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16 Para uma polícia crítica

Justiça, política e imprensa na Revista Criminal (Rio de Janeiro, 1927-1935)[1]

Cristiana Schettini

Uma visão panorâmica

Quando saiu à luz, a meados de agosto de 1927, a Revista Criminal expressava grandes expectativas de seus criadores. Sua cuidada edição em papel couché trazia fartas ilustrações. A capa em tricomia exibia o retrato do Ministro Godofredo Cunha, do Supremo Tribunal Federal. Ao seu lado, a figura feminina da Justiça vendada portava uma espada em uma mão e a tábua da lei em outra. Nesse primeiro número, a Justiça estava coroada com o brasão republicano, de onde surgiam os raios de um sol amarelo. Nos números posteriores, coloridas capas voltariam a estampar as fotos das mais altas autoridades do Poder Judiciário brasileiro junto com diversas referências iconográficas da Justiça.

A publicação propunha-se a abordar “assuntos policiais” e “questões forenses” de forma conjunta, como partes do mundo do direito criminal. Entre os doze objetivos listados no número inaugural, destacava-se o de “agitar os problemas concernentes à organização e finalidade da justiça criminal e da polícia”, o que incluía a discussão dos crimes a partir de “critérios técnicos” e a difusão dos “julgados e estudos criminais” e da “jurisprudência criminal”. Além disso, também se dedicaria a “publicar e criticar os atos oficiais que digam respeito à justiça criminal, bem como os emanados da administração policial”.[2] Estas intenções se traduziram na persistência de certas seções fixas que persistiram durante toda sua existência: jurisprudência, movimento mensal do júri, o artigo de fundo, sempre dedicado a debates da organização policial, e artigos assinados por profissionais do direito, com estudos técnicos ou intervenções em debates legais do momento. Outras seções foram características de certas fases, como a galeria de indesejáveis, com fotos policiais de homens e mulheres afetados pela aplicação da lei de expulsão.[3]

O aparecimento da Revista Criminal foi saudado pela imprensa carioca como uma novidade: qualificada por algum jornal como a primeira deste tipo no Brasil, era apresentada por outro como uma “curiosa publicação”, enquanto um terceiro expressava o desejo de que ela viesse a saldar uma “lacuna existente em nossa imprensa”. A Notícia preconizava que seu público alvo seria diversificado, abarcando pelo menos três perfis distintos de leitores: as “autoridades”, aqueles que “estudam questões jurídicas”, e também os que “gostam de acompanhar o noticiário dos crimes que maior emoção causam no espírito público”.[4] O último grupo seguramente estaria atraído pelo seu “aspecto gráfico”, cuja qualidade foi observada em diversos comentários e constituía, observava outro resenhista, “um ótimo e instrutivo passatempo”.[5] O “abundante serviço fotográfico” que enchia suas páginas devia muito à produção fotográfica proveniente diretamente dos registros policiais. Primeiros planos de cadáveres conviviam com a reconstituição policial de crimes, disposta nas páginas centrais da revista a modo de fotonovela. As chamativas e sangrentas fotografias dividiam espaço com sóbrios retratos dos autores de artigos dedicados a questões do direito criminal e com as ornamentadas galerias fotográficas: a mais frequente era a de “indesejáveis”, mas também apareceram galerias de “criadas ladras”, de “ladrões, vigaristas e passadores de conto do vigário”, e de “ladrões descuidistas, espiantadores e ratos de hotéis”, todas resultado do trabalho da 2a delegacia auxiliar.[6]

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Galeria de indesejáveis, montada com as fotos da leva mais recente de deportados pela 2a Delegacia Auxiliar. Revista Criminal, n.4, 1/9/1927, p.35.

As notícias sobre crimes passionais, estranhos e misteriosos dividiam espaço com detalhados pareceres e sentenças sobre as questões mais disputadas do direito criminal. A prerrogativa do poder executivo de expulsar estrangeiros “indesejáveis”, assim como a concessão de habeas corpus e sursis, constituíam algumas das questões fundamentais sobre as que convergiam a tensão entre os poderes policial e judicial. Junto com os incisivos comentários sobre os últimos projetos de reorganização da repartição policial publicados nos artigos de fundo, estas páginas constituem um retrato da opinião de um conjunto de homens próximos à polícia no conturbado final dos anos 1920.

Ao completar um ano de existência, a publicação de um índice alfabético e remissivo dos artigos de direito e da jurisprudência comprovava a intenção de que a Revista funcionasse sobretudo como um compêndio de jurisprudência criminal. Ao mesmo tempo, foi anunciada a venda de um volume encadernado com os exemplares do ano completo, para facilitar a consulta por parte dos interessados, prática habitual entre outras publicações. Seus números eram vendidos em forma avulsa em postos de venda de jornais e revistas pelo valor de 1$500 (e quando passou a ser mensal, a fins de 1927, por 2$000), e também podiam ser adquiridos por assinatura e através de representantes nos estados, como São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco.[7] A ampla divulgação geográfica de debates legais, em especial aqueles que incidiam na delicada relação entre poder policial e o judiciário, transformou-se numa das marcas da revista. Ao saudar seu primeiro aniversário, O Paiz destacou a “valiosa contribuição ao nosso país” de ter “codificado a jurisprudência criminal brasileira”, num formato de “fácil manuseio” e “adquirível a todos os bolsos”.[8]

Em 1929, a aparição de uma revista homônima em Recife talvez possa ser tomada como um indício da repercussão da original carioca.[9] A congênere pernambucana também resultava da associação entre profissionais da polícia (um inspetor geral da polícia pernambucana) e da imprensa (o redator policial do jornal A Província). Tal como a Revista Criminal, ela também se dedicava a compilar jurisprudência dos tribunais, neste caso, pernambucanos. Mas em pouco tempo, talvez em resposta a alguma queixa, a revista recifense mudou seu nome para “Polícia e Justiça”.

Durante o primeiro período de publicação ininterrupta, entre julho de 1927 e outubro de 1930, quando teve sua redação destruída em meio aos acontecimentos que levaram Getúlio Vargas ao poder, a Revista Criminal carioca passou por algumas mudanças organizativas. Uma delas foi a periodicidade: tendo começado como um “quinzenário noticioso, doutrinário e ilustrado”, a partir de dezembro de 1927 passou a ser um “mensário jurídico e ilustrado”. Seu corpo diretivo também sofreu uma reorganização. Nos primeiros números, o nome do coronel Bandeira de Mello encimava a primeira página como “Presidente”. Visto naquele momento como uma “velha e experimentada” autoridade da Polícia Militar do Rio de Janeiro, nome feito “nas rodas policiais do país”, seu nome outorgava prestígio e hierarquia policial à revista.[10] Sua presença talvez também a pusesse na linha das publicações ideadas nas décadas anteriores para os membros da polícia militar, tal como a Revista Policial, de 1903, dirigida ao “soldado policial”, ou a Guia Policial, de 1910, da qual participara Bandeira de Mello. Marcos Bretas observou que, em sua breve passagem pela 4a Delegacia Auxiliar em 1926, Bandeira de Mello defendeu que a polícia devia priorizar a investigação criminal, criticando os magros resultados do acionar policial sobre temas políticos. Ele também dirigiu a Assistência da Polícia Militar, área responsável por todo o movimento de entrada, saída e licenças do pessoal da força militar. [11]

