em sua forma material e dela são inerentes (Meyer, 2019). Tais objetos não são simples coisas, eles agem, têm vida e são intrínsecos no cotidiano religioso.

Outro argumento que apresentamos, a partir do conceito elaborado por Meyer (2019), é que o valor conferido aos objetos, por parte dos fiéis e a maneira como são usados promove a possibilidade de experimentação do divino por meio dessa materialidade religiosa. Consideramos relevantes esses materiais pertencentes aos fiéis, tendo em vista que esses objetos, envolvendo relíquias, santinhos, novenas, fotos, imagens, livros, terços, enfim, tudo que é materialidade concreta relacionada à Lôla, de alguma forma, permeia e contribui para a construção de sua santidade.

Esta pesquisa pretende contribuir para uma melhor compreensão no que diz respeito aos significados e simbologias presentes nos objetos considerados sagrados pelos devotos da candidata a Santa. Tais objetos contribuem para a construção do mito religioso. Dividimos esse trabalho em três etapas, sendo a primeira um breve histórico acerca da vida de Lôla. No segundo momento abordaremos sobre a devoção lolesca a partir da materialidade do sagrado e, na terceira etapa, apresentaremos as categorias dos objetos pertencentes aos devotos da Santa.

Floripes Dornelas de Jesus: A Santa Lôla

Floripes nasceu em 09 de junho de 1913, no município de Mercês, no estado de Minas Gerais, Brasil. Aos dois anos de idade, mudou-se com sua família para Rio Pomba, uma cidade vizinha e lá viveu até sua morte ocorrida em 09 de abril de 1999. O motivo da mudança foi que seus pais adquiriram uma propriedade rural denominada Sítio Lindo Vale e, após a morte da Candidata à Santa, passou a ser chamado de Sítio Recanto da Lôla, se transformando em um dos mais importantes símbolos de devoção à Santa e integrando uma materialidade religiosa.

Com base nos estudos de De La Torre Castellanos (2012), percebermos que locais sacralizados e as peregrinações são significativos para a manutenção dos laços sociais locais e regionais, fato que observamos no caso do Recanto, tendo em vista que essas características se fazem presentes, ampliando assim a relevância da existência do sítio para todo o processo da materialidade que envolve a santidade de Lôla. O sítio, após a morte da Beata, transformou-se em um lugar no qual os devotos frequentam com assiduidade, pois lá ocorrem diversos eventos como a realização de missas, festividades do Apostolado da Oração (AO) e celebrações relacionadas a movimentos de casais, jovens e adolescentes das paróquias.

Para os seguidores lolescos, o sítio é um espaço onde se guarda as lembranças de uma vida santificada. A casa da Beata é um objeto ritual, um espaço mítico que realiza mediações relevantes entre o fiel-Lôla, devoto-Igreja, Igreja-Santa-seguidores, como também entre os próprios fiéis, visto que essa materialidade constrói a devoção em torno da santidade de Floripes.

Lôla ainda jovem, no ano de 1934, sofreu um grave acidente, caindo de uma árvore e como consequência da queda, ficou paraplégica. Segundo as narrativas, com o passar do tempo, Floripes deixou de ingerir alimentos, líquidos, não dormia, não acusava necessidades fisiológicas e se alimentava apenas da hóstia. Essa condição da Católica de Rio Pomba, é vista por seus devotos como um milagre. Seus seguidores relatam que a Serva viveu sem se alimentar e isolada em seu quarto por mais de sessenta anos.

As histórias contadas pelos devotos de Lôla, apontam que as circunstâncias de não se alimentar, não dormir e a completa dedicação à Igreja, são evidências de uma vida Santa e que deve ser tomada como modelo. No que diz respeito à não ingestão de alimentos, é importante destacar que a prática de se alimentar é uma condição comum ao ser humano, e na vida mística, há várias demonstrações de pessoas que reduziram, e até mesmo eliminaram essa necessidade que é considerada indispensável para a manutenção da vida. Algumas pessoas se destacam no que se refere à alimentação reduzida ou inexistente como Catarina de Siena (1347-1380) e Teresa Palminota (1896-1934), segundo relatos, tiveram jejum absoluto nos últimos treze anos de vida; Marthe Robin (1902-1981) dizem que, por mais de cinquenta anos, não comeu e nem bebeu.

Quando os relatos de que uma jovem, residente na zona rural de Rio Pomba, se alimentava apenas da hóstia, narrativas de milagres e romarias começaram a surgir. Há registros em livros de assinaturas no qual constam a presença de várias pessoas oriundas de diferentes cidades visitando a residência de Lôla. Com o crescimento dos romeiros e a situação tomando uma proporção, em 1960, aproximadamente, a Igreja proibiu as romarias e Floripes acatou a ordem do Arcebispo, passando a conviver apenas com pessoas da sua confiança e com visitas previamente agendadas (Silveira & Elias, 2015).

