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Famílias de Centenários no Brasil

Gênero e Relações de Família

Alda Britto da Motta

Resumo

Famílias multigeracionais, moldadas por fenômenos básicos da contemporaneidade, longevidade e reestruturação produtiva, abrigam personagens geracionais que são novos enquanto relações afetivo-sociais. Em primeiro lugar, os centenários, figuras incomuns – diferentemente da imagem ainda preconceituosa vigente em relação aos idosos, são em maioria lúcidos e em boa ou razoável condição corporal. Entretanto, por maior que seja a sua vitalidade, demandam apoios – afetivos, como todos – mas também materiais, cotidianos. Os filhos enfeixam essa possibilidade de cuidado, porém geralmente esse lugar de apoio, segundo ditames tradicionais de gênero, é preenchido por uma filha, cumprindo o papel social clássico, feminino, de cuidadora. É a representante da geração pivô, ou intermediária – segunda grande personagem geracional nessa família; idosa ou madura, é apoio também das gerações mais jovens, filhos, netos e bisnetos. Apoio que se estende ao âmbito financeiro, demandado pelos que estão desempregados ou precariamente empregados. Abrangendo ainda os que vivem novos padrões de família, com as separações e retornos à casa, geralmente materna. Aí se encontram principalmente os jovens. É um panorama constituído basicamente por mulheres – que proponho analisar, com base em dados de pesquisa longitudinal realizada no estado da Bahia, Brasil.

Palavras-chave

Centenários; Famílias Multigeracionais; Gênero.

Introdução

Em uma sociedade definidamente longeva vive um número crescente de gerações. E essa extensividade geracional se realiza inclusive no interior da categoria idoso, sob a forma de vários segmentos etários, que vêm sendo designados, nas pesquisas, como idosos “jovens”, velhos mais velhos e centenários. Uma das consequências dessa simultaneidade são as famílias multigeracionais – uma multiplicidade de relações novas, ou renovadas, e novas personagens geracionais; uma superposição de papéis na família e de situações de parentesco vividas por cada indivíduo.

É um mundo em mudança, no qual as características imputadas tradicionalmente à “velhice”, inclusive problemas “naturais” de saúde, estão sendo gradativamente afastados para mais adiante, no tempo, para idades mais avançadas (Fernandes, 2001). Ao mesmo tempo, os menos idosos pretendem ser cada vez mais “jovens” (Britto da Motta, 2012).

Mudanças que dão-se também diferenciadamente segundo as condições biossociais de cada pessoa idosa, conforme seu gênero, classe ou raça, principalmente. Porque a diferentes idades podem corresponder diversas condições corporais e sociais, e modos de vida e subjetividades individuais. Além de terem nascido em momentos sociais distintos e, consequentemente, formado seu habitus de classe e conforme o gênero e a geração em condições ou tempos sociais diferentes (Bourdieu, 1990 e Britto Da Motta, 1999), têm variados tempos de experiência de vida e de uso e desgaste corporal e afetivo/emocional, ao confluírem para a atualidade. Com o que vivem uma contemporaneidade bastante relativa, pois, lembre-se Mannheim (1928, p.124), o “mesmo tempo” não é igual para todos: “Todas as pessoas convivem com pessoas da mesma e de diferentes idades […] Mas para cada uma o ‘mesmo tempo’ é um tempo diferente […]”

Além do mais, o tempo de formação das atuais gerações idosas está sendo cada vez mais diversificado; também as vivências e a própria extensão do percurso de vida já vencido. O que as pesquisas atuais apenas começam a levantar. Mas é importante revelar o jogo desigual de poder entre as gerações em sua trajetória, tanto social quanto cotidiana; a começar pelas relações de família. A família sempre como espaço fundamental e modelar das relações de gênero e entre as gerações (Britto Da Motta, 2003), apresentando agora essa peculiaridade de contar com a presença simultânea de várias gerações, e de modo mais duradouro do que em qualquer outra época da História. A ponto de que já se encontrem, com bastante frequência, famílias estendidas em até quatro e cinco gerações coexistentes e unidades domésticas onde coabitam três e mais gerações. E nas quais, nada raro, duas dessas gerações são de idosos, constituindo segmentos sociais que também representam maneiras diferenciadas de viver a velhice, inclusive quanto à situação e posições na família (Britto Da Motta, 2003).

Em contrapartida, vem crescendo o número de pessoas que moram sós, principalmente idosas e – questão de gênero – são sobretudo mulheres. Que constituem a maioria dos solteiros, separados e viúvos. Mas também são as que anseiam por mudanças liberadoras, como “Bater a minha porta e não dar satisfação a ninguém…” (Britto Da Motta, 1999, 2004)

Deve se considerar, ao mesmo tempo, nesse cenário, uma importante questão de gênero: a centralidade das mulheres nas relações de família. As mulheres tradicionalmente tecem ou intermedeiam as relações domésticas e de família, mantendo unidas duas ou três gerações. Enquanto nos homens, prescritivamente voltados para o mundo do trabalho, a sociabilidade e as preocupações, analisa Terrail (2000, p. 226), “[…] são também mais limitadas ao horizonte da sua própria geração”.

