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Relações intergeracionais
no âmbito familiar[1]

Os perfis determinantes da qualidade
da comunicação entre pais e filhos

Cristiane Silva Corrêa

Resumo

A comunicação do idoso e sua satisfação com sua rede social está relacionada à sua saúde física e mental. Contudo, mudanças nas relações familiares e interpessoais levantam questões sobre a efetividade das relações sociais estabelecidas. Este trabalho analisa como as características do idoso, das pessoas de sua rede de apoio extradomiciliar e de sua rede familiar afetam os níveis de satisfação e de frequência de comunicação com o idoso. Para tanto foram utilizados dados da SABE 2000 para São Paulo e um modelo logito ordenado. Entre os principais resultados, destaca-se que pessoas que nunca foram casadas relatam maior frequência de comunicação que os que já foram casados duas ou mais vezes. Além disso, um maior percentual de filhas implica em menor satisfação e menor frequência de comunicação, embora elas sejam as que mais e mais satisfatoriamente se comunicam com o idoso. Em relação ao tamanho familiar, ter um número maior de filhos e demais parentes que vivem em outros domicílios está relacionado a menores níveis de satisfação e frequência da comunicação com cada indivíduo de sua rede extradomiciliar, enquanto relatar um maior número de amigos ou demais não parentes com relações de cuidado implica maiores níveis de satisfação e frequência de comunicação. Assim, há associação entre fatores familiares e a atenção que cada familiar dedica ao idoso, seja analisando a satisfação ou analisando a frequência da comunicação. Esses resultados são coerentes com a literatura e os resultados deste trabalho em relação às características individuais dos idosos e dos familiares.

Palavras-chave

Família; comunicação; envelhecimento.

Introdução

O objetivo deste trabalho é analisar a qualidade e a frequência da comunicação estabelecida por cada indivíduo com o idoso em sua rede social extradomiciliar considerando as características individuais do idoso e de sua rede familiar, assim como características do próprio indivíduo com quem se comunica. Tratamos como comunicação ver ou falar com outro indivíduo, ou seja, ter algum contato pessoal com ele.

A comunicação está associada ao bem-estar do idoso, ao compartilhamento de informações e ao desenvolvimento de afetos (Wellman, 1981). Vários trabalhos evidenciam a importância da comunicação (Sicotte, Alvarado, León e Zunzunegui, 2008; Teixeira, Froes e Zago, 2006), mostrando sua relação, inclusive, com a saúde mental. Comunicar-se com o outro também é permitir conhecer suas necessidades e carências, assim como suas facilidades e farturas. Um bom exemplo disso é o trabalho de Mcgarry (1998), que identifica que os pais que não sabem a situação financeira de seus filhos os ajudam menos. Tal resultado indica que o conhecimento das necessidades permite o cuidado, pois pode ocorrer de os pais não ajudarem os filhos por desconhecerem a necessidade de ajuda daqueles. Assim, o conhecimento do outro facilita o intercâmbio de recursos.

Pelas estimativas do IBGE, em 1980 apenas 6% da população era idosa, valor que subiu para 10% em 2010, e tende a chegar a 30% em 2050 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2008, 2014). Ao mesmo tempo, enquanto em 2000 um brasileiro esperava viver mais 15,7 anos a partir dos 65 anos, em 2050 os indivíduos de 65 anos viverão, em média, mais 21,2 anos (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2008, 2014). Com o crescimento do número de idosos e do tempo vivido nessa fase da vida, aumenta a demanda por políticas públicas voltadas às necessidades e anseios dessa população.

Apesar disso, na América Latina grande parte das relações de cuidado e atenção à pessoa idosa se dá entre relações informais nas redes sociais dos próprios idosos. Redes sociais são formadas por conjuntos de indivíduos, grupos ou organizações (nós) ligados entre si por relações (laços) de amizade, parentesco, fluxos de recursos, ou qualquer outra relação (Wellman, 1981). Essas relações podem acontecer em diferentes intensidades e envolver algum tipo de apoio ou não (Wellman, 1981), sendo a rede de apoio um subconjunto da rede social (Lubben, 1988). Em uma rede de apoio, cada laço da rede pode implicar o fluxo de um conjunto diferente de recursos, como apoio emocional, comunicação, serviços pessoais e/ou assistência material (Wellman, 1981).

