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A ciência no exílio
e o Paraguay por escrito

Um estudo sobre a produção científica
de José Sánchez Labrador SJ.
(América platina, século XVIII)

Eliane Cristina Deckmann Fleck[1]

Uma breve introdução[2]

Historiadores como Di Liscia (2002), Millones Figueroa; Ledezma (2005), Del Valle (2009) e Asúa (2010; 2014) têm ressaltado o papel desempenhado pelos jesuítas na criação de redes de conhecimento e na formação de uma epistemologia muito particular no século XVIII (Del Valle, 2009, p. 240).[3] Em seus trabalhos, estes autores enfatizam, sobretudo, a importância dos colégios e das reduções da Companhia de Jesus para a circulação de ideias e a realização de experimentalismos, das quais resultou tanto a validação, quanto a contestação de práticas e saberes consagrados na Europa[4]. Durante os séculos XVII e XVIII, o projeto científico da Companhia de Jesus se constituiu, efetivamente, em uma alternativa clara e influente no mapa cultural europeu,[5] na medida em que “las más reconocidas figuras de la intelligentsia jesuíta en Europa reflexionaran sobre la naturaleza del Nuevo Mundo”, a partir das informações que recebiam “de los hermanos jesuitas de la periferia”, que, além de integrarem um grupo “calificado y confiable (…) alrededor del mundo”, constituíam uma notável rede de “agentes viajeros de la Compañía” (Millones Figueroa; Ledezma, 2005, p. 27-28).

Mas, na primeira metade do século XVIII, a Espanha vivia ainda fortemente sob a influência da Inquisição, “en cuanto a vigilancia y censura de las nuevas ideas” e suas universidades estavam “ancladas en un escolasticismo absolutamente estéril, encorsetadas en las clásicas discusiones y cerrando los ojos a la experimentación y a la búsqueda de hipótesis y planteamientos nuevos.” Esta situação, contudo, afetou apenas em parte “a las Ciencias Naturais y menos aún a la Botánica, disciplina que tenía gran arraigo en el país”, como, aliás, fica evidenciado na produção de “tractados de carácter general, teniendo gran importancia los que dan a conocer la flora y fauna de la América” por “naturalistas prelinneanos[6]”, que exerceram grande influência sobre os naturalistas jesuítas.

A produção científica da Companhia ao longo do século XVIII evidencia que seus membros procuraram abandonar “los argumentos de la naturaleza maravillosa, llena de portentos y señales (…) para iniciar la formulación de un pensamiento ilustrado y crear sus propias nociones etnográficas y científicas del mundo americano” e esta mudança de percepção do mundo natural se constituiu em “medio a través del cual los jesuítas expulsos subrayan su control y posesión intelectual” das regiões em que atuaram e das populações indígenas que converteram ou conheceram como missionários (Millones Figueroa; Ledezma, 2005, p. 22). Para Kristin Huffine, as obras de História Natural escritas por padres jesuítas contribuíram, decisivamente, para “la creación de un conocimiento científico americano, basado en la observación de los hechos y en una interpretación que decididamente pretendía ser objetiva”, o que fazia com que se opusessem a um conhecimento produzido sobre o Novo Mundo “que carecía del fundamento de la observación y de la experiencia” e, especialmente, que sustentava a tese de inferioridade natural do Novo Mundo (Huffine, 2005, p. 279-302).

Muitos missionários, a partir de sua própria experiência sensível e de caráter empírico, chegaram a contestar autores e princípios fundados na autoridade da tradição e legitimados pela opinião comum e “independientemente de las conclusiones que alcanzan en sus análisis, testan sus ideas (…) con sus observaciones (…) también con experimentos, empleando su propia experiencia como método de contrastación de hipótesis (…) en una búsqueda manifesta de objetividad.” É preciso, no entanto, não desconhecer que, a despeito de suas experiências sensíveis e do esforço de interpretação objetiva e científica, não deixaram de considerar “una serie de supuestos dogmático-teológicos y ontológicos [y] el aparato conceptual y ideológico subyacente al ‘marco epistémico’ de la época.” (Ottone, 2008, n. 24, pp. 9-21). Este aspecto é também destacado pelo historiador português Luís Miguel Carolino, para quem a ciência “recentemente designada de ‘ciência jesuíta’ ou ‘filosofia natural jesuíta’” pode ser caracterizada “como uma corrente multifacetada, marcadamente heterogênea, com fortes tensões internas e em diálogo constante com o debate filosófico e científico seu contemporâneo” (Carolino, 2009, p. 258-259)

A historiografia tem ressaltado a relevância e o significado desta produção intelectual, apresentando-a “como una de las fuentes más valiosas para reconstruir aspectos de la vida de las sociedades que observaron con ojos de etnógrafo, los paisajes que describieron o cartografaron con la mirada de un geógrafo o las historias ‘naturales’ y ‘civiles’ que desarrollaron como naturalistas o historiadores”. Os textos que irmãos e padres jesuítas produziram na América ou, então, no exílio, apresentam um “conjunto de dados que casi podemos calificar de ‘científicos’ en base a ser sus productores estudiosos y lectores de los debates de época sobre diversas materias, tal vez los únicos que están presentes en las colonias españolas durante alguns períodos en particular.” (Arias, 2014, p. 20).

Para o filósofo e historiador argentino Miguel de Asúa, “ya desde la época de los jesuitas (antes de su expulsión en 1767) hubo en el Río de la Plata episodios y personajes ‘modernizadores’”, com destaque para as “misiones del Paraguay”, nas quais se desenvolvia uma “interessante actividad científica como lo demuestran los casos del astrónomo Buenaventura Suárez (…) y los autores de las ‘historias naturales jesuitas del Nuevo Mundo’ o los manuscritos de materia medica”, que atestam a conformação de “un frente más avanzado de la ciencia en el Río de la Plata” em meados do século XVIII (Asúa, 2010, p. 192-193). A riqueza e a variedade de atividades científicas desenvolvidas nas missões jesuíticas instaladas no território do Rio da Prata e em uma região do Paraguay histórico refutam, ainda, a falsa ideia “de que el Río de la Plata colonial fue un yermo en cuanto a cultura científica se refiere” (Asúa, 2013). Este mesmo autor, em seu livro Science in the Vanished Arcadia. Knowledge of Nature in the Jesuit Missions of Paraguay and Río de la Plata (2014), ressalta que, se por um lado, a ciência jesuíta pode ser caracterizada como uma expressão da cultura barroca que teve seu auge durante o período moderno –e, portanto, identificada, com os objetivos missionários de Companhia de Jesus–, por outro lado, a ciência jesuíta no Rio da Prata colonial se configurou como uma articulação de formas europeias de pensamento com sentidos e categorias nativas.[7]

Este aspecto é também ressaltado por Millones Figueroa e Ledezma, que observam que, apesar de a Historia Natural y moral de las Índias, de José de Acosta (1590) expressar com clareza “el benefício de la escritura naturalista” e constituir-se no modelo a ser seguido, “las experiencias de cada jesuíta fueron muy distintas, y quienes se aventuararon en la escritura tenían muchas veces una geografia, flora y fauna nueva que presentar, explicaciones que proponer (…) y, acaso lo más importante, dirigir el placer y la admiración hacia la alabanza de Dios” (Millones Figueroa; Ledezma, 2005, p.14-15).

Quanto às obras de ciência que foram produzidas por jesuítas durante o exílio, elas se caracterizam, segundo Asúa, por “su background historiográfico, con una tradición bien establecida y propiamente jesuita para escribir sobre la naturaleza del nuevo mundo”.[8] Os trabalhos de ciência jesuíta produzidos no exílio procuraram argumentar contra “la tesis de la inferioridad de la naturaleza del nuevo mundo, avanzada por Buffon y expandida por Cornelius de Pauw en sus Recherches philosophiques sur les Américains, publicado en Berlín entre 1768 y 1769” (Viale, 2015).

Em razão disso, a reconstituição das trajetórias de jesuítas que se dedicaram à ciência, como o padre José Sánchez Labrador, e a análise de suas obras, dentre as quais se encontra o Paraguay Natural Ilustrado,[9] escrita entre os anos de 1769 e 1776 –e que apresentamos e analisamos neste texto–, permite, não apenas a reconstituição do conhecimento científico difundido e produzido nas primeiras décadas do século XVIII na América (Millones Figueroa, Ledezma, 2005, p. 10), mas também a discussão sobre a apropriação de saberes e de práticas das populações nativas americanas. Este aspecto pode ser constatado nos receituários e nos catálogos de plantas medicinais que os missionários da Companhia de Jesus fizeram e que circularam nos continentes em que atuaram.[10]

Mas, se a obra do padre José Sánchez Labrador pode ser considerada como “la culminación de la Historia Natural de los jesuítas en el Paraguay”, os conhecimentos de História Natural e de Farmácia devem ser considerados como as duas facetas principais do naturalismo jesuítico na América do Sul, não devendo, no entanto, ser percebidas como precursoras deficientes das ciências atuais ou como cópias insuficientes dos modelos europeus, mas como formas independentes e singulares da História da Ciência (Anagnostou; Fechner, 2011, p. 175). Esta singularidade, segundo os autores, fica evidenciada na experimentação e na incorporação do saber etnofarmacêutico indígena, que decorreu da posição relativamente imparcial e aberta dos jesuítas frente aos indígenas, fundamentada na espiritualidade inaciana acionada nos marcos de seu apostolado (Anagnostou, Fechner, 2011, p. 190).

Antes de atuar como missionário, José Sánchez Labrador exerceu as funções de professor de Gramática no Colégio Máximo de Córdoba, professor de Filosofia na Universidade de Córdoba e professor de Teologia no Colégio Máximo de Buenos Aires. Para alguns estudiosos da produção do jesuíta Sánchez Labrador, sua obra Paraguay Natural, “a la par de deleitar e instruir, asombra por la profundidad de sus conocimientos”, revela sua “extraordinária capacidad mental y notable erudición” (Moreno, 1948, p. 20). Para outros, ele pode ser considerado “un paradigma de toda aquella generación” de missionários jesuítas que atuaram na América platina no século XVIII, não apenas por seu extenso conhecimento da área missioneira, mas por seu interesse “desde un primer momento [en] la naturaleza americana”, já que “nada escapó a su curiosidad, desde el clima, la geología, la botânica o la zoologia” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 101-102).[11]

Deve-se, contudo, considerar que para alguns jesuítas, como o padre José Sánchez Labrador, a expulsão teve paradoxalmente uma repercussão positiva sobre sua formação científica, uma vez que, “obligados a abandonar su labor misionera, se dedicaron a ordenar sus datos y a comunicar sus hallazgos y conocimientos a la luz de los avances científicos de la época [y de] la bibliografía que tuvo ocasión de consultar en esta ciudad italiana”, durante seu exílio em Ravena (Sainz Ollero et al., 1989, p. 194). Este contato com a ciência europeia “del momento y los autores clásicos, constituye un aspecto fundamental de su obra, que se destaca por su erudición y enciclopedismo”, pois conhecia “la obra química de Robert Boyle, había leído a autores clásicos como Hipócrates, Aristóteles, Plínio, Galeno y Dioscórides, alguns árabes como Avicena y contaba con las principales obras médicas de los siglos XVI y XVII, como las de Aldrovandi, Mattioli, Vesalio, Ramazzini, Pisón (…)” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 204). No exílio, adotou certa visão científica “en el sentido moderno de la palabra (…) una noción dinámica de las ciencias”, e, com um vigor que podemos denominar de ilustrado, descreveu a natureza como algo útil e “detalladamente clasificable por la investigación”, a partir de “una idea clara del progreso en las ciencias” (Huffine, 2005, p. 295-297).

É sobre a trajetória deste jesuíta e sobre o Paraguay Natural Ilustrado que nos deteremos na continuidade, levando em consideração tanto o contexto de sua produção, primeiramente, na América, e, posteriormente, na Europa, durante seu exílio, quanto à influência dos aspectos próprios da cultura escrita e científica da Companhia de Jesus, que apresentamos e discutimos no primeiro tópico deste texto.

Sobre o autor de Paraguay Natural Ilustrado

José Sánchez Labrador nasceu em La Guardia, na província de Toledo, no dia 19 de setembro de 1717 [ou 1714][12] e morreu em Ravena, em 10 de outubro de 1798. Ingressou na Companhia de Jesus em 5 de outubro de 1731, de acordo com Ruiz Moreno (1948), ou em 19 de setembro de 1732, segundo Sainz Ollero et al. (1989),[13] tendo cursado Gramática e Humanidades. Iniciou seus estudos de Filosofia no Noviciado de San Luis de Sevilha, interrompendo-os para viajar ao Rio da Prata em 1733, acompanhando o padre Procurador Antonio Machoni. De 1734 a 1739, estudou Filosofia e Teologia na Universidade de Córdoba, concluindo sua formação no verão de 1739.[14] Deacordo com seus biógrafos, entre os anos de 1741 e 1746, atuou como professor na mesma cidade, dedicando-se, concomitantemente, aos estudos de História Natural.

