Otras publicaciones:

9789877230062-frontcover

9789871867691_frontcover

Otras publicaciones:

tapa5

9789877230567_frontcover

14 Hermenêutica da memoria

Estética, duração e histórico

Rodrigo Tavares Godoi[1]

Resumo

Considerar a memória essencialmente representação, idiossincrasia ou sensibilidade, promove à história certa fragilidade ao seu trabalho cognitivo. Para apresentar a discussão do frágil, é necessária reflexão não epistemológica da relação entre história e memória. Para essa finalidade Ankersmit, sob a privatização do passado, defendeu que tempo e espaço perdem capacidade conciliatória, pois o passado não possui relação com anterioridade, mas está face a face com o presente. Por outro lado, o bergsonismo nos convidou a repensar problemas ligados a memória não orientada pela privatização do passado e nem pela dialética referência e representação. Dispensando a divergência teórica entre esses dois intelectuais, o destaque está para como a inconciliável condição do tempo e do espaço (nostalgia) de Ankersmit, afirmou haver uma estética do histórico em detrimento da cronologia. Por essa estética do histórico será possível refletir acerca da memória como duração.

Uma metáfora da duração, a estética?

As considerações a serem realizadas, fazem parte de projetos de pesquisa defensores da ideia de uma hermenêutica da memória.[2] Essa hermenêutica estabelece memória sob a condição de objeto sendo compreendida a partir da Teoria da História. Essa compreensão teórica da história torna-se indispensável à interpretação da memória. Para que esses projetos tomem fôlego, dedicamos atenção para a exposição de duas ideias fundamentais: estética da duração e arqueologia da retórica. São ideias que precisam de racionalização a fim de justificação. E, como os apontamentos aqui estão na condição de apresentar inquietações e não respostas, nossa proposta é a de dar atenção para a duração bergsoniana. Na condição de imanência e mista, a memória abre estrutura e sistema como força não compreendida em pressuposição epistemológica e nem fenomenológica. Como os projetos vinculados a essa discussão também não são metafísicos, nosso intuito é compreender a valor do bergsonismo para proposições propedêuticas.

Sendo a duração considerada um fato incondicionado e involuntário, só se pode apresentar alguma discussão acerca dela se for preenchida de conteúdo significativo. Nessa condição, a aproximação entre duração e estética, parte do princípio de que estética está desprendida da cronologia e de contextos decorridos. A estética como metáfora da duração presume estreita relação com imagem. Como se trata de memória, seu testemunho pressupõe evocação. Por esse motivo que, o texto que se segue precisa ser lido a partir do corpo que dá testemunho de conteúdos de significação e a metáfora da duração por sugerir imagens desconectadas da alienação tempo e espaço no decorrido.

Antes de seguirmos, é importante afirmar que o termo decorrido é inadequado para a memória, por mais que o narrador esteja convicto, por idiossincrasia, não haver diferença entre linguagem e contexto. Essa afirmação decorre do fato da memória assentar-se no tempo que não encontra o lugar do qual se refere, defesa de Ankersmit (2001). A condição histórica da memória não pode ser apresentada pela cronologia, uma vez que o passado não é pré-dado. Ankersmit (2004) considerou esse passado uma metáfora espacial. Aproximando-se de Bergson (2003) ao passado incide, para além das representações, a duração. Como substância de imagem-movimento, a memória possui sua essencialidade nela mesma e não nos objetos, nos lugares e nas datas. Mas, seu status representativo prescinde do simbólico para partilha ou comunicação.

O narrador faz de si proprietário do passado evocado e se constitui como testemunha do tempo contado. A pessoalidade e intimidade com esse passado faz com que o indivíduo se localize entre estética e psicobiologia. Mas, esta evidência não é prerrogativa de quem narra, pois seu passado é bem vivo e há o desejo de agarrar-se a ele. Para a interpretação da memória, há de considerar sua posição de fenômeno, pois sua substância está para além da fabricação e invenção. Há de considerar a tipificação do passado com base na condição imperativa de responder o que é memória. A reposta para o que é memória, preserva relação direta com a filosofia. Por analogia com história, para dizer o que algo é, precisa-se lidar com a possibilidade, uma relação de filosofia da história, segundo Rüsen (2015).

