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6 O sujeito de Jacques Lacan e sua articulação inconsciente

Danieli Machado Bezerra[1]

Resumen

Neste artigo elaboramos uma discussão em torno do modo de produção do significante e de como ele opera na teoria lacaniana. É necessário estabelecer o que é a linguagem como articulação do significante a partir de uma compreensão lacaniana sobre a linguística, pois as reflexões em Jacques Lacan são possíveis porque ele se apoia em uma crítica constante, dentro de seu ensino, ao que foi proposto pela linguística moderna através de Ferdinand de Saussure e Roman Jakobson.

Texto

Em Meu Ensino (2005/2005) Lacan mostra que a sua transmissão da Psicanálise lida com a linguagem desde o início quando ele propõe a fazer uma releitura da obra freudiana. Concorda com Heidegger (1889-1976) quando afirma que o “o homem habita a linguagem”[2]. Ele pensa com Heidegger que formula a teoria do Dasein. Essa discussão foi difundida anteriormente em uma articulação com a teoria da História dos Conceitos de Koselleck no primeiro capítulo.

A frase “o homem habita a linguagem” aponta para a questão sobre a linguagem existir mesmo antes de o homem ser, ou seja, de o homem ser constituído por ela, de ser invadido por ela. Para Lacan (2005/2006), o homem nasce na linguagem precisamente como nasce no mundo, como também nasce pela linguagem. Isso é a origem para ele; enxerga que sua percepção original sobre as primeiras obras de Freud indica-nos para uma observação até então desconhecida:

Ninguém antes de mim parece ter dado importância ao fato de que, nos primeiros livros de Freud –os livros fundamentais, sobre os sonhos, sobre o que chamamos de psicopatologia da vida cotidiana, sobre o chiste–, encontramos um fato comum, proveniente dos tropeços da fala, furos no discurso, jogos de palavras, trocadilhos e equívocos. É isso que vem em apoio às primeiras interpretações e descobertas inaugurais sobre aquilo de que se trata na experiência psicanalítica, no campo por ela determinado. Abram em qualquer página o livro sobre o sonho, que veio primeiro, vocês só verão falar de coisas que envolvem palavras (p. 38).

Essa questão em torno da linguagem torna-se o primeiro passo para o que Lacan vai elaborar acerca de sua teoria sobre o inconsciente a partir de sua releitura de Freud; ele formula a relação do inconsciente e a linguagem e inicia uma investigação sobre os pormenores inerentes à língua através de questionamentos sobre a função que ela exerce no sujeito e assim, inaugura sua construção teórica sobre o significante.

Ao longo de sua obra, Jacques Lacan (1998 [1966]) afirma que o “inconsciente é estruturado como uma linguagem”, ele diz que quando afirma isso é

para tentar restituir a verdadeira função a tudo o que se estrutura sob a égide freudiana, e isso já nos permite vislumbrar a um passo. É porque na linguagem, como todos podem perceber, é que há verdade (p. 38).

O que é o inconsciente? Ele se manifesta com a linguagem é isso que Freud reconhece em sua teoria, é nisso que fundamenta todo o discurso psicanalítico. Freud traduz o inconsciente onde ninguém ousou fazê-lo, no ponto radical do sintoma histérico cuja natureza é da ordem do decifrável, “ainte-Anne que se tornaram textos compiladoso..ue caniana compreende a palavra pela via do significante; os exemplos mostrados onde o sintoma só é representado no inconsciente caso se entregue à função daquilo que se traduz” (Lacan, 2005, p. 561). No texto Radiofania [1970/1966/1998] alguém pergunta a Lacan: “Nos Escritos [1966], o senhor afirma que Freud antecipa, sem se dar conta disso, as pesquisas de Saussure e as do Círculo de Praga. Poderia explicar-se a respeito disso?” (Lacan, 2003 [2001], p. 402). Lacan responde que ambos, Saussure e o Círculo de Praga, não possuem nada em comum com sua teoria. A linguística e o Círculo de Praga edificam-se através de um corte ou barra colocada entre o significado e o significante. Na obra de Lacan, essa concepção é mostrada através do algoritmo

Saussure e o Círculo de Praga assentam-se na premissa sobre o significado, ou seja, estabelece uma compreensão sobre um determinado objeto a partir do que seja uma palavra e o que é definido sobre ela. Uma leitura correta sobre o algoritmo é discorrermos que o significante está sobre o significado. Esse sobre ou barra que separa os dois elementos devemos a Ferdinand de Saussure que redigiu esse signo assim representado

