16 Políticas educacionais e a diversidade das expressões culturais na era digital

(Original em inglês)

Gemma Carbó Ribugent & Guillermo Maceiras Gómez[1]

A Internet é o local de encontro da comunicação total, um lugar onde as culturas podem se comunicar infinitamente. A Internet é um sonho da humanidade há muito tempo (Barbero 2008: 12, tradução livre).

Introdução

A citação acima nos permite introduzir o presente estudo de caso, cujo enfoque está em duas abordagens inovadoras para a educação em diversidade cultural no contexto digital. A diversidade cultural, a educação e o mundo digital nem sempre parecem ser bons parceiros. Neste estudo de caso, examinamos as dificuldades de articulação entre eles e, através da análise de dois casos, demonstramos que é possível e necessário estabelecer alianças entre os três a fim de melhorar a cidadania cultural.

A primeira premissa é de que a cultura não mais existe como um elemento singular. A diversidade de expressões culturais e artísticas exige novos caminhos para promover uma convivência que esteja de acordo com os valores da democracia e respeite os direitos humanos, o que é uma das metas principais dos sistemas educacionais no mundo todo. Algumas abordagens educacionais conferem um reconhecimento maior à diversidade cultural – educação multicultural, educação crítica e educação intercultural – e tentam modificar a tradição de políticas educacionais que tendem para a padronização e homogeneidade.

A aceitação da diversidade cultural como valor fundamental do desenvolvimento individual e coletivo está abrindo interessantes campos de pensamento no campo do ensino e da organização de currículos escolares. A partir da organização convencional de currículos, baseada em matérias e disciplinas, a tendência está agora se movendo em direção a aptidões e capacidades que possam ser interiorizadas em crianças e jovens, e no público em geral, a fim de deixá-los construir criativamente seus próprios processos de aprendizagem. Nos países da União Europeia (EU), as aptidões definidas como transversais são aquelas diretamente relacionadas à diversidade cultural, além de competências comunicativas e digitais (European Parliament 2006). Elas incluem, entre outras, a competência cultural e artística, bem como a competência comunicativa.

Em segundo lugar, a estrutura educacional e social precisa adaptar-se às novas demandas que surgem da revolução tecnológica da Internet e da Network Society. A revolução digital e a Internet – descrita como um sistema neurocerebral artificial planetário por Morin (2009) – multiplicaram e aceleraram exponencialmente as possibilidades culturais e comunicativas dos dias atuais, revivendo o histórico debate relacionado à mídia e à comunicação e sua relação com a cultura e a educação, relação que pode ser vista como incestuosa, ou, ao contrário, essencial. No campo da educação, a tríade cultura-comunicação-educação ainda inflama o debate entre apoiadores radicais e opositores igualmente radicais; entre aqueles que defendem as infindáveis possibilidades integrativas da aliança comunicação-cultura (Ferrés 2008) e aqueles que a condenam como conduzindo a um apocalipse de cultura homogeneizada que deveria ser mantida bem longe da educação (Fumaroli 2007).

As replicações e derivações deste debate – já dissecado pela Escola de Frankfurt e ao qual pouco foi acrescentado – poderiam se estender para sempre; mas começa a haver uma demanda generalizada de que certas responsabilidades e tomadas de decisão sejam adotadas em relação a essa nova realidade (UNESCO 2011). O presente trabalho apresenta e analisa algumas boas práticas que ligam a educação à diversidade cultural através de recursos digitais a fim de alcançar tal meta. Como pretendemos demonstrar através da análise de duas diferentes propostas educacionais apresentadas neste estudo, educação em diversidade cultural é um direito humano cultural ligado a metas educacionais básicas, tais como educação cultural, alfabetização midiática e competência digital.

I – Direitos culturais e diversidade cultural

A abordagem epistemológica e pedagógica adotada para a nossa análise é uma perspectiva de Direitos Humanos da educação e da diversidade cultural. Conforme estabelece a Declaração Universal sobre Diversidade Cultural da UNESCO no seu artigo 4 (intitulado “Os direitos humanos, garantias da diversidade cultural”), “A defesa da diversidade cultural é um imperativo ético, inseparável do respeito à dignidade humana. Ela implica o compromisso de respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais (…)” (UNESCO 2001).