Pensar a memória a partir de uma função metódica abre-se conceitos e categorias, induz o pesquisador a lidar com generalizações e sistemas. Na tipificação, nos gêneros e nas imagens, o passado da memória concentra-se nela mesma e não em lugar ou controlado pelo desejo do narrador. É imprescindível que se diga: não há lembranças sem pessoas as manifestando nas disputas políticas, privatização do passado, representações simbólicas, identidades, cultura histórica. Mas, a memória possui grau diferente das lembranças, por isso, falar de memória é necessário lidar com a duração. Essa não é social, mas força vitalista inerente a cada indivíduo analogamente ao acúmulo de energia na digestão, exemplo dado por Bergson (2011).

Nos termos bergsonianos, a memória não pode ser confundida com as lembranças, mas é por meio delas que chegamos a interpretar as relações mistas entre força vitalista e condições sociais. Independente do muro que o eu tem em relação ao outro, ambos são cortados e invadidos pelo vitalismo da memória. Podemos, neste caso, considerar a memória como força incorpórea que movimenta-se no corpóreo sem a necessidade da preocupação psicológica. A memória compreende-se por imagens-lembrança. Não é o campo linguístico que opera, mas relações entre duração e imagem. A evidência da memória está na metáfora da duração, a estética. Pela estética da duração se compreende conteúdos formativos e orientadores vitais não alienados a mecanismos motores cerebrais. Em Bergson (2003) o cérebro não suporta a vastidão da memória, é necessário raciocinar essa energia na qual o tempo concebe o caótico como ordem não espacial.

As preocupações do bergsonismo foram baseadas nos argumentos filosóficos, matemáticos e físicos. Mas, como historiador, o que importa como contribuição do pensamento de Bergson, está no campo da possiblidade dos fenômenos da memória. Esses, não sendo nem da natureza e nem social, apreendem critérios de verdade que devem ser significados se compreendermos como, atualmente, podemos aproximar sua filosofia da duração e da estética. Como a pintura de um carro, as lembranças estão entre relevo e fundo. O fundo, não profundo, mas misto, possibilita ver o aparente, o relevo. Esse pode ser compreendido como a atualização das lembranças. Elas estão presentes e se fazem de duas maneiras: mecanismo motor e natureza da psique. No caso do fundo, é possível falar de duração, essencialidade, movimento próprio. Se considerarmos que as lembranças são atualizadas, então, é também possível atestar que elas agarram-se as percepções a fim colocar em relevo. O misto, neste caso, comporta-se como essa fluidez entre fundo e relevo. Aqui, não se trata de antes ou depois, mas de nuança, como a coloração entre claro e escuro.

Um pensamento não epistemológico precisa preservar o direito das lembranças se tornarem autônomas, não ontológicas. Bergson (2003), em seus estudos sobre os casos de demências, visitou uma clínica. Ali, foram apresentadas duas pessoas a um doente e a ele foi perguntado a partir do quem? Sua resposta foi contundente: uma mulher e uma criança. Após terem se retirado do campo de visão, estando sozinho, o doente começou a falar a respeito de sua esposa e de seu filho. As lembranças fluíam, colocavam-se em fundo e relevo. Mas, não constatou a ligação entre a mulher, a esposa, a criança e o filho. Aquele doente não fez a ligação, sob o ponto de vista da exigência social, que se tratava justamente da mulher ser sua esposa e da criança ser seu filho. Bergson (2003) conclui que as lembranças possuem percepção de si e independem das exigências das representações sociais. Aquele doente não conseguia mais responder aos estímulos sociais. Bergson (2003) colocou em separado, por estado de natureza, cérebro e memória. Isso representa uma conclusão: o cérebro executa-se por mecanismos motores sem a compreensão do processo de execução, por isso ele não é dotado de consciência, e a memória é fenômeno que se compreende como consciência onde seu locus baseia-se no princípio da duração imanente – sob a linguagem matemática, unidade de multiplicidades. Mas, o objetivo de Bergson (2003) não era provar uma entidade, mas demonstrar que a memória não se limitava ao mecanismo sensório-motor. O cérebro deveria ser considerado um dos pontos dos quais a memória se manifestava.