Há vários trabalhos na literatura sobre o papel positivo das redes sociais, principalmente na vida dos idosos (Lubben, 1988; Resta e Budó, 2004; Sicotte et al., 2008). Sicotte et al (2008), a partir de dados da SABE 2000 para Havana, mostra que as redes sociais estão associadas a uma menor prevalência de sintomas depressivos em mulheres e homens idosos, independentemente da presença de fatores estressantes. Segundo o trabalho, idosos que não viviam sozinhos e interagiam mais com as pessoas tinham baixa prevalência de sintomas depressivos. Indivíduos alguma vez casados também apresentaram menor prevalência de sintomas depressivos, independente do sexo, provavelmente porque indivíduos que são ou foram casados têm suas redes familiares ampliadas pela rede familiar do parceiro.

Há também evidências de que os laços sociais têm efeito amenizador do estresse, reduzindo a morbidade por essa causa (LubbenN, 1988). Além disso, uma rede social pode prover informações e conselhos sobre alternativas de saúde (Lubben, 1988) e apoio essencial em caso de doença, facilitando, assim, a adaptação à enfermidade e acelerando a recuperação (Lubben, 1988).

Uma rede social pode ser vista como um conjunto de vários círculos concêntricos em que os círculos mais internos englobam os indivíduos com laços mais fortes (Van Tilburg, 1992). O conteúdo das redes muda com o tempo, com a mobilidade física e social dos indivíduos, ao passo que o centro da rede (o círculo interno), o qual contém as relações mais íntimas, é estável (Van Tilburg, 1992). Já a periferia da rede (os demais círculos) contém as demais relações, as quais, quanto mais distantes do centro, mais instáveis são, e que implicam em uma menor relação de apoio (Van Tilburg, 1992). Nesse sentido, Wellman (1981) concluiu que há maior propensão em perceber os membros das redes sociais como possíveis fontes de apoio se as relações existentes são de pais e filhos quando os envolvidos viviam na mesma região ou se mantinham frequentes contatos pessoais ou por telefone, ou seja, quando as relações existentes são mais fortes. Em geral, fazem parte da rede de apoio os indivíduos com relações mais próximas dentro da rede social, como os parentes e amigos.

Enquanto há algumas evidências de que laços fortes provêm mais apoio, laços fracos sempre provêm mais diversidade de apoio (Wellman, 1981). Mesmo os laços que não oferecem apoio são sempre importantes no que diz respeito aos recursos cujos fluxos passam por eles, e por levarem a outros membros da rede (Wellman, 1981). Vale ressaltar ainda que as relações entre dois indivíduos podem ter importâncias diferentes para cada um deles (Wellman, 1981), sendo mais forte na visão de um que do outro.

Nessa perspectiva, considerando-se os apoios oferecidos aos idosos, os laços mais fortes das redes sociais, com maior intercâmbio de ajudas e apoio, são formados pelos familiares mais próximos, como cônjuge e filhos, mas também por demais familiares e amigos, principalmente quando a rede de cônjuge e filhos é pequena ou inexistente (Camargos, Rodrigues e Machado, 2011; Corrêa, 2016).

Analisando as redes de apoio de idosos, Corrêa, Queiroz e Fazito (2016) encontraram que a atenção dedicada ao idoso de parte de cada indivíduo depende das características da rede social e familiar do idoso. Segundo os autores, os indivíduos que compõem a possível rede de apoio ao idoso comportam-se de modo que a atenção demandada pelo idoso possa ser dividida entre todos os membros. Dessa forma, uma rede de apoio menor implica em maior nível de atenção dedicada de parte de cada indivíduo, mas em uma rede maior, com maior número de possíveis cuidadores, os indivíduos tendem a dividir a atenção ao idoso e cada um deles tende a oferecer ao idoso um nível de atenção menor. Essa divisão, contudo, ocorre de forma que as mulheres e os parentes mais próximos do idoso, como seus filhos e cônjuges, sejam os que dedicam maior nível de ajuda. Ademais, essa divisão, ocorre de forma imperfeita, pois, como demonstra Corrêa (2016), a qualidade e frequência da ajuda total recebida pelo idosos é influenciada por essa mesma rede, sendo maior entre idosos que contam com mais indivíduos em sua rede de apoio, sejam eles familiares ou não, corresidentes ou não. Os resultados desses trabalhos também indicam que quebras na estrutura familiar por separações e divórcios diminuem a ajuda dedicada ao idoso.

