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Outras juventudes,
outras temporalidades
e outras formas de conduzir a vida

Antonia Aleksandra Mendes Oliveira

Resumo

O presente texto é parte de uma pesquisa de doutoramento em curso e discute como um grupo de oito sujeitos oriundos das classes populares atravessam suas biografias, vivenciando e aplicando suas energias juvenis. Trataremos de algumas concepções sociológicas contemporâneas de juventudes e como diferentes jovens se articulam com a noção de tempo presente e tempo futuro, e os desdobramentos de suas práticas sociais com relação às novas temporalidades. Dentro do espectro temporal cada vez mais fluido, discute-se como lidam com as desigualdades de oportunidades, a noção de campo de possibilidades e com quais repertórios de estratégias manejam para atender seus anseios, necessidades e projetos de vida.

Palavras-chave

Juventudes; temporalidades multifacetadas; projetos de vida.

Introdução

O trabalho em andamento pesquisa as trajetórias de vida, com ênfase na fase de juventude, de oito sujeitos que ultrapassaram os limites de formação escolar e das carreiras profissionais de seus familiares e grupos de procedência. Oriundos do distrito de Taperuaba, no município de Sobral – no Ceará[1], com população aproximada de 6.113 habitantes (Censo 2010 – IBGE[2]), eles advêm de famílias com baixo poder aquisitivo, com pouca ou nenhuma escolaridade. São filhos de pais com variados ofícios e ocupações, tais como: carpinteiro, agricultor, pescador, vaqueiro, mecânico, gari, vendedor ambulante, faxineira, doméstica, merendeira, bordadeira, costureira e uma professora primária (a única com ensino superior).

Todos foram estudantes de escola pública e conseguiram chegar ao ensino superior público, ultrapassando barreiras de formação e de profissionalização ao se inserirem no magistério. Pretende-se conhecer como eles se articularam até aqui projetando o futuro e superando obstáculos cotidianos, criando alternativas para alcançar outros horizontes, para fugir à regra de estagnar a escolaridade no ensino básico e larguear seus destinos.

Na metodologia utilizo a reconstituição das trajetórias de vida através de entrevistas em profundidade colhendo relatos orais, o que possibilitará compreender as diversas etapas da vida, dentre elas, como a juventude foi vivenciada e como se deu a elaboração de seus projetos.

Ao analisar as experiências juvenis dos sujeitos pesquisados até agora, que atravessam transitoriedades diversas, pergunta-se: qual traço de juventude cabe a diferentes indivíduos pertencentes às diversas camadas sociais? Suas histórias refletem as de muitos jovens das classes populares ao redor do mundo, sobretudo em realidades de escassez econômica ocasionada pela má distribuição de renda, que vem cada vez mais acirrando as desigualdades de oportunidades.

Apesar das particularidades das biografias, a maioria dos jovens pesquisados, desde a infância, foi exposta a dificuldades cotidianas e, com isso, a cobrança de deveres urgentes e encargos, que extrapolavam o compromisso com a escola e consigo mesmos. Suas obrigações com a subsistência da família e os cuidados com os irmãos, antecipou-lhes a noção de responsabilidade com a própria vida e com seus familiares. Desta forma, eles saíram da fase infantil cedo demais, pois necessitaram trabalhar desde criança para contribuir com o sustento da casa. Dos interlocutores da pesquisa há a exceção de apenas um, que só precisou começar a trabalhar na adolescência.

O direito a todas as garantias essenciais (alimentação, saúde, moradia, proteção) foi cerceado pela não garantia do direito à igualdade e à liberdade, quando lhes foi exigido, pela necessidade, que contribuíssem com trabalho para ajudar suas famílias. Quando há oferta desigual de garantias essenciais às crianças, como acontece no Brasil, começa-se a cavar um fosso entre elas desde muito cedo.

A privação de direitos e a sobrecarga de deveres, ou a exigência de contribuições típicas de adultos impostas a crianças e adolescentes, precipita-os a um processo de adultização precoce. É esse percurso que os sujeitos das classes populares experimentam. A pesquisa procura discutir, além dos marcadores que orientam a entrada, a permanência e saída da fase de juventude. Porque estes marcadores podem ser reversíveis: voltar a estudar depois de um recesso forçado pela maternidade, ou pela inconciliação com o trabalho; retardar o prosseguimento aos estudos por causa do casamento ou abster-se temporariamente de lazeres.