Assim, como muitos outros padres e irmãos jesuítas que o precederam nas terras de missão americanas, Sánchez Labrador não se dedicou, exclusivamente, à conversão dos indígenas, mas também ao estudo da fauna e da flora americana que observou nas diversas regiões da Província Jesuítica do Paraguai em que atuou como missionário.[15] De acordo com alguns de seus biógrafos, entre 1747 e 1767, o padre jesuíta atuou junto às reduções de San Francisco Xavier, Santa Maria la Mayor, La Cruz, Santo Thomé e San José.[16] A partir de 1757, passou a atuar em Apóstoles (Santos Apóstolos ou Apóstolos São Pedro e São Pablo), tendo como companheiros os padres Lorenzo Ovando e Segismundo Asperger, este último, reconhecido por sua atuação como médico e boticário. Sabe-se que, dois anos depois, lecionou Teologia no Colégio de Assunção, e que no ano seguinte (1760), missionou entre índios Mbayás e Guaranis, que, mais tarde, formariam a redução de Nuestra Señora de Belén, e entre os índios Guanás, com os quais criou a redução de San Juan Nepomuceno.

Em 14 de agosto de 1767, logo após seu regresso de uma viagem às missões de índios Chiquitos,[17] Sánchez Labrador foi informado do decreto da expulsão[18] dos jesuítas da Espanha e de suas colônias. Cerca de dois mil jesuítas foram expulsos da América espanhola e levados, em precárias condições, para a Córsega, de onde foram enviados, em sua maioria, para as cidades de Faenza, Ravena, Brisighella e Ímola. Sabe-se, a partir de informações que constam na carta datada de 21 de agosto de 1768, escrita de Puntales (Cádiz), que Sánchez Labrador encontrava-se entre os 150 jesuítas que provinham da Província Jesuítica do Paraguay e que haviam partido de Buenos Aires, na fragata Esmeralda, sob a responsabilidade do comandante Matheo Collado Neto.[19]

Sánchez Labrador se estabeleceu em Ravena, onde foi Superior de uma das casas que a Companhia de Jesus possuía na cidade. Manteve-se neste desterro por 30 anos, período durante o qual se dedicou a escrever suas principais obras, o Paraguay Católico,[20] o Paraguay Cultivado[21] eo Paraguay NaturalIlustrado. Para Sainz Ollero et all (1989), a terceira delas, Paraguay Natural,foi iniciada na América, mas concluída em Ravena, sendo que “la fecha de edición de este conjunto se sitúa aproximadamente entre 1771-76, cuando estaba exilado en Italia. (…) lo detallado de sus descripciones, unido a ciertas citas que se encuentran en el texto referentes a interrupciones en el escribir derivadas de los problemas surgidos en la convivencia diaria con los indios, indican que el padre Sánchez Labrador debió de salvar parte de sus manuscritos originales, lo cual le permitió reconstruir posteriormente descripciones e historias tan detalladas y prolíficas” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 211-212).

Paraguay Natural já mereceu alguns estudos, realizados a partir da consulta a sua versão manuscrita,[22] que se encontra no Archivo Romanum Societatis Iesu– ARSI (Roma), dentre os quais destacamos os de G. Furlong, Naturalistas Argentinos durante la dominacion Hispânica (1948); de A. Moreno, La Medicina en “el Paraguay Natural” (1771-1776) del P. José Sánchez Labrador S. J.: Exposición comentada del texto original (1948); e o de Sainz Ollero et al. José Sánchez Labrador y los naturalistas jesuitas del Río de la Plata (1989). É consenso entre os historiadores que o jesuíta “realizou um dos mais amplos trabalhos sobre a natureza, a geografia e as sociedades da região platina colonial”, do que decorrem dúvidas e hipóteses sobre como redigiu tão vasta e detalhada obra, aventando-se que, mesmo que tenha podido levar consigo algumas das anotações feitas na América, a maior parte dos tomos da obra deve ter sido escrita a partir de suas memórias (Sainz Ollero et. al., 1989, p. 108; Barcelos, 2013, p. 92-93).

Se, por um lado, pode-se afirmar que “parte de los documentos de Sánchez Labrador quedaron en América” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 106), o que é atestado pelo próprio Sánchez Labrador, ao afirmar que “por faltarme los papeles y apuntamientos, que me interpresaron en la ciudad de Buenos Ayres” (Sánchez Labrador, 1772, p. 358), por outro, “es la práctica certeza de que (…) pudo, a pesar de las órdenes de Bucareli, trasladar con él parte de sus escritos hasta su destierro italiano”, devido a certa “permisividad extraña” devido às condições em que se deu a expulsão em Assunção, que “fueron mucho más benignas que en el resto de las ciudades del Río de la Plata” e, ainda, à “relación algo especial entre nuestro autor [Sánchez Labrador] y Bucareli” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 106). Para sustentar esta hipótese, os autores recorrem a um trecho da Relação escrita pelo próprio Sánchez Labrador ao chegar ao Porto de Santa Maria, na qual o missionário jesuíta informa que havia feito “un viaje en descubrimiento de las Misiones de los Chiquitos (…) en nombre del Rey nuestro Señor y el excelentísimo señor Don Francisco Bucareli y Ursúa Theniente general y Governador de Buenos Ayres le pidió diário exacto y mapa lo qual todo trabajó y entrego a sua Exª. Quien ofreció remitirlo a su Magd. (…)”. Estes historiadores acreditam que esta “relación algo especial entre nuestro autor [Sánchez Labrador] y Bucareli” (Sánchez Labrador Apud Sainz Ollero et al., 1989, p. 107).[23]

Ao longo dos quatro tomos da obra, o jesuíta emprega expressões como “por aca”, “de aqui”, “tenemos aqui” e outras palavras que suscitam dúvida em relação ao local em que ele a está escrevendo. No terceiro livro do Tomo II, por exemplo, ao descrever a produção de instrumentos musicais pelos indígenas Guarani e Mbayá, ele afirma que “hoy día” e “ahora” permanecem produzindo do mesmo modo, levando-nos ao questionamento também em relação ao período a que está se referindo. Nesse mesmo livro, escreve “Las regiones frías del sud aquí en el Paraguay producen sus peculiares plantas (…)” e, no final da página, “No nos hace falta en el Paraguay la corteza del Simaroba (…)” (Sánchez Labrador: 1772, Tomo II, Livro III, p. 260, grifo nosso). Estes trechos parecem reforçar, em grande medida, tanto as hipóteses que sustentam que o autor iniciou a escrita da obra na América, quanto aquelas que defendem que o jesuíta levou consigo muitas de suas anotações, uma vez que Sánchez Labrador trata o Paraguay como aqui e diz não sentir falta da Simaroba, como se ainda se encontrasse na América.

Também no quinto livro do Tomo de Botânica, encontramos a seguinte afirmação do autor: “Por lo que me persuado, que el Tachuache será alguna [especie] de la que por aca llamamos Caà Cambí” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro V, p. 335, grifo nosso). O emprego da palavra “aca” sugere que ele se encontrasse no Paraguay quando descreveu esta planta, como nesta outra passagem em que ele afirma: “Las he juzgado importantissimas al paso que exequibles en estas Provincias, que abundan de los Materiales, e Ingredientes para practicarlas” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro V, p. 462, grifo nosso), o que nos leva a deduzir que estaria se referindo às Províncias Jesuíticas da América.

Apesar de estes trechos respaldarem a possibilidade de Sánchez Labrador ter levado consigo parte das anotações feitas durante período em que atuou como missionário, em outras partes, o próprio jesuíta fala sobre Ravena e traz informações que também corroboram a hipótese de que a maior parte do Paraguay Natural Ilustrado tenha sido escrita realmente durante o exílio. Em determinada parte do terceiro livro da Parte Segunda, ele faz referência à cidade de Ravena:

En la bien surtida, y asseada Botica, que en la antiquíssima ciudad de Revenna [sic] tiene el monasterío de Religiosos Benedictinos, que llaman de San Vidal, el que cuidaba de ella, hombre muy inteligente, nos enseño a algunos missioneros del Paraguay un Bollo de resina, preguntándonos si la conocíamos (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro III, p. 145, grifo nosso).

Neste trecho, Sánchez Labrador não somente deixa claro que se encontrava em Ravena, na Itália, como também relata que havia conhecido a botica de monastério beneditino da cidade, e nos informa tê-lo feito isto na companhia de outros padres que também haviam sido missionários no Paraguay, o que aponta para uma provável troca de informações entre esses indivíduos, contribuindo significativamente para a escrita das três obras do jesuíta. Isto também fica evidenciado em outro trecho do livro III, no qual o autor nos informa que esteve em Bolonha, provavelmente acompanhado de outros jesuítas: “En la bellísima Especula de la ciudad de Bolonia, nos mostraron la Hierba del Paraguay entre las producciones vegetables, y raras delas Indias” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro III, p. 221, grifo nosso).

Neste mesmo terceiro livro, ao explicar sobre a Hierba del Paraguay, Sánchez Labrador afirma que “(…) en Italia con la llegada de los Jesuitas, la han bebido Personas de distinción con el mismo buen éxito, en todas estas tierras conocen bien el Zumaque, y ni por imaginación le tienen por Hierba del Paraguay” (Sánchez Labrador, 1772, p. 221, grifo nosso). Relata, ainda, a utilização, em Ravena, das espinhas de uma planta conhecida como Zamuû: “En la ciudad de Ravenna surtió buen efecto este remedio en muchas personas, a cuyos ojos se aplicó en los años de 1770 y 1771” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro III, p. 252, grifo nosso).

Também no quinto livro, o autor faz referências à Ravena, o que parece comprovar ainda mais que a maior parte da obra foi escrita durante o exílio, sendo que neste trecho ele compara a cidade italiana com o Peru e o Paraguay: “En esta ciudad de Ravenna hemos visto Jardines, y Huertas estas plantas, y no se diferencían en nada de las del Peru, y Paraguay […]” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro V, p. 336, grifo nosso). Já no livro sexto do Tomo II, encontramos um trecho em que Sánchez Labrador informa ter repassado informações a outro jesuíta que se encontrava em Ravena, o que evidencia tanto a troca de informações entre membros da Companhia, apesar de se encontrarem no exílio, quanto que a obra foi escrita durante o exílio: “Referi despues esta noticia al P. Diego Moreno, de la Provincia de Chile, que a la sazon se hallaba en Ravenna, sugeto grave, y de gran discernimiento” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro VI, p. 369, grifo nosso).

Existe ainda outro ponto, comentado por Moreno (1948) e Sainz Ollero et al. (1989), que comprova, especificamente, que a Parte Segunda do Paraguay Natural Ilustrado foi finalizada em Ravena, na Itália. Este tomo se caracteriza pelo grande número de referências a autores reconhecidos na Europa e a obras sobre História Natural. Dentre as obras mais citadas por ele está o já citado “Diccionario razonado universal de historia natural”, escrito por Jacques Christophe Valmont de Bomare[24] –a quem Sánchez Labrador chama de Señor Bomare–, que começou a ser publicado em 1764. Levando-se em consideração que Sánchez Labrador atuava na afastada redução de Nossa Señora de Belén, entre os índios Mbayás, quando tal livro foi publicado, e que, entre 1766 e 1767, se encontrava em sua viagem exploratória até o território dos índios Chiquitos, não existe a possibilidade de ele tido acesso ao dicionário de Bomare ainda na América. Apesar de todas essas considerações, que nos levam a crer que a maior parte do Paraguay Natural Ilustrado tenha sido escrito na Europa, não existem provas suficientes que possam confirmar tanto a hipótese de que o autor conseguiu levar consigo algumas anotações da América, quanto aquela que sustenta que não teve permissão para fazê-lo. As suposições levantadas e os argumentos apresentados por Sainz Ollero et al. (1989) para explicar o detalhamento e a extensão da obra parecem comprovar a impossibilidade de Sánchez Labrador tê-la feito exclusivamente de memória, como parecem sugerir os minuciosos desenhos e descrições da Parte Segunda e da Parte Quarta.

Os estudiosos das obras de Sánchez Labrador, no entanto, ressaltam que sua produção se insere na categoria de escrita de exílio, um “género particular’ da escrita jesuítica, que não pretendeu apenas “mostrar y difundir los agravios durante su extradición y sus consecuencias en Europa”, mas também “reafirmar la identidad de los jesuítas” (Pacheco, 2011, p. 179).

Apresentando o manuscrito

Ao longo do século XX, alguns autores, como José Luis Molinari (1938), Guillermo Furlong (1948), Aníbal Ruiz Moreno (1958), Hector Sainz Ollero, Hélios Sainz Ollero; Francisco Suárez Cardona; Miguel Vázquez de Castro Ontañón (1989) e Mariano Castex (1963), se limitaram a fazer publicações parciais de certos tomos, livros e capítulos do Paraguay Natural Ilustrado, sendo que, na maioria das vezes, não indicaram as referências completas dos excertos selecionados.

Paraguay Natural Ilustrado é composto de quatro Partes ou Tomos, sendo que a Parte Primera conta com os Livros: I. Diversidad de Tierras, y Cuerpos terrestres; II. Agua, y varias cosas a ella pertenecientes; III. Ayre, Vientos, Estaciones del Año, Clima de estos Países, y Enfermedades mas ordinarías; a Parte Segunda, os Livros: I. Botanica, o de las Plantas en general; II. Selvas, Campos, y Pradarias del Paraguay; III. Los Arboles en particular; IV. Palmas, Tunas, y Cañas; V. Ycipos, y otras Plantas Sarmentosas; VI. Algunos Arbolillos, Matorrales, y Hierbas; VII. Algunos útiles, y curiosos usos, escritos em 1772; a Parte Tercera possui os Livros: I. Animales Quadrupedos; II. Las Aves; III. Los Peces, elaborados em 1771, e a Parte Quarta, os Livros: I. De los Animales Amphybios; II. De los Animales Reptiles; III. De los Insectos, que foram concluídos no ano de 1776, além das 127 ilustrações feitas pelo próprio autor.[25]

Acreditamos que, dentre os inúmeros fatores que podem justificar a não publicação integral do manuscrito Paraguay Natural estão, sem dúvida, o número de páginas[26] que o constituem, a lentidão dos trâmites burocráticos de censura editorial (civis e eclesiásticos) e os custos de sua impressão. Não se deve desconhecer, também, que em 1776, ano de sua conclusão, a Companhia de Jesus ainda não havia sido restaurada, o que irá ocorrer somente em 1814, o que, certamente, contribuiu para que a volumosa obra se mantivesse desconhecida dos pesquisadores por muitos anos.