O fato das romarias se multiplicarem a cada dia, contribuiu significativamente para que a Igreja optasse pela proibição das visitas dos romeiros. É importante destacar que as instituições, sejam elas civis ou religiosas, sempre quiseram e tiveram o controle das romarias, buscando monitorar o fluxo e regulamentar as formas devocionais. Assim sendo, percebemos, de um lado, a necessidade de muitos devotos em propagar a fé em Santa Lôla e de outro, com a proibição das romarias vinda do Arcebispo, que as portas formais começavam a se fechar.

Os seguidores que visitam sua antiga casa e seu túmulo, atribuem a realização de diversos milagres. Alguns dos seus devotos consideram que o seu processo de santificação iniciou na ocasião do acidente sofrido e, diante disso, constatamos que, mesmo sem o reconhecimento oficial da Igreja, a devoção à Lôla encontra-se cada vez mais forte como podemos notar a partir das conversas e observações dos fiéis durante a pesquisa de mestrado.

A devoção Lolesca a partir da materialidade do sagrado

Abordar a devoção trazendo à luz os estudos sobre materialidade do sagrado com os seus objetos, relíquias, novenas, procissões, terços, amplia o entendimento acerca de toda uma configuração religiosa que é construída com agentes, redes e objetos, constituindo uma materialidade religiosa palpável que afeta os sentidos e por estes é afetada e incorporada no dia a dia dos fiéis. Além disso, aponta elementos que mostram que a religião influencia na construção de mundo das pessoas.

Embora as religiões tenham a palavra e o verbo como aspectos principais, os objetos ocupam também o seu lugar de importância, pois permeiam de alguma forma as religiões, sendo assim relevantes os estudos sobre a materialidade do sagrado. Os objetos se tornam a concretização da experiência religiosa/espiritual e em muitos momentos sobrepõe à palavra.

Faz-se necessário ressaltar que materializar os estudos das religiões não é buscar entender ou muito menos explicar como as religiões são expressas na forma material e sim, como elas acontecem materialmente. Meyer (2019) considera que, para o estudo material das religiões, deve haver o pressuposto de que as coisas, com os seus valores, ações e uso não são algo que se acrescenta às religiões, mas sim algo delas indissociáveis. Os objetos têm sua agência e não são meros instrumentos.

No caso da devoção à Lôla, os objetos fazem parte da construção de sua santidade sobrepondo ao discurso, fato que percebemos durante as entrevistas com os seguidores, tendo em vista que os participantes fazem questão de relatar que possuem objetos que tem relação com a Beata, seja adquirido diretamente dela ou das mãos de terceiros. Para os fiéis, acreditar e ter fé na Candidata à Santa vai muito além de um processo mental e abstrato, pois a devoção é algo que é sentido, vivido e experimentado diariamente no corpo, através dele e nos objetos Souza, (2019).

Ao analisarmos a materialidade do sagrado a partir dos objetos dos devotos, podemos abarcar importantes elementos que permeiam as relações entre Santa Lôla e seus seguidores. Consideramos que tal análise é significativa dando aporte para percebermos que tais objetos, como já elencado, tornam a Católica de Rio Pomba presente, de alguma maneira, na vida de seus fiéis. Os estudos desenvolvidos nessa pesquisa possibilitaram ampliar as interpretações das relações entre santo e devoto. Autores como Brandão (1980), Jurkevics (2004), Menezes (2004 & 2005), Mello & Santos (2015), dentre outros, apontam que essa relação é construída, por meio de orações, novenas e objetos sagrados, se constituindo como expressões que demonstram a dinâmica dessa relação, compondo assim a religiosidade popular presente no Brasil.

Segundo Lévi-Strauss (2008), os objetos exercem funções simbólicas e sociais. Os homens se comunicam através de símbolos e signos o que, para a antropologia, é um diálogo que se estabelece entre o homem com o homem. Sobre essa relação, possuir um objeto que seja considerado sagrado e que tenha um poder de cura, pode ser uma maneira do fiel fortalecer a sua ligação com a Serva, se sentindo íntimo dela, pois “[…] para os membros da religião, os “símbolos” podem ser manifestações ou resultados ou vestígios de realidades ou acontecimentos espirituais, ou então canais através dos quais os seres ou forças atuam” (Eller, 2018).