O típico formato de juventude burguesa, e seus percursos tradicionais, se arroga em ditar quais fórmulas seguir para ser considerado jovem. Será que esses modelos não acabam por ser absorvidos e assimilados nos ciclos sociais, inclusive, nos estudos acadêmicos? Uma infância, adolescência e juventude assistidas e reservadas aos estudos, e só então, à inserção no mundo do trabalho, resultando numa possível independência financeira, é privilégio de alguns. Para os sujeitos da pesquisa, essas etapas e esse tipo de juventude foram furtados. O que se percebe é que eles viveram e vivem a juventude que foi, e é possível, viver.

Discussão teórica

A noção sociológica de “juventudes” na contemporaneidade vem emergindo com a exigência de atender às reconfigurações dos indivíduos sociais em suas diversas maneiras de vivenciar a juventude. As diferentes “juventudes” estabelecem relações diversas com o tempo presente e futuro, enquanto matéria prima para projetos de vida ou outras maneiras de conduzir as existências. Apresento, abaixo, um rápido perfil dos sujeitos da pesquisa:

Do sexo feminino são: Penha com 38 anos, graduada em História e mestranda em Geografia, ambas pela Universidade Estadual Vale do Acaraú, hoje é professora na rede estadual, e está licenciada para o mestrado. Priscilla com 29 anos, é graduada em Filosofia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e mestra também em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará, hoje é professora temporária no ensino médio e na Universidade onde se graduou. Maria com 27 anos é graduada em Ciência Sociais pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e mestra em Antropologia Social pela Universidade Federal de Pernambuco, e acaba de ser aprovada para o doutorado na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. N.A.F. (iniciais do nome) com 26 anos é graduada em Educação Física pela Universidade Estadual Vale do Acará e mestranda em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, finalizando a dissertação.

Os sujeitos do sexo masculino são: R.M.M. (iniciais do nome) tem 31 anos, é graduado em Biologia pela Universidade Estadual Vale do Acará, mestre e doutorando em Geociências Paleontologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Fábio tem 28 anos, é graduado em Química pela Universidade Estadual Vale do Acaraú, mestre e doutorando em Química pela Universidade Federal do Ceará. Marcos tem 28 anos, é graduado e mestre em Geografia pela Universidade Estadual Vale do Acará, e acaba de ser aprovado em primeiro lugar no doutorado da sua área pela Universidade Federal da Paraíba. Ítalo é o mais novo, com 23 anos, é graduado em Letras/Inglês. No momento está trabalhando como coordenador pedagógico de uma escola privada de língua estrangeira e está se preparando para o mestrado.

Estes são indivíduos que representam uma parcela social em que sua “juventude” é sufocada pelas impossibilidades. Eles recebem destaque nesta pesquisa porque não se resignaram. Aproveito a esteira da discussão de Groppo (2015) que questiona a sociologia clássica da juventude pautada nas classificações tradicionais e etárias. O autor recorre à metáfora da implosão e trata do desarranjo das estruturas sociais modernas, para discorrer e analisar novos contornos, refletindo sobre as análises de “juventude-signo”, de descontinuidades e crises da linearidade das transições juvenis nos moldes tradicionais, como veremos mais adiante. A partir da realidade dos sujeitos da pesquisa e de discussões teóricas, propõe-se repensar alguns parâmetros habitualmente atribuídos à juventude.

Juvenilização como valor signo e o contraponto de “outras juventudes”

Quando Bourdieu (1983, p. 112) afirma que “A ‘juventude’ é apenas uma palavra”, se refere à perspectiva de que “somos sempre o jovem ou o velho de alguém”, em que os cortes geracionais ou em idades são manipuláveis e manipulados. Nas últimas décadas as divisões etárias perderam relativa preponderância e passaram a ser extremamente rechaçadas por sua arbitrariedade. Os padrões rígidos são estremecidos pelas surgentes formas de vivenciar as “juventudes”. Mas será que os modelos e as fronteiras tradicionais para definir a juventude também foram implodidos nas camadas sociais menos favorecidas?