Deve-se recordar que os Direitos Humanos são indivisíveis, sejam eles direitos civis e políticos, ou direitos econômicos, sociais e culturais; e não apenas indivisíveis, mas inter-relacionados e interdependentes. Até os anos 1990, como explica Janusz Symonides, “os direitos culturais eram frequentemente qualificados como uma ‘categoria subdesenvolvida’ dos direitos humanos. Eles eram mencionados junto com os direitos econômicos e sociais, mas de fato os direitos culturais não eram debatidos” (Symonides 1998).

Direitos culturais eram difíceis de defender inter alia porque não eram suficientemente definidos nos tratados internacionais. Eles exigiam um desenvolvimento mais conceitual e essa foi a importante tarefa assumida pela Assembleia Geral das Nações Unidas ao adotar o Pacto Internacional de 1966 sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (ONU 1966), assim como pela UNESCO e, particularmente, pelo Grupo de Friburgo em 1991. Porém, havia outra dificuldade também: o temor e as suspeitas dos Estados de que o reconhecimento do direito a distintas identidades culturais, o direito de identificação com grupos vulneráveis, em particular as minorias e os povos indígenas, pudesse encorajar a tendência à secessão e pôr em perigo a unidade nacional.

O terceiro problema importante foi que, através da aceitação do direito de todos a identidades culturais distintas, o reconhecimento de especificidades e diferenças culturais foi visto, às vezes, como uma justificativa para o relativismo cultural. Neste assunto, a World Commission on Culture and Development – Comissão Mundial sobre Cultura e Desenvolvimento – salientou no seu relatório “Nossa Diversidade Criadora” que “a dificuldade lógica e ética sobre o relativismo é que ela deve também endossar o absolutismo e o dogmatismo. (…) O relativismo cognitivo é uma bobagem, o relativismo moral é trágico” (World Commission on Culture and Development 1996).

A existência de diferenças culturais não deveria levar à rejeição de parte alguma dos direitos humanos universais. Em 1933, a Declaração de Viena, adotada por consenso pela Conferência Mundial dos Direitos Humanos, confirmou a universalidade dos direitos humanos e rejeitou a noção de relativismo cultural. A Declaração, em seu parágrafo 1, “reafirma o compromisso solene de todos os Estados de cumprir as suas obrigações para promover o respeito universal, a observância e a proteção de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais para todos (…)”. E enfatiza que “[a] natureza universal destes direitos e liberdades é inquestionável” (Nações Unidas 1993).

Depois de muito debate, o escopo dos direitos culturais hoje está baseado no próprio entendimento do termo “cultura”. Conforme esclareceu, em 1982, a Declaração da Cidade do México sobre Políticas Culturais da UNESCO:

(…) em seu sentido mais amplo, a cultura pode hoje ser considerada como o conjunto dos traços distintivos espirituais, materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social. Ela abrange não somente as artes e as letras, mas também modos de vida, direitos fundamentais do ser humano, sistemas de valores, tradições e crenças” (UNESCO 1982: Preâmbulo).

Estamos, portanto, falando de atividades criativas, artísticas e científicas, mas também sobre a soma das atividades humanas, a totalidade dos valores, conhecimentos e práticas. O Conselho de Direitos Humanos, através de sua resolução10/23 de 26 de março de 2009, estabeleceu, por um período de três anos, um “perito independente no campo dos direitos culturais”, com o mandato, inter alia, de:

  • Identificar boas práticas e obstáculos para a promoção e proteção de direitos culturais nos níveis local, nacional, regional e internacional;
  • Fomentar a adoção de medidas para a proteção desses direitos, entre outros submetendo propostas e/ou recomendações ao Conselho sobre possíveis ações a serem adotadas nesse âmbito;
  • Estudar a relação entre direitos culturais e diversidade cultural.

A adoção de uma definição mais ampla de “cultura”, a aceitação da diversidade cultural como parte essencial dos direitos culturais e os avanços na definição do direito de participar da vida cultural consagrada no artigo 15.1 (a) do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966 (Nações Unidas 1966), significa finalmente que os direitos culturais também abrangem outras questões correlatas, como o direito à educação. Conforme afirmou definitivamente o Comitê das Nações Unidas sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (CESCR – United Nations Committee on Economic, Social and Cultural Rights):

(b) O acesso cobre em particular o direito de cada um – sozinho, em associação com outros ou como uma comunidade – de conhecer e compreender sua própria cultura e a cultura de outros através da educação e informação, e de receber educação e treinamento de qualidade que levem devidamente em conta a identidade cultural. (CESCR 2009:4).