Contudo, ajuda e comunicação são relações diferentes entre os indivíduos, embora estejam relacionadas. O objetivo deste trabalho, portanto, é analisar se as mesmas características individuais e familiares que afetam o nível e a frequências das ajudas aos idosos afetam a comunicação estabelecida com eles. Para alcançar esse objetivo foram utilizados dados da SABE de 2000, os mais recentes disponíveis, sobre os idosos e sua rede de apoio extradomiciliar, o que permite identificar a rede familiar desses idosos em uma abordagem mais ampla, e inferir sobre as relações interpessoais existentes e seus fatores associados. Entre os resultados obtidos, todos foram coerentes com a literatura já existente sobre as transferências familiares, seja analisando a satisfação ou a frequência da comunicação estabelecida, de forma que as relações de comunicação refletem as de cuidado.

Dados e métodos

Neste trabalho consideramos que o universo de relacionamentos possíveis com o idoso não está restrito ao limite familiar domiciliar, pois os indivíduos se relacionam entre si em redes sociais. Nessa perspectiva, utilizou-se dados da SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento na América Latina e Caribe) para a cidade de São Paulo (Brasil) em 2000, a mais recente disponível. A cidade de São Paulo (Brasil) foi a única cidade brasileira investigada pela SABE. As relações encontradas para São Paulo, contudo, não refletem, necessariamente, toda a realidade brasileira. O Brasil é um país continental, marcado pela diversidade, seja ela cultural, econômica ou ambiental. Tais diferenças também podem ser encontradas nos comportamentos dos familiares, que podem variar de região para região (Saad, 2004).

A SABE faz ao idoso questões sobre sua potencial rede de apoio, ou seja, sobre cada um dos moradores do domicílio, dos filhos e irmãos que não moram no domicílio, e sobre amigos ou demais não parentes que oferecem ou recebem algum tipo de ajuda ao idoso (SABE, 2009). Referente a cada um desses indivíduos, a pesquisa questionou sobre os tipos de transferências existentes, a frequência com que elas ocorrem, a frequência de comunicação com cada indivíduo e a satisfação com a comunicação – em relação aos indivíduos que não moram no mesmo domicílio que o idoso (SABE, 2009). Também são colhidas informações sobre características demográficas dos indivíduos citados pelo idoso.

Neste estudo, apesar de termos dados de todas as relações mais fortes, que envolvem cônjuge e filhos, assim como as relações com os irmãos e outros parentes e não parentes que moram no mesmo domicílio do idoso, utilizou-se dados apenas das relações com não corresidentes com os idosos, porque foi apenas a esses que as perguntas sobre comunicação com o idoso foram dirigidas. Já dentre as relações com outros parentes e amigos que não moram no mesmo domicílio que o idoso, são abrangidas apenas as que envolvem algum tipo de assistência na visão do idoso.

Foram entrevistados 2143 idosos na cidade de São Paulo, entre 60 e 100 anos de idade. Desses, 1265 (59%) são mulheres e 878 (41%) são homens. Dentre os idosos entrevistados, 10 foram excluídos da análise, pois não responderam ao Bloco do questionário que contempla as informações sobre a comunicação com seus parentes e amigos. A Tabela 1 apresenta estatísticas descritivas da amostra quanto à sua idade, número de uniões, renda mensal, anos de estudo e autoavaliação de saúde, considerando o peso amostral de cada um desses idosos.

Tabela 1. Valor mínimo e máximo, média, desvio padrão e mediana da idade, do número de uniões, da renda mensal, dos anos de estudo e valor mínimo, máximo e mediana da autoavaliação de saúde do idoso, considerando todos os idosos e por sexo dos idosos, São Paulo – Brasil – 2000

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Ao todo, foram citadas 16.053 pessoas pelos idosos, o que corresponde a uma média de 7,4 pessoas por idoso entrevistado. Apresentamos, na Tabela 2, uma descrição dos indivíduos citados pelos idosos, segundo suas principais características. 46,8% dos indivíduos citados pelos idosos são homens e 53,2% são mulheres, com idade média de 50,8 anos[2].