Nesses primeiros números, completavam o corpo diretivo o inspetor de segurança pública Raul Ribeiro, que também atuava na revista Vida Policial, e o jornalista Sylvio Terra.[12] Mas a alma da publicação era mesmo o “advogado e jornalista” Claudino Victor do Espírito Santo.[13] Claudino pertencia a uma família policial: seu irmão era comissário e ele mesmo foi escrivão interino da polícia no começo da década de 1920, e depois delegado do 20o Distrito Policial, cargo que o levou a deixar de atuar como advogado durante um breve período.[14] Em 1932, seu nome aparecia como conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Naquela ocasião, foi identificado como “redator da Revista Criminal, antigo jornalista, repórter e colaborador de vários jornais”.[15]

A identificação entre Claudino Victor do Espírito Santo e seu irmão, o comissário Victor do Espírito Santo, com a identidade da revista intensificou-se quando a empresa responsável alterou sua firma social para “Espírito Santo & C.”, em março de 1929. Claudino Victor manteve-se como diretor responsável e o inspetor Raul Ribeiro como gerente. Já Bandeira de Mello desapareceu dos registros, talvez como um sintoma da tendência de afastamento da revista das autoridades policiais que se intensificaria nos anos seguintes.

A empresa proprietária da Revista Criminal não sofreu alterações durante o período em que ela deixou de sair, entre outubro de 1930 e meados de 1934. No breve período final de sua existência, a Revista parece ter contado com o apoio de uma mulher, Indiana Nery, mencionada como “contabilista” e “gerente”. A associação entre os irmãos sobreviveu à publicação, como se pode observar pelo anúncio do escritório de advocacia que os dois dividiam na rua da Quitanda em 1940.[16]

Pode-se dizer que os irmãos foram os principais responsáveis pelo tom da revista, sua concepção, execução e alterações. Enquanto na primeira fase seu conteúdo se dirigia a um público mais diversificado, na segunda o perfil de leitor especialista em temas do direito penal parece ter sido predominante. Em nota comemorativa do último aniversário de que temos notícia, em 1935, Claudino Victor celebrava o interesse que ela provocava a “quantos se dedicam à especialidade, notadamente os advogados militantes que nela encontram verdadeiros ensinamentos para o desenvolvimento de suas teses”.[17] Significativamente, muitos anos depois de interrompida sua publicação, em 1943, reencontramos o “advogado e jornalista” Victor do Espírito Santo protagonizando uma reportagem especial sobre seu particular “bureau”, montado a partir da acumulação sistemática de material sobre direito e justiça criminal ao longo das duas décadas anteriores, que incluía exemplares de obras de direito internacional, do Boletim Oficial, ampla jurisprudência, catálogos e fichas – tudo posto a serviço de advogados, jornalistas, ou qualquer interessado em pesquisar sobre algum tema específico.[18] A preocupação em organizar e disponibilizar tamanho volume de informação parecia indicar muitos anos de sua vida dedicados à coleção de dados e uma convicção sobre a importância de garantir um acesso amplo ao mundo do direito, especialmente por parte de advogados distantes da Capital e com poucos recursos.

Em 1927, nada levava a suspeitar as dificuldades que se avizinhavam no futuro próximo. Mas a existência da revista, finalmente, resultaria ser breve e acidentada, interrompida pelos acontecimentos de outubro de 1930, quando um movimento armado sob a liderança de Getúlio Vargas impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e deu fim ao período conhecido como Primeira República. Em meio aos “entusiasmos populares” do dia 24 de outubro, que terminou com a deposição do presidente Washington Luís, vários jornais governistas foram destruídos, entre os quais A Notícia, que ocupava o térreo do edifício em cujo segundo andar funcionavam a redação da Revista Criminal e também o escritório de advocacia de Claudino Victor. Na confusão do momento, o incidente pareceu ser o resultado de um engano dos “populares”, que teriam pensado que as instalações da revista fossem parte do jornal A Notícia. No entanto, ao solicitar a abertura de um inquérito policial para esclarecer o episódio, Claudino do Espírito Santo sugeriu que os “autores do saque” não foram os que se levantaram contra o governo, já que todos sabiam que ele teve “toda a sua família presa e perseguida pelo governo deposto”. Provavelmente fazia referência às prisões em massa ocorridas nos momentos prévios ao levantamento de Vargas, que afetou vários e seus parentes que trabalhavam na polícia e na imprensa. No episódio da depredação da Revista Criminal, chamava sua atenção o desaparecimento de “documentos e objetos”, numa sutil sugestão de que talvez mediasse algum outro interesse escuso no caso.[19]

Em outubro de 1934, a Revista Criminal voltou a ser publicada, aparentemente com a mesma combinação que a fizera conhecida em sua primeira época: farto “serviço fotográfico”, jurisprudência, notas judiciais e policiais. Em 1935 foram localizados seus últimos números, embora referências esparsas a ela apareçam na imprensa brasileira por alguns anos mais. Algumas mudanças nessa segunda fase chamam a atenção para as consequências do distanciamento das atividades, não só daquela segunda delegacia auxiliar de 1927-28, mas também da instituição policial depois de 1930. As vistosas galerias de criminosos e indesejáveis, assim como o grande destaque dado à cobertura de crimes locais investigados pela 2a Delegacia Auxiliar, em especial o jogo do bicho e os processos de lenocínio, característicos da primeira fase, cederam lugar a uma crescente ênfase na jurisprudência e debates legais. Passado o impacto da reviravolta política em 1930, e como resultado da crise econômica que se abateu “sobre o comércio”, tornaram-se visíveis crescentes dificuldades financeiras, visíveis na diminuição de vendas por assinaturas, na queda de anunciantes, e no atraso na periodicidade. Nessas circunstâncias, os seus responsáveis ressentiam-se principalmente da falta de apoio das instituições: “nosso periódico (…) não conta com a menor boa vontade de qualquer dos governos, quer federal, quer estaduais, que nem simples assinaturas para as autoridades judiciárias e policiais tomam como ocorre em outros países intensificadores de empreendimentos dessa natureza”.[20] Já distante do espírito crítico e das expectativas dos primeiros números, do interesse insuficiente do público leitor que consumia as imagens coloridas e fotografias impressionantes, e sem contar com o auxílio das autoridades, a revista foi definhando.

