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O Sagrado e o Profano como Vetores
na Configuração do Estandarte Carnavalesco em Pernambuco

Hugo Vandré Cavalcanti da Silva e Kátia Medeiros de Araújo

Resumo

Em Pernambuco, dentre as festas públicas e coletivas, podemos citar o carnaval como uma das mais importantes quanto à sua capacidade de representar simbolicamente nossa formação social e política. Atualmente, com a devida importância dada aos estudos sobre cultura material e imaterial, em suas formas de expressão consideradas como tradicionais ou populares e a sua salvaguarda, o presente artigo, tendo como “pano de fundo” o carnaval pernambucano e o surgimento dos clubes carnavalescos pedestres, realizou uma investigação sobre o estandarte dessas agremiações do carnaval do Recife e Olinda, buscando identificar suas origens e os vetores que influenciaram sua configuração. Sendo o estandarte o principal elemento simbólico das referidas agremiações, no qual se confunde, muitas vezes, o sagrado e o profano e sendo ele também um dos primeiros e mais importantes meios de expressão visual do frevo, o presente estudo realizou, através da revisão bibliográfica das principais obras de viés histórico antropológico que tratam dessa temática e de pesquisa de campo, a análise de uma amostra representativa de estandartes pertencentes aos acervos dessas agremiações e do Paço do Frevo (museu do Frevo), além de entrevistas com artífices e carnavalescos. Identificou e classificou os elementos estéticos e simbólicos presentes nesses estandartes, integrou as informações levantadas pela revisão bibliográfica com o conteúdo reunido durante a pesquisa, contribuindo com informações importantes sobre os estandartes carnavalescos, sua origem, evolução e simbologia, revelando a presença de elementos de caráter lúdico-religioso componentes de um catolicismo popular, além de ritos e símbolos de religiosidade africana numa relação de proximidade entre os agentes do “sagrado” com a festividade profana, enquanto artífices e colaboradores dessa festividade carnavalesca nas cidades do Recife e Olinda, possibilitando assim, uma compreensão maior dos agentes que contribuíram e influenciaram na construção da linguagem visual desse artefato dotando-o de sua importante carga simbólica.

Palavras-chave

Cultura Material; Estandartes; Linguagem Visual.

I. Introdução

Tratamos, neste documento, de investigação que relaciona a materialidade e os contextos histórico-antropológicos atrelados à construção dos significados relacionados aos estandartes dos Clubes Pedestres do Carnaval do estado de Pernambuco, situado na região nordeste do Brasil. O termo “estandarte” é aplicado a vários tipos de bandeiras diferentes: bandeiras militares, bandeiras de corporações ou comunidades religiosas, bandeiras distintivas de chefes de Estado ou de famílias reais, de agremiações carnavalescas, etc. (Silva, 2016).

Nessa incursão, tratamos de memórias e representações visuais que colaboraram no processo de transformação do carnaval pernambucano, a considerar a importância do estandarte como símbolo maior de identidade cultural dos clubes pedestres (fundadores desse carnaval de rua) e, por conseguinte, do Frevo[1]. Tais clubes são agremiações carnavalescas cujos participantes se apresentam a pé (Araújo, 1996) e que se associam e comungam junto ao frevo, este como ritmo musical e dança típica do carnaval de rua pernambucano, o rol das expressões mais emblemáticas dessa festividade.

Os clubes pedestres surgiram ainda no final do século XIX, constituídos, nessa origem, especialmente por indivíduos de camadas populares. Com seus cortejos processionais, sócios formando cordões e com seus estandartes à frente, se contrapunham aos clubes de alegorias e críticas, oriundos da elite e que usavam carros nos seus desfiles (Araújo, 1996).