Mulheres tradicionais tinham a sua ausência na família (principalmente pela morte) mencionada com naturalidade como explicação ao desencontro ou desapego entre irmãos, como encontrado em pesquisa (Britto Da Motta, 1999).As mulheres atuais, mais longevas, ao longo do curso da vida frequentemente viúvas, vão tecendo ainda outra centralidade: trabalhadoras, emancipadas ou pensionistas, crescentemente tornando-se chefes de família entre a maturidade e a velhice “jovem”. Mantendo as chefias ou com chefias reais até silenciosamente contestadas, quando bastante velhas (Britto Da Motta, 2003).

Como estão vivendo esses diferentes personagens geracionais, em suas relações cotidianas, os acontecimentos que se estão desenrolando no contexto social mais amplo? E quem são esses idosos?

Claramente em maior evidência, estão os idosos jovens. Correspondem ao que se inventou e difundiu, a partir da década de 1960, na Europa, porém logo universalmente, como pessoas da “terceira idade”. (Lenoir, 1979). Um tempo de crescimento da participação da classe média no mercado de trabalho, seu respectivo alcance de rendimentos de aposentadoria e, naturalmente, de disponibilidade para o lazer. Contexto social percebido simultaneamente por patrocinadores de atividades e fornecedores de serviços e bens de consumo, e pela mídia – diante do que Ariès (1983) iria pontuar, com severidade, tratar-se de atividades e organizações que circunscreviam os idosos em verdadeiros guetos, e ao final consistiriam em meios de recolocar em circulação o dinheiro dos velhos É que estes começavam a ser objetos de inúmeros programas socializadores, públicos e privados, tais como clubes, grupos e “universidades” para a “terceira idade”, e de variados apelos ao consumo, como alegres viagens em grupo, estendendo-se, em seguida, a cosmética especial “anti-idade”, mas também a residências “adequadas”, previstas para um futuro esperado de perdas de agilidade e equilíbrio. Sem esquecer os pacotes específicos na área de saúde.

Têm sido também esses os mais atraentes e acessíveis à pesquisa científica – embora não tanto quanto à mídia… Numerosos e estando por toda a parte, foram os responsáveis diretos por uma (agora já não tão nova) imagem social do idoso como dinâmico, alegre e saudável – sempre regeneradora da figura dos “pobres velhinhos” aposentados de quase tudo, de um passado ainda pouco distante e, às vezes, persistente. São também os que apresentam o atual ineditismo histórico, particularmente brasileiro, de longa permanência no mercado de trabalho e, sobretudo, de retorno crescente, ainda que pouco formal, a este (Britto Da Motta, 2001; Peixoto, 2004 e Souza, 2009). Ao mesmo tempo, partilham, com os segmentos idosos mais velhos, da condição de beneficiários da Previdência Social, com rendimentos de aposentadoria ou de pensões que, por mais parcos que sejam, e majoritariamente são, lhes propiciam uma estabilidade financeira, no sentido de segurança da regularidade de recebimento desse pecúlio, que redunda em possibilidade importante de renovadas relações e contribuições para as suas famílias. Principalmente para os seus jovens, atingidos pela precariedade do emprego ou pelo desemprego estrutural atuais.

Em seguida vêm os velhos mais velhos. São, algumas vezes, tentativamente denominados “quarta idade”. Tentativamente, digo, em referência à dificuldade expressiva de aproximação e, portanto, de nomeação daqueles que teriam aparência menos atraente, “desgastada”; dos que seriam mais distanciados, supostamente menos sociáveis. Efetivamente mais ausentes de festas, bailes e clubes como espaço público, como já tive oportunidade de analisar (Britto Da Motta, 2004), cultivando uma sociabilidade mais restrita e tradicional – as visitas e comemorações com velhos amigos e parentes, e as obrigações religiosas.

Entretanto, apesar desses de idades mais avançadas terem estado sempre fora da proposta de um calendário social atraente em relação a estilos de vida (Lins De Barros, 2006) e programas “jovens”, como os de “terceira idade”, ao mesmo tempo começam a ser alcançados por uma medicina preventiva cada vez mais avançada, informados (ou suas famílias) por um sistema de comunicação cada vez mais difuso, de modo que oitentões e noventões começam a ter tanto a higidez como a sociabilidade ampliadas, à maneira já consagrada para o segmento de “terceira idade”. Assim é que, gradativamente, também vêm frequentando centros de convivência e grupos assistenciais e culturais em moldes muito semelhantes aos adotados para idosos mais jovens.

O que está começando também até para centenários. Alguns dos entrevistados da fase mais recente da minha pesquisa participam regularmente de grupos[1]. Novidade que ilustra, mais além de condições de saúde mais favoráveis, o atual fenômeno de deslocamento de padrões de condições físicas e existenciais no tempo, em direção ao futuro. E que já se registra na fala cotidiana em termos de “Oitenta anos hoje é como se fosse sessenta ou setenta de antigamente”. Principalmente em relação às mulheres.

Entretanto, a gana mercadológica sobre eles é ainda muito menos intensa do que em relação aos “jovens” e, consequentemente, também sua descoberta pela mídia e pelas redes sociais a não ser na área dos serviços de saúde. E sem o estímulo do que é levantado ou mostrado, a própria pesquisa científica se aquieta ou omite. Quase tanto quanto a atenção do Estado.

Importante lembrar, entretanto, que uma parte desse segmento de “quarta” idade constitui a geração intermediária, ou geração pivô, aquela colocada hierarquicamente na família entre os centenários e as gerações mais jovens; e tornada importante pelo apoio – em cuidados, mas também financeiramente – prestado a todos (Attias-Donfut, 1995 e Britto Da Motta, 2012).