A transcrição e a análise dos volumosos tomos desta obra do missionário José Sánchez Labrador nos revelam também muito sobre suas motivações, sobre seu processo de produção (as técnicas e o estilo), sobre sua escrita em meio à convivência diária com os indígenas e em um contexto bastante peculiar para a Companhia de Jesus, sobre o diálogo mantido com outros autores e com outros jesuítas e, ainda, sobre os efeitos da memória que se manifestam nas rasuras feitas no corpo do texto, nas anotações complementares inseridas nas margens ou nas notas de pé de página. Mais do que erudição, estes aspectos próprios da escrita do Paraguay Natural apontam tanto para uma prática escriturária da Companhia,[27] quanto para “las características del libro de autor (…) es decir, de su puño y letra, con las cavilaciones, enmiendas, agregados, testados que el autor haya realizado en su ejemplar autógrafo” (Moya, 2012, p. 39). É plausível supor que o Paraguay Natural tenha sido escrito, assim como tantos outros produzidos por irmãos e padres jesuítas na América ou na Europa, com “lapiceras de acero y con tinta negra (…) de composición metálica”, em “celdas veraniegas, o en las caminatas vespertinas para despejar la mente”, pois era nelas que “transcurría la vida interior de los autores, sus especulaciones y dudas, consultando la bibliografia y luchando con su pluma” (Moya, 2012, p. 39-43).

A tradição de copiar à mão constituiu um fenômeno com largo êxito até tempos relativamente recentes (meados do século XIX, na Europa)[28] e a “facilidade e economia do acto de copiar muito contribuíram para uma dinâmica circulação de manuscritos, que o advento da tipografia não poderia, obviamente, demolir”, uma vez que, mesmo depois do incremento das tiragens e da consequente diminuição de custos, essa “cultura dos escribas” e essa tradição de utilizar o manuscrito como principal instrumento de divulgação de saberes coexistiram com a difusão dos impressos, como bem observado por Bouza (2001).[29]

Quanto ao processo de escrita da obra, é importante ressaltar que o autor continuamente corrige erros; reescreve trechos ou frases completas; risca certas palavras; adiciona palavras e trechos ao texto; e chama atenção para outras partes da própria obra ou de outras de suas produções, como o Paraguai Católico ou o Paraguai Cultivado.[30] Quando sente necessidade, o jesuíta faz adições no texto se utilizando de um símbolo muito semelhante a uma “Cruz de Malta”, indicando onde cada trecho deve ser colocado, sendo que estas adições podem estar presentes nas margens das páginas, nos rodapés e até em outras folhas que são marcadas com a página em que o trecho deve ser acrescentado. Estas “correções” ou “adições” no texto do Paraguay Natural Ilustrado indicam um grande cuidado do autor com obra, uma vez que revisa o que já havia sido escrito.

Em algumas páginas constatam-se interferências de terceiros, sendo adicionados números, linhas ou anotações, assim como nos Índices dos quatro tomos da obra, nos quais aparecem assinalados não somente os números das páginas dos capítulos de acordo com Sánchez Labrador, mas também de acordo com a numeração do arquivo em que o manuscrito se encontra.[31] A cada página do manuscrito o autor reinicia a contagem de suas notas de rodapé. Em algumas situações ele as corrige, as risca e muda sua ordem de numeração; em outras, acrescenta notas, mudando posteriormente a ordem numérica na página; deixa notas em branco; coloca o número da mesma nota em locais diferentes do texto; inclui notas de rodapé e não as numera no texto; insere duas vezes a mesma nota ou pula a numeração das notas.

Quanto aos desenhos feitos por Sánchez Labrador, eles são normalmente colocados em folhas separadas do texto, cada imagem em uma página da folha ou um desenho por folha. As folhas de desenhos, geralmente, contêm os números das páginas da obra às quais seus desenhos se referenciam. Se, no Tomo II, as imagens são adicionadas no meio das páginas escritas, referindo-se às plantas que estão sendo tratadas no texto, no Tomo III, as imagens desenhadas estão ao final de cada um dos três livros pertencentes ao tomo. Já no Tomo IV, as imagens são inseridas no final dos três livros, mas mantêm relação com todos os livros do tomo. Nos casos dos Tomos III e o IV, as imagens não recebem numeração, então não se pode afirmar corretamente a que livro, capítulo ou página cada uma delas pertence.

No Paraguay Natural Ilustrado encontramos 127 desenhos feitos pelo próprio autor, sendo que o Tomo II conta com 105, o Tomo III possui 13, e, o Tomo IV, 9 imagens, sendo que o Tomo I é o único dos quatro que não possui quaisquer ilustrações. Em situações mais raras, o jesuíta insere alguns desenhos no meio das páginas escritas, às vezes, no início das páginas ou, até mesmo, no meio do texto. Diferentemente dos que referimos, estes não serviam para ilustrar as plantas, animais, práticas ou elementos sobre os quais Sánchez Labrador escrevia, mas, sim, para contribuir com alguma explicação do autor, por essa razão, esses desenhos, normalmente, recebem título e uma espécie de legenda que explicam do que se tratava. Exemplo disso pode ser encontrado no sétimo livro do Tomo II da obra, no qual Sánchez Labrador, ao falar sobre vernizes, insere um desenho de um “Quadrangulo”, no qual eram postas as lâminas de madeira, ou telas, para terem suas duas superfícies envernizadas (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro VII, p. 472).

Ao longo dos capítulos dos quatro tomos, encontramos indícios que demonstram que Sánchez Labrador concebeu as três obras –Paraguai Católico, Paraguay Cultivado e Paraguay Natural– interligadas e como complementares. Sabe-se que o Paraguay Católico foi escrito entre os anos de 1769 e 1770, mas, infelizmente, não podemos precisar o período em que o Paraguay Cultivado foi redigido, uma vez que não temos acesso ao manuscrito. A análise que fizemos do Paraguay Natural Ilustrado nos leva a crer que suas partes tenham sido as últimas a ser escritas, isto porque, ao longo delas, Sánchez Labrador cita, com frequência, as outras duas obras –Paraguay Católico e Paraguay Cultivado–, destacando, muitas vezes, em qual Parte, Livro ou Capítulo o leitor poderia encontrar certas informações. No primeiro Livro da Parte Segunda, dedicado à Botânica, ele escreve: “Si tales mutaciones se han de admitir por verdaderas, o rechazarse como falsas, conta del que decimos en el Paraguay Cultivado libr. III. Capitulo V” (Sánchez Labrador: 1772, p. 92, grifo nosso). Outra evidência se encontra no livro I do primeiro Tomo, no qual ele indica a leitura do Paraguay Católico, o que, aliás, faz com certa frequência: “Lo demás perteneciente a los establecimientos de los Castellanos en el Paraguay, se podra leer en el Paraguay Catholico” (Sánchez Labrador, 1771, p. 15, grifo nosso).

Em relação ao Paraguay Cultivado, sabe-se que seus quatro tomos tratavam de aspectos relativos às atividades da agricultura e da pecuária praticadas na Província Jesuítica do Paraguai, o que pode ser confirmado na Introdução do Segundo Tomo da obra Paraguay Natural Ilustrado, quando Sánchez Labrador, a tratar da divisão proposta por alguns estudiosos entre uma botânica prática e outra especulativa, menciona que:

(…) algunos principios concernientes al cultivo, y labor de las Plantas, mas esto se hace como de pajo, reservando para otra obra, cuyo Primer Tomo, tengo ya escrito, el tratar de propósito de una materia tan importante, la qual se intitula, Paraguay Cultivado (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Introdução, F. Num. I).

A afirmação que transcrevemos acima confirma que para Sánchez Labrador as três obras se complementavam, oferecendo aos potenciais leitores um amplo e diversificado estudo sobre o Paraguay. Pôde-se, ainda, observar, que no Paraguay Católico o jesuíta optou por apresentar um estudo etnográfico, privilegiando as viagens que realizou e o contato ou convívio com os grupos indígenas e com os demais habitantes das regiões da Província Jesuítica do Paraguay; já os apontamentos relativos à História Natural, com informações sobre botânica, zoologia, geologia e agricultura, foram destinadas para o Paraguay Cultivado e para o Paraguay Natural Ilustrado.

No próximo tópico, apresentamos e analisamos a Parte Primera do Paraguay Natural Ilustrado, destacando, tanto as virtudes medicinais de determinados tipos de terras da região platina e algumas recomendações para a manutenção da saúde, quanto as enfermidades que, segundo o jesuíta, eram as mais frequentes entre os nativos e os europeus instalados nas regiões que se encontravam dentro da “Zona Templada” ou nas da “Zona Tórrida” do Paraguay.[32]

Sobre a Parte Primera

Esta Parte possui 558 páginas, sendo a maior de todas, e divide-se em três Livros: Diversidade de terras e corpos terrestres; Água e várias coisas a ela pertencentes; e Ar, ventos, estações do ano, clima destes países e enfermidades mais comuns. O Livro I conta com 28 capítulos, o Livro II com 10 capítulos e o Livro III com 10 capítulos, além de uma seção final somente com curiosidades que o autor julgou importante adicionar. Nela, Sánchez Labrador trata das utilidades e virtudes terapêuticas de elementos como a terra e a água, apresentando, também, sua concepção de História Natural, como se constata nesta passagem extraída da Introdução:

Si la Historia natural es universal, espressa un conocimiento, y la descripción de todos los seres, y cosas, que componen el universo, quanto en si es. La historia delos cielos, de la Atmosphera, de la Tierra, de todos los phenomenos, que acontencen en el mundo, y aun la del mismo Hombre (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Introdução, p. Num. I).

No parágrafo seguinte a este, o autor não apenas explica melhor sua concepção, como informa que sua intenção era a de produzir um trabalho de História Natural sobre a região do Paraguai, e que, apesar desta delimitação, tratava-se de um estudo complexo: “Es verdad, que aún la História Natural de un solo País es un sugeto de bien basta extensión, por lo respectivo a sus materiales: por lo que en su descripción se hace indispensable grande cuidado, y circunspección en la pluma” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Introdução, p. Num. I). Neste mesmo trecho, ele ressalta o que viria a reafirmar na Introdução da Parte Segunda, isto é, que os trabalhos até então produzidos sobre a natureza do Paraguai não haviam sido capazes de abranger todos os pontos necessários, sendo indispensável a produção de uma obra que alcançasse tal propósito:

Nuestro empeño no se puede extender, por falta de Talento, a tanta universalidad; nos hemos ceñido a ilustrar la Naturaleza de un País, tan poco conocido por sus producciones naturales, quanto preconizado por otros títulos, que por ahora no hacen al intento (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Introdução, p. Num. I).

No Primeiro Livro, intitulado Diversidad de Tierras, y Cuerpos terrestres, Sánchez Labrador refere as virtudes medicinais de determinados tipos de terras que se encontravam na região da Província Jesuítica do Paraguai. A primeira sobre a qual o autor trata é a Terra Marga, que, segundo sua descrição, seria:

La Marga es una especíe de Tierra fossil, y como la substancía de la tierra misma, que fecunda, y abona marabillosamente aun los suelos mas esteriles. Por lo comun se halla debajo de tierra, de modo, que es menester cavar quatro, o cinco toesas para encontrarla, pero una vez hallada, suele seguir su beta por muchas baras (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro I, Cap. VI, p. 45).

Para falar sobre as virtudes terapêuticas desse tipo de terra, o autor recorre aos autores Robert James[33] e Nicolás Lemery,[34] que teriam atribuído a ela virtudes detersivas, adstringentes, dessecantes e narvóticas [sic], pois “faziam crescer as carnes” e resolviam o sangue “coalhado”, podendo ser usadas internamente e externamente. Outra terra muito destacada por suas virtudes no Paraguay Natural Ilustrado é a Greda, que o autor explica ser uma espécie de argila abundante nas terras do Paraguai e muito conhecida pelos grupos indígenas com os quais o jesuíta teve contato. Para Sánchez Labrador, “La Greda es, pues, una tierra calcaría, friable, harinosa, privada de sabor, y de olor, comunmente blanquecina, compacta, calcinable, y que recibe los acidos, asi vegetables, como minerales; estiendese considerablemente en el agua, y atrahe grandemente la humedad dela Atmosphera” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro I, Cap. VII, p. 51). Segundo o jesuíta, existiam vários tipos de greda, um tipo de “terra primitiva”, com inúmeras virtudes medicinais, mas somente a Greda Branca podia ser ingerida:

La Greda blanca es alcalina, detersiva, disecante, y absorvente. Administrase interiormente despues de bien lavada, para endulzar los acidos del estomago, y del pecho: también para la salivación de sangre, para la disentería, y para otras evacuaciones violentas. La dosis es desde medío escrúpulo hasta dos escrúpulos (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro I, Cap. VII p. 56).