Neste texto, sintetizamos sobre dissertação de mestrado intitulada “ESTANDARTES – Bandeiras de Festa e Tradição: uma Análise da Simbologia e Linguagem Visual dos Estandartes dos Clubes e Troças do Carnaval de Recife e Olinda”, cujo autor foi o pesquisador Hugo Vandré Cavalcanti da Silva (2016) e que contou com a doutora. Kátia Medeiros de Araújo como professora orientadora, dentro do Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade Federal de Pernambuco (PPGD – UFPE).

Considerando-nos como possíveis agentes participativos sobre a reflexão e salvaguarda dos bens das culturas material e imaterial. Nessa linha, nosso trabalho, se irmana e se filia, por vezes a questionar o senso constituído, às outras pesquisas já realizadas sobre o Carnaval de Pernambuco, no seio das instituições universitárias.

Sobre “cultura material”, nos referimos à finalidade ou sentido que os objetos têm para um povo numa cultura, ou seja, a importância e influência que exercem na definição da identidade cultural de uma sociedade (IPHAN, 2006), enquanto a “cultura imaterial” está relacionada aos saberes, às habilidades, às crenças, às práticas, ao modo de ser das pessoas. (IPHAN, 2006).

II. Desenvolvimento

Como nos afirma o Dossiê de Candidatura do Frevo a Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil (2006), um dos primeiros suportes da expressão visual do frevo foram os estandartes, seguidos das insígnias dos clubes, das roupas, dos grandes guarda-chuvas, dos impressos que registram os primórdios do frevo, dos locais onde se davam os desfiles e ensaios, etc., sendo comum a vários autores afirmar ser o estandarte o mais importante e representativo símbolo das diversas agremiações carnavalescas.

Mas quais as origens deste artefato e de onde remonta sua linguagem visual?

Para encontrar as origens do estandarte precisamos voltar antes de tudo ao que o caracteriza, a sua forma e seus elementos. O estandarte por definição é uma bandeira e, por tanto, remonta ao surgimento e uso efetivo delas desde que se tem notícia na antiguidade. Podemos supor, como suas primeiras aparições, as “procissões” egípcias, fenícias e gregas e mais ainda os cortejos militares de comemoração das vitórias durante o Império Romano, como nos afirma Roberto Benjamin em Heráldica dos Estandartes do Carnaval de Pernambuco (1990). Esse autor nos cita ainda que foi mais precisamente na Idade Média que os estandartes tomaram uma forma mais próxima da atual, sob influência da ocupação islâmica da Península Ibérica e parte da Itália, onde obtiveram um maior desenvolvimento durante o período em que cresceu o poder e as disputas entre a nobreza italiana.

A presença dos estandartes e sua importância crescente deve ser compreendida no contexto do desenvolvimento da Heráldica, como arte e técnica de natureza semiológica, a serviço da nobreza. Nascida da necessidade de identificar as partes em conflito nos campos de batalha, que vai progressivamente se tornando uma arte cortesã e palaciana, na medida em que o poder passa da nobreza militar rural para a corte e se concentra na cidade e na figura do rei. Às vésperas do Renascimento, as cidades, as corporações de ofício e as confrarias religiosas européias já possuíam seus brasões e estandartes. (Benjamin,1990)

Como herança de uma cultura europeia medieval, o estandarte foi um legado dos colonizadores portugueses que o introduziram no Brasil colônia como artefato de caráter semiológico e estético para identificação das tropas militares, das confrarias e irmandades religiosas, dentre outras instituições, e que ganhou espaço cada vez maior em cortejos e outros desfiles públicos.

Juntamente com outras manifestações e representações da cultura erudita, o estandarte acabou também sendo incorporado pela cultura popular brasileira, alcançando sua maior expressão no carnaval de Pernambuco.