O aumento da expectativa de vida trouxe efeitos na maneira de conceber o prolongamento da juventude. Mas muito além da questão etária e da longevidade, a juventude se tornou uma “representação social”, um “modo de ser e existir”, uma “forma signo-juventude” (Liberato, 2006, p. 91). A sociedade capitalista industrial, através da massificação da escola, do consumo e da mídia, também cooptou minorias e grupos étnicos historicamente discriminados e excluídos. O signo-juventude é invenção da lógica capitalista, onde se vendem e se compram as formas e imagens da novidade, da aparência, do sucesso e do hedonismo (Groppo, 2015).

Aqueles que desejam se representar como jovem, geralmente, se submetem ao segmento de consumo para se enquadrar nesta categoria. Normalmente, consome-se o signo, simulando a suposta juvenilidade em que se procura burlar a idade e relativizar a moratória vital (tempo biológico). Kehl (2004, p. 89–90) lembra como é difícil precisar o que é juventude hoje, dada a elasticidade desta categoria: “[…] dos 18 aos 40, todos os adultos são jovens […] é um estado de espírito, é um jeito de corpo, é um sinal de saúde e disposição, é um perfil de consumidor, uma fatia do mercado onde todos querem se incluir”.

Groppo (2015, p. 570) lembra que para cultivar a juvenilização é necessário investimento financeiro e, sobretudo, de tempo liberado para reprodução de si – tempo subtraído das obrigações. A manutenção da juventude é dispendiosa. O autor acrescenta que o processo natural do envelhecimento pode ser negado e abstraído, interpretado como consequência da inatividade e inabilidade do próprio sujeito em lidar com as possibilidades de retardar este processo, sendo ele o responsável pelo próprio envelhecimento concebido como precoce.

A apologia à juvenilização torna-se uma armadilha mercadológica para submeter os indivíduos a uma escravidão pela perseguição constante e desenfreada pela busca e permanência no arco juvenil, assim como a juventude pode ser usada como privilégio, no usufruto e ostentação de uma juventude estendida e glamourosa, manejada para as disputas por prestígio social. E para quem não é possível viver, comprar e adquirir o signo-juventude?

Muitos indivíduos passaram a participar superficialmente da ideia de igualdade comprando fragmentos, literalmente, de seus “distintivos de juventude”. Ao investir no valor-signo “juvenilização”, a cultura de massa tende a tentar nivelar e atenuar as diferenças entre grupos em busca de novos consumidores (Groppo, 2015). O estereótipo midiático da juventude, hoje, tem a pretensão de abarcar toda uma categoria que não corresponde à realidade e à totalidade da juventude brasileira, fazendo desaparecer uma parcela muito maior de indivíduos, que são excluídos do universo da escolarização e do consumismo. Paradoxalmente, o signo-juventude é um engodo, porque ele passa a crença de que ser jovem é uma opção, é uma escolha deliberada e uma conduta acessível a todos, quando na realidade é um fenômeno apropriado desigualmente.

Num contraponto, há muitos outros jovens marginalizados que não aparecem nas propagandas de refrigerantes, de eletrônicos ou quaisquer outros comerciais que remetem a um signo-juventude bem-sucedido nos moldes aburguesados. Os jovens das zonas rurais, trabalhadores, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, das periferias, e tantos outros, são invisibilizados ou só aparecem de maneira passageira nas reportagens de temas específicos, que não costumam lhes tratar como sujeitos jovens. Suas identidades juvenis são circunscritas às suas imersões coletivas. Ou, no ponto extremo, só são vistos pela autoria ou suspeição de atos ilícitos e criminosos. O discurso midiático e do senso comum, corrente e recorrente, fortalece a vinculação entre violência ativa e os jovens pobres, negros, mestiços e periféricos (Soares, 2007).

Muitos jovens excluídos do fenômeno social da juvenilização tomam outros aspectos para definir como veem sua juventude e seus marcos de transição para a vida adulta, como é o caso dos sujeitos da pesquisa que apontam suas justificativas para esta passagem:

Penha

Priscilla

Maria

N.A.F.