No geral, a greda teria propriedades resolutivas, dessecantes e adstringentes e, quando aplicada externamente, mesclando-se essa terra com emplastros e unguentos, seria própria para deter o sangue de feridas. Misturada com licores e colocada para ferver, a greda poderia ser utilizada para uma série de males, especialmente, por ser uma terra alcalina e absorvente. Teria, portanto, como qualidade particular a de absorver os ácidos ou moderá-los, reprimindo, assim, o movimento violento do humor chamado de Biles, atuando nos problemas do estômago. Além dessas utilidades medicinais, o jesuíta nos diz, ainda, que a greda “Ayuda particularmente en aquellos males llamados Palpitación del corazon; en las Toses, que nacen de la flema acrimonosa, o salada; y se dice, que mata las Lombrices, y Gusanos” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro I, Cap. VII, p. 56).

Já no Segundo Livro do Primeiro Tomo do Paraguay Natural Ilustrado, intitulado Agua, y varias cosas a ella pertenecientes, o jesuíta trata, principalmente, das águas dos rios e lagos da Província Jesuítica do Paraguai, mas sempre com um foco maior nas utilidades que tinham para as populações que viviam nas regiões que a compunham. Se para Sánchez Labrador, a água em excesso e a falta de água causavam problemas, ele não descuidava de ressaltar as qualidades e a importância da água dos rios:

Nuestras moradas son enfermizas, ò quando las aguas estancadas, y retalfadas causan una humedad continua, y excesiva; ò quando la falta de agua nos dà una sequedad dañosa. Los rios, aun los medianos refrescan el ayre del territorio vecino, esparcen en el suave rocios, y purifican la tierra de quanto la pude infestar. Limpian tambien el ayre las aguas vivas, y corrientes; y con sus quotidianos vapores le obligan à mudar de sitio, y à que no se corrompa, ni comun que contagio alguna, deteniendose, siempre en un mismo parage (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro II, Cap. II, p. 314).

Os lagos que atravessavam os rios Paraná, Uruguai, Paraguai, Bermejo, Pilcomayo e outros teriam, segundo ele, boas qualidades, porque purificavam tanto as águas, quanto o ar. Afirma, ainda, que os índios Mbayas e outras Nações Infiéis teriam conhecimento disso, passando determinado tempo próximo aos lagos e, por essa razão, viviam sãos, gozando de boa saúde. Sánchez Labrador defende, ainda, que nadar e banhar-se eram atividades recomendadas para assegurar boa saúde. Muitos médicos antigos e modernos, segundo ele, indicavam a combinação do exercício com o contato do corpo com a água fria:

Efectivamente parece cosa indubitable, que fuera dela accion de los musculos en casi todas las partes del cuerpo, que se hace en esta especie de exercicio, como en otros muchos, la aplicación dela agua fría, dentro dela qual se nada, contribuye, no solo con su peso sobre la superficie del cuerpo, mas tambien por su qualidad fria la qual no dexa de ser tal atendida la contigua mutacion, que se hace delas superficies del fluido ambiente, contribuye, digo, à condensar, y fortificar las fibras, y à acrecentar la elasticidad de estas, y hacer su accion mas eficaz sobre los fluidos; de los quales impide tambien la dissolucion, y el demasiado enervamiento, y disipación (…) (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro II, Cap. IV, p. 328).

Ele não deixa, no entanto, de chamar a atenção para certos perigos no consumo de determinados tipos de águas, como as congeladas, que “caem do céu” e, que, na opinião de algunos, provocava “(…) la inflamación del cuello, que llamamos, Papada” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro II, Cap. II, p. 308).

Do terceiro e último Livro deste Tomo I, intitulado destacamos o segundo subcapítulo do Capítulo IX, que trata exclusivamente das enfermidades mais comuns na Província Jesuítica do Paraguai. Elas decorriam, segundo Sánchez Labrador, do clima quente e úmido do Paraguai, que, segundo ele, se encontrava no que denominou de “Zona Tórrida”, o que causaria alterações nos humores do corpo humano. Os “forasteiros” seriam os mais suscetíveis às doenças, principalmente, dos males do fígado e de “esponjamento” da carne, devido a uma diminuição ou obstrução da transpiração decorrente do “engrossamento dos humores”. O jesuíta recomendava que tanto os forasteiros, quanto os espanhóis que viviam na região deveriam proteger cuidadosamente os poros de seus corpos, cobrindo os pés durante a noite, para que a temperatura corporal não se alterasse, provocando a enfermidade.

Essa preocupação de Sánchez Labrador com a falta de transpiração, e o desequilíbrio dos humores, se relaciona com o fato de o jesuíta compreender as doenças e também as terapêuticas com base nos pressupostos da teoria humoralista hipocrático-galênica, ainda vigente no período em que o autor escreveu a obra. Segundo essa teoria, a saúde era assegurada pelo equilíbrio entre os humores que compunham o corpo humano. Desta forma, existia a concepção de que as enfermidades eram causadas justamente pelo excesso ou ausência de algum dos humores: “Se a saúde assentava no equilíbrio, a doença era, em primeiro lugar, desequilíbrio, devido ao excesso de um dos elementos constituintes do corpo, ou a um excesso de calor, de frio, de secura ou de humidade” (Micheau, 1985, p. 46). Como as doenças eram, normalmente, causadas pelo excesso desses humores, as práticas medicinais relacionadas com esta teoria tinham como objetivo a expulsão dos maus humores através do sangue, das fezes, da urina, da transpiração, do vômito e de demais formas de excreção, razão pela qual eram largamente utilizadas na Europa as práticas terapêuticas de purgar, fazer sangrias, causar vômitos e provocar urina. Sánchez Labrador manifestou sua preocupação com o impedimento da transpiração do corpo humano, pois entendia que através dela o corpo se livrava dos maus humores, os quais, ao não serem expelidos, se acumulavam no corpo e causavam doenças:

(…) si la transpiración, o copiosa en sudor, o menos sensible está libre, no molesta a la salud: pero si se impide, y el cuerpo no se desfoga por los poros, se experimenta pesadez, la qual indica matería, que en breve se dara a conocer en una enfermedad fuerte (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro III, Cap. IX, p. 532).

No terceiro livro da Parte Primera, o jesuíta faz, também, uma série de recomendações para os que viviam na “Zona Tórrida”, tais como a de não consumir nada nem muito quente e nem muito frio, uma vez que sua ingestão em excesso causaria, segundo ele, “(…) caimiento, desmayos, afeminan los cuerpos, que quedan en una laxitud deplorable, sin color, ni fuerzas, por la dissipación abundante de los espiritus vitales” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro III, Cap. IX, p. 533). Já a preocupação com o consumo das coisas frias decorria da constatação de que causavam “(…) entorpecimiento delos miembros, obstrucciones, reprimiendo hacía adentro la matería, que debía transpirarse” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro III, Cap. IX, p. 533). Também recomenda que exercícios deveriam ser praticados logo cedo pela manhã ou no final da tarde, para que as pessoas não tomassem muito sol e, também, para que o ar do Paraguay não aumentasse ou causasse ardor nos “espíritos” e nos humores do corpo. De qualquer modo, o autor diz que trabalhos e exercícios extremos não seriam positivos para a saúde, ao mesmo tempo em que deixar de dormir também não faria bem, principalmente, para a cabeça.

Eles nos fala ainda sobre a importância do aproveitamento das frutas próprias da região, que deveriam ser ingeridas principalmente pela manhã, pois fariam muito bem para a saúde. Mas faz críticas ao consumo de Aguardiente e de Ponche, dizendo que causavam problemas àqueles que os ingerissem em excesso:

(…) que la bebida del Aguardiente (…) les acarrea muchos males, usada con nimiedad, y frequencía. Su uso ca siempre acompañado de tristes, y desgraciados efectos: porque sutiliza, y extenua el cuerpo; disminuye, y quita las fuerzas; entorpece, y ofusca el celebro (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro III, Cap. IX, p. 534).

Apesar de destacar os males da bebida e de deixar claro que aqueles que se entregavam aos deleites de Baco e Vênus estavam mais suscetíveis às doenças, o jesuíta também condena as abstinências, pois ficar muito tempo sem comer, dormir e beber também acarretava grandes prejuízos à saúde, especialmente, para os que tinham problemas com a bílis e com a cólera. Ao falar sobre a ingestão de vinho, Sánchez Labrador afirma que o francês seria melhor do que o produzido na Espanha, e que deveria ser ingerido em quantidade moderada, pois “Cometen un grande error contra sus vidas los que le beben en mayor abundancía delo que conviene en estos temples calientes” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro III, Cap. IX, p. 535).

Também as doenças de verão, as doenças de inverno e as epidemias e viroses mereceram sua atenção. Sobre as doenças de verão, ele afirma que eram causadas pelo clima mais seco desse período e que seriam menos prejudiciais e mais fáceis de curar do que as de inverno, que eram causadas pelo frio e pela umidade. Entre as enfermidades de verão estavam as “Dolores de costado, los tabardillos, y calenturas ardientes (…)”, além das doenças que teriam relação direta com o tempo seco como “(…) males de ojos, disenterias, herpes, fuegos, o sarpullidos, comezón por todo el cuerpo, vahídos de cabeza, [etc.] males, que provienen delo sangre requemada” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro III, Cap. IX, p. 536). As doenças de inverno estavam, de acordo com o autor, estreitamente relacionadas com a umidade e as chuvas dessa estação e causariam, além dos problemas de cicatrização, males como “(…) calenturas pútridas, y abundancía de flemas dela cabeza, y vientre, fluxiones, caída dela ternilla del estomago ensiforme, fluxos blancos del vientre, hydropesías, y hernías. Sobre todo opilaciones del higado, y flaquezas del estomago, pasmos, y otros afectos delos nervíos” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro III, Cap. IX, p. 536).

Ao final desse subcapítulo sobre as enfermidades mais comuns da vasta região que abarcava a Província Jesuítica do Paraguay, Sánchez Labrador menciona os autores nos quais se baseou para fundamentar algumas das afirmações e recomendações feitas. Dentre os autores religiosos, se destacam, os jesuítas Pedro Montenegro e Juan de Esteyneffer[35] e o frei Agustín Farfan[36] e entre os autores leigos se encontram Jacobo Boncio[37] e Guilhermo Piso[38]: “En el Discurso de esta ilustración dela Naturaleza del Paraguay se escriben muchos remedíos, que suministran los tres reynos Mineral, vegetativo, y sensitivo en estas dilatadissimas regiones, valéendonos delas noticias, que dan los Auctores referidos, y otros Libros” (Sánchez Labrador, 1771, Tomo I, Livro III, Cap. IX, p. 537).

Nos próximos tópicos, apresentamos os procedimentos terapêuticos e virtudes medicinais atribuídas a plantas e insetos que Sánchez Labrador descreveu nos Tomos II e IV, assim como o diálogo que ele manteve com autores clássicos e contemporâneos e com outros jesuítas, atestando, assim, a rede que os membros da Companhia de Jesus instalados nas várias regiões dos Impérios ibéricos mantinham e a ampla circulação e discussão de informações.

Sobre a Parte Segunda

Esta Parte conta com sete livros e 76 capítulos, que abordam, ao longo de 500 páginas, aspectos relativos à fisiologia, anatomia, histologia, reprodução vegetal, farmacologia, cultivo e etnobotânica.[39] Para escrevê-lo, Sánchez Labrador se valeu tanto de suas próprias observações –a partir de expedições que realizava pela região platina– e de informações que obtinha com informantes indígenas[40], quanto de autores leigos clássicos e contemporâneos à obra, muitas delas, redigidas por outros jesuítas naturalistas, com os quais estabelecerá um interessante diálogo. Em uma das menções feitas ao ruibarbo, Sánchez Labrador deixa isto bastante evidente: “Dixome, que se las había hecho conocer un P. Missionero, inteligente de plantas, y aun que pronunció mal, como suelen los nombres estrangeros, pude percebir, que quería decir Ruibarbo” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro VI, Cap. X, p. 408).

Quanto ao sistema de classificação das plantas proposto por Lineu (1707-1778), em 1753[41], constata-se que é apenas parcialmente empregado no Paraguay Natural, uma vez que Labrador, apesar de recorrer a muitos elementos propostos pelo botânico, opta, no entanto, pelo agrupamento por formas biológicas[42], isto é, por biotipos[43]. Acredita-se que a não adoção da nomenclatura de Lineu[44] por Sánchez Labrador possa ser atribuída tanto ao fato de que a metodologia e a classificação por ele propostas ainda não se encontravam largamente difundidas e aceitas pelos naturalistas e botânicos[45], quanto aos insuficientes dados morfológicos que o jesuíta possuía sobre certas espécies e famílias sul-americanas para poder enquadrá-las nos tipos de Lineu.

No Paraguay Natural, cada planta descrita por Labrador está precedida por descrições morfológicas e ecológicas, seguidas por informações sobre sua utilidade, além do seu método de obtenção e cultivo. A obra contempla critérios de classificação próprios da botânica, tais como taxonomia, morfologia, anatomia e, também, aspectos etnobotânicos e relativos aos tratos culturais, os quais, segundo o padre jesuíta, eram, até aquele momento, tratados isoladamente por outros cientistas. Isto fica evidente na afirmação que Sánchez Labrador faz na abertura da Parte Segunda:

(…) Muchos auctores restringen la Botanica à solo el conocimiento de las Classes, Generos, y Especies de las Plantas; à su exterior forma, y la descripción de todas sus partes. Estoy de acuerdo, que su objeto comprehenda todo el Reyno de los vegetables, en todos sus estados, en todos sus usos, y en todos sus respectos (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Introdução, f. num. I) (grifos nossos).