No caso específico dos estandartes carnavalescos percebemos durante a pesquisa o uso de alguns símbolos na sua composição, que possuem relação direta com os elementos componentes dos próprios clubes pedestres que popularizaram o frevo. Esses clubes pedestres, por serem oriundos das corporações de ofício[2] que, por sua vez, possuíam uma relação estrita com as irmandades religiosas, mantinham uma relação muito próxima com o universo simbólico católico e medieval. Porém, essa influência religiosa não ficou restrita ao catolicismo (religião preponderante na elite), uma vez que as manifestações da religiosidade africana se encontram representadas, pelos seus ritos e símbolos, ainda que em alguns casos disfarçada ou presente de maneira mais sutil, mesmo que alguns autores não tenham dado a estas representações simbólicas nos estandartes o devido reconhecimento.

Não é difícil entender que mesmo diante do fato de que as primeiras manifestações populares das quais se tem notícia nas freguesias do Recife tenham sido as coroações de reis e rainhas negros que originaram os maracatus, celebrações estas das quais tomavam parte os negros e mulatos que vêm a fundar os clubes pedestres, ainda assim percebamos a preponderância de uma linguagem visual e simbologia católicas. Isto chama a atenção quando nos voltamos para analisar os préstitos e estandartes dos referidos clubes, conforme nos descreve bem pesquisadores como Leonardo Dantas e Katarina Real em seus trabalhos:

Dos préstitos das irmandades religiosas e demais associações nas procissões quaresmais do Recife surgiram os elementos integrantes dos clubes carnavalescos que, após a Abolição da Escravatura em 1888, ganharam força com os seus desfiles pelas ruas dos bairros centrais do Recife […] Oriundo das corporações de operários urbanos, os clubes carnavalescos surgiram impregnados de elementos comuns às procissões religiosas: o que fora proibido pelas autoridades eclesiásticas, nas procissões de Cinzas e Fogaréus, transplantou-se para a formação do clube carnavalesco, cheio de cordões de lanceiros, diabos, morcegos, damas de frente, balizas, bobos e mascarados. “Esses elementos, afirma Katarina Real, se iam integrando nos clubes carnavalescos, que lhes ofereciam um lar mais cômodo e talvez mais apropriado. (Silva, 2000)

Se levarmos em consideração o fato de que a religião católica e a monarquia durante a Idade Média formavam praticamente uma instituição única, perceberemos que foi por meio desta “instituição” que o Brasil foi colonizado e formatado enquanto sociedade, através da forte e arbitrária “catequese” das irmandades religiosas católicas, que possuíam como braço disciplinador e punitivo, o Tribunal do Santo Ofício, impondo de maneira brutal a conversão a índios, negros e judeus que aqui se encontravam, compreenderemos facilmente que, com o passar dos anos as influências da religiosidade católica se sobreporiam às demais nas características culturais expressas pela população brasileira em toda sua sorte de manifestações.

Para exemplificar melhor esta transposição e apropriação dos elementos processionais católicos pelos Clubes Pedestres, Roberto Benjamin coloca em discussão em seu trabalho três hipóteses que segundo ele poderiam ser indicativas de um caminho: a primeira se fundamenta numa tradição da Europa Medieval que ocorria por ocasião da Festa dos Foliões[3], na qual as instituições religiosas, o clero e os ritos litúrgicos eram caricaturados pelo baixo clero e outras classes religiosas. No entanto, ainda de acordo com Benjamin, essa hipótese não encontra sustentação tendo em vista que não há nenhum indício de que os estandartes possuam algo de caricatura dos utilizados pelas Irmandades Religiosas; pelo contrário, a maioria absoluta das agremiações atribui aos estandartes seu sentido heráldico original.

Como segunda hipótese, o pesquisador atenta para a possibilidade da passagem direta dos elementos processionais do religioso para o profano dado a proximidade entre os períodos do carnaval e da quaresma, por meio do uso também de elementos jocosos oriundos das procissões de Cinzas e Fogaréu, situação que, segundo o mesmo, teria resultado numa reação do clero conservador, fato sobre o qual não se encontram registros, o que refuta também esta hipótese.