R.M.M.

Fábio

Marcos

Ítalo

38 anos

29 anos

27 anos

26 anos

31 anos

28 anos

28 anos

23 anos

Jovem até os 15 anos Jovem até os 14 anos Consi­de­ra-se jovem por não ter inde­pendên-cia finan­ceira Jovem até os 14 anos Considera-se jovem por ainda não se sentir preparado para enfrentar desafios da vida Jovem até os 15anos Considera-se jovem por ainda não ter responsa­bilidades familiares (casa­mento) Jovem até os 12 anos
Adulta aos 16/ ajuda a mãe a sustentar e cuidar dos irmãos Adulta aos 15/ começa a trabalhar para ajudar a família Adulta aos 15 por cuidar e ajudar  financei­ra­mente a família Adulto aos 16/ ajuda financeira­mente a família Adulto aos 13/ assume responsa­bilidades profi­ssionais para ajudar a família

Há desacordo entre a definição do IBGE (“Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira”, 2015) que considera jovem toda a população entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove anos) e a autodeclaração dos indivíduos quanto à sua fase de juventude. Cinco sujeitos da pesquisa se utilizam do critério de responsabilidade com a família de origem para demarcar sua transição para a vida adulta, embora três do total de pesquisados não considerem isso suficiente para torná-los adultos. Os sujeitos são estudados em suas trajetórias no decorrer do tempo, pelos episódios de suas vidas que se apresentam em movimento, às vezes, dando mais ênfase aos primeiros anos de sua juventude na concepção mais clássica: quando ainda estavam na escola ou quando entraram na faculdade. Mas também se questiona sobre a percepção que os sujeitos têm da ruptura antecipada de sua fase juvenil.

A busca da juventude simbólica que se converteu em signo, passando a ser fabricada e condensada a partir do consumo de objetos, serviços e comportamentos ícones-juvenis, cria tensões de inclusão/exclusão social (Groppo, 2015, p. 569). A juvenilização é um fenômeno artificial, e não é isso que se pretende reivindicar para os sujeitos da pesquisa. Mas observa-se que a juventude de muitos sujeitos é atropelada e raptada antes da hora pelas precariedades das disparidades sociais.

A “juvenilização” tomou forma de recurso nas disputas sociais, tornou-se diferencial, como um bem, um capital extremamente rentável nas relações sociais na busca da aceitação e pertencimento, onde procura-se acumular vitalidade, disposição, saúde e aparência de jovialidade. Mas, mais que isso, este fenômeno procura estender ao máximo o status e prestígio da juventude que se ostenta com os corpos, a postura e a conduta juvenilizada, numa espécie de simulacro (Baudrillard, 1991) autoengendrada e autoforjada. Por este prisma, então, os sujeitos da pesquisa foram jovens por pouco tempo? Sua juventude foi encurtada, ou jamais foram jovens porque não dispuseram de tempo e recursos materiais para isso?

Ao falar da reprivatização da gestão do curso da vida, Groppo (2015, p. 570) afirma que são exigidos os capitais econômicos, culturais e sociais bourdieuanos para aquisição dos valores-signos preciosos. Neste sentido, o elemento pré-requisito é o tempo, recurso escasso para muitos indivíduos pertencentes às camadas desfavorecidas socioeconomicamente. Esta propriedade passou a tensionar as desigualdades sociais porque o recurso “tempo” não é acessível a todos. Os jovens desfavorecidos, como os da pesquisa, precisam de prudência e astúcia para gerenciar suas vidas dentro de uma temporalidade escassa e acelerada.

Projeto de vida e o tempo como recurso e espaço de deslocamento social

Os paradigmas temporais são construídos e transformados conforme a sucessão das gerações e a organização das sociedades. O projeto de vida é uma das maneiras de lidar com o tempo. Para Schutz (2012), projeto é uma conduta (consciente) organizada para atingir fins específicos, com algum objetivo predeterminado. Mas o uso do tempo e a elaboração de um projeto de vida não são completamente deliberados e passíveis de autonomia para todos.