Nesta mesma Introdução, ele acrescenta que pretendia fazer uma descrição completa e minuciosa sobre as plantas das regiões da América platina, especialmente da Província Jesuítica do Paraguai, o que fica evidenciado nesta passagem:

(…) si se mira bien, verá en lector, que no se trata aquí de dar una noticia ayuna y enjuta de las plantas del Paraguay, sino, en cuanto se ha podido, se trató de formar una Botánica, de las que produce este país, considerado hasta ahora con casi ningún cuidado y empeño (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Introdução, f. num. I) (grifos nossos).

Ao longo dos capítulos do Livro I, ficam também evidentes os conhecimentos químicos de Sánchez Labrador, especialmente, na seção em que trata das cores das plantas e dos procedimentos que deveriam ser adotados, ainda no plantio, para a obtenção de determinadas colorações. O autor fala, com bastante propriedade, das influências dos ácidos e dos alcalinos nas cores das flores, informando que os ácidos levariam a tons avermelhados, enquanto que os alcalinos causariam tons mais puxados para o verde. Suas explicações sobre as aparências das plantas e sobre a composição dos solos, sobre as diferenças entre alcalinos e ácidos, bem como de alcalinos e ácidos voláteis, e sobre como esses elementos influenciam na coloração das plantas, são bastante complexas e demonstram um conhecimento significativo, decorrente, sem dúvida, do contato com obras de referência sobre a temática. Além das descrições morfológicas e ecológicas e das informações sobre sua utilidade, além do seu método de obtenção e cultivo, o jesuíta apresenta, ainda, uma série de advertências, objetivando o êxito na busca e no emprego de determinado vegetal.

Merecem, sem dúvida, destaque as mais de cem descrições que o missionário jesuíta fez “de las árboles del Paraguay”, que são organizadas segundo um critério fisionômico e utilitarista, como se pode constatar nas árvores balsâmicas, dentre as quais se destaca o cupay (Copaifera sp.), nome vernáculo atribuído a diversas espécies nativas, produtoras de óleos essenciais terapêuticos, que foram empregadas nas reduções jesuíticas na preparação de diversos bálsamos, úteis no tratamento tanto em lesões externas, quanto da varíola. De acordo com Labrador, desta planta extraía-se um poderoso bálsamo, conhecido como o azeite de Cupay, bálsamo de Copayba ou azeite de Palo. Dentre suas virtudes medicinais estariam as de confortar o estômago (tomando-se 3 a 4 gotas pela manhã), ser diurético (limpar os rins e bexiga), curar as dificuldades relacionadas à má respiração, induzir o parto, quando aplicado na vulva, diminuir as dores dos nascidos que apresentavam humores frios e úmidos e a paralisia, pois o chá agiria na origem dos nervos, na espinha (humores frios), diminuindo as dores de gota, ajudando nas dores no ciático, fortificando o cérebro e afastando o frio da febre. Além dessas aplicações, o bálsamo da copaíba seria muito conhecido também por seus efeitos na cicatrização de feridas de todos os tipos (menos as produzidas por queimaduras). Serviria, ainda, para conter os fluxos de sangue, decorrentes do rompimento de alguma veia ou vaso sanguíneo, podendo ser aplicado em casos de gangrenas, gonorreias ou demais enfermidades que causassem perda de sangue, porque “Provoca la orina, apaga su ardor, y limpia las cosas ensangrentadas, sucias, y podridas del vientre, que la detienen” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro III, Cap. I, p. 139.).

Em relação ao pau-brasil (Ybirapicta em guarani), Sánchez Labrador reconhece sua larga utilização na extração de tintura, destacando a existência de dois tipos de Ybirapicta, a Ybirapicta guaçu e a Ybirapicta miri. Quanto às suas virtudes medicinais, o padre jesuíta ressalta que estas árvores possuem muito óleo e pouco sal essencial, apresentando qualidade adstringente, sendo, por isso, eficientes para fortificar o estômago e diminuir as febres altas, para curar graves inflamações nos olhos e combater a icterícia[46].

Um aspecto que chama a atenção ao longo deste tomo e de seus capítulos, são as advertências que Sánchez Labrador quanto ao uso de determinadas plantas e as inúmeras recomendações, como por exemplo, em relação aos cuidados que se deveria ter nas expedições de reconhecimento e coleta e, ainda, em relação ao consumo de certos alimentos, como se pode constatar nesta passagem: “Los índios se valen de uno médio para no perder el tino (…) cortan ramas, y gajos de los arboles, y plantas de media altura; aquellas suelgan en alguno ramo del camiño, y estas las dexan pendientes” (Sánchez Labrador: 1772, Tomo II, Livro II, Cap. IV, p. 124). E, ainda, que deveria se tomar cuidado em relação aos frutos de algumas plantas, pois alguns deles podiam apresentar toxicidade: “En este conflicto, sirven de exploradores al gusto Insetos, ò nobles Aves. Las frutas, que se ve comen tales animalitos, se pueden julgar de buenas qualidades, y comerse sin miedo” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro II, Cap. IV, p. 123).

Sánchez Labrador, contudo, não descuida de legitimar suas observações a partir do conhecimento já consagrado de alguns botânicos: “Me alegre al leer algunas de estas advertencias en la obra del insigne Botanico, P. Savastaní, el mismo elegante Poeta escribe que de este mismo indício se valieron los europeus (…), tenian por salutables aquellos frutos que las aves picaban” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro II, Cap. IV, p. 123).

Outro aspecto que merece ser destacado são as inúmeras evidências da circulação de “libros de medicina” e do diálogo que Sánchez Labrador mantinha com outros membros da Companhia de Jesus, como nesta passagem em que descreve a “Caaboroy” a partir do registro que o irmão jesuíta Pedro Montenegro fez dela na Materia Medica Misionera, ainda na primeira década do século XVIII:

(…) asi llaman a una planta, que abunda en el Paraguay Proprio, a la qual nombram los españoles, Albahaca del campo, o silvestre. Parecese en todo a la Albahaca hortense, a la qual los indios Guaranis dan el mismo nombre. La del campo, quando fresca despide olor muy suave de clavo de especeria. El Hermano Pedro Montenegro, Jesuita, y insigne Botanico, la tomaba a la manera de The,y decía, que confortaba bellamente el estomago (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro VI, p. 448) (grifos nossos).

Ou, então, nesta em que, ao tratar de uma “especie de the” faz referência a outro missionário jesuíta, que atuava na Patagônia argentina:

Las hojas de este arbolito son muy fragrantes; y en Chile, y en el Paraguay se sirven de ellas, como de las del The, con los mismos, o mejores efectos. Por una especie de verdadedo The califico a esta planta el P. Thomas Falconer, ingles, Jesuita en la Provincia del Paraguay, sugeto muy inteligente de la Botanica, y Medicina. La Autoridad sola de este insigne Missionero puso al Culen en mas alto grado de estimación de el que antes tenia. Como científico manifiesto, que poseía mucha sal esencial, y oleo medio exaltado (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro VI, p. 365-366 (grifos nossos).

A circulação de informações sobre saberes e práticas curativas entre reduções da Companhia na região abarcada pela Província Jesuítica do Paraguay pode ser também constatada na menção que Sánchez Labrador faz à uma “Reducción de Neophytos del Chaco [onde] se atajó una epidemia con el remedio dicho del Tabaco, como me lo refirió el P. Luís Olcina, que actualmente se hallaba en ella, y otros missioneros” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro VI, p. 434) (grifos nossos).

Mas o diálogo entre jesuítas não se circunscreveu ao período em que padres e irmãos atuaram no território americano, como se depreende desta passagem, na qual Labrador, já instalado em Ravena, refere ter recebido notícias do:

(…) P. Diego Moreno, de la Provincia de Chile, que a la sazon se hallaba en Ravenna, sugeto grave, y de gran discernimiento. Dixome, que en Massa Lombarela, donde el residía, lugar cercano a la ciudad de Immola, había un Cavallero Conde de la primera nobleza, muy curioso, y que se deleitaba en Botanica, y Jardineria, el qual en su bello Jardin tenía también el Payco, al qual nombraba The, y como tal le usaba. Suplique al Padre, que a su regreso, se informase con puntualidad de este particular, y que me escribiera lo que averiguaría. Hizolo así, y respondío lo que ya voi a escribir con sus formales palabras (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Livro VI, p. 369) (grifos nossos).

Esta intensa circulação de informações, em especial, sobre Botânica,não somente entre membros da Companhia de Jesus, mas também a confirmação ou a refutação de estudos clássicos e publicados no Setecentos podem ser também constatadas na Parte Quarta, que conta com um capítulo dedicado à descrição dos procedimentos terapêuticos e às virtudes medicinais de vinte e um insetos.

Sobre a Parte Quarta

De acordo com Sánchez Labrador, “Los Insectos no tienen uso tan general en orden a la salud, como el resto de los otros animales” pois, “Los Medicos no emplearon mucho tiempo en indagar las virtudes especificas de los primeros, satisfechos con lo que conocian en los segundos” (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 361). No entanto, segundo o jesuíta, estes animais invertebrados, reduzidos a pó ou ingeridos em infusões, agiam na cura de enfermidades internas e na recuperação de fraturas ósseas, visto que apresentavam expressivas virtudes terapêuticas:

Pueden se alegar varias razones en comprobación de la virtud, que se halla en estos pequeños vivientes, Iª. que la sal, que tienen, es mas penetrante, y volátil, que la de otros animales. Es cierto a muchos Insectos abundan de sal volátil, la qual se extrahe facilmente por medio de la chymica. IIª. que los Insectos contienen una especie de Balsamo natural, capaz de producir buenos efectos. IIIª. que tienen un Azufre mas eficaz, que lo comun (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 361)

Dentre os vinte e dois insetos referidos no último livro desta Parte do Paraguay Natural se encontram os escorpiões, “Yapeuzu” em guarani, os quais, segundo Sánchez Labrador, se amassados e colocados sobre a própria picada de seu ferrão, conseguiriam deter o progresso do veneno no corpo da vítima, levando à cura. Para confirmar esta indicação, o padre jesuíta se vale da opinião de outro jesuíta, o padre Athanasius Kircher[47], que afirmava que os escorpiões atraíam o seu próprio veneno através de uma virtude magnética. Ainda contra o veneno destes insetos, seria bastante eficiente o emprego de “Aceyte de Alacranes” –ou azeite de escorpiões–, produzido através da infusão de escorpiões em azeite de amêndoas, que deveria ser aplicado sobre a área picada[48]. De acordo com o jesuíta, os indígenas, quando picados por escorpiões, ingeriam estes animais amassados misturados à bebida fermentada, enquanto outros preferiam colocar o azeite dentro da ferida. O escorpião, segundo ele, possuía também virtudes diuréticas, auxiliando no tratamento de pedras nos rins e na bexiga, devendo, nestes casos, ser queimado vivo e suas cinzas consumidas posteriormente. Para contornar este mesmo problema, era indicado o azeite de escorpiões, devendo-se untar a região da bexiga e dos rins, para, assim, amenizar as dores e ajudar o enfermo a expelir as pedras. O azeite podia, ainda, aliviar dores de ouvido, quando pingado nas orelhas.

Também os grilos possuíam uma grande quantidade de sal volátil e de óleo, sendo, por isso, também eficientes como diuréticos. Estes insetos deveriam ser colocados em um vaso de terra tapado, que deveria ser aquecido sob fogo baixo, para, logo após, serem reduzidos a um pó, que deveria ser dado ao paciente –na quantidade de doze grãos ou mais–, acompanhado de água de salsa. Outra forma de utilizá-los como medicamento, sem que fosse preciso tostá-los, previa que dois ou três desses insetos, após terem removidas suas asas, pernas e cabeças, fossem colocados em água de salsa ou alecrim. Estes insetos deveriam ser deixados em maceração nessa água até que ela se tornasse um licor praticamente branco como leite, que deveria ser coado em um pano e dado de beber para o enfermo. Os grilos também teriam uso externo, já que, após serem amassados e aplicados nos olhos, ajudavam a clarear a visão, sendo também eficientes na cura de parótides e de outros tumores do mesmo gênero.

Sánchez Labrador registrou duas formas de preparo de grilos por indígenas. Uma delas consistia em cozinhar alguns grilos, retirar suas tripas e moer o restante de seus corpos até tornarem-se pó, ao qual era acrescentado um “licor conveniente”dado aos doentes que padeciam de problemas dos rins ou bexiga, com grandes resultados. A outra recomendava que, nos casos de urina contida, o doente recebesse o preparado resultante da seguinte receita: dois grilos deveriam ser tostados em uma caçarola de barro, moídos e misturados em um pouco de vinho, água bem cozida ou de chicha de milho. Mas se o paciente sofresse de incontinência urinária, deveria receber um só grilo, amassado e não tostado, misturado com um pouco de água morna. Eles poderiam ser também colocados em um palito e tostados no fogo, como nesta indicação: “y ya tostados muelelos en un poco de vino caliente: este vino mezclado con los Polvos de Quiyus, darás ao Indio, o India, que padeciere la retención de orina, y esta poco a poco fluirá” (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 366) (grifos nossos).

Assim como os grilos, os piolhos continham sal volátil e óleo, sendo indicados nos casos de icterícia e febres, recomendando-se que fossem engolidos de cinco a seis deles, no princípio do paroxismo. Concordando com o proposto pelo químico francês Nicolás Lemery, Labrador ressalta que o paciente que demonstrasse aversão e apresentasse náuseas ao engolir os piolhos, estaria, na verdade, expelindo a febre e não o remédio em si. Para curar a icterícia, as orientações eram as seguintes: alguns destes insetos deveriam ser consumidos pela manhã –em jejum– em um ovo passado pela água, repetindo-se três vezes este procedimento por três dias consecutivos, interrompendo-se por alguns dias para, depois, repetir o procedimento. O uso externo dos piolhos, segundo Sánchez Labrador, era frequente em crianças que sofriam de retenção urinária, recomendando-se que o inseto fosse colocado vivo sobre alguma parte do corpo do enfermo.