A terceira e mais provável hipótese por ele levantada é que os referidos elementos processionais tenham sido transportados dos meios eruditos para os populares, a princípio, por meio de manifestações puramente religiosas como as procissões católicas para outras de caráter lúdico-religioso componentes de um catolicismo popular, onde, portanto, ainda que não tenham sido claramente incentivadas, foram no mínimo admitidas pela Igreja Católica. Como exemplos dessas manifestações poderíamos citar as cerimônias festivas das Bandeiras do Divino, desfile das Bandeiras dos Santos Juninos, Folia de Reis dentre outras, de maneira que ainda hoje, podemos encontrar festividades onde se verifica a presença de danças e cânticos “religioso-populares” em meio às procissões e missas realizadas com a presença dos membros da hierarquia católica, ocasiões nas quais os grupos que fazem parte desse “catolicismo popular” carregam suas próprias bandeiras e estandartes ou tomam parte dos préstitos sob o uso das bandeiras e estandartes de irmandades religiosas.

Além da formação do préstito propriamente dito, um dos elementos das procissões quaresmais que mais se integrou na formação do Clube Carnavalesco foi o pendão: esta enorme bandeira, sucessora dos distintivos das corporações mesteirais da Idade Média e do Brasil Colônia, vinha sempre à frente do cortejo, empunhada por um homem forte e alto, como se fosse uma enorme vela de um barco fenício, ou galera romana, a arrastar toda uma multidão, nas festas dos padroeiros e solenidades em que participava a Câmara Municipal… Na procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos do Recife (cortejo cujas origens remontam ao ano 1654), o préstito é aberto por um enorme pendão com as iniciais S.P.Q.R., “que o povo, segundo descrição de Mário Sette, traduzia por Sopa, Pão, Queijo, Rapadura…” (Silva, 2000)

Continuando o percurso na busca da compreensão das influências que originaram a linguagem visual presente nos estandartes dos clubes pedestres do carnaval pernambucano, encontramos no trabalho da pesquisadora Katarina Real a indicação de mais duas possíveis vertentes: uma reforçando a presença da religiosidade católica e outra, da contribuição das corporações militares às quais pertenciam as bandas marciais que tomavam parte nos desfiles dos Clubes Pedestres.

No entanto, para tratarmos da influência religiosa católica segundo a análise de Katarina Real, precisamos voltar o olhar momentaneamente para outra manifestação do carnaval do Recife que antecede aos clubes pedestres, o Maracatu Nação. Ou ainda mais precisamente, as cerimônias de Coroação do Rei do Congo de onde ele descende, cerimônia religiosa da Igreja Católica ligada às Irmandades de Nossa Senhora do Rosário e ao “culto de São Benedito”, conduzida e legitimada por membros do Clero.

Estas “coroações” exerciam forte atração, tanto sobre os escravos, quanto sobre os negros forros, durante todo o período de sua existência, daí decorrendo sua posterior transmutação para o Maracatu.

Neste momento é importante observar a conclusão a que chega o pesquisador Roberto Benjamin em seu trabalho, onde afirma que seria este por fim o momento provável de passagem dos elementos religiosos para o profano no cortejo carnavalesco, já que fica claramente perceptível que os negros que introduziram os cortejos dos reis do congo na forma do maracatu no carnaval, não se desligaram nem dos cultos religiosos, nem da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e levaram consigo todos os elementos simbólicos componentes de uma linguagem visual típica de uma estrutura processional católica (com seus mastros, lampadários, umbrelas, e bandeiras) para o cortejo dos maracatus e, posteriormente, para os préstitos dos clubes pedestres.

 

Esse processo explicaria parte da influência de religiosidade católica na linguagem visual dos estandartes carnavalescos, tendo em vista que os primeiros estandartes de que se tem notícia no carnaval do Recife teriam sido, portanto os estandartes dos maracatus.