Esta acidentada trajetória, juntamente com os números que sobreviveram ao tempo, contam-nos muitas histórias. Este texto chama a atenção para a utilidade de um enfoque que examine os posicionamentos, opções, imagens, e discursos impressos nas páginas da Revista Criminal à luz dos indícios sobre sus produtores e suas experiências sociais, em especial durante o primeiro período de publicação ininterrupta. Como protagonistas destas histórias, Claudino e seu irmão Victor conectam, em suas próprias trajetórias, os mundos do trabalho policial (e das políticas internas da corporação), da Justiça Criminal e da imprensa massiva no período do entreguerras. Na linha dos historiadores que vêm apostando nas possibilidades de tratar estes âmbitos em conjunto, e não como universos separados, este texto sugere que a Revista Criminal pode ser considerada como um registro de como estas dimensões se imbricavam na experiência de seus idealizadores e executores, em suas próprias identidades profissionais e na construção de suas imagens públicas.[21]

Nas próximas páginas, este texto enfoca alguns momentos de confluência dessas dimensões. Para isso, examina certos episódio que expressam tensões constitutivas da imagem pública da Revista. Considera que esta imagem foi articulada a partir da intervenção de seus colaboradores e também da relação entre estes e seus diversos interlocutores: em particular, na sua primeira fase, a campanha do jogo do bicho, o uso de ilustrações provenientes das repartições policiais, e a construção do tom sensacional e escandaloso das principais notícias. Como resultado, argumenta-se que a Revista Criminal expressou a sociabilidade, o trabalho e as visões de um grupo identificado, em torno a 1927, com a ação do 2o delegado auxiliar, Renato Bittencourt. A partir de então, nos anos seguintes, ela expressou as consequências do distanciamento. Neste sentido, a revista constitui uma fonte particularmente prolífica para abordar a funcionários policiais em relações políticas e sociais mais amplas.

Colaboradores habituais versus bicheiros e juízes

A identificação do corpo diretivo da Revista Criminal permite uma primeira aproximação do perfil dos seus colaboradores. Assim como Raul Ribeiro dividia-se entre a Vida Policial e a Revista Criminal, também o datiloscopista Claudio de Mendonça participava de ambas publicações, às vezes com notas assinadas, outras sob o pseudônimo de Caius Martius.[22] Suas contribuições podiam aparecer na forma de folhetins, como a história de “Miss Bianca – detetive amadora”, numa história que envolvia a figura de criados ladrões, justamente em momentos em que a 2a Delegacia Auxiliar começava uma campanha contra este tipo de delito; ou também em artigos de opinião, como aquele intitulado “A ditadura policial”, em que defendia o reestabelecimento do inquérito como um modo de definir melhor as atribuições policiais. Profissionais do direito, como o advogado Mario Gameiro e Paulo Maria de Lacerda, “jovem avaliador oficial do Foro Civil” e envolvido em um “crime passional”, também colaboraram na revista. O primeiro usou suas páginas para polemizar com um juiz, enquanto o segundo buscou defender sua honra, empregando o jornal para publicitar sua absolvição num caso de um “crime passional” que ganhou fama.[23]

O comissário Victor do Espírito Santo, irmão do diretor Claudino Victor, rapidamente transformou-se em frequentador habitual de mais de uma seção. Como comissário atuante na campanha promovida pela 2a Delegacia Auxiliar contra o jogo do bicho, ele foi um protagonista recorrente da seção intitulada “Incidentes inéditos na campanha contra o jogo”, assinada por um certo “João Repórter”. O tom da coluna era similar a um folhetim. Assim como cada número trazia ao final histórias em capítulos de detetives e mistério, a seção de João Repórter iluminava, com humor, os périplos dos comissários a serviço do 2o delegado auxiliar.[24] O leitor ou a leitora curiosos, assim, poderiam conhecer o funcionamento informal e cotidiano do grupo de homens que se reuniam para pôr em prática a campanha policial. É o caso do comissário Mario Serpa, sobre quem corria um rumor de que teria “fechado o corpo” com um “mandingueiro do Catumbi”, tal era sua capacidade de sair ileso em situações arriscadas. A verdade, esclarecia o autor da nota, é que sendo “macaco velho”, aos 49 anos, ele sabia a importância de “não meter a mão em cumbuca”.[25] Pode-se conjecturar sobre o sentido da expressão. De forma explícita, valorizava um saber construído na experiência das ruas. Ao mesmo tempo parecia sugerir sua sabedoria em não avançar em suas atribuições, ou talvez, não registrar o que não fosse conveniente; ou ainda, quiçá, não aceitar suborno. Em qualquer caso, estas observações e casos transformavam a coluna em lugar de criação de uma espécie de folclore do trabalho policial.

Ao mesmo tempo, episódios pitorescos ou engraçados revelavam a dinâmica social própria do jogo do bicho. O relato da perseguição de um bicheiro por um comissário no começo de 1928 deve ter divertido a mais de um leitor. O comissário corria e gritava “Pega ladrão”, até que o perseguido, a ponto de ser linchado pelos “populares”, esclareceu que não era “ladrão” e sim “bicheiro”. Com isso, conseguiu transformar a “cólera” generalizada em “simpatia e solidariedade”.[26] De fato, em muitos casos, reconhecia-se a ambivalência policial e a ampla aceitação social do jogo do bicho como parte da realidade. O tom amável e humorístico da coluna podia contemplar alguns sentidos sociais do jogo, mas silenciava, de acordo com a acusação de um jornalista que escrevia em outra publicação, a meados de 1928, sobre os “incidentes” que só “desmoralizam a polícia”, mais graves e talvez mais ridículos para a imagem pública da revista do que aqueles narrados por “João Repórter”.[27]

Os casos relatados apelavam a um imaginado leitor simpático aos comissários, disposto a solidarizar-se e também a compartilhar seu sentido de humor frente às não poucas dificuldades encontradas em seu acionar cotidiano. Em novembro de 1927, por exemplo, a coluna reproduzia um suposto diálogo entre dois comissários e um desembargador da Corte de Apelação sobre a falta de respaldo judicial à ação da polícia. Enquanto conversavam, os três observavam um bicheiro absolvido que atravessava tranquilamente a rua.[28] O caso se inseria numa crescente tensão entre as autoridades policiais, em especial as da 2a Auxiliar, e certas autoridades judiciárias, como o desembargador Vicente Piragibe na Corte de Apelação. Em suas sentenças e pareceres, Piragibe andava expressando críticas aos abusos da campanha da 2a Delegacia Auxiliar, com grande repercussão positiva na imprensa.[29]

Não por acaso, foi devido ao jogo do bicho que Claudino e Victor do Espírito Santo começaram a assinar cada vez mais as colunas habitualmente ocupadas por profissionais do direito para expressar suas opiniões e críticas. Nos dois primeiros anos da revista, o comissário Victor foi alvo de diversas ações judiciais, algumas das quais no marco deste questionamento judicial sobre as medidas da 2a Auxiliar na campanha do jogo do bicho. Em suas notas de defesa, ele argumentava que teria se transformado em vítima preferencial dos “bicheiros e seus comensais”, hábeis em usar o poder judiciário para empreender uma perseguição contra ele e sua família. Situações confusas como a de prisão de contraventores que terminavam em agressões físicas iam transformando o comissário Victor em réu de causas judiciais diversas e às vezes simultâneas.