Portanto, o caminho hermenêutico da memória constitui-se considerando um princípio: estética como metáfora da duração. Se a manifestação da memória está sempre associada ao testemunho e a evocação, significa que a linguagem é onde a memória se assenta para se fazer expressa e exprimida. A princípio, nossa ideia concentra-se nessas relações conectivas entre a autonomia das lembranças e suas atualizações por representações sociais. Esse fenômeno da memória possibilita repensar as metodologias da memória-objeto limitadas às conclusões da psicologia, antropologia e história oral que a constitui entre o subjetivo e o objetivo.

Passado próprio e privatização

A afirmação todos temos um passado é tão lógica quanto redundante. A relação que cada um tem com o passado é tão certa, imediata e cotidiana que afirmar haver esta relação torna-se desnecessária. Mas, a questão não é necessariamente a relação que cada um tem com o passado, e sim o que se compreende ser o passado. O passado é uma categoria repleta de significações a partir das formas. Quando se trata de memória, o senso de propriedade do passado é intenso e extenso. Há questões peculiares: até que ponto esse passado próprio é uma privatização e não propriamente uma propriedade? Como o passado torna-se um imperativo no indivíduo a ponto de determinar suas relações com o presente? Será o passado uma construção permanente do presente a partir de suas contingências? É o passado passível de existência? Independente das respostas, provisórias ou especulativas, o passado é assim chamado porque ele é composto de conteúdo e faz menção a acontecimentos decorridos sem abandonar o próprio corpo. Se ele não o abandona, mesmo remetendo para lugares múltiplos externos, significa que esse passado é dotado de carne e sangue.

Esse passado não está inscrito em contextos decorridos, mas no corpo a partir de suas imagens mentais, sentimentos, sensações e emoções. Esse passado cobra porque circula autonomamente no corpo sem precisar de permissão, seja a partir de sentimentos de dívida, nostalgia, traumas ou imagens-lembrança. Para fazer, novamente, menção a Bergson (2003), há diferença de natureza entre cérebro e vitalismo da memória. A memória torna-se fenômeno porque ela, assim como o pensamento, invade o corpo e atravessa-o. Mas, como há o corpo, assim também há a identificação de duração individual. Além de existirem intervalos entre corpos (eu e tu), também há os intervalos inerentes às próprias lembranças. Essas lembranças transitam entre paradas e prolongamentos.

Essa forma corpórea de ver a memória não pode ser confundida com o psicológico. O corpóreo da memória está diretamente ligado a lei da associação (ideias) que propriamente para as séries psicológicas orientadas pelo circunstancialismo perceptivo do presente e suas angústias. A defesa deste texto concentra-se no fato de haver muitos estudos às conexões psicológicas entre lembranças e suas representações, mas pouquíssimo à defesa da autonomia do passado, não fenomenológico.

É inquestionável a afirmação de que o passado sobrevive por si mesmo porque ele desprende-se dos mecanismos motores e encarna-se. Lembrar e esquecer não tem relação direta com armazenamento e conservação, mas autonomia na intimidade. A lembrança pode ser compreendida através de suas relações diretas com mecanismos motores e orientação para a vida prática. Enquanto a primeira designa-se por meio de repetição e hábito, a segunda torna-se livre e criativa. Nesta defesa de Bergson (2003), a segunda não pode ser considerada retrospectiva e nem retroage, mas impulsiona, está entre conteúdos formativos (virtuais) e a ação (possível e real).