Os centenários. São o menor contingente demográfico, menos de 1% da população brasileira, mas que de alguma forma a longevidade faz crescer. Despertam certa curiosidade pelo ineditismo da sua situação etária, e sobre como poderão tê-la alcançado, porém ainda assim o interesse público e até certo ponto mercadológico (a não ser, ainda e sempre, na área de saúde…) sobre ele, continua escasso.

Centenários

Segundo as estatísticas censitárias brasileiras, eram 13.865 em 1991, com 9.208 mulheres (66,4%) e 4.657 homens (33,6%). No Censo de 2010, quase dobraram: 24.236; enquanto o número de mulheres quadruplicou em relação ao de homens: 19.989 mulheres (82,48%) e 4.247 homens (17,52%).

Na Bahia, o estado brasileiro com o maior contingente deles, eram 3.578, segundo o Censo de 2010. com 2.442 mulheres (68,25%) e 1.136 homens (31,75%), 70% residindo em área urbana. Têm, em comum com os outros segmentos idosos da população, certas características gerais já conhecidas, como a muito evidente maioria de mulheres, já que quanto mais avança a idade, maior é o contingente feminino. O que por sua vez acaba definindo muitas das características básicas do segmento: viúvas, principalmente, um bom número de solteiras (cerca de 16%) e nível baixo de escolaridade.

A bibliografia sobre eles, bastante restrita, é em geral encontrada na área de saúde, e de forma mais escassa ainda no campo das ciências sociais. No passado, um registro pioneiro e breve de Simone de Beauvoir em La Vieillesse (1970); especial, também, porque citava resultados de algumas pesquisas na França e nos Estados Unidos que já revelavam as excepcionais condições de saúde e ânimo desse segmento da população – idênticas às que venho encontrando hoje na pesquisa.

A Pesquisa

Ao longo de três projetos de pesquisa com idosos na Bahia, em um total de 104 entrevistados, durante os anos de 2000 a 2007, identifiquei vinte centenários: quinze mulheres e cinco homens. Personagens atraentes, dotados de características pouco conhecidas, comecei a debruçar-me sobre eles. Todos foram objetos de entrevista – gravada, a circunstância do encontro documentada em diário de campo e, algumas vezes, em fotografia. A maioria deles continuou acompanhada durante longo tempo, (alguns deles até a morte), paralelamente ao desenrolar de novos projetos que iam se referenciando às relações entre gerações na família. E no qual grande parte das famílias estudadas foi, justamente, desses centenários.

A partir de então, os centenários passaram a constituir o foco central dos projetos que se seguiram, que se emendaram e articularam como investigação longitudinal, também referenciados às gerações intermediárias (pivôs) e outros familiares. Fui identificando algumas características comuns a eles:

Pela condição educacional, laboral e de renda, podemos analisar que para a sua “seleção” a “natureza” não se ateve a privilégios de classe: a maioria é de condição modesta. Entretanto, o privilégio de sexo/gênero na conservação da vida parece mantido: a maioria é de mulheres. A totalidade dos entrevistados tem renda própria, mas de magnitude muito variável e em grande parte dos casos, baixa; não raro complementada com alguma ajuda vinda dos filhos; principalmente das filhas. Mas a quem não raro também auxiliam.

Variam individualmente as condições físicas desses idosos, porém ao mesmo tempo é bastante comum o fato de que os que têm algum ou alguns problemas de saúde, por sentirem-se em boas condições emocionais, declararem ter boa saúde e sentirem-se bem. Suas condições de ânimo alcançam um tom mais para o positivo, na maior parte do tempo. Há queixas, mas também tranquilidade e bom humor. Claramente, gostam de viver.

Até D. Etelvina, 124 anos, a mais velha e mais atingida por deficiências que já entrevistamos, não chegou a constituir exceção. Enxergando muito pouco e locomovendo-se com dificuldade, também conversava, sorria e contava casos, e foi declarada pela neta, de 61 anos, com quem morava, “a alegria da casa”.

Negra, cabelos brancos presos, bem-disposta e bastante falante; apesar de demandar algum esforço para ser entendida, por causa da falta de dentes. Ouvindo bem, entretanto. Fala sobre sua dificuldade de locomoção, pontuando que do seu quarto para a sala da frente da casa é muito longe: “No meio do caminho eu paro e descanso um pouquinho”. (Apesar da dificuldade, faz questão de tomar banho sozinha, informou a neta).

Conta da perda prematura, aos 42 anos, da única filha, (dos cinco filhos que conseguiu criar) e da saudade que estava sentindo da outra neta, de 70 anos, que foi criada por ela e estava doente, e em cuja casa ela gostaria de estar. Falou, com detalhes, sobre os longos anos de trabalho na agricultura “Enxada, limpando cana, amarrando mula, não tinha coisa que eu não fizesse na minha roça, trabalhando. Trabalhei tanto que até hoje estou cansada. E o governo nada manda para mim.” Queixa-se das suas limitações na vida atual: “Nem a casa que eu estou dentro eu não varro!” “Não faço nada, só sentada e imaginando a vida. Quando a comida vem, eu como e fico quieta. Durmo cedo… Eu fico o dia inteiro sentada.”