As peripécias de Victor não tardaram em atingir Claudino, que terminou tendo que responder a um processo de “injúrias e calúnias” movido contra ele pelo juiz da 3a Pretoria Criminal, Santos Netto, com quem havia trocado violentos insultos em uma discussão sobre seu irmão. Durante vários números, Claudino usou o espaço da Revista Criminal para dissecar a péssima atuação de Santo Netto à frente da 3a Pretoria Criminal, acusando-o de parcialidade e ignorância dos procedimentos judiciais. Claudino foi condenado em grau mínimo pelo respeitado juiz Eurico Cruz, que faleceu pouco depois da sentença. Em homenagem póstuma ao juiz, ele usou o espaço da revista para narrar uma suposta conversa entre ambos, em que o juiz lhe explicou as razões de sua decisão: um pouco tratava-se do que Claudino denominou “espírito de classe”; um pouco se devia às palavras insultantes efetivamente usadas contra o pretor, inclusive nas páginas da revista. Mas o juiz elogiava-lhe a atitude de defender seu irmão, “modesto comissário de polícia”. Principalmente, Claudino homenageava o sentido de justiça de Eurico Cruz frente aos delinquentes não profissionais, registrado em sua tendência de favorecer sua liberdade com a concessão de sursis.[30] Assim, embora o texto reiterasse seus motivos, também expressava sua deferência pelos princípios reitores do poder judicial, reforçando esta relação de respeito como uma das marcas da revista.

Para o comissário Victor, a situação tornou-se insustentável a tal ponto que no começo de 1928, ele mencionou em uma nota seu interesse em deixar a atividade policial, intuito no qual aparentemente foi impedido pelos seus superiores. Todos os processos movidos contra ele tinham por único objetivo o de “me afastar da comissão a que, contra a minha vontade, fui levado e em que, graças à confiança de meus superiores, ainda me encontro, muito embora já por diversas vezes tenha procurado dela afastar-me”. Nos artigos que assinou na Revista Criminal, ele sempre se apresentava como um obediente cumpridor de ordens superiores, preso entre os interesses de seus chefes por um lado e os banqueiros do bicho por outro. Ao ser condenado pela Corte de Apelação por ter exorbitado de suas funções e ferido um homem a tiro no começo de 1929, ele considerou que o seu “imperdoável crime” foi apenas o de “ser honesto, de bem cumprir os meus deveres”, numa “terra onde a prevaricação é a senha com que se galgam os mais altos postos”.[31]

Claudino Victor também se apresentava como uma vítima de muitos ataques: num momento em que o chefe de polícia Coriolano Góes expedira uma circular em que impedia “os excessos da imprensa”, gerando a fúria dos jornalistas, Claudino passou a ser alvo de ataques furibundos de seus colegas de imprensa, “pelo fato de estar no exercício do cargo de delegado de polícia”, de se recursar a atender seus pedidos. Por um lado, assim, padecia a incompreensão e ataques de seus colegas jornalistas. Por outro, enfrentava a humilhação e pressão do juiz pretor Santos Netto, que o obrigou a entregar-lhe sua Smith, e o prendeu por desacato. Ao apresentar-se como vítima de tantas injustiças, Claudino optou por refugiar-se na dignidade de sua identidade como policial. Quando concluía uma das muitas notas publicadas na revista sobre sua situação, ele se lembrou de um companheiro Cordoval, cabo militar morto no confronto com um “facínora”, e arrematou seu escrito com as seguintes palavras: “Todos os do Partido Radical da polícia lastimavam a morte do brioso militar e admirável policial (…) “o Cordoval está bem junto de mim”, enquanto o Santos Netto “é que está morto mas insepulto”.[32]

Enquanto isso, em outras colunas, os colaboradores da Revista Criminal transcreviam e criticavam as decisões do desembargador Vicente Piragibe que ajudava a absolver contraventores de jogo do bicho por falta de provas ou por suspeita de abusos policiais. Ao criticar a boa acolhida das opiniões de Piragibe por parte da maior parte da imprensa carioca, o comissário Victor do Espírito Santo o acusava de “desprestigiar a repartição” e favorecer os bicheiros, além de agir de acordo com seus próprios interesses no panorama político do estado do Rio de Janeiro.[33] As notas assinadas por Claudino, Victor e seus companheiros, assim, revelavam a convivência entre uma profunda crença no sistema judicial e policial e diversas tensões cotidianas com juízes e autoridades policiais de carne e osso. Neste sentido, o espaço da Revista Criminal era também uma oportunidade para intervir no candente debate sobre as tensões entre polícia, justiça e imprensa. A referência ao “Partido Radical da Polícia”, então, merece ser melhor indagada. Claudino, seu irmão Victor e outros comissários e delegados tiveram pretensões de organizar-se politicamente naqueles anos finais da década de 1920?

O projeto de uma publicação crítica

Aquela menção ao “Partido Radical” não passou despercebida. No número seguinte, a necessidade de justificar o uso da expressão sugeria a dura reação que a referência provocou na imprensa carioca. Longe de organizar a polícia de forma partidária, defendia-se o redator, ele quis aludir à iniciativa de “alguns temperamentos combativos e estudiosos da Polícia” que trabalham para que “esta se aproxime do que deveria ser, em eficiência, moralidade e organização…”. Um radicalismo deste tipo, que expressava a união de vontades individuais dedicadas ao aperfeiçoamento policial, “não é censurável, e para a coisa pública bem seria, até, que todas as repartições oficiais lhe sentissem a presença e influência”.[34] Retomava, assim, o propósito “crítico” anunciado no primeiro número, em que se explicava que seu sentido de “estudo, análise”, não entrava em tensão com “qualquer cargo policial”. Pior seria discordar “nas trevas, acobertadamente, sem objetivos construtores…”. Assim, entre as fotos de crimes sangrentos e a transcrição de jurisprudência, emergem nas páginas da revista algumas linhas básicas do pensamento do “núcleo combativo” desses policiais que circulavam pelas delegacias ao mesmo tempo em que também habitavam as redações cariocas e os escritórios de advocacia.

Durante os primeiros dois anos de existência da revista, os artigos de fundo foram sempre dedicados a tecer comentários “críticos” e “radicais” aos assuntos policiais. Aos poucos, eles foram expressando um progressivo distanciamento de seus superiores. Assim, no seu primeiro número, a revista trazia uma nota de elogio aos “melhoramentos introduzidos na atual administração policial” do Dr. Coriolano Góes, em especial o traslado de cadáveres, loucos e doentes. O apoio às iniciativas e campanhas da “Polícia Central”, em especial por intermédio das delegacias auxiliares, principalmente a 1a e 2a, contrastava com três focos recorrentes de crítica: a inação das delegacias distritais, a lentidão e ineficácia do acionar judicial, e o desserviço prestado pela imprensa. A postura era condizente com o amplo destaque dado aos expulsos, cujas fotos apareciam em galerias adornadas com desenhos de navios partindo, e desenhos de tipos “malfeitores”, às que, a partir de fins de 1927, se somariam as galerias de bicheiros, decoradas por verdadeiros zoológicos.