Dos indivíduos incluídos, 6,9% são cônjuges e vivem no mesmo domicílio que o idoso (Tabela 2), 44% são filhos, sendo que 21,6% dos filhos moram no mesmo domicílio que o idoso, mas 27% dos filhos moram no mesmo bairro que ele; e 32% em outro bairro da mesma cidade, de forma que 80,6% dos filhos dos idosos moram na mesma cidade que o idoso. Ao todo, apenas 26,6% dos indivíduos citados pelo idoso moram no mesmo domicílio que o idoso, conforme apresentado na Tabela 2. Desses, 35% são filhos e 26% são cônjuges. Em relação à situação conjugal[3] dos indivíduos citados pelo idoso, 64% são casados, 10,6% são viúvos, 15,8% são solteiros e apenas 5,6% são separados ou divorciados, como mostra a Tabela 2.

Tabela 2. Percentual de indivíduos da rede SABE por sexo, situação conjugal, relação de parentesco com o idoso, ocupação e local de residência e valor médio do número de filhos e idade, São Paulo – Brasil – 2000

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A cada um dos idosos entrevistado perguntou-se a satisfação e a frequência da comunicação com cada um dos seus familiares ou amigos citados. Consideramos a frequência da comunicação pela periodicidade com que a mesma ocorre, ou seja, se “toda semana”, “todo mês” ou “todo ano”. Como as perguntas para a satisfação com a comunicação e frequência da comunicação foram feitas apenas sobre os indivíduos que não corresidem com o idoso, os corresidentes foram excluídos da análise.

A comunicação é medida de forma subjetiva, segundo a percepção do idoso em relação à frequência dos contatos e à sua satisfação com a comunicação estabelecida. Por se tratar de uma medida subjetiva, a escala utilizada não pode ser tratada da mesma forma que uma medida objetiva. Por exemplo, se é esperado maior apoio dos filhos que dos sobrinhos, um idoso pode se sentir satisfeito com uma hora por mês da atenção de seus sobrinhos, mas não se sentir satisfeito com uma hora por semana da atenção de seus filhos, pois ele esperava mais dos filhos. Da mesma forma, uma hora da atenção de dois filhos diferentes pode resultar em graus de satisfação diferentes por parte do idoso. Isso depende da qualidade da atenção despendida, das atividades desenvolvidas durante aquele período, do grau de intimidade alcançado e, desse modo, da qualidade da comunicação estabelecida entre as partes.

Ao perguntar ao idoso o nível de satisfação com a comunicação estabelecida com um determinado indivíduo, a resposta do idoso não considera apenas a frequência da comunicação estabelecida, ou o tempo de duração de cada contato. Também pode ser considerado o histórico das relações afetivas com aquele indivíduo, a intimidade das relações e um parâmetro pessoal do idoso de ideal de comunicação com aquela pessoa, ideal esse que pode, inclusive, variar em relação aos diferentes familiares ou amigos ou mudar no decorrer da vida. Todos esses aspectos, e talvez mais algum outro, são expressos na resposta do idoso sobre a comunicação, dizendo se ela é muito satisfatória, satisfatória ou insatisfatória. Portanto, um nível de comunicação satisfatório difere do nível muito satisfatório ou insatisfatório por aspectos próprios da subjetividade do respondente. Logo, não é possível, ao pesquisador dizer o quanto o nível “satisfeito” se distancia do nível “muito satisfeito” ou “não satisfeito”. Só é possível dizer que o nível “muito satisfeito” é mais positivo que o “satisfeito”, o qual, por sua vez, é mais positivo que o “não satisfeito”.

Diante disso é preciso ressaltar que a comunicação se refere a aspectos subjetivos do cuidado, implícitos no nível de satisfação do idoso com a comunicação e na percepção da frequência dos cuidados. Por seus componentes subjetivos, que envolvem aspectos afetivos, emocionais e comportamentais, não é possível quantificar a comunicação diretamente em uma escala numérica. Mas podemos dizer se tal indivíduo dá maior ou menor nível de atenção em relação a outro indivíduo, de forma que a escala dessa variável é do tipo ordinal.

Diante disso, utilizou-se, neste trabalho, métodos específicos para variáveis ordenadas, como o Modelo Logito Ordenado (MLO). Como descrito por (Long, 1997), um MLO é uma extensão de um modelo logístico binário para dados ordinais. Em um modelo de regressão logística binária o interesse é modelar a probabilidade de sucesso ou de fracasso. Se p é a probabilidade de sucesso, então, pela transformação logística,

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Uma característica da transformação logística é que ela assegura, para qualquer valor dos parâmetros, que p permaneça no intervalo [0,1], sendo que, na medida em que p se aproxima de 0, logito(p) tende a -∞ e na medida que p se aproxima de 1, logito(p) tende a +∞.