II – Educação em diversidade cultural como um direito cultural

O direito à educação, conforme entendido pelos Pactos Internacionais dos Direitos Humanos, inclui uma educação culturalmente apropriada.[2] Neste sentido, a educação responde “às necessidades dos alunos dentro de suas configurações sociais e culturais diversas”.[3] As preocupações relativas à diversidade cultural eram, em geral, limitadas à necessidade dos alunos de receber uma educação que respeitasse e estivesse de acordo com suas próprias culturas. A necessidade de “compreender (…) a importância da proteção e promoção da diversidade das expressões culturais (…) através de programas educacionais” (…) – conforme afirma o Art. 10 da Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade de Expressões Culturais (CDEC) de 2005 da UNESCO – não estava inicialmente no cerne do direito à educação. Foi através de mudanças no conceito de outro direito humano – o direito de participar da vida cultural – que preocupações relativas à diversidade cultural começaram a ser vistas como parte essencial das políticas de educação (Barreiro & Carbo 2015).

Hoje, conforme menciona a seção acima, faz parte do mandato do perito independente da ONU sobre direitos culturais estudar a relação entre os direitos culturais e a diversidade cultural, e esta é uma das questões mais importantes de que se deve tratar quando se trabalha com crianças e jovens. Como a CDEC também afirma, a pluralidade de culturas tem de ser vista como um fator positivo, levando ao diálogo intercultural. No mundo contemporâneo, as culturas não estão isoladas. Elas interagem pacificamente (ou não) e influenciam umas às outras. A dinâmica intercultural é posta em ação pelos processos contemporâneos de globalização, os quais levam, não sem tensão, à emergência, consolidação e reformulação de valores culturais e éticos específicos em nível local.

O CESCR na sua 43ª sessão, realizada de 2 a 20 de novembro de 2009, emitiu seu Comentário Geral No. 21, o qual afirma também que, quando se fala de melhores práticas para o diálogo intercultural, a educação é uma estratégia fundamental:

26. (…) os Estados-Partes deveriam tomar todas as medidas necessárias para estimular e desenvolver o pleno potencial das crianças no campo da vida cultural, com o devido respeito aos direitos e responsabilidades de seus pais e tutores. Em particular, quando levam em conta suas obrigações nos termos do Pacto e de outros instrumentos sobre direitos humanos relativas ao direito à educação, inclusive com respeito aos objetivos da educação,[4] os Estados deveriam lembrar-se de que a meta fundamental do desenvolvimento da educação é a transmissão e enriquecimento de valores culturais e morais comuns nos quais o indivíduo e a sociedade encontram sua identidade e dignidade.[5] Desse modo, a educação deve ser culturalmente apropriada, incluir a educação aos direitos humanos, capacitar as crianças a desenvolverem sua personalidade e identidade cultural e aprenderem e compreenderem os valores culturais e as práticas das comunidades à quais elas pertencem, bem como aquelas de outras comunidades e sociedades.” (UN CESCR 2009).

A diversidade cultural deve ser promovida e protegida através da educação como um direito cultural. “O Futuro que queremos inclui a cultura” é uma campanha dirigida pelas principais agências e entidades culturais civis do mundo. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Sustainable Development Goals – SDGs) aprovados em 27 de setembro de 2015 incluem um objetivo principal sobre “educação de qualidade” (SDG 4). Nos termos do Objetivo 4, a Meta 4.7 enfatiza a necessidade de a educação promover uma cultura de paz e não-violência, a cidadania global, e o apreço à diversidade cultural e à contribuição da cultura ao desenvolvimento sustentável. Precisamos, portanto, focar em direitos culturais, diversidade cultural e educação juntos e como um todo. Um quarto componente fundamental a ser levado em conta na era digital refere-se às indústrias culturais e à educação artística.

III – Diversidade cultural, indústrias culturais e educação artística

A educação em diversidade cultural a partir da perspectiva dos direitos culturais tem outro componente importante. A diversidade das expressões culturais é o alicerce da criatividade e da inovação. Ela estimula o pensamento lateral e interdisciplinar que é indispensável no novo contexto econômico e social (Alonso 2014: 28).

A Meta 8.3[6] dos SDGs sugere que criatividade e inovação deveriam ser estimuladas por políticas orientadas para o desenvolvimento, juntamente com atividades produtivas, criação de empregos decentes e empreendedorismo. Isto levanta precisamente a questão das políticas com respeito às indústrias culturais e criativas, ligadas à diversidade cultural e com um claro componente de tecnologias digitais. As indústrias culturais – que, geralmente, incluem impressão, edição e multimídia, produções audiovisuais e fonográficas, bem como artesanato e design – são fundamentais para o crescimento econômico e profissional na Europa e no mundo todo.