Mesmo neste momento, o respaldo às campanhas da 2a auxiliar convivia com críticas que às vezes se voltavam às máximas autoridades do poder executivo e a outros setores da própria força policial. Já no segundo número, a revista permitia-se duvidar do teor do discurso do presidente da república Washington Luís ao Congresso Nacional, sobre a possibilidade de se reformar a polícia sem aumentar o gasto público. Era a oportunidade para trazer à tona assuntos trabalhistas, como salários, aposentadorias, condições de trabalho e carreira, que ocupavam as cabeças e os bolsos dos colaboradores.[35] Alguns números depois, o artigo de fundo retomava o exemplo, considerado bem sucedido, da aplicação da lei de expulsão de estrangeiros de 1907, para defender que a especialização da polícia de investigação vigente naquele momento era eficaz graças ao trabalho de “boa memória, visão segura, hábil coordenação de dados e informações” que garantia o “escrúpulo e acerto” da prerrogativa policial de expulsar os estrangeiros indesejáveis.[36] Toda essa suposta eficácia, desmentida de resto pelos pedidos de habeas corpus em favor dos estrangeiros expulsos, ocorreria apesar das reiteradas más condições materiais: delegacias distritais despejadas por falta de pago de aluguel, uso de “homens com investidura policial” para outras tarefas.[37] A 2a Delegacia Auxiliar parecia um oásis, onde predominava a “polícia técnica”, “de investigação”, “especializada”, que contrastava com a incapacidade das autoridades dos distritos: enquanto os funcionários da 2a Auxiliar “encontram os contraventores em ação nos distritos”, as autoridades locais “nunca os surpreendem e nada vêm…”. Tratava-se de uma rara oportunidade em que a reiteração ad nauseaum da falta de leis apropriadas para a ação policial, frequente em todos os escritos produzidos pela polícia, dava lugar a um argumento sobre a necessidade de um policial bem escolhido e bem formado: “a base do mal não é originada na falta de leis, mas da admissão imprópria de funcionários”, decretava-se.[38]

Quando começou 1929, a decepção com o governo de Washington Luis e com a gestão de Coriolano Góes, “moço vindo da polícia paulista, cheio de ideias novas e amparado diretamente pelo chefe da nação”, tornou-se patente. As “esperanças de melhores dias” com a promessa de uma esperada reforma policial deram lugar a uma piora ainda maior das condições de salário e de trabalho do funcionalismo policial, junto com o “indiferentismo lamentável de seus dirigentes pelos mais abnegados de seus servidores”, abandonados por parte dos “maiorais da polícia”. Talvez fosse a recente condenação de seu irmão por parte da Corte de Apelação que inspirava tão amargas palavras. Mas a decepção parecia superar o caso individual. Ao comentar a mensagem presidencial de 1929, o redator criticava a quase nula menção ao sistema judiciário e à polícia. A esperança estava posta em seu sucessor.

Se o próprio poder executivo não cuidava da polícia, a situação só piorava quando o Judiciário e a imprensa se uniam a este quadro. Por um lado, criticava-se a falta de atenção ao sistema judicial, que continuava sendo inexplicavelmente caro e lento.[39] De fato, era habitual nas páginas da revista a defesa do acesso amplo à justiça, base da atuação de Claudino Victor como advogado, e dos inúmeros pedidos de habeas corpus impetrados por ele naqueles conturbados anos finais da década de 1920.[40] Uma parte dos casos que serviriam para o “passatempo” de um público mais amplo referia-se justamente a pessoas e situações que não se enquadravam no perfil de “delinquentes profissionais”, candidatos, portanto, a recursos como sursis, fiança, ou habeas corpus. Por outro lado, como se viu, criticava-se a postura de magistrados como Vicente Piragibe, cujas decisões não fariam mais que desprestigiar a repartição policial.

A necessidade da expressão política da postura de cabos, comissários e delegados já havia sido formulada por ocasião da morte do cabo Cordovil. Embora seu assassino tenha sido o delinquente “Colibri”, os redatores da revista não deixaram passar a oportunidade de responsabilizar “alguns dos nossos juízes do crime e de certa imprensa venalíssima”, cujos “relatos infiéis” e “comentários cheios de aleivosias” só pioravam as coisas.[41] Absolvições inexplicáveis, insultos e acusações sistemáticas não só eram injustos, mas contribuíam para abandonar os investigadores policiais, já com poucos recursos materiais, a uma situação de vulnerabilidade pública permanente.[42] A sorte, como a nota de comemoração de um ano de existência expressava claramente, foi a possibilidade e de contar com o “decidido apoio” do chefe de polícia Coriolano Góes num primeiro momento, que vinha facilitando, “diretamente e por intermédio de seus auxiliares imediatos, a realização do nosso objetivo, de modo que passamos a ser distinguidos com informações de grande preciosidade para a tranquilidade social, mormente no que diz respeito às medidas de natureza preventiva”.[43]

Mas ao entrar em seu terceiro ano de existência, a situação mudara. Já não contavam com o apoio das autoridades. Aparentemente, consideravam que “as assinaturas tomadas à Revista Criminal constituíam uma espécie de suborno para o silêncio referente às suas faltas”, quando na verdade, defendiam seus redatores, a publicação jamais teria assumido esse tipo de função, já que publicava “casos, decisões e apreciações” favoráveis e contrárias a qualquer autoridade e aos seus próprios proprietários.[44]

À medida em que a situação material foi se complicando, entre o distanciamento das autoridades, a queda das vendas, e os imprevistos acontecimentos de outubro de 1930, tornaram-se visíveis algumas tensões decorrentes da estranha situação de ser crítica à imprensa e ao mesmo tempo recorrer a alguns de seus expedientes comerciais.