Recorda: “Eu não perdia a missa, adorava… Era em Santo Amaro [zona rural onde nasceu e viveu longos anos]”, “Na festa de Natal eu não perdia, não. Ai! Ai!” Retoma a queixa: “Eu não faço nada. (Espreguiçando…) quero fazer as coisas e não posso. Quando eu era moça, eu queria e fazia. Agora, quero, mas não posso.” Quando a neta precisa sair, descreve: “Fico sozinha, com a mão no queixo.” O que corresponde exatamente à foto da época de seu último aniversário, em reportagem de jornal (Oliveira, 2002). Fala no seu processo de envelhecimento, sempre referindo-se ao trabalho persistente: “O corpo foi ficando fraco. O administrador dizia: Por que não vai pra casa, D. Etelvina?” Foi, mas aos 84 anos.

O árduo trabalho na roça lhe rendeu, no fim da vida, o magro salário mínimo. “Eu recebo uma merrequinha; ninguém me ajuda, não”. D. Etelvina tem 5 netos, 26 bisnetos, 39 trinetos e 4 tetranetos: “Ah! Se todos estivessem trabalhando para eu comer!”. Em entrevista ao jornal, nessa mesma época, compara a situação de trabalho no seu tempo de jovem com as possibilidades de hoje: “Naquele tempo a gente trabalhava para comer. Hoje, quem trabalha não consegue nem comprar comida” (A Tarde, julho de 2002). Ela descreve seu trabalho: “Trabalho de enxada, cortava cana e enchendo vagão. Quando chegava o tempo de cortar cana, ele ia até o fim. Era uma usina grande […]” Trabalho envolvente: “Quando enviuvei fiquei chorando dentro de casa até o dia de sair pra trabalhar. Quando trabalhei, esqueci; agora já não lembro mais, não, já estou velha.”

Queixa-se das suas impossibilidades: “Não tenho saúde, mais. Em todo lugar dói […] Não posso fazer mais nada. Que importância eu tenho hoje?!” Ainda assim, afirmou que tinha gosto pela vida e queria viver mais: “Só não quero dar trabalho aos outros”.

Ao longo da pesquisa alguns dos centenários morreram. Quase invariavelmente, sem maior extensão de tempo, de doença. Foi o caso de D. Etelvina, que foi visitada essa única vez e morreu logo depois, com um AVC. Foi, também, o de outros centenários pesquisados, três dos quais foram os mais longamente acompanhados, admirados e estimados por nós, e faleceram nos últimos anos.

O mais velho desse grupo era Sr. Anísio. Com 108 anos quando da primeira entrevista, uma preciosidade de vitalidade e simpatia, procurei acompanhar a sua trajetória de vida até próximo dos 117 anos, quando faleceu, em 2010. Filho de agricultores, trabalhou como pedreiro e tornou-se mestre de obras conhecido em Riachão do Jacuípe, interior da Bahia. Tocava na Filarmônica daquela cidade e era muito benquisto. Tranquilo, bem-humorado, encantava as pessoas. Na festa do seu 115º aniversário, uma das mais animadas que acompanhei, estava especialmente conversador; em determinado momento foi ao interior da casa buscar uma foto do grupo da Filarmônica, para mostrar a um amigo. A foto passou de mão em mão, entre os mais próximos, enquanto ele contava histórias de alguns daqueles companheiros, todos já falecidos. Sorria gostosamente com algumas delas e encantava uma jovem convidada que, ao seu lado, o escutava, sem perder palavra, sorrindo. Tão encantada ficou que, repetidamente chamada, relutava em ir embora.

O Sr. Anísio era negro, de boa altura, porte naturalmente elegante, roupa sempre bem arrumada, tranquilo e atencioso. Saúde só abalada um bom tempo depois dos cem, com alguma perda auditiva, mas se comunicando bem. As pernas já não estavam tão firmes, na rua era ajudado por uma bengala. Viúvo duas vezes, 15 filhos, alguns dos mais velhos já falecidos. Comentou certa vez sobre um deles: “Diz o povo que ele está mais velho que eu”. E sobre idade e casamento: “Queria ainda ter oitenta anos, para casar de novo”. Gostava, também, de brincar com a possibilidade de ainda “encontrar uma moça bonita”.

Com excelente memória, impressionava a precisão com que referia os fatos, inclusive com datas, como me informou, logo na primeira entrevista: “Cheguei de Riachão no dia 8 de agosto de 1961. Cheguei aqui em Salvador; vim pra esta casa, em 64.” E por aí estendia-se. Proprietário da casa, localizada no bairro da Saúde, onde tinha a companhia de uma empregada, responsável pelas tarefas domésticas. Era o responsável pelas próprias despesas e revelou que gostava de morar só. Os filhos ajudavam, mas não com regularidade: “De vez em quando, um dá uma coisa, outro dá outra”.

Duas filhas moravam na vizinhança, e uma delas era a grande cuidadora dele. “Anísia me leva pra tudo quanto é canto.” Em casa, não gostava de ficar parado: “Faço tudo quanto é coisa […] Conserto uma coisa, conserto outra”. Não ficava só, pois quando não tinha uma pessoa (empregada) com ele, ia para a casa da filha. Quanto aos parentes, “não tem um que não me dê [bem]”. Mantinha contato por telefone.