Em relação a este último Livro da quarta Parte do Paraguay Natural chamou-nos a atenção o fato de que praticamente todos os insetos citados por Sánchez Labrador apresentam propriedades diuréticas, auxiliando, ainda, no tratamento de pedras nos rins e na bexiga. Esta constatação parece apontar para a alta incidência destas enfermidades entre os grupos indígenas contatados ou observados pelo missionário jesuíta, e que podem estar relacionadas com mudanças nos hábitos alimentares, mais especificamente, do consumo de sal ou de açúcar, após a intensificação do contato com os europeus.

O destaque dado por Sánchez Labrador às suas virtudes medicinais e à indicação de insetos no tratamento de pedras nos rins e na bexiga nos levou a refletir sobre as possíveis causas da alta incidência destas enfermidades entre os grupos indígenas da região platina. Constatamos que dietas ricas em proteína, sódio (sal) ou açúcar podem levar à formação de cálculos reais, que são formações endurecidas nos rins ou nas vias urinárias, resultantes do acúmulo de cristais existentes na urina. No caso das dietas com presença elevada de sal, elas aumentam a quantidade de cálcio que os rins deverão filtrar, o que, consequentemente, leva a um risco maior. Também, o baixo consumo de líquidos ou doenças do trato digestivo, como inflamação gastrointestinal e diarréia crônica podem causar mudanças no processo de digestão, afetando diretamente na absorção de cálcio e água, aumentando também as chances de formação de pedras nos rins e/ou bexiga. Outra causa para a formação de cálculos renais é o excesso ou, então, a falta de citrato, substância presente, principalmente, nas frutas cítricas, a hipo e hipercitraturia.

Percebe-se, ainda, que Sánchez Labrador fundamenta o emprego terapêutico destes insetos a partir de pressupostos da teoria humoralista, na medida em que levam o enfermo a expelir os excessos dos humores em desequilíbrio. A apropriação da teoria hipocrático-galênica pode ser constatada em várias passagens neste capítulo do Tomo IV, como na referência que o jesuíta faz à náusea provocada pela ingestão de piolhos, que consistiria, segundo ele, justamente, na maneira de o corpo eliminar a febre.

Ao longo das mais de trezentos e setenta páginas deste livro, Sánchez Labrador evidencia não apenas a apropriação dos saberes e das práticas curativas nativas, mas também a legitimação ou a refutação dos pressupostos de vários autores europeus, ao quais ele recorre para fundamentar suas afirmações e descrições das indicações terapêuticas e modos de preparo dos insetos. Dentre os referidos pelo padre jesuíta, destacam-se Robert James (1703-1773), Nicolás Lemery (1645-1715), Esteban Geoffroy (1672-1731), Jacques-Cristophe Valmont de Bomare[49] (1731-1807), Marcial[50] (38/40 d.C.-?), Dioscórides[51] (40 d.C.-90 d.C.), Padre Athanasius Kircher SJ. (1601-1680), Martin Lister[52] (1638-1712), Johann Schröder[53] (1600-1664) e Cláudio Galeno[54] (129-199/217 d.C.).

A referência a Galeno pode ser encontrada na passagem em que refere a utilização de “agua destilada de Moscas (…) contra los males de los ojos; para servirse de ella la mezclan con una yema de huebo, y forman emplasto. Galeno aprueba este remedio” (Sánchez Labrador: 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 368). Ao tratar das propriedades terapêuticas do mel das abelhas, Labrador deixa bastante evidente as leituras que realizou e os autores nos quais se baseava: “Otras virtudes excelentes dela Miel podrán leerse en las Pharmacopeas Matritense, de Lemery, Palacios, James” (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 362). Mas, ao referir-se à cera de abelha, o jesuíta deixa evidente sua discordância em relação ao já afirmado por Lemery que:

(…) juzga, que no hay mas cera virgen, que la que en las colmenas se llama propolis, y en Guarani Eybora; que es una especie de Matice dorado, o rubicundo, el qual contiene mucho oleo, y poca sal volátil acida. Es error este de Lemery, y solo impropriamente puede la Propolis llamarse Cera Virgen (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 362).

Em outra passagem, que trata, especificamente, das sanguessugas, o jesuíta irá ressaltar as acertadas recomendações feitas pelo químico francês:

Para aplicar las sanguijuelas son necessarias algunas precauciones, que podran verse en el Diccionario de Drogas Simples de Lemery. Este Auctor enseña, que si por casualidad, bebiendo agua, se trago alguna sanguijuela, luego o se beba agua salada en abundancia, porque con ella desiste este insecto de atormentar; y que después se purgue con Mercurio dulce, u otra composición Mercurial (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 369).

O diálogo que Labrador manteve com as concepções e obras de outros homens de ciência da Companhia de Jesus fica atestado em uma passagem na qual faz referência aos escorpiões, mencionando que “Cree el P. Kircher que los Alacranes atrahen el veneno por cierta virtud magnética; pero Hoffmann /in Medic. Rat. Syst. tom. P. 2. Cap. 2. §. 27. lo tiene por fabula, que atraiga por magnetismo” (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 363).

Para abordar as propriedades terapêuticas de aranhas e de suas teias, Sánchez Labrador recorre aos trabalhos tanto de Martin Lister, quanto de Robert James, como se pode constatar nas passagens que destacamos. Em relação ao primeiro autor, o jesuíta afirma que em seu “/Tractat. De Araneís/ [Lister] las atribuye muchas facultades medicinales; pero se desean buenas pruebas, fundadas en experiencias” (Sánchez Labrador: 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 363). Na referência que faz ao segundo, Labrador não apenas recorre a James para legitimar as virtudes e o mais adequado procedimento terapêutico, como para reforçar sua eficácia a partir de experiências bem sucedidas e de registros que a comprovam:

James escribe que se ha de tomar una vez una hora antes que venga el paroxismo; y otra vez quando ya esta próximo a venir. Dice, que le informaron, que los indianos en la Carolina Septentrional, tiene grande confianza en este remedio para el dicho mal, a que están muy expuestos. Añade, que un amigo suyo, que había estado muchos anos en aquellas tierras, le asseguro, que el mismo había sanado de aquel mal con la tela de Araña. Concluye James, y de hecho, la experiencia misma confirma la eficacia de este remedio para sanar las calenturas, que vienen con frío (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 363).

Este recurso narrativo de legitimação pode ser também observado em outras duas situações, nas quais, ao referir-se à cochonilla, o jesuíta respalda suas descrições em autores como Geoffroy, Schröder e Lemery:

Geoffroy dice, que se usa la cochonilla para todos aquellos fines, a los quales sirve el Chermes. (…) En los Pasmos delas Quixadas, en que estas se aprietan de modo que se cierra fuertemente la boca, son excelentissimo, y prompto remedio, cogese un pedacito de Grana, (que es la substancia de los Gusanos) como una Almendra; desliese en vino; abrese la boca del enfermo con algún palito, y se le hecha en ella la dicha infusión algo tíbia con una cuchara: luego sele desetan los nervios, y habla. Practique este remedio en una ocasión, que llamado a confessar una enferma en la ciudad de Buenos Ayres, la encontré con el referido Pasmo. Pudo por este medio confessarse a satisfacción. De otras virtudes dela Grana, vease Schroder en el Libr. citad. Geoffroy Lemery (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 365).

Schröder será novamente mencionado na descrição que Labrador faz das virtudes medicinais dos besouros: “Dice [Schröder] que el aceyte hecho de la infusión de estos insectos, puesto en el oído, o instilado en la oreja, quita los dolores de los oídos, yla sordera” (Sánchez Labrador: 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 366).Mas esta não será a única forma de preparo dos “escarabajos”, uma vez que o jesuíta irá destacar também “El modo mejor de hacerlos polvo, segun Hartmannes, es (…) meter algunos escarabajos en un vaso de tierra; taparle bien, y ponerle al sol a secar; después moerlos” (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 366).

Referindo-se à utilização terapêutica de piolhos, Labrador descreve e, ao mesmo tempo, desacredita uma das práticas adotadas, afirmando que

En quanto a el uso externo, sirven para los Ninõs [os indios], que padecen supressión de orina: suelen poner vivo un Piojo en el Cañoncito, que con la titilación se ensancha, y da lugar a que la orina salga. Schroder no aprueba esto (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 368).

Por outro lado, ressalta a eficácia de outra forma de utilizá-los, sobretudo, por assegurar, a partir de pressupostos humoralistas, a retomada do equilíbrio:

Densele al enfermo al principio del paroxismo cinco, o seis, y que los trague, o mas o menos, según se juzgare conveniente. Nota muy bien Lemery, que por ventura al asco, y nausea, que siente el paciente al tomarlos, conduce para expeler la calentura mas, que el mismo remedio (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 368).

Como se pode constatar, o jesuíta Sánchez Labrador produziu uma obra em que fica, portanto, evidente a “necessidade de um comentário autorizado da parte de quem é suficientemente “sábio” ou “profundo” (Certeau, 1982, p. 82). Entretanto, o que chama a atenção, especificamente, neste livro do Paraguay Natural,não são as recorrentes remissões e evocações aos conhecimentos de autoridades reconhecidas, mas as menções que Labrador faz às contribuições de outros sujeitos, no caso, os indígenas, a quem denomina de “inteligentes” e “sábios” em algumas situações. Em uma das descrições sobre a utilização terapêutica de grilos (quiyu, em guarani) encontramos menção aos indígenas que padre Labrador denomina de “inteligentes”, os quais atuavam como curandeiros:

En el Paraguay un inteligente los preparaba, como ya digo. Cocía levemente unos Grillos, les sacaba las tripas, molía lo demás; y estos polvos daba en licor conveniente alos que padecían dela orina: fluía esta, y quedaba aliviado el paciente. Otro tostaba dos Grillos en una cazuela de barro, los molia; yen un poco de vino, o de agua bien cocida, o de Chicha (Aloxa) de Maiz los daba a beber al enfermo, que padecia dela retención de la orina; obraba luego el buen efecto. Por el contrario si la enfermedad era de demasiado fluxo de orina, le daba al enfermo un solo Grillo sin tostar, machacado, yen infusión de un poco de agua tíbia (Sánchez Labrador, 1776, Tomo IV, Livro III, Cap. Último, p. 366).

Em outra ocasião, ele afirma que presenciou dois “inteligentes” e “sábios” indígenas preparando grilos, com o propósito de curar um índio que se encontrava enfermo, e que o procedimento teve resultados positivos. Essa prática de nomeação ou adjetivação de certos indígenas traz consigo um caráter de distinção, na medida em que Labrador, apesar de não percebê-los como iguais aos cientistas europeus, os diferencia também dos demais indígenas. Cabe lembrar que a nomeação do outro faz parte do processo da retórica da alteridade e envolve, principalmente, a classificação deste outro, que seria essencial, pois “classificando o outro, classifico-me a mim mesmo e tudo se passa como se a tradução se fizesse sempre na esfera da versão” (Hartog, 1999, p. 259).

Importante lembrar que as observações que Labrador fez do emprego de insetos na cura de certas enfermidades decorrem das experiências que vivenciou como missionário na Província Jesuítica do Paraguay. Esta especial condição –de religioso com a missão de evangelizar e civilizar os indígenas– se manifestará, sem dúvida, nas apreciações que fará das práticas curativas indígenas. Neste sentido, vale ressaltar que:

La separación que realizaba el jesuita entre indígenas ‘más racionales’ y ‘menos racionales’ se basaba en el uso de especies vegetales como medicamentos, porque para él la medida de la lógica se daba en relación con el acercamiento al mundo natural, utilizando y aprovechando sus ventajas, a la vez que se despreciaba lo sobrenatural (el shamanismo, la magia en suma), prueba clara de irracionalidad (Di Liscia, 2002, p. 40­).

No Paraguay Natural, Sánchez Labrador parece estar em sintonia com os avanços no estudo dos invertebrados –particularmente dos insetos– observados no século XVIII, uma vez que não se contenta em referi-los como “bichos venenosos” ou como organismos “imperfeitos” e, por isso, não dignos de atenção. Opondo-se a esta forma tão negativa de perceber os insetos, aponta para as virtudes terapêuticas de alguns deles e para seu largo uso pelos indígenas americanos. Em razão disso, o Livro sobre os “pequeños vivientes” –como a eles se referia Sánchez Labrador– não se caracteriza por descrições fantasiosas, crenças arraigadas ou por incorporações de informações não apuradas obtidas com terceiros, oferecendo, ainda, evidências do estreito convívio do jesuíta com os indígenas junto aos quais atuou como missionário.

Sánchez Labrador apresenta suas virtudes e indicações, tencionando sua adequação ao sistema europeu e à teoria humoralista hipocrático-galênica, em consonância com sua condição de europeu e de religioso, não desconsiderando os saberes próprios dos grupos indígenas com os quais conviveu. Sob esta perspectiva, é correto afirmar que os registros que Labrador fez dos saberes e das práticas curativas indígenas –que se caracterizavam pelo emprego de plantas e de insetos– levaram em conta, tanto as obras que consultou na biblioteca do noviciado de San Luis de Sevilha e, posteriormente, na do Colégio de Córdoba, quanto o diálogo que estabeleceu com outros homens de ciência –durante seu exílio em Ravena, na Itália– período durante o qual dedicou-se à sistematização das informações levantadas na América e à escrita do Paraguay Católico e do Paraguay Natural.