Entre anunciantes, ilustrações e personagens

A situação particular dos redatores da Revista Criminal enquanto contaram, num primeiro momento, com os favores das autoridades policiais, além das vantagens de sua própria participação na 2a Delegacia Auxiliar, gerou algumas ocasiões públicas de atrito. Uma delas foi registrada a um ano de existência da revista, a meados de 1928, quando seus redatores viram-se obrigados a alertar seus anunciantes sobre alguns “velhacos” cuja audácia chegava ao ponto de falsificar a assinatura do Raul Ribeiro, o diretor gerente. Esses “espertalhões” não só estavam tomando assinaturas em nome da Revista Criminal, mas também “assumindo compromissos” e realizando “chantagens” sobre suas vítimas, escolhidas “notadamente entre os proprietários das casas de bilhetes de loterias”.[45] Transformados de arautos da ordem em vítimas, os redatores da revista iluminavam, com sua denúncia, uma das possíveis dimensões sociais da existência de uma publicação formada por homens da força policial: num contexto de campanhas contra o jogo clandestino e de crescente envolvimento policial na sua organização social, os donos de certos comércios, tal como casas de loteria, passavam a ser alvos fáceis: se não da própria polícia, ao menos daqueles que se faziam passar, eficazmente, pelos policiais. Nenhuma das duas imposturas era incomum naquele momento. Muitos homens faziam-se passar por agentes policiais para tirar vantagens de certos grupos vulneráveis, como as prostitutas. Também no mundo das assinaturas e dos representantes de periódicos nos estados, era habitual o golpe de se fazer passar por agente de alguma publicação para vender assinaturas falsas ou conseguir financiamento. À luz deste episódio ressoa o caloroso e suspeito agradecimento à “preferência” do comércio e da indústria que efetivamente enchia suas páginas de anúncios de produtos diversos de consumo cotidiano de um público diversificado, notadamente masculino. A mistura entre jornalismo e política tornava tudo isso, como mínimo, suspeito. A própria possibilidade do delito ideado pelos “velhacos” se assentava na percepção contemporânea compartilhada sobre os riscos de se lidar com esta polícia.

Mais complicada ainda foi a consequência da polêmica circular do chefe de polícia Coriolano Góes limitando o acesso da imprensa à informação policial. A medida foi amplamente criticada por restringir a disponibilidade de notícias e, em consequência, o próprio trabalho dos jornalistas. Destoando do coro geral, a Revista Criminal, então nos seus momentos de proximidade com o chefe de polícia, defendeu a decisão. Tratava-se uma situação especialmente estranha, porque era inevitável perguntar-se sobre a proveniência das vistosas galerias de fotos de indesejáveis, de delinquentes perseguidos pela 2a Auxiliar e até das detalhadas fotos de cenas de crimes que garantiam a circulação da revista por um público mais amplo. Um jornalista do A Manhã não deixou passar a situação. Ao acusar a Revista Criminal de abusar “das facilidades oferecidas pelos cargos que exercem, fazem uso até dos arquivos secretos do Gabinete de Identificação”, acusava explicitamente seus proprietários, “pessoas da polícia”, de usar de forma indevida fotografias retiradas de prontuários. Tratava-se, assim, de uma “exceção odiosa” à regra do chefe de polícia.[46]

Não era só a imprensa e os delinquentes espertalhões que disputavam a imagem pública construída pelos seus redatores, expondo suas contradições e suas bases materiais. Também os delinquentes e vítimas, algumas vezes, discordaram das imagens que se faziam deles, ainda que estas fossem situações ainda mais excepcionais. Pelo menos uma vez, no entanto, alguém questionou explicitamente as histórias sensacionais de ciúmes, brigas e morte que aproximavam a Revista Criminal de outras publicações populares do período. Neste campo, as atividades simultâneas dos redatores, neste caso como advogados, também os deixavam sob um manto de suspeita. É o que ocorreu quando o carteiro Alamiro Alves Cabral foi assassinado a meados de 1928. Uma comissão de carteiros pediu ao jornal A Manhã a publicação de uma nota de defesa da reputação do companheiro assassinado. A intenção era questionar a forma como a Revista Criminal noticiara o delito. Enquanto a revista tecia comparações entre a vítima e bandidos conhecidos como “Bexiga”, “Camisa Preta”, e outros, seus companheiros queriam atestar a honestidade de Alamiro durante os “39 anos de serviço público” no correio. As dúvidas levantadas sobre a vítima decorria de que ele fora, no passado, porteiro do Derby Club e de “uma casa de diversões em Madureira”. Os carteiros suspeitavam que a verdadeira motivação das mentiras publicadas na revista radicava no interesse de algum advogado defensor do assassino, preocupado em ir preparando a defesa. Só assim poderia a Revista Criminal afirmar que Alamiro era “um desclassificado, terrível jogador e rancoroso cabo eleitoral, tendo acabado como acabam todos os valentes”.[47]

O protesto dos carteiros sugere que, como leitores treinados naquele universo jornalístico, eles dominavam com precisão as chaves interpretativas dos roteiros que estruturavam os relatos de crimes sangrentos e a apresentação estereotipada de seus protagonistas. A caracterização do carteiro Alamiro na Revista Criminal não só isolava alguns elementos de sua vida para ressaltar seu sentido negativo, mas também imprimia um destino “natural” à sua difícil vida, numa lógica policial similar à que expulsava estrangeiros sem processo judicial: como andava em âmbitos suspeitos, merecia seu trágico destino. Fora do registro da punição e da vingança, sem se preocupar com o destino do assassino, e sem aprofundar nos supostos interesses dos redatores e advogados, os carteiros só queriam registrar publicamente a honestidade e a inocência do Alamiro que eles conheceram. Ao fazê-lo, contribuíam para registrar uma disputa surda que também ocupava as páginas dos crimes sangrentos.

Estes breves episódios descortinam disputas, mais ou menos silenciosas, em torno ao financiamento da revista, a proveniência de suas chamativas ilustrações e, finalmente, as formas de relatar os sensacionais crimes. Elas não se referiam à parte mais séria e circunspecta da publicação, dedicada aos profissionais e estudiosos do direito penal, mas iluminavam a outra parte, que parecia ser fundamental para sua própria manutenção e sustento. Além disso, cada um destes casos ilumina a complexa interseção entre a atividade policial, jornalística e política dos proprietários da revista e seu grupo de colaboradores mais próximos. Os conflitos com as autoridades, suas atuações como advogados, seus projetos de reforma policial, assim como seu próprio cotidiano como policiais, são cruciais para a construção de suas imagens públicas por dentro do jogo social, político e das circunstâncias materiais que conformavam suas vidas.

Um epílogo

Entre a imprensa, os juízes, os “maiorais da polícia” e os delinquentes de diferentes categorias, a Revista Criminal foi construindo sua identidade ao longo de anos cada vez mais turbulentos. O mundo da política, quase invisível na primeira fase da revista, caiu como uma bomba neste panorama quando os populares depredaram a redação da revista em outubro de 1930. Apresentado várias vezes como uma desafortunada casualidade, apesar de algumas sugestões em contrário de Claudino, o episódio contribuiu para por em evidência seu posicionamento político naqueles anos.