Se há elementos que compõem a memória e eles destinam-se para a relação entre passado e sucessão e não propriamente passado e presente, isto significa que é possível desprender o passado como anterioridade em relação ao presente. Seria o passado simultâneo ao presente? Se considerarmos a memória corpórea, o caminho a percorrer não é o do contexto externo, mas do contexto como experiência estética. Sendo esta proposta um estudo da memória a partir das inquietações da Teoria da História, um problema se acentua: como é possível falar de uma memória no qual o passado está desprendido das relações contextuais de um tempo decorrido? Não é o passado a atestação de que a memória está diretamente ligada ao já acontecido? É possível a memória ultrapassar os limites das lembranças passadas e torna-se orientadora para a vida?

Enquanto a estética estabelece a experiência desapegada ao decorrido, em virtude de conteúdos autônomos, a retórica tenta, a partir de indícios, reassentar essa autonomia na sua relação com espaços e contextos. Mas, segundo Ankersmit (2001) é necessário pensar acerca de contextos como territórios desterritorializados e reterritorializados. A atualização de lembranças produz alterações não conciliadoras entre tempo e espaço. Libertar o passado dos contextos decorridos favorece para que a memória deixe de ser estática e passa a ser movimento. Bergson (2003), em seu vitalismo, apregoou ser a lembrança um instante entre o fundo essencial e liberdade criadora de orientação prática. A lei de associação não se faz, necessariamente, porque cada indivíduo vive sob comparações, mas porque as analogias estabelecem parentesco de gêneros. Eles traçam a independência do passado e sua possibilidade orientadora. Assim, as lembranças fazem recordar assim como libertam o passado do peso do decorrido e do retroagir.

Para o trato metodológico, é preciso definir duas questões fundamentais: material e hipótese. A base de reflexão acerca da estética demonstra a preocupação com o que estamos chamando de autonomia do passado para depois racionalizar a tentativa de retorno. O que isto quer dizer? O retorno é para a fase onde as narrativas refiguram lugares e espaços a fim de compartilhar, representar ou identificar. Então antes de lidar com esta questão, é preciso justificar o princípio do passado desvinculado da anterioridade.

Há um volume considerável de estudos acerca da obra Bergson que incluem registros de cursos, aulas e entrevistas, além de suas publicações e coletâneas de textos. Entre 1889 e 1932, suas obras foram escritas com os títulos Ensaio Sobre os Dados Imediatos da consciência (1889), Matéria e memória (1896), O riso (1899), A evolução criadora (1907), Duração e simultaneidade (1922) e As duas fontes da moral e da religião (1932). Em vida foram publicadas duas coletâneas intituladas A energia espiritual (1919) e O pensamento e o movente (1934). Mesmo assim, existe hoje uma série de publicação a respeito de Bergson que incluem textos inéditos, entrevistas e anotações de aulas e cursos ministrados que ultrapassa a dezena. A reflexão a partir de Bergson revela o caráter metodológico desta pesquisa como suporte para sugerir uma hermenêutica da memória. Bergson possui uma linguagem peculiar na qual ela não é compreendida se o pensamento interpretativo for de base epistemológica. Em muitas passagens Bergson é metáfora assim como conceito. Esse caminho de pensar Bergson pelo uso das metáforas e resistência ao estruturalismo linguístico foi apresentado por Miràvete (2012) e esse Bergson confuso ou inerente a condição de personagem conceitual foi apresentado por Deleuze (1992).

A teoria da história da qual estou fazendo uso para apresentar a ideia de uma hermenêutica da memória possui o bergsonismo como material histórico de interpretação devido ao peso de suas reflexões e de suas denúncias em relação a acomodações e simplificações. Bergson foi lido e criticado entre os psicólogos, filósofos, antropólogos e ignorado pelos historiadores. Bergson conduziu toda sua reflexão na impossibilidade de se confundir em mesma natureza tempo e espaço. A différence possibilita pensar não a diferença entre tempo e espaço, mas o misto de ambos, suas nuanças e fenômenos. Em relação a memória, um de seus fenômenos é a endosmose. Neste caso, a endosmose constitui-se um fenômeno primordial para os estudos em hermenêutica da memória. Mais que lidar com os mecanismos psicológicos da memória, é preciso deixar claro que seus conteúdos formativos independem da atenção para a vida. Na metáfora do espelho, as imagens-lembrança comportam-se como o reflexo. A imagem que cada um apreende de si, por estar de frente para o espelho, coloca em mesmice o corpo e sua imagem. Estar ciente dessa situação, não suspeita do reflexo, determina que o cérebro apreende essa imagem simultaneamente ao reconhecimento de si.