Um MLO é equivalente a um modelo que combina vários modelos logitos binários, em que cada variável resposta corresponde a pertencer ou não a alguma categoria até a categoria j. Em outras palavras, um modelo em que a primeira variável binária designa pertencer ou não a alguma categoria até a categoria 1; a segunda a pertencer ou não a alguma categoria até a categoria 2; e assim sucessivamente até a última variável, que designa pertencer a alguma das categorias listadas, o que, por definição, tem probabilidade 1. Portanto, o MLO é um modelo que se utiliza de probabilidades acumuladas de variáveis logísticas.

Dessa forma, o MLO permite diferenciar as probabilidades de pertencer a cada categoria e, separadamente, analisar os efeitos das mudanças de cada variável X em Y, permanecendo as demais variáveis constantes. O efeito é similar à existência de vários modelos paralelos entre si, relacionando a variável resposta às variáveis dependentes.

Dessa forma, o MLO admite que o efeito da variação de uma unidade em uma variável independente Xi seja o mesmo para todas as categorias de Y. Em outras palavras, se Xi aumenta em uma unidade, a variação na chance de estar na categoria 2 ou menos em relação à categoria 3 ou mais é a mesma variação que a de estar na categoria 3 ou menos em relação à categoria 4 ou mais. O mesmo é válido para todas as demais categorias.

Resultados

A Tabela 3 apresenta o percentual de indivíduos citados pelo idoso por frequência de comunicação com o idoso e por satisfação do idoso com a comunicação. Como mostra a Tabela 3, 34,1% dos indivíduos se comunicam com o idoso toda semana, 16,1% todo mês, 23,2% todo ano ou nunca. Mas apenas 20,6% dos não corresidentes com o idoso mantêm com ele uma comunicação muito satisfatória segundo a visão do idoso, e 11,9% mantêm comunicação não satisfatória.

Tabela 3. Percentual de indivíduos da rede SABE por frequência de comunicação com o idoso e satisfação do idoso com a comunicação com cada indivíduo, São Paulo – Brasil – 2000

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As mulheres se comunicam mais frequentemente com o idoso do que os homens, pois 49% das mulheres que não corresidem com o idoso veem ou falam com o idoso toda semana, contra 44% dos homens. Acrescentemos a isso que mais idosos (30%) se dizem muito satisfeitos com a comunicação com mulheres componentes de sua rede SABE, contra 28% que se dizem muito satisfeitos com a comunicação com homens. Ao mesmo tempo, mais idosos se dizem não satisfeitos com a comunicação com homens (19%), contra 15% não satisfeitos com a comunicação com mulheres. Assim, a comunicação entre as mulheres e os idosos parece ser mais efetiva do que entre os homens e os idosos, como mostra o Gráfico 1.

Gráfico 1. Percentual de indivíduos da rede SABE não corresidentes com o idoso por sexo do indivíduo por frequência de comunicação com o idoso e satisfação do idoso com a comunicação, São Paulo – Brasil – 2000

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No Gráfico 2, vemos que dentre os indivíduos que não corresidem com o idoso, os filhos são os que mais frequentemente se comunicam com eles, pois cerca de 70% dos filhos residentes em outros domicílios se comunicam com o idoso toda semana, enquanto apenas 25% dos outros parentes o fazem. A mesma relação é observada referente à comunicação, cujo grau de satisfação do idoso é maior em relação aos filhos, seguido de outros não parentes e outros parentes.

Gráfico 2. Frequência de comunicação com o idoso e Satisfação do idoso de com a comunicação por relação de parentesco, São Paulo – Brasil – 2000

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Fonte: SABE, 2000.
Nota: Filho OD – Filho em outro domicílio; OP-OD – Outro parente em outro domicílio; ONP-OD – Outro não parente em outro domicílio.

Visando análises mais complexas e completas das dimensões relacionadas à comunicação estabelecida com o idoso, estimou-se um MLO incluindo as variáveis de características do idoso, do familiar ou amigo não corresidente, e do contexto familiar do idoso. Os resultados deste trabalho corroboram, de forma geral, com os achados em trabalhos anteriores, como mostra a Tabela 4 e a Tabela 5. Todavia, alguns pontos merecem nossa atenção.