Saussure faz-nos pensar as diferenças entre o significante e o significado e Lacan retoma essa concepção desenhada pelo algoritmo saussuriano e elabora uma leitura a partir do inconsciente freudiano e que é inexistente em Ferdinand de Saussure. Lacan inverte a fórmula saussuriana e traz para seu o ensino a concepção sobre o significante a partir de uma leitura que faz avançar o que Saussure não conseguiu ir adiante. Para Jacques Lacan, Freud antecipa o que Saussure refletiu ao abordar sua teoria sobre a metáfora e a metonímia que será discutida mais adiante. Essa fórmula revela a articulação entre o significado e o significante, entre os dois S e s, há a barra,

A barra suporta a escrita, ela dá oportunidade para que haja a produção do escrito. Se não existisse a barra não haveria a articulação discursiva entre o significante e o significado. A barra fura o discurso. A barra evita que a gente fale desmedidamente como papagaios (Lacan, 2008 [1975], p. 40).

Para Lacan, Freud antecipou Saussure quando trata da metáfora e da metonímia. Saussure não destaca as questões acerca do inconsciente porque não é analista, “não torna públicos os anagramas que decifrou na poesia natural, é porque estes aniquilam a literatura universitária” (Lacan, 2003 [2001], p. 402). Ao longo da explanação em torno do que concebemos sobre o que é o significante para a teoria lacaniana, enfocamos aqui, seis aspectos da operação significante que consideramos importante destacar, são essas as características: primeira, a questão da supremacia do significante em relação ao significado; segunda, o significante é uma unidade que simboliza ausência; terceira, o significante opera segundo as leis da cadeia significante; quarta, o significante desfila na cadeia dos significantes; a quinta característica; o significante tem o caráter de duplicidade quando opera na cadeia dos significantes e, por fim, a sexta característica; o significante produz neologismo.

No que diz respeito à primeira característica, que é a supremacia do significante em relação ao significado, remetemo-nos à descoberta de Freud ao elaborar a Psicanálise a partir de sua teoria sobre o recalque, e que Lacan, interpretando Freud, vê que o psicanalista alemão desvenda um fenômeno que estrutura e revela a verdade subjacente ao diálogo do sujeito pela via do inconsciente. Com essa concepção sobre a teoria do recalque, e esse será representado no algoritmo lacaniano como a barra que fura a operação existente entre o significante e o significado, temos uma novidade para uma compreensão aos estudos sobre o sujeito. É necessário ir a Freud e ver como ele concebe a ideia de condensação e de deslocamento para compreender o pensamento de Lacan. Sigmund Freud elabora sua técnica terapêutica sobre A Interpretação dos sonhos (1901/1992) e propõe no capítulo intitulado O trabalho dos sonhos, uma orientação de como deve ser realizado esse desenredamento do sonho que passa a tornar-se material analítico. Esses dois elementos presentes nos sonhos serão fundamentais para a construção da técnica psicanalítica e contribuirão para uma investigação acerca dos fenômenos oníricos existentes no inconsciente e contribuem o entendimento de Lacan para o que ele passa a construir a teoria sobre o significante e como ela se estabelece no inconsciente do sujeito. O Sonho da monografia botânica (1901/1992) é um exemplo que ajuda-nos a compreender o fenômeno da condensação cujo conteúdo onírico é descrito dessa maneira por Freud:

Tengo escrita una monografia sobre una variedad (indeterminada) de planta. El libro yace frente a mí, y estoy hojeando una lámina en colores doblada. Acompanha al ejemplar um espécimen desecado de la planta (Freud, 1992 [1901], p. 290).

Esse sonho revela-nos o processo de condensação onírico que o inconsciente estabelece no sujeito. O deslocamento que é outro mecanismo descrito por Freud revela-nos elementos latentes que estão presentes nos conteúdos oníricos e que nem sempre são possíveis de serem vistos através de uma primeira observação. Esse mecanismo identifica que nem sempre os elementos presentes nos sonhos estão diretamente relacionados a eles e revelam-nos conteúdos ocultos; cabe ao psicanalista ao desenredar o sonho descobrir quais são esses conteúdos. Veremos adiante com o exemplo do sonho em Psicopatologia da vida cotidiana (1901/1992). Jacques Lacan, em seu Seminário V: Sobre as formações do inconsciente (1957-1958/1998/1999), apropria-se da operação que Freud nomeou de condensação e de deslocamento e os define respectivamente de metáfora e metonímia. Antes disso é necessário que façamos uma compreensão histórica sobre essa operação e de como Lacan elabora essa assertiva em sua teoria.