As artes e as expressões culturais jazem no coração de todas as sociedades e comunidades e elas significam uma oportunidade para os jovens se envolverem com o mercado de trabalho. Em termos de desenvolvimento e de futuras oportunidades de trabalho, a educação artística e estética é a chave para os jovens. Essa é uma das razões pelas quais os sistemas educacionais no mundo todo estão procurando por novas maneiras de ensinar e aprender novas abordagens do conhecimento através de linguagens como a música, a dança, o cinema, o teatro, etc.

O trabalho feito pela UNESCO em Lisboa e Seul com a “Agenda de Seul sobre Educação Artística” (UNESCO 2010a), o “Roteiro para a Educação Artística” (UNESCO 2006), bem como o relatório “O direito à liberdade de expressão artística e criatividade” da Relatora Especial no campo dos direitos culturais (Shaheed 2013) são, nesse sentido, extremamente importantes, pois conferem às políticas educacionais algumas tendências claras. Entre outras recomendações, o Relator Especial recomendou aos Estados:

(j) Desenvolver e melhorar a educação artística nas escolas e comunidades, incutindo respeito, apreciação e compreensão da criatividade artística, incluindo os conceitos evolutivos de aceitabilidade, e despertando a capacidade de ser criativo através da arte. A educação artística deveria dar aos alunos uma perspectiva histórica da evolução constante de mentalidades sobre o que é aceitável e o que é controverso (Shaheed 2013: §90).

Ademais, a “Agenda Seul: Metas para o Desenvolvimento da Educação Artística” (UNESCO 2010a) reflete a convicção de que

(…) a educação artística tem um papel importante a desempenhar na transformação construtiva dos sistemas educacionais que lutam para atender às necessidades dos alunos em um mundo em rápida mutação caracterizado por avanços notáveis em tecnologia, por um lado, e problemáticas injustiças sociais e culturais, por outro. Questões que diziam respeito ao IAC [International Advisory Committee – Conselho Consultivo Internacional] incluíam, sem limitar-se a elas, a paz, a diversidade cultural e a compreensão intercultural, bem como a necessidade de uma força de trabalho criativa e adaptável no contexto de economias pós-industriais”. (UNESCO 2010a: Preâmbulo).

IV – Tecnologias digitais como fator estratégico para alcançar metas educacionais contemporâneas

A diversidade cultural e a educação artística criativa dentro de uma perspectiva de direitos humanos têm, na era digital, a possibilidade de convergir e melhorar novas maneiras de ensinar e aprender. Através da análise de duas experiências diferentes, podemos afirmar hoje que a educação artística como recurso para a educação em diversidade cultural tem no mundo digital sua grande oportunidade. Uma ilustração pode ser encontrada em “Diversidades, o jogo da criatividade” e o projeto “Window to diversity” (Janela para a diversidade), ambos financiados pelo setor cultural da UNESCO.

A – O jogo da diversidade

“Diversidades, el juego de la creatividad” é uma coleção de materiais de ensino e uma proposta pedagógica que foca em jogo e educação, projetada para trabalhar com jovens os valores de proteção e promoção da diversidade cultural que foram acordados pelos Estados-Membros da UNESCO na Declaração Universal sobre Diversidade Cultural de 2001 e confirmados no ano de 2005 com a CDEC.

O programa procura ajudar jovens entre as idades de 12 e 16 anos a melhorarem, sob uma perspectiva de pluralidade, tolerância e democracia, sua compreensão da diversidade cultural como parte de sua vida cotidiana. Além disso, procura melhorar a sua compreensão da relação entre criatividade e diversidade cultural e da importância e utilidade de proteger e promover a diversidade das expressões culturais. Finalmente, o programa ensina o significado da CDEC em direito internacional e suas implicações para políticas e economias locais.

Ele envolve uma proposta baseada em educação e jogo em que os professores trabalham ao lado dos jovens participantes sobre eixos temáticos como: diversidade cultural, criatividade em expressões artísticas, políticas e medidas culturais, solidariedade e cooperação cultural.

Em “Diversidades, el Juego de la Creatividad”, o papel central desempenhado pelo website www.diversidades.net indica que sua metodologia é replicável e que o conhecimento gerado pode ser transferido sem grandes adaptações. Certamente, isso é uma grande vantagem. Ademais, ele não somente é transponível para diversos grupos educacionais, mas também fornece treinamento a novos treinadores.