Complementando a teoria de Benjamin, chamamos a atenção para o fato de que, da mesma maneira que se supõe ter sido através das relações próximas entre os negros e as Irmandades católicas, através dos cortejos dos Reis do Congo e posteriormente no maracatu, que se impregnaram os estandartes de elementos simbólicos de matriz católica, também é provável que estes mesmos negros tenham introduzido nos estandartes carnavalescos certos símbolos da religiosidade de matriz africana com as quais lidavam desde a época das senzalas. É de senso comum que os “maracatus nação”[4], possuem em sua maioria relação direta com a religiosidade dos orixás e terreiros dos quais se originam, e que alguns elementos simbólicos católicos utilizados pelos negros das citadas senzalas, dentre eles os próprios ícones dos santos católicos (fato que é denominado de sincretismo[5]), na verdade era fruto de uma “estratégia” por parte dos escravos que continuavam cultuando seus orixás sob a forma dos elementos simbólicos impostos pela religião católica da elite dominante. A continuidade da prática dos seus cultos se fazia sob pena de punição severa caso fosse descoberta, o que nos leva a crer que alguns símbolos de religiosidade africana também podem ter sido intencionalmente “disfarçados” ou até mesmo integralmente adotados na linguagem visual dos referidos estandartes, ainda que percebamos uma predominância de uma simbologia de origem religiosa católica.

Encontramos, todavia, certa ambiguidade nas afirmações do pesquisador Roberto Benjamin, quanto à contribuição da cultura negra ou indígena na linguagem visual dos estandartes carnavalescos, no momento em que na sua pesquisa, quando o mesmo trata da possível existência de uma “heráldica popular carnavalesca”, afirmando que: “o legado africano e indígena à heráldica popular carnavalesca é incipiente” utiliza como argumento diversos exemplos que, a nosso ver, comprovam muito mais do que negam, traços destas culturas na simbologia presente nos estandartes, bem como em alguns rituais que integram a saída dos mesmos nos préstitos carnavalescos de boa parte das agremiações.

Como por exemplo, ao tratar das cores representativas da maioria dos maracatus nação, escolas de samba e clubes pedestres, afirma que as mesmas estão sabidamente relacionadas com as cores dos orixás protetores destas agremiações ou de seus fundadores, decorrente, segundo este autor, da relação de “intimidade” existente entre os maracatus (que introduziram o estandarte nos cortejos carnavalescos) e outras agremiações e as casas de cultura gege-nagô do Recife. O autor segue listando as cores das agremiações e seus respectivos orixás protetores a elas relacionados, além de alguns símbolos atribuídos aos orixás, porém declarando que seria “temerário afirmar” ser este um indicativo de traço cultural africano, já que se sabe que as cores dos orixás estão associadas às cores atribuídas aos santos católicos com os quais foram “sincretizados”.

A partir desses dados destacamos dois pontos para discussão; primeiramente, que a simples identificação destes elementos nos estandartes já se configura numa prova da presença da simbologia dessa cultura afro, ainda que compreensivelmente essa simbologia apareça em menor proporção se comparada à de origem católica, dada à força da dominação dessa religião professada pela elite dominante; em segundo lugar, temos conhecimento que o denominado “sincretismo” relacionando às figuras dos orixás e todos os seus símbolos aos santos católicos, se deu apenas por semelhança visual e foi utilizada conscientemente como forma de ludibriar a perseguição religiosa da elite católica aos cultos de raiz africana, o que resulta em contradição quanto à afirmação pelo mesmo de que uma contribuição simbólica de matriz africana seria incipiente.