Pela différence a imagem refletida é capturada e reconhecida sem a necessidade dela mesma portar um cérebro. Assim, as lembranças não podem ser confundidas com as percepções enfraquecidas. As imagens são virtualidades independentes das percepções de outrora. O reconhecimento de si a partir da imagem primordial (como centro) oscila entre imagens agarradas as percepções e processos virtuais. É mais fácil mencionar que uma percepção familiariza-se a uma lembrança que propriamente definir processos virtuais. No bergsonismo os processos virtuais são assim considerados porque o cérebro é incapaz de selecionar que tipo de lembranças ele irá armazenar. Antes, o cérebro pode escolher que tipo de lembranças atualizar. A destituição de uma consciência para o cérebro é o que o impede de estar atento aos processos constituintes da percepção e de si. Sob o ponto de vista da intuição, o cérebro não possui uma imagem primordial de si, mas de representações. Como uma lógica, entre a imagem refletida e o reconhecimento, o que está para o cérebro é o instante. Ou seja, a percepção atual confunde-se entre o ver e o si próprio. O instante não permite ao cérebro a distinção, ou seja, uma intuição simples. Somente a partir deste estado é que se pode produzir o esforço de apresentar esse mecanismo. Análogas são as imagens-lembrança e sua significação do passado. Essas imagens são autorreferentes, uma vez que, elas independem da vivência. Elas são dependentes da experiência.

Contribuição teórica da história

Neste ponto é necessário recorrer a base hermenêutica de metodização. Trata-se de Rüsen (2001) quando fez a distinção entre experiência passada e experiência do passado. Por uma questão hermenêutica, o que fica da experiência passada são suas intenções e não ela mesma, por isso em Rüsen (2001) a experiência do passado é mais significativa, pois remete ao sentido do passado. Voltar-se para o passado é inadequado tanto quanto fazer uso do termo historicizar. É possível aproximar a defesa de Rüsen (2001) à concepção da différence em Bergson (2003). Quando se trata de experiência passada, é preciso reportar à percepção de outrora, pois há remissão para a vivência. Para conseguir reconciliar tempo e espaço, o indivíduo necessita se colocar no instante perceptivo do tempo decorrido. Essa possibilidade é concebida unicamente em obras de ficção. Seria necessária uma máquina do tempo na qual a relatividade colocasse no espaço a fluidez e flexibilidade na qual o tempo fosse transposto para condição de trajeto. O deslocamento não seria mais da memória, mas da matéria. O corpo, colocado numa condição metafísica que o possibilitasse experimentar a mesma percepção de outrora dando a ele a condição de duplicação da vivência. É hermeneuticamente e epistemologicamente impossível reviver o passado. No caso da hermenêutica, a diferença está no fato de que o passado como memória e a percepção de outrora possuem naturezas distintas. Devido ao fato do corpo e o cérebro, mesmo por imaginação, não conseguirem romper a barreira tempo e espaço, as lembranças cumprem a função de atualizarem-se, pois sua natureza é virtual e não material. Voltar a casa dos avós, após anos, não significa reencontrar a infância. Há associação de ideias e sentimentos que familiarizam, pois há felicidade e tristeza, voltar ao lugar, mas não reencontrar o tempo.