O conteúdo é redigido de modo bastante acessível, para encorajar a participação de pessoas que começam a jogar. O respeito e a aceitação da diversidade percorrem todos os materiais, embora um passo adicional seja dado: construir a perspectiva de acordo com a qual a criatividade exige e é enriquecida pela diversidade. Esse conceito altamente complexo e multidimensional é tratado de maneira inteligente e de modo lúdico e eficaz. Sua abordagem é baseada em uma corrente lógica que vai da identificação da diversidade até a promoção da cooperação e da solidariedade: Eu – Nós – Um outro – Todos.

O jogo foca no direito de livre expressão pessoal e cultural e promove a diversidade de opiniões e o desenvolvimento de aptidões nessa área. Além disso, ele encoraja a participação ativa e igualitária dos participantes, seu desenvolvimento pessoal e a construção do indivíduo como um ser social neutro, autônomo e solidário.

Um kit e o website fornecem apoio aos treinadores e participantes. O kit também contém uma proposta específica para treinamento que pode ser usada juntamente com a implementação e o desenvolvimento do projeto educacional geral. Essa proposta educacional cobre um workshop de 10 horas para professores, educadores e/ou treinadores de treinadores que são conduzidos pelos produtores do material educacional.

O jogo “Diversidades” está disponível online e pode ser baixado de graça de qualquer lugar. Ele foi usado em escolas e outros estabelecimentos de ensino na Guatemala, na República Dominicana, no México, no Equador, no Uruguai e no Brasil. Na Europa, foi usado na Espanha, na França e na Áustria.

A segunda fase do projeto, também financiada pela UNESCO, envolve:

  • Preparar um manual para treinar treinadores sobre como usar o jogo “Diversidades” e continuar a criar comunidades educativas em vários países;
  • Converter o jogo em um recurso online que possa ser jogado na Internet. Isso ajudará países onde computadores são usados como ferramentas educacionais na sala de aula a usar o jogo “Diversidades” como forma de aprendizado integrada em seus planos de estudo.

B – Janela para a diversidade (We2Di)

We2Di (www.abrituventana.org) manifesta-se como uma possibilidade criativa para a juventude. O programa envolve criadores e empresários jovens de diversas origens culturais na realização de uma rede colaborativa e criativa baseada em TIC. Participantes do mundo todo aprendem em primeira mão a desenvolver e co-criar não somente uma coleção de peças de arte transmídia, mas um senso mais profundo de valores interculturais que afirmam a relevância da criatividade e da colaboração para resolver os desafios da atualidade em escala global.

Uma janela simboliza o limite entre as esferas pública e privada; representa o ponto de onde olhamos para fora para nossa vizinhança e, igualmente, nossa porção de espaço privado exposta ao público. Em contextos em que diferentes comunidades culturais compartilham o mesmo espaço, uma janela representa também como os outros veem uma comunidade, bem como o ponto de vista de onde seus membros olham para fora para ver o mundo em sua volta.

Esta parábola, no entanto, não necessariamente se apoia no mundo das ideias: nas sociedades multiculturais com origens conflituosas, abrigos secretos representavam um lugar onde os membros de uma dada cultura expressavam e desfrutavam suas tradições e práticas culturais. O sinal dos nossos tempos de certa forma expandiu nossa vizinhança para uma escala planetária: o que mostramos da nossa janela é virtualmente alcançável por – quase – todas as outras culturas do planeta. Entretanto, nossa percepção do outro é apenas uma porção de suas vidas reais cotidianas e de seus imaginários culturais.

Neste contexto da assim chamada Network Society, o dinamismo transcultural cresceu significativamente. Pessoas e notadamente os jovens interagem como um sistema vivo virtual interconectado que é constantemente recriado e recodificado por usuários seguidores de modelos, orientados para grupos e com tendências à autopromoção e certa idolatria individualista. Muito embora seus valores culturais centrais ainda existam por baixo desses perfis sociais, preconceito e informações tendenciosas sobre os outros são comumente encontrados quando se olha mais a fundo. Com as fronteiras da acessibilidade das TICs sendo constantemente expandidas, é chegada a hora de promover a criatividade intercultural entre os jovens tanto de culturas com pleno acesso à Internet como daquelas que estão apenas começando a utilizá-la.