Por outro lado, Sánchez Labrador estabeleceu contínuas relações e comparações entre as práticas curativas indígenas e as europeias, fundamentando suas observações, como procuramos demonstrar, no conhecimento divulgado por autoridades em Medicina e Farmácia. Em algumas situações, contudo, ele contestou certas concepções europeias, contrapondo-as às observações e as experiências que realizou durante o período de sua atuação como missionário junto aos indígenas da região platina. Sua narrativa parece, portanto, sobrepor e mesclar as experiências que vivenciou na América àquelas próprias de seu período de formação na Europa e, ainda, às que posteriormente viveu durante o exílio na Itália.

Considerações Finais

Neste capítulo, apresentamos e analisamos o manuscrito Paraguay Natural Ilustrado, escrito pelo padre jesuíta José Sánchez Labrador, entre os anos de 1771-1776, durante seu exílio em Ravena, na Itália. Esta obra, que se encontra no Archivo Romanum Societatis Iesu (ARSI), se subdivide em quatro tomos –Terra, Água e Ar; Botânica; Mamíferos, Aves e Peixes; Anfíbios, Répteis e Insetos – nos quais, além das percepções sobre a natureza americana, encontramos informações relativas aos saberes e às práticas curativas adotadas pelas populações indígenas das regiões da vasta Província Jesuítica do Paraguai.

Para além das virtudes terapêuticas das águas, terras, plantas, pedras bezoares e insetos descritas na obra, interessou-nos, também, demonstrar que no Paraguay Natural Ilustrado o missionário Sánchez Labrador, reuniu informações procedentes tanto de suas próprias observações e das que obteve com os indígenas, quanto daquelas que se encontravam em obras redigidas por outros jesuítas ou por cientistas leigos, com os quais estabeleceu um interessante diálogo, posicionando-se em relação às teorias vigentes na Europa do Setecentos.

Como procuramos demonstrar, Paraguay Natural constitui-se, inequivocamente, em obra de referência para a reconstituição do ambiente intelectual em que irmãos e padres jesuítas se encontravam inseridos tanto nas missões entre os indígenas ou nos colégios da América, quanto na Europa de seu exílio. A obra nos auxilia, ainda, na compreensão dos efeitos da experiência americana nas concepções relativas à Botânica, à Medicina e à Farmácia dos membros da Companhia de Jesus, na reflexão sobre a circulação de saberes e o diálogo que o jesuíta Sánchez Labrador manteve com autores clássicos e modernos e com outros membros da ordem e, também, na identificação e avaliação da contribuição dos saberes dos grupos indígenas americanos na escrita destas obras divulgadas no século XVIII.

Neste sentido, é importante ressaltar a posição privilegiada ocupada pelos jesuítas –missionários ou não– na produção e divulgação do conhecimento científico e etnográfico americano, pois, como bem observado por alguns estudiosos, eles não apenas cumpriram “una importante función en la búsqueda de información”, pois se encontravam na América, “conviviendo con los indígenas y en un medio ambiente lleno de objetos naturales ‘novedosos’ y por lo tanto esperando su catalogación”, como foram também responsáveis por uma “escritura liminal”, que ocupa “un lugar intermedio entre el orden letrado y las fronteras”. (Del Valle, 2009, p. 52; p 14-15).