Velho (1997) lembra que projetos individuais, geralmente, fazem parte de projetos coletivos, como projetos de classe, circunscritos a determinados círculos sociais. É preciso considerar o campo de possibilidades, enquanto cenário possível e moldável em que o agente está inserido, e que se alarga ou se retrai conforme o quantum e qualidade de estoque de conhecimentos[3] e capitais[4] (econômico, social e cultural) que os indivíduos possuem e portam. Na busca pela inserção social os indivíduos se munem como podem e se lançam à corrida pelo tempo na busca por um “lugar ao sol” (ou “à sombra”) (Oliveira, 2015).

Leccardi (2005) apresenta uma tendência entre alguns jovens europeus na construção de um futuro sem projeto, desencadeada pela capacidade de aceitar a fragmentação e a incerteza do futuro aberto e em crise, que deve ser transformado em recurso, graças a um exercício constante de consciência e reflexividade. Esta estratégia temporal está presente nos jovens ricos em recursos econômicos, sociais e culturais, enquanto, para os jovens desprovidos de tais suportes, o futuro aparece fora do controle, dando lugar a um presente sem deslumbramento.

Diante da incontestável insegurança que se apresenta hoje, frente às incertezas e aos riscos de proporções globais que afetam a todos, mas, especialmente, aos jovens de camadas menos favorecidas, o futuro é um recurso expressamente intocável e não há garantias. O entremeio do tempo presente ganha valor especial, em detrimento dos pontos extremos da balança: passado consumido e futuro duvidoso.

Para a maioria, o presente não é uma escolha, mas é o único tempo possível frente às urgências cotidianas considerando a pouca funcionalidade do futuro. Há aqueles que, fatigados pelo desencanto das agruras diárias, são abatidos pela ausência de motivação para se projetar para o futuro. Muitos dos extremamente excluídos, como os envolvidos na criminalidade, por exemplo, resignados, sugam tudo possível no presente e vivem apenas o agora, que lhes é reservado, numa relação de profundo destemor com relação ao futuro (Athayde e Bill, 2006).

No cenário mais amplo, a flexibilização e precarização do mundo do trabalho e o ataque às políticas públicas previdenciárias indicam que não cabe mais projetos de futuro a longo prazo. Na falta de um projeto específico no início, as ferramentas são criadas ao sabor do momento, os sujeitos transitam em tempos que se fragmentam em episódios, cada qual com o seu próprio sistema temporal de referência, sem uma meta precisamente rígida, por lugares não conectados com suas biografias. Daí os crescentes fluxos migratórios em nível global.

As fases biográficas lineares, como: preparação para o trabalho por meio da formação escolar, depois o exercício de um trabalho remunerado e, por fim, a aposentadoria, foi desestabilizada. Hoje, esta trajetória biográfica de um percurso previsível para o ingresso na vida adulta, constitui não mais a regra, mas a exceção (Leccardi, 2005). Os sujeitos da pesquisa foram trabalhadores precoces e a iniciação no mundo do trabalho não lhes garantiu independência financeira. Muitas de suas experiências profissionais iniciais foram contingenciais e concomitantes às suas formações escolares.

Inserção no mundo do trabalho

Independência financeira[5]

Saída da casa dos pais

Primeira conjugalidade

Filho(s)

Penha – 38 anos 11 anos 22 anos 22 anos 25 anos 1ª filha aos 18 anos e 2º filho aos 25 anos
Priscilla – 29 anos 15 anos 15 anos 24 anos 24 anos 0
Maria – 27 anos 13 anos 15 anos 15 anos 26 anos 0
N.A.F. – 26 anos 07 anos 23 anos 18 anos Solteira 0
R.M.M. – 31 anos 11 anos 15 anos 26 anos 30 anos 0
Fábio – 28 anos 08 anos 18 anos 19 anos Solteiro 0
Marcos – 28 anos 10 anos 23 anos Mora c/ os pais Solteiro 0
Ítalo – 23 anos 14 anos 17 anos 17 anos Solteiro 0

Os jovens das classes favorecidas podem abraçar o desconhecido, e sem tanta pressão, podem deslizar pelo presente vislumbrando um futuro minimamente confortável. Podem viver a velocidade e imprevisibilidade temporal ludicamente. Podem até ter sabor de adrenalina, levando em conta a possibilidade de mudança, até mesmo as repentinas. Agarrar o instante de modo positivo pode ser visto como ter “senso de oportunidade”, que enriquece e gera satisfação (Leccardi, 2005). O mesmo não se pode dizer sobre os jovens que não portam os devidos instrumentos de combate frente às incertezas do devir. Os jovens das classes desfavorecidas, como os sujeitos da pesquisa, só podem contar consigo mesmos e, muitas vezes, seus familiares é que contam com eles para prosseguirem os dias que se seguem. Portanto, a relação com o tempo e com os projetos de futuro não passam impunes às condições socioeconômicas.