Tinha poucos amigos próximos, pois seus compadres já estavam quase todos mortos: “Esse é o preço da velhice: a gente perde as pessoas da juventude”. Revelou: “Eu tenho vontade de ir para a casa dos outros conversar, mas as famílias vão trabalhar, os maridos vão, as mulheres vão trabalhar. O dia de domingo vão pra praia. Pra onde eu vou? Então eu fico em casa.” Às vezes recebia alguma visita e foi objeto de várias reportagens, em jornal e televisão

As comemorações de aniversário do Sr. Anísio eram acontecimentos do bairro, que mobilizavam uma pequena multidão de filhos, netos e outros parentes (iam até as criancinhas de colo, em algum momento sempre fotografadas com ele), amigos e admiradores de Salvador, além dos que vinham do interior do Estado. Havia sempre missa na igreja do bairro e jantar, em seguida, em sua casa. Uma das presenças constantes, a cada ano, era o amigo de cujo registro de nascimento ele foi testemunha, no interior – que proclamava isto, com orgulho – e que, na última vez em que o vi, estava muito mais “velho” e inseguro das pernas que Sr. Anísio.

Este, apesar do perene bom humor, considerava que não é bom ser velho, “porque os filhos é quem manda, eu não tô mandando mais em nada. Eu vou fazer uma coisa, eles dizem: ‘Não fazer isso, não. Fazer outra coisa.’ Eu acho ruim por isso, mas vai vivendo”.

No caso de D. Januária, o desejo de conhecê-la se intensificou com a contemplação do seu retrato, em reportagem de jornal: sorriso aberto, abraçando o violão. Em abril de 2002, aos 108 anos, a primeira entrevista, e a bela declaração: “Eu me sinto muito bem e canto em verso e prosa”. E realmente, na época tocava o violão, havia gravado uma fita e estava iniciando um livro de memórias, que veio a lançar em maio de 2004, na festa de seus 110 anos. Na comemoração do último aniversário seu que acompanhamos, o 112º, como sempre com missa festiva, estava alegre, conversando e interessada nas pessoas.

Em entrevista anterior, e de certo modo contraditoriamente, reclamava da velhice, porque apesar de ter boa memória, (e ser uma contadora de histórias) seu corpo a limitava: usava cadeira de rodas, sua voz estava rouca, tinha fastio, dificuldade para ler (“as letras embaralham”) e ao escrever “as letras saem da linha”, queixava-se. Também os dedos doíam quando tocava o violão.

De cor clara, simpática, sorriso constante, em contraste com as queixas. Viúva durante longos anos, nunca trabalhou fora, mas: “Trabalhei dentro de casa, trabalho puxado, porque nove filhos!”. Um salário mínimo de pensão, complementado pelas filhas. Os três filhos homens já haviam morrido. Vivia com a filha mais moça, que a rodeava de cuidados. “A minha vida aqui, ela é a responsável por tudo. Eu era mãe, agora sou filha.” (Ri). “É ela a chefa da casa, é ela quem manda, é ela quem resolve…”

Durante a doença e após a morte do marido teve o apoio decisivo do filho mais velho, a quem muito elogiava e cuja morte lamentava a ponto de declarar: “Para mim o mundo morreu, não tenho mais alegria pra nada”. Apesar dos cuidados constantes da filha, de telefonemas e visitas nos fins de semana das outras filhas (idades entre 84 e 72 anos), dizia que se sentia só. Ainda que contando também com cuidados e atenção da empregada, queixava-se quando a filha saía: “Aí eu sinto muita solidão, viu? Eu sinto, porque ela precisa sair e a moça fica trabalhando lá dentro e ela é muito calada. Nem ao menos ela canta!”. D. Januária dizia que para passar o tempo “tenho sempre que inventar alguma coisa”. “Só fico alegre quando tem gente, meus filhos, minhas amigas.”

Apesar das queixas, dizia contar com muitas amizades boas: “Faço aniversário e todo mundo vem”. Os filhos e amigos faziam a festa e recebia muitas visitas.

Comentava a relação com a família: “É boa, é ótima”. Não apenas os filhos, mas também os netos iam sempre visitá-la, e quando nasciam os seus filhos, levavam para a avó conhecer: “Alguns tiram fotografia comigo e com a criança”. Raramente saía de casa: “Dou trabalho porque tem que tirar da cadeira e botar no carro, essa coisa toda”. Por isso, muitas vezes deixava de sair.

Em casa, ficava no quarto, principalmente. Disse que tinha vontade de trabalhar, não para ganhar dinheiro, mas queria fazer “qualquer coisa que os outros façam e que eu não posso fazer”. Resignada, reconhecia os problemas de saúde, “da idade”, como dizia, e concluiu: “Eu estou assim e não posso fazer nada”.

Tornam-se muito elucidativos de relações de família de idosos, o acompanhamento e observação dos modos de vida desses centenários. O caso de D. Januária, por exemplo, principalmente com os depoimentos da filha (70 anos) que era sua cuidadora, ao mesmo tempo legítimo exemplo de “geração pivô” (Attias-Donfut, 1995; Delbes e Gaymu, 1993; Britto Da Motta, 2012): apoiava e cuidava da mãe centenária, apoiava financeiramente o filho descasado, de 32 anos. (“Casou sem ter ainda condições de casar”) e pagava a pensão alimentícia do neto de 5 anos. Estabelecida uma relação cordial com a entrevistadora, desabafava:

Tinha algumas queixas da mãe, porque era “muito teimosa”. Havia os desgastes do dia a dia. Arrolava os cuidados que prestava: “Precisa que eu dê banho, eu faço a higiene, levo ao sanitário, assear, lavar as mãos, levar ela ao banheiro”. Mas reconhecia o empenho da mãe: “Também ela se ajuda muito, ela tem muita força de vontade”.