Entretanto, os objetos não participam apenas como agentes na relação entre as pessoas, ou entre um santo e seu devoto, eles também são responsáveis pela construção de nós mesmos, ou seja, as coisas/objetos podem prover vestígios sobre nós. A partir do momento em que olho para os aspectos materiais da religião, constato o quanto a religião forma os sujeitos e os grupos Souza, (2019).

No próximo item apresentaremos categorias estabelecidas como resultado das análises das entrevistas[1]. Tais categorias são relevantes para entender a relação que se constitui entre os devotos e a Santa Lôla, como também para compreender as funções simbólicas e sociais dos objetos e os significados e sentidos atribuídos a eles tornando-os sagrados. No quadro 1 abaixo, descrevemos o perfil social, econômico e regional dos participantes das entrevistas.

 Quadro 01 – Tabela com os principais dados dos participantes
das entrevistas
Nome FictícioIdadeEscolaridadeProfissãoCidade onde nasceuCidade onde mora
Leda80 anosEns. MédioAposentadaCataguases– MGRio Pomba -MG
Maria36 anosEns. MédioVendedoraRio Pomba -MGRio Pomba -MG
Marcos63 anosGraduaçãoEngenheiroRio Pomba -MGJuiz de Fora – MG
Luciana62 anosEns. Fund.Empresária AposentadaRio Pomba -MGRio Pomba -MG
Clara50 anosMestradoServidora PúblicaRio Pomba -MGRio Pomba -MG
Raquel60 anosEns. MédioAutônomaRio Pomba -MGBelo Horizonte – MG
Laura67 anosEns. MédioAposentadaRio Pomba -MGPorto Alegre – RS
Rosa94 anosEns. Fund.AposentadaRio Pomba -MGRio Pomba -MG
Francisco57 anosEspecializaçãoPsicólogo e Servidor PúblicoRio Pomba -MGUbá – MG
Débora54 anosGraduaçãoContadoraRio Pomba-MGRio Pomba -MG
Paulo61 anosGraduaçãoProfessorRio Pomba-MGRio Pomba -MG

Fonte: pesquisa pessoal, 2020.

Categorias dos objetos sagrados

Para o presente estudo, conforme consta nos quadros a seguir, estabelecemos duas principais categorias para os objetos pertencentes aos de devotos de Lôla, sendo aqueles que foram produzidos ainda em vida e os produzidos após a morte da Candidata a Santa. As categorias foram subdivididas conforme constam nos quadros.

Quadro 02 – Objetos durante a Vida de Lôla

Objetos produzidos ainda em vida

Descrição dos objetos e devotos (a)

1) Objetos presenteados a amigos, afilhados e/ou devotos.

a) Boneca de Louça

Objeto dado à Débora

b)  Camisa de tecido bordada

Objeto dado à Leda

c) Imagem do Sagrado Coração de Jesus

Objetos dados a Francisco, Luciana e Marcos

d) Óleo Bento; Objeto dado à Luciana

e) Anel

Objetos dados à Luciana, Rosa e Raquel

f) Santinhos

Objetos dados à Rosa, Laura e Marcos

g) Cartas e bilhetes

Objetos dados à Rosa

h) Livros “A Grande Promessa” e “Amor, Paz e Alegria”

Objetos dados à Laura e Clara

2) Objetos confeccionados e presenteados a amigos, afilhados e/ou devotos.

a) Fita do Apostolado da Oração

Objetos dados à Francisco e Marcos

b) Pombinha de papel

Objeto dado à Clara

3) Objetos confeccionados e presenteados por terceiros.

a) Relicário, objeto que a devota Aparecida deu de presente à Débora e Paulo

Fonte: Pesquisa pessoal, 2020.

Dos objetos produzidos em vida, subdividimos em três categorias sendo 1) objetos presenteados por Lôla a amigos, afilhados e/ou devotos; 2) objetos confeccionados por Lôla e presenteados a amigos, afilhados e/ou devotos; 3) objetos confeccionados por Lôla e presenteados por terceiros. Das subcategorias 1 e 2 apenas a boneca de louça e a camisa de tecido bordada não eram objetos comuns de serem presenteados pela Serva, os demais faziam parte de seu cotidiano, ou seja, ela os dava de presente com frequência a diversas pessoas. No que diz respeito à subcategoria 3 encontramos, até o momento, apenas o relicário.