Tabela 4. Razão das chances dos modelos logitos ordenados para satisfação com a comunicação, São Paulo – Brasil – 2000

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Tabela 5. Razão das chances dos modelos logitos ordenados para satisfação com a comunicação, São Paulo – Brasil – 2000

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Os resultados demonstram que a comunicação é inversamente proporcional à idade. A declaração de satisfação e frequência da comunicação aumenta com a idade do idoso declarante, mas diminui com a idade do familiar. Já em relação ao tempo individual disponível, ao contrário do esperado, os familiares e amigos do idoso que trabalham ou estudam têm chance maior de se comunicar mais frequentemente e com maior satisfação do idoso que os que não trabalham ou estudam (Razão das Chances (RC) = 1,151 e 1,063, respectivamente).

É interessante notarmos também que saber ler e escrever um recado é um fator importante para determinar a atenção. As chances de ter maior satisfação e frequência com a comunicação são maiores se o idoso sabe ler e escrever do que se ele não o sabe, ao contrário do que se esperava (RC=1,192 e 1,460, respectivamente).

Em relação à autoavaliação de saúde do idoso, quanto pior sua autoavaliação, menor a satisfação com a comunicação com o familiar ou amigo, embora não haja fortes evidências de que a frequência da comunicação varie com a saúde, pois essa variável não é significativa no modelo. Esse resultado pode estar relacionado ao fato de que, com a piora da saúde do idoso, seu cuidado fica concentrado em poucos indivíduos, como já apontado por Garrido e Menezes (2004) e Wolf (2004).

Em se tratando do tipo de parentesco estabelecido entre os componentes da rede SABE e o idoso, filhos se mostram como os principais não corresidentes que se comunicam com os idosos. A razão de chances é 4,011 vezes maior para filhos em relação a outros familiares ou amigos para a maior satisfação com a comunicação e 8,649 vezes para a maior frequência de comunicação, corroborando com os resultados da literatura já apresentados por van Tilburg, (1992) e por Wellman (1981).

A proximidade física também afeta as relações comunicacionais. Quanto maior a proximidade física, maior a frequência da comunicação, chegando a apresentar RC 23 vezes maior de maior frequência de comunicação entre pessoas do mesmo bairro que entre pessoas de outra cidade ou país. Contudo, essa relação não é tão forte em relação à satisfação com a comunicação, que é apenas 3,8 vezes maior para quem mora no mesmo bairro em relação a quem mora em outra cidade ou país. Tal relação pode refletir as expectativas em relação à comunicação estabelecida, pois pode haver uma compreensão implícita de que indivíduos que vivem mais distantes tenham mais dificuldade de manter comunicação, de forma que há satisfação mesmo diante de uma comunicação mais escassa.

Dentre os resultados, quanto maior o número de filhos fora do domicílio, menor a satisfação e a frequência de comunicação do idoso com cada indivíduo. Essa constatação parece razoável pois, se há mais filhos, mantidas as demais variáveis constantes, então há mais indivíduos possíveis para dar atenção àquele idoso e, portanto, a atenção de que o idoso precisa pode ser dividida entre mais familiares, sem ônus para ele.

Já em relação a outros familiares e amigos, quanto maior esse tipo de rede social do idoso, maior a satisfação e a frequência de comunicação com cada um. Tal resultado parece contradizer o esperado que seria: quanto mais próximo os laços de parentesco, maior seria a relação de apoio construída, por serem mais fortes os laços estabelecidos. Entretanto, como destacam Ikking e Tilburg (1999), muitas relações de amizade são mais fortes e íntimas do que relações com outros familiares, já que são mais baseadas na afinidade e no apoio mútuo do que relações de parentesco, que se baseiam também em normas sociais e sentimentos de obrigação familiar.

Outra possibilidade diz respeito à estrutura de coleta dos dados da SABE. Como os idosos só citam na SABE seus amigos e demais parentes que não moram no mesmo domicílio, se eles oferecerem alguma ajuda, esse viés poderia viciar os resultados do modelo, de tal forma que o modelo superestime a comunicação com os demais parentes e não parentes do idoso por selecionar apenas os que são mais próximos.