A experiência do passado possui como finalidade, apresentar o sentido da experiência do tempo e satisfazer a carência de orientação. Esta ideia de Rüsen (2001) permite raciocinar que passado e experiência mantém relações intrínsecas quanto a: carência de orientação, produção de formas e disputas pela memória. A experiência exprime relação com a consciência histórica das ações. O passado está mais para o sentido do agir humano que para o retorno aos momentos decorridos. Hermeneuticamente é preciso reconhecer que o passado não é um estado pré-dado do presente. O tempo não é uma linha configurada em plano no qual passado, presente e futuro habitam como continuidade ou ruptura. Ninguém precisa negar o passado para desprender-se de suas amarras, o presente não é resultado das intenções do passado. O presente não pode ser compreendido como o futuro do passado.

Diante o ponto de vista hermenêutico de uma teoria da história e do bergsonismo, como tentativa de fechamento do texto, a hipótese que se sustenta aqui baseia-se na consideração da memória como movimento autônomo simultâneo as atualizações das lembranças pela exigência de atenção para a vida. Para a possibilidade de demonstrar a validade desta hipótese, buscamos raciocinar a base de uma metáfora da duração. Sob o ponto de vista da estética da duração, a memória no bergsonismo está diretamente associada a duração. Sob o princípio filosófico, a duração (durée) consiste na possibilidade da memória existir na sua forma material e virtual, motora e eidética. A duração carrega em si o signo da presença, força imanente canalizada entre os corpos e os intervalos de um e outro. Os corpos, pontos no espaço que carregam em si momentos de tempo. Segundo Ichiro (1997) a duração se tornou o objeto da filosofia bergsoniana na qual o método da intuição tentou demonstrar por verossimilhança. Em resumo, a duração existe em todos os indivíduos e possibilita aos conteúdos e as formas, a multiplicidade heterogênea entre o passado, sucessão habitual e ação livre. Sob o ponto de vista de uma hermenêutica da memória, essa intuição metódica de Bergson pode ser demonstrada se considerada a partir do signo da estética. Traçar a possibilidade de uma estética da duração abre-se a condição de mostrar como as imagens-lembrança possuem evidências autorreferenciais. Assim como a obra de arte, as lembranças concentram em si seu próprio objeto. Deste modo, devemos passar a considerar o valor da experiência estética.

Referências 

Ankersmit, F. (2004), Historia y tropología: ascenso y caída de la metáfora. México: FCE.

Ankersmit, F. (2001), Historical Representation. California: Stanford University Press.

Bergson, H. (2011), La conscience et la vie. Paris: PUF.

Ankersmit, F. (2003), Matière et mémoire: essai sur la relation du corps à l’esprit. Québec: Les Classiques des Sciences Sociales.

Deleuze, G. (1992), “O que é um conceito?”, en Deleuze, G. & Guattari, F. O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34.

Ichiro, T. (1997), “Introduction à l’étude de l’esthétique bergsonienne: première formation de la notion d’intuition”, en Bijutsukakenkyu, nº14, pp.17‒33. Disponível em: https://ir.lib.osaka-kyoiku.ac.jp.

Miravète, S. (2012), “La Durée bergsonienne comme nombre special”, en Worms, F. (ed.), Annales bergsoniennes: Bergson et la politique: de Jaurès à aujourd’hui. Paris: Presses Universitaire de France.

Rüsen, J. (2015), Teoria da história: uma teoria da história como ciência. Curitiba: UFPR.

Rüsen, J. (2001), Razão histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: UnB.


  1. Universidade Federal de Rondônia (UNIR‒Campus Rolim de Moura). Email: rodrigo.godoi@unir.br.
  2. As discussões que integram este artigo fazem parte de dois projetos de pesquisa em andamento Uma hermenêutica da memória: princípios de estética e retórica, financiado pelo PIBIC/UNIR/CNPq, com a participação de dois bolsistas Kleuma Leôncio da Silva e Eslieber Alves de Sousa e Usos e abusos da memória: um problema de metodologia para a história, financiado com verba de custeio pela agência de fomento FAPERO, com a participação de dois voluntários Kleuma Leôncio da Silva e Ricardo Ciriaco Gomes.


Deja un comentario