Quadro 03 – Objetos em pós-morte Lôla

Objetos produzidos após sua morte

Descrição dos objetos e devotos (a)

1) Objetos pertencentes que foram adquiridos por seus devotos após sua morte

a) Toalha de mão

Leda

b) Manga de uma camisa

Rosa

2) Objetos pertencentes que foram adquiridos após sua morte e presenteados por terceiros

a) Pedaço da manga de uma camisa

Rosa deu um pedaço da manga de presente à Laura e Clara

b) Terço

Maria ganhou de presente de uma amiga

c) Óleo bento

Rosa deu de presente para Raquel e Laura

3) Objetos produzidos após a morte como forma de incentivo a sua devoção

a) Santinhos

Débora e Paulo

b) Livros

Francisco dá livros de presentes às pessoas, assim como Lôla fazia.

c) Canecas

São produzidas e vendidas pela paróquia que administra o sítio. Luciana sempre compra e dá de presente para as pessoas, inclusive me deu uma no dia da entrevista.

d) Imagem do Sagrado Coração de Jesus

Maria dá de presente para as pessoas doentes de sua corrente de oração.

e) Fitas do Apostolado da Oração

Maria

f) Óleo Bento

Luciana

Fonte: Pesquisa pessoal, 2020.

Em relação aos objetos produzidos após a morte da Beata, subdividimos também em três categorias sendo 1) Objetos que pertenciam à Lôla e que foram adquiridos por seus devotos após sua morte; 2) Objetos que pertenciam à Lôla, que foram adquiridos após sua morte e presenteados por terceiros; 3) Objetos produzidos após a morte de Lôla como forma de incentivo a sua devoção.

Contudo, se faz necessário destacar o óleo bento, pois este objeto transita nas duas categorias antes e após a morte da Serva. Durante a pesquisa, constamos que há devotos, como por exemplo, Luciana, que na década de 80, ganhou de presente de Lôla, um pequeno vidro com óleo e desde então ela usa diariamente para se proteger. A seguidora também fornece uma porção do líquido diluída em outro azeite para diversas pessoas e assim considera estar contribuindo para a devoção.

Outros objetos que circulam nas duas principais categorias são Imagem do Coração de Jesus, Santinhos, Livros e Fitas do Apostolado da Oração que são produzidos como forma de incentivo à devoção. A Paróquia Nossa Senhora do Rosário, que administra os bens da Beata, e também os devotos Francisco e Maria, são agentes que habitualmente distribuem materiais que compõe a subcategoria 3, ampliando assim o campo devocional de Floripes Dornelas de Jesus. Algranti (2011) aponta que as instituições religiosas são formadas e mantidas por meio de uma cultura material, ou seja, “[…] a partir de un universo más o menos estable de objetos de consumo y referencia producidos, en un principio, por las iglesias o por extensiones de ellas y luego adoptado también por otros agentes laicos” (Algranti, 2011).

Quadro 04 – Classificação dos objetos quanto ao uso

Objetos

Uso individual

Uso compartilhado

Boneca de Louça

X

 

Camisa de tecido bordada

X

 

Imagem do Sagrado Coração de Jesus

X

X

Óleo Bento

X

X

Anel

X

 

Santinhos

X

X

Cartas e bilhetes

X

 

Livros “A Grande Promessa” e “Amor, Paz e Alegria”

X

X

Fita Apostolado da Oração

X

 

Pombinha de Papel

X

 

Relicário

X

X

Toalha de mão

X

X

Manga de uma camisa

X

X

Pedaço Manga de uma camisa

X

X

Terço

X

 

Canecas

X

X

Fonte: Pesquisa Pessoal, 2020.

Quando questionamos aos fiéis como ocorre a utilização dos objetos, a Boneca de Louça, Camisa de Tecido Bordada, Anel, Cartas e Bilhetes, Fita do Apostolado da Oração, Pombinha de Papel e o Terço é que foram citados como objetos usados apenas individualmente, os demais às vezes operam de forma individual e em outros momentos são compartilhados. Alguns são usados diariamente, outros em ocasiões especiais quando o devoto sente necessidade de proteção e cura, por exemplo.

É importante salientar que utilizamos do recurso de categorização dos objetos, não para esvaziá-los de significados e sim para problematizá-los, possibilitando ampliar nossa percepção em relação a eles. Constituir categorias nos fez constatar a rede que os objetos promovem na comunidade religiosa, entre os fiéis, na relação existente entre santo e devoto, enfim, são objetos que carregam histórias, memórias, conexões reais e, segundo Mauss (2003) sobre a dádiva, ele considera que as coisas que são presenteadas não são “coisas indiferentes”, elas possuem nome, personalidade e um passado e foi o que constatamos em relação aos objetos que os seguidores de Lôla elegem como sagrados.

Figura 1 – Pedaço de tecido da roupa de Lôla que a devota Clara
guarda em sua bolsa

Fonte: Compilação da autora (2020).

Figura 2 – Relicário dos devotos Paulo e Débora

Fonte: Compilação da autora (2020).