Existem, ainda, mais algumas influências no universo simbólico dos clubes pedestres e que, portanto, também estão presentes nos estandartes dessas agremiações, sobre as quais se faz necessário lançar o olhar. Por um lado, a influência dos desfiles militares do século XIX, com seus símbolos e suas fardas ricamente bordadas, em conjunto com suas bandas marciais, que acompanhavam os clubes em seus préstitos e de onde surgiu a musicalidade do frevo através de suas “marchas-dobrado”. E por outro ainda, a luxuosidade dos estandartes que, além de ser decorrente de um padrão de estética da nobreza europeia medieval, se vê herdeira da “reinterpretação” do próprio luxo da Igreja Católica, tão evidente nas talhas, pinturas e douramentos das igrejas barrocas de Recife e Olinda. Outro fato importante de que se tem conhecimento, é que as artesãs que criavam e/ou confeccionavam os mais antigos estandartes carnavalescos frequentemente eram as mesmas que trabalhavam nas irmandades ou dentro dos conventos, na confecção de paramentos, bandeiras, gofalões, pendões, estandartes, frontais de altares e outros objetos executados em tecido, bordados ou pintados, de uso da liturgia da Igreja Católica.

Como prova de que as primeiras artesãs que trabalhavam na confecção dos estandartes carnavalescos estavam ligadas totalmente à produção dos paramentos litúrgicos católicos, temos a informação de que o Clube das Pás teve seu estandarte mais antigo, que data do início do século XX, desenhado por Manoel de Matos e confeccionado pelas Monjas Beneditinas do Convento do Monte de Olinda, conforme nos relata Leonardo Dantas.

É interessante destacarmos o local de honra que os estandartes ocupam nos préstitos dos clubes carnavalescos. Ao observamos esse local de destaque, podemos perceber a importância do estandarte como elemento simbólico, verdadeiro “brasão heráldico” para os componentes das agremiações.

O porta-estandarte é aquele que conduz o símbolo maior do clube e vem vestido tradicionalmente à Luís XV (complementando a linguagem visual barroca do próprio estandarte).

No que se refere à importância simbólica dos estandartes no préstito dos Clubes Pedestres, o pesquisador Leonardo Dantas nos oferece uma importante descrição:

É o estandarte o elemento sagrado de todo o cortejo. É ele o verdadeiro símbolo do clube, funcionando como a verdadeira bandeira de um regimento militar, sendo protegido pelos morcegos, ala de porta-estandartes e diretoria. O estandarte paira no meio da multidão, não tendo uma posição definida na formação do cortejo, ele pode vir na frente ou ficar quase junto à orquestra, mas onde quer que esteja está sempre protegido por uma espécie de guarda de honra. É o estandarte que se curva, em reverência às autoridades e protetores da agremiação; é o estandarte que saúda, num contato rápido face a face com o outro similar, outra agremiação amiga num encontro de clubes, é o estandarte, a exemplo do pavilhão nacional, o símbolo da honra e da integridade do conjunto, muitas vezes é defendido, em caso de rixa ou barulho, com o sacrifício do próprio sangue de seus defensores. (Silva, 2000)

Durante a pesquisa de mestrado, após termos realizado a análise em torno das origens e influências da linguagem visual e os respectivos símbolos presentes nos estandartes, realizamos a descrição da sua estrutura, seguida de uma segunda análise baseada em dicionários e manuais de simbologia, relacionando os significados dos símbolos encontrados em tais dicionários e manuais, com o caráter e história dos próprios clubes analisados, a partir das informações obtidas pelas entrevistas.

Foi durante as entrevistas, que obtivemos a informação por parte de um dos artífices, de que durante a confecção do estandarte por ocasião da feitura do “recheio” feito no corpo do artefato, (entre as camadas de tecido), acrescenta-se uma espécie de “patuá”[6] e se faz o ritual de oferenda para o orixá protetor da agremiação (mais uma influência da religiosidade afro).

III. Considerações finais

O texto apresentado correspondeu a uma síntese da pesquisa dissertativa: ESTANDARTES – Bandeiras de Festa e Tradição. Uma análise da simbologia e linguagem visual dos estandartes dos clubes e troças do carnaval de Recife e Olinda. No curso da investigação das relações entre o processo de criação e transformação do estandarte, enquanto linguagem gráfica carregada de simbologia, e os aspectos sociais intrincados, não só confirmamos as contribuições de cultura de origem africana relatada por alguns autores. Além disso, com base nos textos de pesquisadores, na pesquisa que nos dispusemos a fazer sobre alguns registros documentais e nas entrevistas que realizamos, também concluímos sobre o equívoco de ser considerada pequena a contribuição da cultura negra em comparação com a de origem europeia.