Neste sentido, We2Di representa uma ferramenta que fomenta a capacidade de todas as culturas de colaborar, enquanto se envolvem – e aprendem – com os outros em igualdade, através de um meio bastante atraente para os jovens: arte e nova mídia. We2Di pavimenta o caminho para os jovens interiorizarem a arte como um processo de pensamento e se comportarem criativamente enquanto projetam suas carreiras e interagem com os outros. Desde 2014, a rede We2Di desenvolveu mais de 20 metodologias e as implementou colaborativamente com centenas de jovens de dezenas de culturas em 12 Estados e 3 continentes, da Indonésia à Argentina.

Em uma primeira etapa, Window to Diversity projetou e coorganizou, em parceria com organizações locais, um conjunto de atividades visando gerar um processo com grupos focais de jovens originários de culturas diversificadas, frequentemente provenientes de grupos marginalizados. O processo não terminou com as atividades programadas, mas, em vez disso, tornou-se um blueprint para futuras intervenções culturais dos participantes através do fomento de suas próprias metodologias replicáveis e escalonáveis. Como resultado, em uma segunda etapa, os membros da rede We2Di (grupo de ventaner@s) estão desenvolvendo e compartilhando suas metodologias com outros membros, expandindo os tópicos inicialmente propostos e diversificando as disciplinas artísticas e formas interativas de trabalhar em conjunto.

A We2DI está ajudando a construir as capacidades da juventude global de superar barreiras provenientes de suas origens culturais e socioeconômicas e de desenvolver sua imaginação por meio da colaboração em projetos artísticos que detêm potencial para serem replicados e melhorar a sociedade. Seguindo uma abordagem de inovação intercultural, a We2Di network está ainda elaborando um número crescente de metodologias cocriativas, inspiradas por ideias que variam do pós-estruturalismo aos laboratórios de aprendizagem cooperativa. Guiadas pelo aprender-fazendo, todas as experiências cocriativas modificam as bases técnicas, as experiências práticas e valores éticos dos participantes, conectando imaginários culturais através de criações artístico-colaborativas.

Conclusões

Os direitos humanos culturais estão claramente relacionados à proteção e promoção da diversidade cultural como estabelecem as distintas declarações e pactos das Nações Unidas e da UNESCO. O próximo passo nessa cadeia integra os avanços na definição e perspectivas dos direitos culturais, tornando a educação em diversidade cultural um direito cultural específico. Nesse estágio, educação artística e de criatividade aparece como uma abordagem pedagógica estratégica para o desenvolvimento de competências dos novos cidadãos, relacionadas com os valores do diálogo intercultural e, ao mesmo tempo, com as necessidades profissionais da economia criativa.

A Internet e o mundo digital aparecem, finalmente, como uma oportunidade de juntar os três componentes: diversidade cultural, criatividade e educação. Dois exemplos foram apresentados para entender as possibilidades dessa sinergia. A Internet é o lugar onde as culturas podem se comunicar e brincar a fim de aumentar a criatividade e os valores da compreensão intercultural. A premissa para tanto é, em última análise, uma perspectiva de direitos humanos culturais.

Abordagens pedagógicas baseadas na arte não se resumem apenas a ensinar técnicas de arte, mas, sim, em despertar cidadãos criativos que possam usar sua criatividade em todas as esferas da vida. Assim, a arte é o meio perfeito de despertar o pensamento criativo através do qual pessoas diferentes podem trabalhar juntas, fomentando a compreensão e a colaboração mútuas além do processo artístico em si. Essa abordagem incorpora uma estratégia relevante para envolver as pessoas em um processo de aprendizagem que ressalta a importância da diversidade cultural como fonte de compreensão mútua. Sob esta perspectiva, as iniciativas pedagógicas culturalmente diversas baseadas no digital detêm potencial para salvaguardar e promover direitos culturais.

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Weber S. (2007) The success of open source, Cambridge: Harvard University Press.


  1. Gemma Carbó Ribugent – Universidade de Girona, Cátedra UNESCO para Políticas Culturais e Cooperação. Guillermo Maceiras Gómez – Co-Fundador e Diretor Criativo da “Window to Diversity” (Janela para a Diversidade).
  2. Vejam, por exemplo, o ponto 6 (c) do Comentário Geral No. 13 sobre o direito à educação (Art. 13 do Pacto), pelo Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU (UN CESCR 1999) e Tomasevski, K. (2006).
  3. Ponto 6 (d) do supracitado Comentário Geral (UN CESCR 1999).
  4. Em particular, artigos 28 e 29 da Convenção sobre Direitos da Criança.
  5. Ver UNESCO (1990).
  6. A meta 8 dos SDGs trata de “crescimento econômico contínuo, sustentável e inclusivo, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos”.


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