Considerava dar o melhor de si para a mãe e que isto nem sempre era reconhecido: “Eu sei que eu faço o que posso, e às vezes o que eu não posso eu faço, mas não sei, nem sempre há satisfação nas minhas irmãs […] sugestões muitas, mas ajuda, nenhuma”.

Certa feita deixou aflorar o ciúme e contou que quando a irmã que mora no interior do Estado vinha a Salvador ficava na sua casa, as outras irmãs reclamavam e ela dizia: “Eu vim pra ficar com mamãe”. “Fica aqui e toca violão com ela, porque ali [D. Januária] é animada e ela também é muito animada.” Tinha ciúme também do filho na relação com a avó – mais um caso do clássico acordo entre gerações alternadas: “Ela gosta muito dele, ele também gosta muito dela; ele parece gostar mais dela que de mim, é ‘voinha’ pra lá, ‘voinha’ pra cá…”

O filho, Gustavo (32 anos), é músico. Falou sobre D. Januária: “A minha avó é legal, né, aquela pessoa ali, de idade avançada, mas forte, né, firme e tal”. Revela que veio dela o seu interesse pela música: “Eu via a minha avó com o violãozinho dela, ali, tocando aquelas músicas antigas, e eu ficava ali, encantado”. Considerava a avó “[…] uma pessoa jovem. Eu acho que o que deixa ela viva é a vontade de continuar vivendo”.

O primeiro contato com D. Guiomar foi em 2002, quando ela estava com 98 anos. Na fase sequencial do projeto, voltamos a ela e também entrevistamos boa parte da sua família. D. Guiomar, apesar de vários problemas de saúde – usava marcapasso, sofreu um acidente e andava com um pouco de dificuldade, usava aparelho auditivo e enxergava só de um olho – apesar de tudo isso, transmitia um vigor impressionante e era muito animada. Tinha ótima memória e se impunha naturalmente como autoridade na família.

Viúva, 7 filhos, 26 netos e 42 bisnetos, informou quando da primeira entrevista. Teve vida profissional ativa – secretária de importante instituição educacional – que só interrompeu com a aposentadoria compulsória. Contou que uma funcionária da instituição comentara: “Mas a senhora vai se aposentar?! Viva, assim? Com esse trabalho todo perfeito!”. E ela: “Eu não vou trabalhar de graça para o governo!”. Ao mesmo tempo declarou: “Ai, que saudade eu tenho!”

Tanta dedicação só lhe rendeu um salário mínimo de pensão. Morava em casa própria, há mais de 50 anos, em bairro popular. Sentia-se bem lá e era visivelmente querida pela vizinhança. Uma filha viúva morava com ela e sustentava a casa. Uma neta, filha dessa filha, morava no andar superior, com o marido e o filho.

D. Guiomar contou que até poucos anos atrás fazia de tudo em casa. Foi deixando, “mas eu ainda trabalho […] minha roupinha eu lavo”. Gostava de passear e ir a restaurantes com filhos e netos. Considerava a relação com a família “a melhor possível” – o que realmente era bem perceptível.

Sobre a velhice comentou que “há idosos abusados e já tem outros que são alegres, então eu pertenço a este lado, o lado dos idosos alegres, porque eu nunca estou contrariada…” Gostava de ouvir música e de cantar, e já tocara violino. Contou que de vez em quando ficava cantando no quintal e era aplaudida pelos vizinhos.

Seu centenário, em 2004, foi comemorado num amplo espaço de eventos, com muitas gerações presentes. A aniversariante, feliz, sorria e cantava enquanto dançava com um dos filhos, Aristóteles, que, exceção como filho homem, prestava constante assistência à mãe e a visitava todos os dias. Dançou também com seu médico, que a beijou, carinhosamente, na testa. Ao final, ela falou ao microfone, agradecendo a todos, filhos, netos, bisnetos, parentes e amigos, a presença.

Sobre o que mais desejava, revelou: “Peço a Deus que os dias passem e não me jogue na cama, me deixe em pé até o meu dia”. Preocupação geral entre os velhos ativos em toda a parte, seu desejo foi atendido: conservou a locomoção e a lucidez até o fim.

Quando da primeira entrevista D. Guiomar comentou que o período mais feliz de sua vida talvez fosse aquele mesmo, “Porque os filhos estão criados”. Dois anos depois passou a viver um tempo difícil, devido a problemas graves de saúde de dois dos filhos. Quando completou 102 anos, em janeiro de 2006, não quis muitas comemorações; como passou a não querer, desde então, porque naquele momento o filho mais velho, de 78 anos, estava internado com um derrame e a filha mais velha, atingida pelo mal de Alzheimer, estava pior. Em conversa, desabafou: “Eu não me conformo, minha filha. Não adianta que eu não me conformo. Ele tá com 78 anos, internado. Eu com essa idade tava nova em folha. Aliás, eu com 94 anos, eu dizia que tinha 49”. E sobre a filha doente: “Fico imaginando quando eu fizer ‘a minha viagem’, como é que fica Mercês? Ainda não me conformei com a situação dela. Minha filha mais velha… Achei que ela é que ia cuidar de mim”.