Os riscos não têm a mesma conotação quando se tem uma reserva ou uma retaguarda caso o resultado não seja o esperado. Ter o plano B, ou ter para onde voltar ou a quem recorrer, faz deste investidor do futuro alguém com uma margem de vantagem frente àqueles que só têm a si próprios. O sentido do risco tem outro significado para quem tem subsídios. É bem diferente dos que têm apenas a única cartada a dar no caminho incerto frente ao futuro nebuloso que se insurge na atualidade. Como é o caso muitas vezes dos sujeitos da pesquisa, que tomam a difícil decisão de priorizar os estudos em detrimento do trabalho remunerado. Isso é assumir riscos.

Leccardi (2005) aponta outro elemento crucial na relação com projeto de futuro: o diferimento das recompensas. A resolução em adiar para um tempo posterior a satisfação que o tempo presente oferece, em vista dos benefícios que esse adiamento torna possível, faz parte de uma estratégia para aplicar investimentos para um propósito futuro. É uma troca que implica determinação e sacrifício. Para muitos jovens a apreensão ou desilusão com os projetos a longo prazo permitiram a substituição por projetos de curto ou curtíssimo prazo, minando a ideia de adiamento das satisfações presentes por novas formas de disciplina temporal, através da programação e controle sobre o tempo cotidiano, para maximizar o aproveitamento do presente estendido.

Em entrevistas, os sujeitos da pesquisa dizem conceber a postergação das satisfações como algo inevitável para alcançar seus propósitos, como uma preparação para a vida adulta. É uma perspectiva de viver o presente em função do futuro, como numa poupança, o sujeito subtrai inicialmente para receber acumulado e reajustado posteriormente. Assim, furta-se agora para se premiar doravante, restando a impressão de saldo lucrativo. Nesta perspectiva, o presente não é apenas um elo entre passado e futuro, mas tem função propedêutica, com a “dimensão que prepara o futuro”; numa expectativa ativa, é uma etapa que acata uma passagem positiva e bem-sucedida para a vida adulta.

Segundo Leccardi (2005), os diferimentos das recompensas estão passando por um processo de saturação e esgotamento. Pode-se dizer como a analogia corriqueira que o presente realmente se faz uma dádiva. Carpe diem![6] Este tem sido um apelo irrecusável para aproveitar e apreciar o momento. É a escorregadela temporal satisfatoriamente sucinta que aparece como uma válvula de escape. É imprescindível examinar comedidamente a relação entre projeto, tempo biográfico e identidade, para saber se o diferimento das recompensas pode ainda ser considerado válido na contemporaneidade.

No tempo comprimido, o próprio significado de idade juvenil se transforma, e o tempo passa a ser o instante. Peres (2013, p. 54) caracteriza a juventude não como uma “etapa de desenvolvimento com estrutura fechada”, mas como um “território de passagens, de experimentações”, levando à condição adulta ou não, marcada por diferentes linhas de subjetivação atravessadas entre si. A ordem do dia é maximizar as diferentes experiências e aproveitar as oportunidades (para muitos jovens é possível se perguntar: quais oportunidades?).

Observa-se nos sujeitos da pesquisa que as oportunidades foram cavadas ou arrancadas a fórceps por eles nas suas realidades escassas. As construções de suas identidades foram arquitetadas numa projeção de si num tempo vindouro, em que foram questionando o que queriam ser. Seus desejos foram mobilizadores prévios para alterar a realidade presente, impulsionando o ato de planejar, de antecipar pela imaginação ou fantasia, outra perspectiva de vida que melhor atendesse aos seus anseios. Os indivíduos carregam em suas biografias muitas demandas, inclusive, a de se reinventar.