Para quem já vinha decepcionado com a falta de resposta do poder executivo às demandas corporativas dos homens reunidos na 2a Auxiliar, a entrada de Vargas no cenário político foi inicialmente vista com esperança. Em fevereiro de 1930, a Revista Criminal expressava uma visão crítica dos “excessos a que chegam os políticos nacionais da campanha presidencial”, observando num artigo de fundo que alguns deles eram delitos.[48] A postura inicial, assim, parecia ser de cautela e desconfiança. Ao mesmo tempo, Claudino cada vez mais se dedicava às funções de advogado, distanciando-se definitivamente do 2o delegado auxiliar e de vínculos más orgânicos com a instituição policial, e aproximando-se políticos opositores. Dois anos depois, ele rememorava sua primeira reação frente aos acontecimentos de outubro: suas expectativas eram positivas, já que o governo anterior perseguira a “toda a sua família”, prendendo-os no estado de sítio. Como advogado, e seguramente graças aos seus contatos com o mundo político local, estava atento à situação de suspensão das garantias legais, e impetrou pedidos de habeas corpus a favor de vários deputados presos na confusão do momento. Entre eles, estavam Mauricio de Lacerda e Adolpho Bergamini, ambos apoiadores de Vargas, o primeiro de notória atuação no campo da esquerda, e o segundo, denunciador de abusos da polícia paulistana nas vésperas do golpe. Passados dois anos, assistindo um jogo político bem conhecido de distribuição de ministérios e criação de novas pastas apenas para sustentar as alianças políticas, Claudino publicou uma nota em que expressava sua decepção com Vargas.[49]

Houve então que esperar a volta do país ao “regime legal”, com a aprovação da Constituição em julho de 1934, para finalmente retomar, em termos mais precários e limitados, a publicação da Revista Criminal.[50] O anúncio de seu retorno indicava que o pequeno grupo de colaboradores fixos da fase anterior parecia estar disposto a voltar às suas páginas, como Mario Gameiro, Claudio de Mendonca e “Caius Martius”. A falta de apoio e vantagens para conseguir imagens atraentes parece ter sido enfrentada com novos expedientes, fadados a durar pouco, como o uso de fotografias “diretas obtidas de jornais europeus” sobre um recente acontecimento sensacional, o “regicídio de Marselha”. Seu conteúdo consolidou-se com mais foco na jurisprudência que no debate policial, refletindo o distanciamento de seus membros da repartição policial, substituída por uma ação profissional, e talvez “militante”, no campo do direito penal. Em 1940, em pleno Estado Novo, a Revista Criminal (ao lado de títulos como “Jornal de Polícia” e “Brasil Policial”) teve seu pedido de registro no Conselho Nacional de Imprensa negado. Em duas décadas, tudo havia mudado.