Fonte

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  1. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Contacto:
    ecdfleck@terra.com.br.
  2. Este texto retoma análises já desenvolvidas e divulgadas anteriormente em Fleck 2014, 2015 e 2016, trazendo, contudo, contribuição significativa à temática do presente livro, ao abordar a ainda inédita obraParaguay Natural Ilustrado, escrita pelo padre José Sánchez Labrador durante seu exílio na Itália, e ao privilegiar as evidências de sua inserção no contexto marcado pelo avanço da Ilustração, atestada no diálogo que o jesuíta manteve com autores clássicos e com a produção científica do século XVIII.
  3. De acordo com Del Valle, “Los jesuítas cumplían una importante función en la búsqueda de informacion: eran quienes fisicamente se encontraban allá, conviviendo con los indígenas y en un medio ambiente lleno de objetos naturales ‘novedosos’ y por lo tanto esperando su catalogación” (Del Valle, 2009, p. 52).
  4. Beatriz Helena Domingues afirma que os jesuítas assimilaram «algumas ideias caras à Ilustração – ainda que [de forma] seletiva e católica», razão pela qual se deve relativizar a “abordagem tradicional que atribuiu à Companhia de Jesus uma visão retrógrada e resistente a mudanças, associada à tradição medieval católica e barroca” (Domingues, 2009, p. 233). Também para Ledezma e Figueroa, os jesuítas incorporaram e assimilaram paulatinamente as ideias e os métodos de estudo da Ilustração, mas isto não significou “un rechazo absoluto del estudio de la naturaleza inspirado por la maravilla y el asombro que infundían las complejidades y mistérios del mundo natural americano”. Assim, a produção de um conhecimento baseado na observação e na experiência –tão caro aos jesuítas– “no ensombreció la fascinación por los mistérios de la naturaleza” (Millones Figueroa; Ledezma, 2005, p. 22).
  5. A Companhia de Jesus deve ser compreendida como uma “orden cuya característica era formar sacerdotes de salientes capacidades intelectuales, teólogos, filósofos e inclusive filósofos naturales, matemáticos y físicos que debatieron con los próceres de la llamada revolución científica de Europa occidental” (Justo: 2011,p. 156). É preciso, no entanto, ter presente que, ao longo do século XVIII, “os escritos e investigaciones de los jesuítas seguían supliendo información valiosa sin que necesariamente ello mismos, como orden, fueron reconocidos (…) en términos de igualdad por los científicos” (Del Valle, 2009, p. 49).
  6. Em razão disso, irmãos e padres da Companhia de Jesus, apesar de, em sua maioria, conhecerem a nomenclatura binária e os sistemas de classificação propostos por Lineu, observaram um roteiro que previa, para o estudo dos animais e das plantas, “el nombre y su origen linguístico, forma, aspecto y cualidades, área de distribución, comportamiento, sistemas de recolección o captura, costumbres, usos (…)” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 173-175).
  7. Ver mais em Asúa (2014).
  8. Para Miguel de Asúa, “la noción de puesta teatral implicada en estos trabajos” sublinha a “visión jesuita de una tierra como la puesta en escena del drama de la salvación en el contexto de un paraíso natural”, que pode ser concebida como uma “expresión discursiva del theatrum naturae, la concepción del mundo natural como una exhibición a ser contemplada (…)” (Viale, 2015).
  9. Trata-se do manuscrito Paraguay Natural. Ilustrado. Noticias del pais, con la explicación de phenomenos physicos generales y particulares: usos útiles, que de sus producciones pueden hacer varias artes. Ravenna. (Manuscrito). Archivo Histórico de la Compañía de Jesús (ARSI), Roma, 1771-1776.
  10. Mas, se a incorporação das línguas, das práticas terapêuticas, dos saberes e das cosmovisões indígenas pelos jesuítas conferiu, como afirmado por Asúa (2010, p. 193), uma das “características distintivas da ciência nas missões no Paraguai”, nem sempre houve –como bem observado por Di Liscia (2002, p. 299)– “interesse em reconhecer de onde provinham tais saberes” fundamentais, por exemplo, no manejo da flora e da fauna com fins medicinais.
  11. De acordo com Moreno, Paraguay Natural Ilustrado se caracteriza “por la cantidad y calidad de las observaciones personales y por el enorme número de citas bibliográficas que contiene. Esto demuestra que Sánchez Labrador dominaba todos los conocimientos de la época” (Moreno, 1948, p.20).
  12. José Sánchez Labrador nasceu em 19 de setembro de 1717, como atestam todos os documentos, com exceção “del catálogo jesuítico de 1742, que da esa misma fecha, pero três años antes”. Os autores acrescentam que “En el Archivo de los Tribunales de Córdoba (Argentina) se guarda la Renuncia de sus bienes, fechada en 6 de abril de 1738, en la que puede verse que sus padres se llamaban Juan Sánchez Labrador Y María Hernández, cristianos viejos, y que tenía varios hermanos” (Sainz Ollero et. al., 1989, p. 101).
  13. Héctor e Helios Sainz Ollero, Francisco Cardona e Miguel de Castro Ontañón (1989) recorreram aos Catálogos de 1735, 1739, 1744 e 1748 e à obra de Hugo Storni (1980) para afirmar que seu ingresso na Companhia se deu em 19 de setembro de 1732, quando José contava, portanto, com 15 ou 18 anos.
  14. “En los años siguientes no conocemos las actividades del recién ordenado sacerdote, aunque por las referencias de sus libros debió de estar, al menos en Buenos Aires y Montevideo” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 102).
  15. Recomenda-se ver mais em Asúa (2014).
  16. Sánchez Labrador faz referência também às reduções de Yapeyu, Trinidad, Jesús, Loreto, San Ignacio Mini, San Ignacio Guazu, San Cosme y San Damián e San Lorenzo, mas não informa se as conheceu pessoalmente.
  17. Sobre esta última viagem realizada pelo jesuíta em território americano, Furlong (1948) e Sainz Ollero et al. (1989) afirmam que Sánchez Labrador teria sido o primeiro a percorrer o caminho que ligaria as reduções de Guaranis às de Chiquitos [iniciada em dezembro de 1766 e concluída em agosto de 1767], da qual teria resultado um diário e um mapa, que foram entregues a Francisco Bucareli y Ursúa, governador de Buenos Aires à época da expulsão da Companhia de Jesus.
  18. Os jesuítas foram expulsos das áreas coloniais do Império em 1767 e suas propriedades foram confiscadas, em cumprimento ao Decreto de 27 de fevereiro, assinado por Carlos III. A expulsão da Companhia de Jesus fazia parte de um conjunto de reformas da Coroa espanhola, conhecido como Reformas Bourbônicas, que tinha como objetivo aumentar o controle do poder real sobre os domínios ultramarinos. Antes de Carlos III, outro déspota esclarecido, D. José I, de Portugal, havia expulsado os jesuítas dos domínios portugueses, em 1759, também buscando subordinar o clero ao Estado.
  19. Os padres do Vice-reinado do Rio da Prata foram os últimos a deixar as reduções pelas dificuldades de se encontrarem substitutos, sendo retirados de suas residências entre junho e agosto de 1768. Os documentos encontrados com os jesuítas foram confiscados para que pudessem ser encontradas evidências sobre suas atividades, razão pela qual foram autorizados a viajar somente com suas roupas e breviários. Ver mais em: Sainz Ollero et al. (1989.
  20. A obra El Paraguay Católico do jesuíta José Sánchez Labrador, foi publicada em dois volumes, em 1910. É tida como a fonte mais completa para os estudos dos Mbayá-Guaicurú e considerada uma das melhores monografias etnográficas do século XVIII. Sua grande relevância está no relato de suas experiências como missionário e fundador da redução de Belém, onde ele conviveu com o grupo de 1760 até a expulsão da Companhia de Jesus, em 1767. A obra contém minuciosas e ricas informações sobre os costumes e a cultura dos povos indígenas com os quais conviveu, além de descrições das viagens que realizou da redução de Belém até as missões dos Chiquito e do povoado de Sagrado Coração de Jesus até Belém em 1767, que deram origem à Viagen desde la reducción de Nuestra Señora de Belén de índios guaycurúes hasta las misiones de los chiquitos, año de 1766. Ver mais em: Sánchez Labrador, [1770] (1910).
  21. Segundo Sainz Ollero et al. (1989), o paradeiro da obra Paraguay Cultivado é desconhecido desde 1878, ano em que o manuscrito foi leiloado pela Casa Maisonneuve. As únicas informações que se possui sobre o manuscrito foram as que Sainz Ollero e seus colaboradores (1989) puderam encontrar no catálogo do leilão no qual a obra foi vendida. A obra descrita, por ocasião do leilão, era, segundo estes pesquisadores, composta por quatro partes, a saber: Parte 1: 5 libros De la labranza de las tierras; Parte 2: 4 libros De las huertas de Arboles; Parte 3: 1 libro De las hortalizas y legumbres e Parte 4: 2 libros Jardines y un apêndice curioso de varios términos con varias instrucciones.
  22. Paraguay Natural não foi ainda integralmente publicado. A transcrição, análise e divulgação deste manuscrito ainda inédito constituem objetivos da investigação “As artes de curar em dois manuscritos jesuíticos inéditos do Setecentos”, que conta com o apoio do CNPq e da CAPES, através do Edital MCTI-MEC-CNPq-CAPES Nº 22-2014. Como resultado deste projeto de pesquisa, em 2015, foi lançada a obra “As artes de curar em um manuscrito jesuítico inédito do Setecentos: o Paraguay Natural Ilustrado do Padre José Sánchez Labrador (1771-1776), que apresenta a transcrição integral dos Livros da Parte Segunda, o Libro I da Parte Tercera e o Libro III da Parte Quarta.
  23. Sabe-se que Sánchez Labrador é o autor também de uma Gramática e de um Vocabulário Mbayá, inseridos na obra de Lorenzo Hervás, além de outros manuscritos, que se encontram dispersos em acervos particulares ou de bibliotecas europeias e norte americanas (Barcelos, 2006).
  24. Jacques-Christophe Valmont de Bomare (1731-1807) foi um farmacêutico e naturalista francês, nasceu em Rouen e morreu em Chantilly. Começou a publicar suas obras em 1764, com o “Dicionário fundamentado universal de história natural” citado com frequência por Sánchez Labrador. Também escreveu a obra “Mineralogia ou Nova exposição do reino mineral” (Moreno, 1948).
  25. De acordo com Sainz Ollero et al. (1989, p. 193), “se trata de dibujos a pluma de alta calidad n los que se resaltan, en ocasiones exageradamente, los caracteres morfológicos de mayor importancia taxonómica. (…) Tanto por su volumen como por la calidad de los mencionados dibujos esta contribución iconográfica se interpreta como de alto valor”. Os autores acrescentam que se são indiscutivelmente “una aportación muy importante, sobre todo considerando que la gran mayoría de estas plantas no han contado con descripciones válidas (linneanas) hasta um siglo después (…)” e as lâminas nos ajudam na sua identificação na atualidade (Sainz Ollero et al., 1989, p. 182).
  26. Os quatro tomos perfazem um total de 1852 páginas. Recomenda-se ver mais em Fleck (2015; 2016).
  27. Vale lembrar que a produção intelectual de jesuítas vinculados à Universidade de Córdoba (Argentina), instituição na qual Sánchez Labrador concluiu seus estudos e atuou como professor, procurou atender a uma “necesidad bibliográfica de un círculo pequeño y cerrado como el universitario, cuyos objectos, redactados igualmente en una língua elitista, llevó a que se produjeran con un esmero que los ayudará a asemejarse a un libro impreso de la época y responder a los fines perseguidos por una reducida elite académica” (Moya, 2011, p. 225-226).
  28. Durante a época moderna, o livro impresso era visto como uma forma de banalização e diminuição do valor das próprias obras, mantendo-se, assim, a “tradição de utilizar o manuscrito como principal instrumento de divulgação de saberes” (Ferreira; Santana, 2006, p. 3-4).
  29. Trata-se das obras de António Castillo Gómez (2004) e de Fernando Bouza-Álvarez (2001-2002).
  30. Em termos quantitativos, o Paraguay Católico aparece citado 32 vezes ao longo de todo o segundo Tomo do Paraguay Natural Ilustrado, enquanto que o Paraguay Cultivado aparece 17 vezes. Esses dados não evidenciam somente o fato de Sánchez Labrador pensar na escrita de suas obras como um todo, dividindo-as entre os relatos de viagem e os estudos da natureza, mas também uma intenção do autor de relacionar suas produções, fazendo com que elas dialogassem e se complementassem entre si.
  31. Trata-se do Arquivo Romano da Sociedade de Jesus (ARSI), com sede em Roma, Itália.
  32. De acordo com o jesuíta Sánchez Labrador, “Parte del Paraguay esta dentro dela Zona Torrida, y parte en la Templada. Pero asi en la una, como en la otra, a veces son excesivas las alteraciones del Ayre atmospherico por el calor del sol imediato, y por la humedad delas llubias, rocios, y vapores, que salen delos ríos, y Lagunas. En tales tiempos también el cuerpo humano siente desconcertada la harmonía de sus humores, especialmente si es grande el exercicio, y fatiga entre día. (Sánchez Labrador, p. 1771, Tomo I, Livro III, f. 532) (grifos nossos).
  33. O médico e físico Robert James (1703-1773/1776) nasceu em Staffordshire e faleceu em Londres. Ficou conhecido por ter desenvolvido o chamado “pó de febre”, uma importante invenção para a medicina do século XVIII. Sánchez Labrador recorre bastante às suas obras “Farmacopea Universal” e “Dicionário Médico” (1743) (Moreno, 1948, p. 21).
  34. O químico francês Nicolas Lemery nasceu em Ruan, em 1645, e morreu em Paris, no ano de 1715. Era membro da Academia de Ciências e sua obra mais famosa foi Curso de Química (1675). Sánchez Labrador, no entanto, refere outras obras suas, tais como Farmacopea Universal (1697), Tratado Universal das drogas simples (1698), Tratado do Antimônio (1707) e Nova Recopilação de segredos e curiosidades mais raros (1709) (Moreno, 1948, p. 21).
  35. A obra Florilegio Medicinal, de Juan de Esteyneffer (1664-1716), teve sua primeira edição em 1712, tendo sido publicada, na cidade do México DF., por Herederos de Juan Joseph Guillena Carrascoso; já a segunda edição data de 1719 e foi publicada por Oosterwyck, em Amsterdam. A obra teve inúmeras reimpressões, em 1729, 1732, 1755, 1888, 1947 e 1978.
  36. Trata-se de Frei Agustín Farfán (1531-1604), da Ordem de San Agustin, autor de Tratado Breve de medicina y de todas las enfermedades, publicado pela primeira vez na cidade do México, em 1592, pela Casa de Pedro Ocharte. Sua segunda edição data de 1610 é foi publicada no México, por Cornelio Adriano Cesar, pela Imprenta Geronymo Balli.
  37. Jacobo Boncio (?-?) atuou como médico da Companhia Holandesa em Java.
  38. O médico e naturalista holandês Guilhermo Piso (1611-1678) atuou em uma expedição ao Brasil, entre os anos de 1637 e 1644, tendo atuado como médico particular do conde Maurício de Nassau (1604-1679), governador da colônia holandesa instalada no Nordeste do Brasil, no período de 1636 a 1644. Escreveu, juntamente com George Marcgraf, a obra “Historia Naturalis Brasilieae” (1648), primeira publicação científica sobre a geografia e natureza do Brasil (Pickel, 2008).
  39. De acordo com Sainz Ollero et al. (1989), as primeiras cem páginas do Tomo de Botânica consistem em uma Introdução de caráter geral sobre Botânica, na qual Sánchez Labrador revela não apenas conhecer os trabalhos do botânico sueco Carlos Lineu, mas também posicionar-se em relação à metodologia e à classificação lineanas, considerando imprecisos os procedimentos nomenclaturais por ele sugeridos (Sainz Ollero et al., 1989, p. 177-209).
  40. Para Daniel Jorge Santamaría (2003), organizador da obra Archivo de Plantas Medicinales de Zonas Aborígenes y Campesinas de Sudamerica, resultante de projeto desenvolvido por pesquisadores do Centro de Estudos Indígenas y Coloniales e do Centro Regional de Investigación, Capacitación y Desarrollo, de Jujuy, Argentina, é preciso considerar –diante da variedade das plantas e de seus usos pelos diferentes grupos nativos americanos– os limites e as dificuldades para a “reconstrucción histórica de los medicamentos empleados”, devido a fatores como “la oscura identificación de muchas plantas en una época en que cronistas, misioneros y viajeros todavia no utilizaban la sistemática de Linneo; muchos informes etnográficos modernos mencionan con frecuencia plantas sin designación científica; frecuentemente se indican solo los nombres de las plantas utilizadas sin anotar su preparación y posologia y el inviolable silencio que guardan los médicos aborígenes en torno das plantas empleadas en aliviar los males” (Santamaría, 2003, p. 9-10).
  41. Carolus Linnaeus, em português Carlos Lineu (1707-1778), foi um botânico, zoólogo e médico sueco, criador da nomenclatura binomial e da classificação científica, sendo assim considerado o “pai da taxonomia moderna”. Foi um dos fundadores da Academia Real das Ciências da Suécia.
  42. O agrupamento por formas biológicas foi proposto por Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708), um botânico francês nascido em Aix-en-Provence e falecido em Paris, que ficou conhecido por ter sido o primeiro autor a tratar mais especificamente do conceito de gênero para as plantas, influenciando uma série de outros naturalistas e botânicos que se basearam em seu trabalho para criar seus próprios sistemas de classificação. Sua principal obra foi “Eléments de botanique, ou Méthode pour reconnaître les Plantes”, publicada em 1694. “La filosofía botánica de Tournefort (1656-1708) era la que impregnaba los trabajos que se ocupaban de las plantas durante la primera mitad del siglo” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 175).
  43. De acordo com Sainz Ollero, Sánchez Labrador “adoptó una postura prudente, manejando un gran aparato erudito, pero sin defender con claridad ninguna opinión.” Pode-se, no entanto, constatar uma parcial aplicação do sistema sexual de Lineu por Sánchez Labrador na “agrupación de las palmeras, muy importantes en la flora local y a las que se dedica una gran atención, con las cañas, gramíneas adaptadas a los ambientes priódicameente encharcados, pertenecientes ambas al gran grupo e las monocotiledóneas” (Sainz Ollero et al., 1989, p. 179-213).
  44. A regra da nomenclatura binomial das espécies ficará cristalizada na obra Species Plantarum, publicada em 1753, na qual foram relacionadas 5.900 espécies – distribuídas em 1098 gêneros – designadas por duas palavras. Vale lembrar que somente a partir do século XVII, as plantas passaram a ser descritas a partir de critérios de classificação, tais como morfologia vegetal, taxonomia, fisiologia vegetal, anatomia e sistemática, e não mais, exclusivamente, a partir de suas propriedades medicinais.
  45. Sainz Ollero et al. informam que, em pleno período de Renascimento científico, na Espanha, diferentemente da Itália e de outros países europeus, existia “una cierta ‘Linneofobia’ (…) encabezada por el catalán José Quer, director del recién creado Jardín Botânico de Madrid, a causa de ciertos comentários despectivos que el naturalista sueco había realizado sobre los botânicos españoles” (Sainz Ollero et al.,1989, p. 175).
  46. No caso de outras espécies de madeiras existentes na vasta região da Província Jesuítica do Paraguai, Labrador também se detém em informações sobre sua utilização na construção – como pontes, casas e igrejas –, e na confecção de instrumentos musicais, ferramentas e de imagens sacras. Dentre as 48 plantas que teriam utilidade em construções, Labrador destaca a Urundey (Astronium spp.), da espécie da família das Fabáceaes, popularmente conhecida como Pau-ferro e nativa das regiões de savanas da América do Sul. Por possuir um lenho bastante resistente, esta madeira era largamente utilizada nas reduções jesuíticas tanto nas construções, quanto na confecção de imagens sacras e obras torneadas, merecendo a seguinte descrição:Arbol alto, y durissimo, parece un hierro. Su madera sirve para Horcones, Trapiches, y cosas, que hande estar debaxo de tierra, ò del agua. De ella salen muy ballas las obras de Torno y semejantes” (Sánchez Labrador, 1772, Tomo II, Libro II, Cap. IV, p. 122).
  47. O jesuíta alemão Athanasius Kircher (1601-1680) foi professor de Matemática, Física e Alquimia, no Colégio Romano, onde se dedicava também à pesquisa. Constituiu uma ampla rede de informação, contando com a colaboração de missionários da Ordem que, do Oriente e do Ocidente, remetiam os relatos de suas observações astronômicas ou estudos que haviam realizado sobre a fauna e a flora nativas. Carlos Ziller Camenietzki, ao tratar dos estudos de ciências naturais desenvolvidos pelo jesuíta A. Kircher, afirmou que “Utilizar la idea barroca de la agudeza para explicar su manera de abordar el mundo natural nos ayuda a entender la naturaleza de sus explicaciones. (…) las ideas de Kircher y la heterodoxia de sus bases metafísicas sugiere la existencia de conexiones importantes entre el pensamiento científico y las manifestaciones culturales en en siglo XVII. Era una época barroca” (Camenietzki, 2005, p. 29-30).
  48. A utilização destes insetos como um contraveneno, isto é, como um antídoto contra seu próprio veneno, constitui-se em evidência da aceitação e aplicação da medicina dos contrários por Sánchez Labrador.
  49. Jacques-Christophe Valmont de Bomare (1731-1807) foi um farmacêutico e naturalista francês, nasceu em Rouen e morreu em Chantilly. Começou a publicar suas obras em 1764, com o “Dicionário fundamentado universal de história natural” citado com frequência por Sánchez Labrador. Também escreveu a obra “Mineralogia ou Nova exposição do reino mineral” (Moreno, 1948).
  50. O epigrafista latino Marco Valério Marciel (38/40 d.C. – ?) nasceu e morreu em Bílbilis, na Espanha, tendo como sua principal obra Liber spectaculorum (80 d.C.).
  51. O escritor e médico greco-romano Pedânio Dioscórides (40 d.C.-90 d.C.) escreveu a obra De Materia Medica, considerado o manual de farmacopeia mais importante da Grécia e Roma antigas.
  52. O inglês Martin Lister (1638-1712) foi naturalista, médico e físico. Ficou conhecido como o criador do balonismo de aranhas, como o “pai” da concologia –estudo científico das conchas de moluscos– e como o criador do histograma. Suas principais obras são: Historiae animalium Angliae tres tractatus (1678), Historiae Conchyliorum (1685-1692) e Conchyliorum Bivalvium (1696).
  53. O médico e farmacêutico alemão Johann Schröder (1600-1664) é tido como o primeiro a reconhecer o arsênio como um elemento em 1649, ano em que produziu a forma do arsênio e publicou dois métodos de preparação do elemento. Suas obras principais são: Pharmacopoeia medico-chymica sive thesaurus pharmacologicus (…) (1644) e Vollständige und nutz-reiche Apotheke Oder (…) (1709).
  54. O médico, filósofo e cirurgião romano Cláudio Galeno (129-199/217 d.C.) nasceu em Pérgamo, na região da Mísia, na Ásia Menor, e foi uma das figuras mais destacadas da medicina romana. É conhecido por ter defendido que a saúde do homem dependia do equilíbrio dos quatro humores, assim como havia afirmado Hipócrates (460-377 a. C.).


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