Percebe-se nos sujeitos da pesquisa uma tendência intermediária na relação com o futuro. Instigados pelo desejo de superar situações adversas eles costuram o hoje com o amanhã. Para eles, o presente estendido não é uma finalidade em si, mas é uma opção de investimento, como estratégia de não desperdício, mas de esperança no futuro.

Ao contrário de seus pais, que só puderam transitar, preponderantemente, no tempo presente, pelas impossibilidades de vislumbrar o porvir, os sujeitos da pesquisa puderam – e se alçaram a – se projetar para o futuro. A socialização escolarizada, diversificada e impactada por uma série de elementos que não será possível pontuar neste ensejo, instigou-lhes a vislumbrar melhores perspectivas de presente e de futuro. Estes sujeitos declaram ter construídos seus projetos paulatinamente através das experimentações cotidianas, das motivações fortuitas ao longo dos últimos anos escolares, e o contato com grupos que lhes instigaram ao prosseguimento para o ensino superior. Viveram etapa a etapa, dedilhada para se certificar que poderiam ir adiante; foi colocando tijolo a tijolo que construíram a escada para chegar onde chegaram.

A elaboração dos projetos de vida dos sujeitos da pesquisa não foi, propriamente, o projeto nos moldes clássicos de Schutz (2012) (previamente calculado e a longo prazo), e nem exatamente a perspectiva da tendência de alguns jovens europeus de projeto de curto e curtíssimo prazo, de que fala Leccardi (2005), em que os jovens privilegiam o hoje e não suportam mais os diferimentos das recompensas. A realidade das origens precárias e do contexto social dos sujeitos da pesquisa não permite acomodação no presente e o relaxamento no planejamento para o futuro. Eles sabem não ser possível futuros muito ambiciosos, mas não descansam. Lançam mão do dinamismo e da capacidade de performance de malabaristas, conciliando o presente urgente e o futuro melhor elaborado.

Por isso, a maioria tem prosseguido com os seus estudos initerruptamente, ou com pequenas pausas, mesmo com a insuficiência financeira. Adiar satisfações presentes requer obstinação e grande habilidade de autocontrole, fôlego, e programação do tempo. Eles postergam satisfações imediatas, como lazeres, mas também realizações pessoais mais duradouras (casamento, filhos) e continuam precisando ser comedidos, cautelosos e se submetendo a sacrifícios. Eles ajustam e fazem conciliações constantemente para alcançarem seus projetos. Apesar do cansaço com os processos seletivos e com as exigências da própria pós-graduação, demonstram que estão se realizando no percurso. São ágeis e sedentos por novas conquistas.

Considerações provisórias

A convencional transição linear e demarcável da juventude à fase adulta cai por terra. Os novos tempos fazem urgir sujeitos sociais que precisam desenvolver plasticidade para viver e sobreviver. A mercantilização da “juventude” confunde ser com aparentar, mas ambos os atores, os que são e os que parecem ser jovens, se misturam na busca para se inserir, se colocar e se deslocar no universo social.

A implosão da concepção tradicional de juventude questiona a perspectiva estrutural-funcionalista, elevando a discussão a um patamar mais agudo de estudo e análise. Neste patamar, os percursos e meandros para compreender os referenciais imprecisos e deslocáveis que constituem a nova sociologia da juventude precisam ser redefinidos no que diz respeito à socialização, à moratória e à transição a fases posteriores da vida. Faz-se necessário um olhar mais plural e inclusivo sobre as “juventudes” e suas vivências.

De um modo geral, as promessas e expectativas no futuro já não satisfazem e nem contêm os desbravadores do novo e do incerto. Por isso, os projetos são cada vez mais maleáveis, porque os jovens já compreendem que a realidade não é rígida, e nem segura. Na intuição e no impulso, os diferentes jovens, sobretudo, as “outras juventudes”, a parcela menos favorecida, como é o caso dos sujeitos pesquisados, estão sentindo a fugacidade da existência, e procuram rasgar alternativas que contemplem seus anseios e demandas. Resta, então, a reprogramação instantânea, recalculando a rota, ajustando o destino, otimizando o tempo, criando respostas e soluções personalizadas para lidar com os imprevistos, e usufruir das experimentações tanto quanto possível.