Mesmo naquela circunstância, foi muito visitada e recebeu muitos telefonemas pelo aniversário. Em visitas subsequentes da equipe da pesquisa, voltou a falar que estava muito infeliz devido aos problemas de saúde dos filhos. “Tenho medo de ‘ir embora’ e deixar Mercês sozinha nessa situação. Ela não lembra de nada e às vezes só obedece a mim.”

Logo após o referido aniversário, o filho faleceu. Ela ficou entre inconformada e aliviada, confidenciou, porque ele havia deixado de sofrer. Foi o segundo filho que perdeu. “Já tenho 102 anos e estou aqui, saudável! Só tenho medo de deixar essa aí doente, coitada.”

Dona Guiomar era, entretanto, uma pessoa de grande presença, forte e simpática. Conhecida e estimada por toda a vizinhança. Apesar do seu retraimento em relação a comemorações, teve o aniversário seguinte obrigatoriamente alegre, comemorados os seus 104 anos com um café da manhã festivo organizado justamente pelos vizinhos.

O que é mais um fato que reforça minha observação e repetido registro de como esses centenários que tenho encontrado têm-se revelado geralmente objeto de admiração e carinho mesmo dos que não participam do seu cotidiano imediato, como os vizinhos do bairro. Carinho e admiração que são fortemente expressos sobretudo pela geração dos netos. No caso de D. Guiomar isto aconteceu com intensidade, do mesmo modo que em relação à Dona Januária e ao Sr. Bráulio, como foi visto. Em entrevista, Cristina, de 40 anos, neta de D. Guiomar, falando sobre a condição de jovem, curiosamente reportou-se à avó, comparando-se com ela: “Ser jovem é estar aberta às coisas do mundo, às pessoas. Minha avó, eu considero uma pessoa com a mente muito jovem, ela não se escandaliza com nada, ela acolhe tudo que é novo, ela é referencial de juventude; em termos de cabeça, ela é muito mais jovem do que eu, pois sou muito acomodada”.

Falando sobre idosos, retorna, naturalmente, à avó: “Um idoso como minha avó é um dom grande, todas as vezes que eu vou lá eu volto renovada, pois ela me diz cada coisa que me surpreende. Ela aglomera a família em torno dela”.

D. Guiomar completou 107 anos em janeiro de 2011 e, mais uma vez, não conseguiu fugir da celebração festiva. Entretanto, pela primeira vez falava na morte como “solução”, para ela e a filha em resistente sobrevida, embora não deixasse de mencionar momentos felizes, como a linda festa dos seus cem anos: “Foi um evento!”

Começava a queixar-se de dores e evitava andar. Começou também a ter pequenos esquecimentos, como o fato – afinal comum às várias idades, mas não a ela – de ter convidado uma das estudantes da equipe da pesquisa para almoçar, em um domingo do mês seguinte, e ao vê-la chegar, ficar surpresa; ao mesmo tempo lucidamente “resolvendo” a questão, dizendo-lhe: “Em minha cabeça sabia que estava esquecendo algo. Eu me esqueci sem me esquecer”. Depois, sorrindo, repetiu algo que sempre gostara de fazer: cantou para ela uma música que tinha como tema o seu nome.

Almoçaram uma “famosa” feijoada, que D. Guiomar já referira mais de uma vez como um dos seus pratos prediletos, para a qual, muito baianamente, não dispensou o molho de pimenta. Comeu bem, depois foi descansar. Não sem antes ter cantado novamente; desta vez, Mulheres, de Martinho da Vila, samba da sua predileção, repetindo alguns refrãos; e reafirmando o quanto gostava de cantar. Foi a última vez em que estivemos com ela. No mês seguinte ela morreria. “De pé” e lúcida como desejava e mereceu.

A pesquisa continua, com outros projetos sequenciais. Novos centenários vêm sendo descobertos e o processo de conhecimento e relacionamento se reinstala. Estas quatro especiais personagens, entretanto, permanecem fortemente em nossa memória afetiva e admiração.

Reconhecendo as Vicissitudes

No momento, acompanho centenários que estão há menos tempo no projeto. Seleciono alguns, pela oportunidade de apresentação de um quadro social mais amplo de vivências, incluindo dois casos de famílias atípicas em relação aos resultados anteriores da pesquisa. O fato de que o projeto atual se intitule Longevidade e Tempo Geracional, Idades e Vicissitudes refere-se ao reconhecimento de que novas configurações vêm-se delineando no panorama de vida dos mais idosos – e os centenários não constituem exceção. Embora a família, na maioria dos casos, os trate bem, com cuidado e afeição, seja inclusive o seu esteio, encontra-se também já evidenciado que é também na família que os velhos sofrem mais violência – tanto a cotidiana como a “final”. (Debert, 2001 e Faleiros, 2007)

Ora, sendo a família esse terreno variável, ora firme, ora movediço, dos afetos (Britto Da Motta, 2003), torna-se importante assinalar quão insegura pode se tornar a vida dos mais idosos, quando é sabido que não há lugar de trégua para eles, pois é da esfera pública que vêm as maiores vicissitudes. A competição desqualificadora quando ainda no mercado de trabalho, mas, sobretudo, e até o fim, os desamparos institucionais, as fraudes financeiras em várias instâncias, o sofrimento pela ausência de políticas efetivas por parte do Estado (Britto Da Motta, 2013) e o golpe final pelo abandono duramente expresso na área de saúde, principalmente em hospitais, onde não raro o idoso vai para morrer. (Souza, Meira e Menezes, 2012).