Já um maior percentual de filhas implica uma chance maior de o idoso estar mais satisfeito e ter comunicação mais frequente com cada indivíduo (RC=1,122 e 1,091, respectivamente). Como já destacava McGarry (1998) e Giacomin et al (2005) as mulheres são as principais fontes de cuidado informal. Os resultados indicam, portanto, que se há mais filhas em relação aos filhos, a atenção que cada indivíduo dedica ao idoso é menor, deixando parte da atenção necessária ao idoso aos cuidados das filhas. Ainda nesse sentido, idosos se mostram mais satisfeitos e declaram se comunicar com mais frequência com mulheres do que com homens. A RC de um idoso estar mais satisfeito com a comunicação com um homem é apenas 78% da RC de ele estar mais satisfeito com a comunicação com uma mulher, e 69% da RC de se comunicar mais frequentemente.

Como proxy da cultura familiar de maior ou menor comunicação, incluímos neste trabalho a mediana da comunicação com o idoso por seus familiares e amigos. Os resultados que encontramos relacionados a essa variável são significativos e similares se analisarmos a frequência ou a satisfação com a comunicação, de tal forma que o comportamento individual tende a refletir o comportamento familiar. Tal resultado demonstra que a família ou o contexto em que vive o indivíduo influencia na comunicação estabelecida por ele. Isso pode, também, ser simples resultado de manipulação dos dados, pois, se na mediana a família se comunica pouco, então os valores utilizados para encontrar aquela mediana devem ser valores menores. A análise ideal desse tipo de situação requer um modelo mais apropriado. Contudo, tais resultados revelam indícios sobre o comportamento individual em relação ao contexto familiar e social do idoso.

Sobre o número de casamentos do idoso, este não parece afetar a satisfação com a comunicação, já que os resultados não foram significativos, embora afete sua frequência. O idoso que se casou apenas uma vez tem 39% mais chance de receber maior frequência de atenção que o que se casou 2 ou mais vezes. Contudo, o que nunca se casou tem chance ainda maior (68%) de receber maior frequência de atenção. Tais resultados podem indicar mudanças nas relações familiares advindas com as novas uniões que afetam as relações individuais e familiares.

Conclusões

Este trabalho analisou como características da rede de apoio do idoso afetam o nível de satisfação e a frequência de comunicação do idoso com cada um de seus membros utilizando dados da SABE 2000 para São Paulo. Os resultados comprovam a hipótese, trazendo contribuições à compreensão das relações familiares.

Entre os principais resultados, destaca-se que quanto mais casamentos, ou rompimentos familiares, menores são os níveis de satisfação e de frequência de comunicação relatados. Idosos que se casaram uma única vez têm razão de chances 40% maior de se comunicar mais frequentemente com familiares. Além disso, um maior percentual de filhas implica em menor satisfação e menor frequência (RC=0,861 e 0,787) de comunicação dos demais indivíduos com o idoso, já que elas são as principais comunicadoras.

Em relação ao tamanho familiar, ter um número maior de filhos e demais parentes que vivem em outros domicílios está relacionado a menores níveis de satisfação e frequência da comunicação (RC=0,900 e 0,834), enquanto relatar um maior número de amigos ou demais não parentes com relações de cuidado implica maiores níveis de satisfação e frequência de comunicação (RC=1,122 e 1,091).

Assim, há associação entre fatores familiares e a atenção que cada familiar dedica ao idoso, seja analisando a satisfação ou analisando a frequência da comunicação. Esses resultados são coerentes com a literatura e os resultados deste trabalho em relação às características individuais dos idosos e dos familiares.

Ressalta-se, entretanto, a subjetividade dos resultados, pois retratam a percepção frente às expectativas do idoso, que podem ser afetadas por expectativas culturais, individuais e de história de vida. Contudo, dado que as relações de comunicação refletem as de cuidado, compreender melhor a realidade da comunicação familiar pode refletir em melhores estratégias de cuidado frente ao envelhecimento populacional crescente.

Bibliografia

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  1. Trabalho apresentado no XXXI Congreso de la Asociación Latinoamericana de Sociología, 3 a 8 de dezembro de 2017, Montevidéu, Uruguai. Contém partes da Dissertação de Mestrado em Demografia de Cristiane Silva Corrêa.
  2. Uma limitação dos dados é que a pesquisa não pergunta idade para amigos ou demais parentes que não moram no domicílio ou não são filhos ou irmãos do entrevistado.
  3. Pela SABE, não há informação sobre a situação conjugal dos menores de 12 anos, nem dos demais parentes ou amigos que ajudam o idoso, mas não moram no mesmo domicílio que ele.


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