Para os sujeitos da pesquisa, uma das qualificações imprescindíveis, hoje, para não ser engolido pelo desgoverno do tempo consumador, é a capacidade subjetiva de manejar o presente, instrumentalizar-se para enfrentar os imponderáveis do futuro movediço, sem se mortificar absolutamente no hoje, seguindo equilibradamente.

A ideia de esgotamento de projeto em longo prazo é contestada aqui para abarcar outras realidades. Hoje, é possível encontrar a coexistência de diversos tipos de projetos e prazos, reivindicando novas perspectivas de projetar. O pertencimento social dos indivíduos possibilitará uma relação mais ou menos estreita, restrita ou confortável com o tempo e seus projetos de vida. Por necessidade, por escolha ou por contingência, os novos tempos exigem uma capacidade de adaptação, flexibilidade e reinvenção dos atores sociais, a exemplo da aposta que fazem os sujeitos da pesquisa. Os jovens, sejam eles quais forem, estão na ponta da lança para experimentarem a (des)aventura da temporalidade multifacetada e fugaz.

Bibliografia

Athayde, C.; Bill, M. Falcão. Meninos Do Tráfico Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2006. 1ª edição.

Baudrillard, J. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.

Bourdieu, P. A juventude é apenas uma palavra. In Questões de sociologia, Rio de Janeiro, RJ: Marco Zero, 1983. p. 112–121.

Bourdieu, P. Escritos de Educação. (Catani, A. M. e Nogueira, M. A., orgs.) Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. 12ª edição.

Groppo, L. A. Teorias pós-críticas da juventude: juvenilização, tribalismo e socialização ativa. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez e Juventud, 13 (2), p. 567-579, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.11600/1692715x.1321300514

Kehl, M. R. A juventude como sintoma da cultura. In Novaes, Regina; Vanucchi, Paulo (Orgs.). Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo, SP: Fundação Perseu Abramo, 2004. p. 89–114.

Leccardi, C. Por um novo significado do futuro: mudança social, jovens e tempo. Tempo Social, revista de sociologia da USP, 17 (2), p. 35–57, 2005. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702005000200003

Liberato, L. V. M. Expressões contemporâneas de rebeldia: poder e fazer da juventude autonomista. 2006 Tese doutorado em Sociologia. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/89294

Oliveira, A. A. Na Terra da Luz: “O sol nasce para todos, mas a sombra é para poucos!” Projetos de vida e campos de possibilidades dos jovens das classes populares-Fortaleza-CE, 2015. Dissertação-Universidade Federal do Ceará, Fortaleza. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/21769/3/2015_dis_aamoliveira.pdf.

Peres, W. Juventudes, diversidades sexuais e processos de subjetivação. In Pessini, L.; Zacharias, R. (Orgs.), Ética Teológica e Juventudes. Aparecida, SP: Santuário, 2013. p. 51–84.

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Velho, G. Projeto, emoção e orientação em sociedades complexas. In Individualismo e Cultura: Notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 1997. p. 13–40,


  1. O estado do Ceará localiza-se na região Nordeste do país.
  2. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
  3. Schutz (2012) trata estoque de conhecimento como a bagagem de saberes e experiências diversas que possibilita melhor participação nas relações sociais e reserva melhores garantias nas empreitadas da vida.
  4. Bourdieu (2011) define capital como recursos, sejam eles econômicos (bens materiais), sociais (relações de influência e prestígio social) ou culturais (domínio de códigos legitimados socialmente, saberes e fazeres reconhecidos, consagrados, como título escolar, domínio da língua culta, apropriação da etiqueta, dentre outros).
  5. Independência financeira para estes sujeitos tem um sentido particular, pois representava o acesso a uma remuneração que rendia uma autonomia relativa. Porque esta renda também deveria compor a renda familiar, assim, eles dependiam da família, porque o que ganhavam não era o suficiente para se manterem, e a família também dependia deles, porque a renda era compartilhada com pais e irmãos.
  6. Do latim: “Aproveite o dia”.


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