São problemas que parecem avultar agora, e não apenas, evidente, pelo fato do crescimento populacional, mas sobretudo pelos caminhos menos solidários e cada vez mais anômicos empreendidos pela sociedade atual. Assim é que se posso repetir a história feliz dos centenários já aqui analisados, na vivência atual de Dona Joana, 103 anos, firme e saudável, esplêndida festa de aniversário em recursos e alegria organizada pela família, seguindo seu cotidiano com regulares tarefas domésticas, matizado tanto pelas tentativas da família de frear seus ”excessos” de atividades, como pela alegre declamação dos seus numerosos poemas, que também leva para o grupo de que participa. Ou de D. Maria, também 103 anos, com seus passos firmes, fala precisa, cordialidade e paixão pelo grupo de que participa há muitos anos, (OSID), e no cotidiano com a família briga apenas “porque não gosta de obedecer”, diz a neta com quem mora, nem que mexam nos seus guardados… E que em revide brincalhão a chama de “mãe-neta”. Ou no dinamismo e animação de D. Benzinha, 96, que mora sozinha, cultiva a família, que reside próximo e se reúne com ela todas as segundas-feiras, frequenta três diferentes grupos, pinta panos de pratos para vender e se classifica: “Sou da idade rebelde. Eu faço o que eu quero e entendo”.

Por outro lado, há o caso das “sem família”, como a antes mencionada Dona Eurides, 123, que, viúva e sem filhos, e sem acolhimento adequado por uma familiar em cuja casa esteve, apesar de contar com recursos próprios, tendo ficado doente foi tratada e aceita como moradora de uma instituição de saúde, há quinze anos, onde é bem tratada e construiu laços afetivos com suas cuidadoras “netas”, como designa as atendentes da clínica.

O caso mais pungente foi o de Dona Ana, 99 anos à época. Viúva, quatro filhos, pouco procurada, pouco cuidada, faleceu há pouco meses. Foi acompanhada pela equipe do nosso projeto por quase dois anos, o suficiente para se constatar que, em dois aniversários, ninguém da família lembrou a data. Uma das estudantes, atenta e já se afeiçoando a ela, – que ressaltou, mais de uma vez, que ninguém jamais lhe havia dado tanta atenção, nem os netos e nem a filha, que era muito calada – tentou fazer uma pequena comemoração. No ano passado, levou um bolo, porém a filha e o genro, com quem morava, saíram para o supermercado. Este ano, novamente lembrada do aniversário pela estudante, a filha apenas comentou que estava envergonhada de ter esquecido. Curiosamente, Dona Ana tinha se lembrado, em ambas as vezes. Teria achado inútil falar…?

Dona Ana queixou-se de mal-estares, cansaço e dores, algumas vezes, no tempo em que foi acompanhada pela equipe. Não há registro de que tenha tido atendimento médico durante esse tempo. Uma vez pior, e hospitalizada, não parece ter sido objeto significativo de atenção profissional, reclamou um familiar. Dias depois, morreu.

Concluindo

Eleger centenários como uma categoria definida para estudo impõe a precedência de uma série de reflexões. Entre estas:

Sobre a revolução social que a longevidade crescente determina, e os tipos de mudanças nas relações sociais desencadeadas pela presença simultânea de numerosas gerações, tanto na família como no contexto social mais amplo.

Sobre a dupla heterogeneidade da categoria idoso: como feixe de identidades de referência relacional mais geral (de gênero, de classe, de raça); e particularmente como extenso segmento de ordem etária/geracional, que quanto mais longo, mais capaz torna-se de ensejar vivências temporais diferenciadas que se podem multiplicar em “gerações”.

Sobre o “quê” especial que os centenários realmente têm (não necessariamente “segredo” ou” mistério”), que os destaca, não raro, até dos seus próprios filhos de “terceira” e “quarta” idade. Comparações como as que fazem D. Guiomar (“Ele com 78 anos, internado; eu com essa [mesma] idade tava nova em folha”) e Sr. Anísio (“Diz o povo que ele [filho] está mais velho que eu”) ilustram bem isso.

Sobre a necessidade de abandonar-se a simplificadora busca da causa (única), e as costumeiras ênfases biologicistas comuns à geriatria e à gerontologia, podendo refletir-se, afinal, sobre uma confluência de diferentes causas para uma longevidade bem vivida.

Sobre a importância fundamental de observar-se o equilíbrio possível diante das relações de poder entre os muito idosos e os seus familiares/cuidadores, que não raro se extremam em falas sobre “mandar” e “precisar obedecer”, ainda que lastreadas em carinho e cuidado.

Em resumo, os centenários estudados têm apresentado, em maior ou menor grau, características sociopsicológicas comuns atraentes, que certamente têm guarnecido bem o claro privilégio da herança genética de que dispõem: além de basicamente saudáveis, são tranquilos, sociáveis, alegres, interessados na vida. É isso que os faz, ainda quando com alguma deficiência ou problema orgânico, irem além da queixa e declararem que têm boa saúde e desejam viver mais.

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  1. Projeto “Longevidade e Tempo Geracional: Idades e Vicissitudes”. Apoio Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Bolsa Produtividade em Pesquisa), Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e PIBIC/Fundação de Amparo À Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) (Bolsas Iniciação Científica). Participaram das várias fases as estudantes: Maine Santiago, Daniele Correa, Elideise Damasceno, Thaís Ribeiro dos Santos e Geice Sousa Pinho.


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