A cultura de matriz e matizes africanas não só marcou a sua participação em uma formação sincrética da materialidade e imaterialidade do carnaval brasileiro e pernambucano. Tal cultura também se valeu de outras estratégias para se firmar e se transformar, dessa vez arredia a sincretismos com a cultura de raiz europeia reproduzida e legitimada no Brasil. Com a sagacidade, por vezes, do velado e do dissimulado, também se fez e ainda se faz presente nos estandartes dos clubes pedestres e troças de Pernambuco, com a carga da sua religiosidade e cultos que não se descaracterizaram diante da cultura e práticas cristãs.

Durante o processo de identificação e entrevistas de agentes que vêm contribuindo para configuração da linguagem visual do estandarte carnavalesco, constatamos a manutenção dessa linguagem e do seu simbólico. O estandarte não só tem sido preservado na sua linguagem visual, como também vem sendo adotado como tal, na atualidade, por tipos de agremiações de carnaval de rua de Pernambuco, diferentes dos clubes pedestres.

Com o término da pesquisa relatada neste documento, refletimos sobre suas possíveis lacunas. Sobre parte delas, consideramos a importância de investigação sobre outros artefatos ligados à expressão visual do frevo e que, até certo ponto, também podem colaborar para a melhor compreensão dos próprios estandartes.

Por fim, tal conjunto de informações nos parece de grande relevância como contribuição aos trabalhos de salvaguarda do carnaval, no que se refere à sua expressão visual, aspecto no qual as políticas públicas de patrimônio cultural no Brasil e seus executores nos parecem ainda carentes.

Bibliografia

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  1. Sua música baseia-se na fusão de gêneros como marcha, maxixe, dobrado e polca, e sua dança foi influenciada pela capoeira. A palavra frevo surge como uma corruptela do verbo ferver (“frever”). Isso porque o frevo é uma dança frenética, de ritmo muito acelerado cuja origem decorreu de um momento igualmente frenético em termos políticos e sociais (FUNDAJ, 2009).
  2. As Corporações de Ofício do Recife que se tornaram mais tarde confrarias, irmandades ou fraternidades eram um grupo de pessoas que se associavam em torno de interesses ou objetivos comuns, fosse o mesmo ofício, a mesma profissão, ou mesmo modos de vida religiosos ou espirituais. O termo origina-se da Idade Média, onde se referia a associações religiosas ou laicas, que se reuniam com a dupla finalidade – espiritual e assistencial. Existiram corporações de ofícios de diversos tipos como, por exemplo, carpinteiros, ferreiros, alfaiates, sapateiros, padeiros, entre outros (Franco Jr., 2001).
  3. “Carnaval” medieval, também conhecido como Festa dos Loucos, que ocorreu do final do século XII até o século XVI (Benjamin, 1990).
  4. Maracatu Nação – O Maracatu de Baque Virado ou Maracatu Nação é uma manifestação da cultura popular brasileira, afrodescendente. Surgiu durante o período escravocrata, provavelmente entre os séculos XVII e XVIII, onde hoje é o estado de Pernambuco, principalmente nas cidades de Recife, Olinda e Igarassu (FUNDARPE, 2011).
  5. Sincretismo – fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos (DICIO, 2017).
  6. Patuá – O patuá é um objeto consagrado que traz em si o axé, a força mágica do Orixá, a quem ele é consagrado. É um amuleto muito utilizado por pessoas ligadas ao Candomblé/Umbanda. Confeccionado a partir de um pequeno pedaço de tecido na cor correspondente ao Orixá, no qual é bordado o nome do Orixá e colocado um determinado preparo de ervas e outras substâncias atribuídas a ele. Sua utilização serve para obter proteção e sorte (Candomblé, 2008).


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