Figura 3 – Boneca de louça da devota Débora

Fonte: Compilação da autora (2020).

Figura 4 – Óleo que a devota Luciana compartilha com outras pessoas

Fonte: Compilação da autora (2020).

Considerações finais

O presente estudo buscou se inserir nas discussões sobre a materialidade do sagrado e sua importância na construção de santidade de Floripes Dornelas de Jesus – A Santa Lôla. Além disso, essa pesquisa, que foi desenvolvida no mestrado forneceu subsídios para compreender a dinâmica da relação santo e devoto, relação essa que não depende do reconhecimento oficial da Igreja, ou seja, os processos canônicos e o desejo de controle eclesiástico sob as santidades, não suprimem as devoções aos santos não canonizados.

A partir das discussões elencadas percebemos que os objetos e espaços considerados sagrados pelos devotos da Serva, são elementos que estabelecem um processo social, e, a partir desses elementos, vão surgindo as narrativas, integrando uma materialidade religiosa, sendo importante para pensar a constituição da figura da Candidata à Santa. Nas categorias e sub-categorias que foram apresentadas, tanto os objetos que tiveram contato direto com Lôla, quanto àqueles que tiveram indiretamente, todos se tornam sagrados e possuem um papel relevante na sua santificação.

Com base na teoria de Latour (2012), pretendemos não restringir o nosso olhar para os objetos, mas para a cadeia de agrupamentos entre pessoas e objetos e como ela se forma, com discursos, imaginários, eventos, ou seja, uma relação multidimensional. O óleo e o pedaço de tecido de roupa que era da Serva também são objetos que possibilitam a criação de redes, assim como o relicário e outros objetos. No que diz respeito ao óleo, a própria Lôla participava diretamente dessa rede, tendo em vista que ela dava para as pessoas usarem e estas pessoas repassavam e continuam reproduzindo para outras e assim, vai se configurando uma rede de relações, de devoção, é a religião existindo materialmente.

Acreditamos que abordar a materialidade da religião nesse estudo possibilita aprofundarmos discussões sobre aspectos pouco explorados do catolicismo devocional e abrir novas linhagens de pesquisa, a materialidade do sagrado aplicada à Ciência da Religião, conjugando teorias e perspectivas metodológicas enriquecedoras e compreensivas. Todavia, é importante ressaltar que o presente estudo não abarca a totalidade do tema exposto, demandando ainda novas pesquisas que possam ampliar o assunto.

Bibliografia

Algranti, J. (2011). “La religión como cultura material. socio-génesis de los circuitos editoriales en el mundo católico y evangélico”. Horizontes Antropológicos, 17(36), 67-93.

Brandão, C. R. (1980). Os deuses do povo. Brasiliense.

De La Torre Castellanos, Renée (2012). Religiosidades nómadas: creencias y prácticas heterodoxas en Guadalajara. CIESAS.

Eller, J. D. (2018). Introdução à antropologia da religião. (Trad. Gentil Avelino Titton). Vozes.

Jurkevics, V. I. (2004). Os santos da igreja e os santos do povo: devoções e manifestações de religiosidade popular. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Paraná.

Latour, Bruno (2012). Reagregando o social. Edufba/ Edusc.

Lévi-Strauss, C. (2008). Antropologia estrutural. Cosac Naify.

Mauss, M. (2003). Sociologia e antropologia. (Trad. Paulo Neves). Cosac Naify.

Mello, A. B., Santos, M. R. S. (2015). “Catolicismo popular e suas performances coletivas”. MÉTIS: história & cultura, 14(28), 157-171.

Menezes, R. C. (2004). A dinâmica do sagrado: rituais, sociabilidade e santidade num convento do Rio de Janeiro. Relume Dumará: Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ.

Menezes, R. C. (2005). “Uma visita ao catolicismo brasileiro contemporâneo: a benção de Santo Antônio num convento carioca”. Revista USP, 67, 24-35. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i67p24-35.

Meyer, B. (2019). Como as coisas importam: uma abordagem material da religião – textos de Birgit Meyer. Ed. da UFRGS.

Silveira, S., Elias, C. (2015). “‘Santa Lola’: trajetória social e origem da vocação religiosa da imagem sagrada do interior mineiro”. Revista de Ciências Humanas, 15 (1), 273-292. 

Souza, P. R. de (2019). Religião material: o estudo das religiões a partir da cultura material. Tese de Doutorado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.


  1. Esse estudo foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa e aprovado sob o nº 4.134.263, em 03 de julho de 2020. É importante ressaltar que recorremos a nomes fictícios para os participantes nas entrevistas.


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