  1. Embora os defeitos deste texto sejam de minha total responsabilidade, é fundamental registrar que ele não seria possível sem a ajuda sempre generosa de Diego Galeano, pela qual agradeço.
  2. Revista Criminal, n.1, 15/07/1927, s/p.
  3. Sobre a lei de expulsão de estrangeiros, ver Lená Medeiros de Menezes, Os Indesejáveis: desclassificados da modernidade. Protesto, crime e expulsão na capital federal (1890-1930) Rio de Janeiro, EdUERJ, 1996 e Diego Galeano, Criminosos viajantes: circulações transnacionais entre Rio de Janeiro e Buenos Aires, 1890-1930, Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2016.
  4. Respectivamente: O Brasil, 17/07/1927; Gazeta de Notícias, 17/07/1927, A Notícia, 16/07/1927, todas transcritas em Revista Criminal, n.2, 01/08/1927, p.9.
  5. O Paiz, 2/08/ 1927, p.4.
  6. A reforma policial de 1907 definiu que o chefe de polícia fosse acompanhado por três (e depois de 1922 por quatro) delegados auxiliares, que podiam substituí-lo em sua ausência. O segundo delegado “supervisionava as diversões públicas, garantindo a ordem, a moralidade e a segurança, inspecionava as lojas de penhores e as delegacias de segunda entrância”. Marcos Bretas, Ordem na cidade: o exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro, 1907-1930, Rio de Janeiro, Rocco, 1997, p.51. Revista Criminal, n.15, 01/04/1928, p.17; n.18, 01/07/ 1928, p.81 e p.91, entre outros. As galerias de indesejáveis aparecem em quase todos os números, desde o primeiro até fevereiro de 1929, dando conta dos tempos e dos objetivos da campanha movida pela 2a delegacia auxiliar. Sobre os ladrões, descuidistas e ratos de hotel e as fotos da Revista Criminal, ver Diego Galeano, Criminosos viajantes, esp. 149-177. Sobre as criadas ladras no contexto de uma análise em perspectiva de gênero da Vida Policial, ver Sueann Caulfield, “Getting into trouble: dishonest women, modern girls, and women-men in the conceptual language of Vida Policial, 1925-1927, Signs, vol. 19, n. 1, 1993, p.146-176, esp. 155-157.
  7. O preço da revista era um pouco mais barato que a sua similar Vida Policial, vendida semanalmente a 1$000 na capital. Elena Shizuno, “A Revista Vida Policial (1925-1927). Mistérios e dramas em contos e folhetins”. Curitiba, Tese de Doutorado em Histórica, Universidade Federal do Paraná, p.45.
  8. O Paiz, 10/07/1928, p. 5.
  9. A Província, 09/05/1930, p.2
  10. “Revista Criminal”, Jornal Pequeno (Recife), 27/08/1927, p. 3.
  11. Marcos Bretas, A Guerra das ruas. Povo e Polícia na Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Ed. do Arquivo Nacional, 1997, p.49 e 51.
  12. A relação entre a Revista Criminal e a Vida Policial é examinada por Elena Shizuno, “A Revista Vida Policial…”, p. 217-218.
  13. Ele denunciou ataques contra sua pessoa por ocupar cargo de delegado de polícia e ao seu irmão, comissário. Revista Criminal, n.8, 01/11/1927, p. 25 – 26. O Imparcial, 09/11/1935, p.3
  14. “A fiança não estorva a ação da justiça. Em oficio o delegado do 20o distrito ao chefe de polícia”. O Jornal, 30/09/1927, p. 12. A figura do comissário no Rio de Janeiro foi criada pela reforma policial de 1907 e substituiu o “inspetor de segurança pública”, um auxiliar do delegado de polícia, não se confundindo com a tradição hispânica do “comisario de policía”. Marcos Bretas, Ordem na cidade, p. 52.
  15. “Associação Brasileira de Imprensa”, A Gazeta (S. Paulo), 06/05/1932, p.1. Entre 1920 e 1921, ele trabalhou como escrivão interino numa delegacia. Em 1935, foi nomeado 3o delegado auxiliar, como resultado da mudança de governador do Estado. O Imparcial, 09/11/1935, p.3. Decreto n.19.562, de 05/01/1931. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-19562-5-janeiro-1931-531977-publicacaooriginal-82646-pe.html Consultado em: 15/10/2016.
  16. Nota pelo aniversário de Indiana Nery, “gerente da Revista Criminal” e “contabilista da firma A. Camaro & C”, A Noite, 28/10/1939, p.4. A empresa Espírito Santo & Cia. aparece no Almanack Laemmert anualmente até 1935, primeiro com sede na avenida Rio Branco, 149, e em 1935 na Nilo Peçanha, 151, onde também funcionava o escritório de advocacia de Claudino e depois do irmão. Anuário Comercial, Industrial, Agrícola, Profissional e Administrativo da Capital Federal e dos Estados Unidos do Brasil. Edição para 1931. 1o. Vol. Rio de Janeiro: Of. Tip. Almanack Laemmert. Diário da Noite, 15/10/1940, p. 5.
  17. “Mais uma etapa vencida”, Revista Criminal, ns. 41, 42 e 43, 07/08/09/1935, p. 193.
  18. “Uma visita a um mundo de fichas, catálogos e livros”, Diário da Noite, 17/04/1943, p. 3.
  19. “Consequências lamentáveis do entusiasmo público”, Diário da Noite, 01/11/1930, p.8.
  20. “Explicação necessária aos nossos leitores e assinantes”, Revista Criminal, ns.38/39, 04/05, 1935, p.98.
  21. Entre outros, Amy Chazkel, Leis da sorte. O jogo do bicho e a construção da vida pública urbana. Campinas, Ed. da Unicamp, 2014; Diego Galeano, Criminosos viajantes, Lila Caimari, Mientras la ciudad duerme. Pistoleros, policías y periodistas en Buenos Aires, 1920-1945, Buenos Aires, Siglo XXI, 2012.
  22. Claudio de Mendonca foi secretário de redação da Vida Policial e mais, tarde, em 1943, foi director do Instituto de Identificação Félix Pacheco. Cf. Fabio Koifman, “Individual datisloscópica: Bruno Wiczer, a trajetória de um imigrante”, em Lewin, Helena (coord.), Identidade e cidadania: como se expressa o judaísmo brasileiro, Rio de Janeiro, Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2009, p. 338 e Elena Shizuno, “A Revista Vida Policial…”, p. 217.
  23. Revista Criminal, n.17, 01/06/1928, p.79 e n. 21, 01/10/1928, p.32, respectivamente. Para as duas últimas referencias, Revista Criminal, n.18, 01/07/1928, p. 18, e n.13, 01/02/1928, p. 57.
  24. A primeira história publicada foi o consagrado “Os crimes da rua Morgue”, de Edgar Allan Poe.
  25. Revista Criminal, n.26, 01/03/1929, p.166.
  26. “Incidentes inéditos da campanha contra o jogo”, Revista Criminal, n.17, 01/06/1928, p.2.
  27. “Olha à direita!”, A Esquerda, 28/08/1928, p.2. Sobre a relação da polícia com o jogo do bicho, ver Amy Chazkel, Leis da Sorte.
  28. “Incidentes inéditos da campanha contra o jogo”, Revista Criminal, n.8, 01/11/1927, p.5.
  29. “Os acórdãos da Corte de Apelação referentes à contravenção do jogo”, Revista Criminal, n.19, 01/08/1928, p.50; no n.21, 01/10/1928, p.53, o mesmo redator sugere que interesses políticos inspiraram os votos do desembargador, críticos ao acionar policial; alguns meses depois, o próprio Victor do Espírito Santo acusa o desembargador de atuar em defesa dos bicheiros, em Revista Criminal, n.25, 01/02/1929, p.128.
  30. Eurico Cruz havia sido delegado antes de sua carreira no poder judiciário. Como juiz, tendia a respaldar o campo de ação policial. Analisei suas sentenças com relação ao delito de lenocínio em Cristiana Schettini, Que Tenhas Teu Corpo: uma história social da prostituição no Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2006, p. 215 e ss.
  31. Victor do Espírito Santo, “O meu procedimento “irregular”, Revista Criminal, n.19, 01/08/1928, p.15; e “Condenado!”, Revista Criminal, n.23, 01/01/1929, p. 46.
  32. Claudino Victor, “Desacato próprio da mentalidade do dr. Santos Netto”, Revista Criminal, n.8, 01/11/1927, p. 25-26.
  33. Além do artigo citado acima, ver Marco Aurélio, “Os acórdãos da Corte de Apelação referentes à contravenção do jogo”, Revista Criminal, n.19, 01/08/1928, p. 50; e também, Victor do Espírito Santo, “À margem do relatório”, Revista Criminal, n.26, 01/03/1929, p. 272.
  34. “Radicalismo, na polícia”, Revista Criminal, n.9, 16/11/1927, p.17.
  35. “Reforma da polícia civil”, Revista Criminal, n.2, 01/08/1927, p.17.
  36. “Delegacias especializadas”, Revista Criminal, n.5, 16/09/1927, p.17.
  37. “A instalação das delegacias policiais”, Revista Criminal, n.6, 1o/10/1927, p.17; “Dispersão dos efetivos policiais”, Revista Criminal, n.7, 16/10/1927, p.17.
  38. “Os males da polícia”, Revista Criminal, n.20, 1o /09/1928, p.25.
  39. Veja-se, entre outros, Marco Aurélio, “Justiça rápida e barata”, Revista Criminal, n.30, 01/07/1929, p. 420.
  40. “O novo regimento de custas”, Revista Criminal, n.22, 1o/11/1928, p.25.
  41. “O relatório do chefe de polícia”, Revista Criminal, n.27, 01/04/1929, p.272.
  42. Victor do Espírito Santo, “Um companheiro que tomba”, Revista Criminal, n.7, 01/10/1927, p.19. No mesmo número, veja-se também a nota assinada por Claudio de Mendonca sobre “Defesa e meios de proteção aos investigadores”, com observações sobre os poucos recursos materiais para a polícia.
  43. “Um ano de vida”, Revista Criminal, n.18, 1o/07/1928, p.17.
  44. “A segunda etapa”, Revista Criminal, n.30, 01/07/1929, p.433.
  45. “Cuidado com os velhacos”, Revista Criminal, n. 18, 01/07/1928, p.55.
  46. “Um abuso”, A Manhã, 13/04/1928, p.3. As fotografias eram efetivamente as mesmas retiradas dos expedientes de expulsão, tal como mostra Diego Galeano, Criminosos viajantes, p.168-169.
  47. “Assassinio de um carteiro – o que dizem colegas do assassinado”, A Manhã, 26/09/1928, p.5. Além disso, é preciso considerar o papel da Revista Criminal num campo mais amplo de produção de conhecimento científico sobre a criminalidade no período. Não por acaso, a revista dedicou um amplo espaço ao Febrônio Índio do Brasil. Ver Olivia Gomes da Cunha, Intenção e gesto: pessoa, cor e a produção cotidiana da (in)diferença no Rio de Janeiro, 1927-1942, Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2002.
  48. Diário da Noite, 10/02/1930, p.4
  49. Alzira Alves Abreu, Dicionário histórico-biográfico da Primeira República [Recurso eletrônico] Fundação Getúlio Vargas, Ed. CPDOC, cf. Adolpho Bergamini; Claudino Victor, “O Brasil precisa de patriotas”, A Batalha (propriedade de A Esquerda), 25/02/1932, p.2.
  50. O Jornal, 07/07/1934, p.6.


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