O exemplo de um sonho de Freud descrito em Psicopatologia da vida cotidiana (1901/1992) elucida essa questão. Freud quando fez uma viagem à Bósnia-Herzegovina, falando com alguém, ele esquece o nome Signorelli que lhe escapa à memoria, e assim, outros nomes apresentam-se, inconscientemente, a ele: Botticelli, Boltraffio, Trafoi. Aqui vemos apresentar-se o mecanismo de fuga de nome. Para Lacan, Signorelli e a sequencia de nomes pronunciados são “palavras equivalentes, traduções umas das outras, metáfrases se quiserem, que a palavra está ligada à morte recalcada, recusada por Freud” (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 272). Signorelli aponta para as palavras Signor e Herr, e Trafoi e Boltraffio, é a metonímia no deslizamento entre Herzegovina e Bósnia (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 272). Para Lacan (2002 [1955-1956]), Freud encontra a linguagem

em sua prática médica, quando se deparou nesse campo em que são vistos os mecanismos da linguagem dominar e organizar sem o conhecimento do sujeito, fora do seu eu consciente, a construção de certos distúrbios que se chamam neuróticos (p. 255).

Aqui vemos que o nome Signorelli aponta para a discussão em torno do recalcado que retorna e repete-se na letra enunciada, ou seja, há um conteúdo guardado na lembrança de Freud que revela uma situação anterior por ele privilegiada e que retoma algo que é articulado como novidade em uma situação atual.

Lacan questiona e põe em relevo a teoria linguística quando argumenta que sua teoria sobre o significante trata de uma compreensão divergente porque o significante não designa-se a si mesmo como ocorre com o vocábulo ou com a palavra na teoria da História do Conceito. O significante sustenta-se porque está sempre remetido a outro significante. O significante representa um sujeito para outro significante que constitui a cadeia dos significantes e a letra passa a ser o suporte material que o discurso empresta da linguagem e com ela revela os elementos inconscientes que apresentam-se na fala através da repetição que sustenta a cadeia do discurso do sujeito.

Para a Psicanálise lacaniana o sentido insiste incessantemente na cadeia dos significantes e não leva o discurso do sujeito para o contexto da significação. Para Lacan, a concepção de Saussure sobre a cadeia discursiva é linear e torna-se possível através da emissão horizontal em que ela inscreve-se em nossa linguagem tonando-a insuficiente. Mas, para ele, essa concepção é limitada. O exemplo com a frase “Pedro surra Paulo” é diferente quando a invertemos, ou seja, “Paulo surra Pedro” não significa que “Pedro surra Paulo”. Saussure apresenta que a cadeia do discurso por ele refletida só é orientada no tempo, “sendo até tomada como fator significante em todas as línguas em que “[Pedro surra Paulo]” reverte seu tempo ao inverter termos” (Lacan, 1998 [1966], p. 506).

Ainda sobre o algoritmo que revela a barra existente entre o significante e o significado, vemos no exemplo dado, as crianças na estação do trem, que a estrutura do significante não mostra tratar-se de significação. No algoritmo

o significante possui a função de só poder revelar uma estrutura de significante nessa transferência onde um significante remete-se para outro significante. A estrutura do significante indica que ele é articulado a partir de uma unidade e nela ele se compõe de letras que fornecem elementos pertencentes segundo as leis de uma ordem fechada, que está presente na cadeia dos significantes (Lacan, 1998 [1966], p. 505).

O segundo aspecto em torno da teoria do significante que chama-nos a atenção é a característica que o significante, apontada por Lacan, possui, descrita em seus vários artigos compilados nos Escritos [1966/1998], é que, ele, o significante é unidade que simboliza uma ausência. Com o exemplo da Carta Roubada [1844/2007], um conto de Edgar Alan Poe, Jacques Lacan analisa que as palavras carta e letra, escritas em francês com a mesma palavra, letter, mostram que ambas são escritas da mesma maneira, são idênticas e “é por isso que não podemos dizer da carta/letra roubada que, à semelhança de outros objetos, ela deva estar ou não estar em algum lugar” (Lacan, 1998 [1966], p. 27) mostrando-nos o enigma presente no conto, e essa brincadeira com a letra revelando o significante no conto de Poe, Lacan conclui que só se pode falar sobre algo que falta quando esse algo muda de lugar. A palavra letter (pode significar carta e letra) que no caso da Carta Roubada [1844/2007] mostra-nos a que a palavra muda o significante, pois a palavra letter nos dá dois significantes, carta e letra, um no lugar do outro amarrado na cadeia dos significantes.

O terceiro aspecto levantado nessa tese, é que o significante opera segundo as leis da cadeia dos significantes e, Lacan usa a seguinte metáfora para elucidar essa característica: “anéis cujo colar se fecha no anel de um outro colar feito de anéis” (Lacan, 1998 [1966], p. 505) Trata-se de um emaranhado existente dentro da cadeia simbólica que leva a produção de outro e mais outro significante. (Lacan, 1998 [1966], p. 505). O significante mantém-se como condição de uma operação que constitui-se em uma cadeia e é nessa cadeia que ele faz-se presente a partir de uma ausência. A cadeia dos significantes torna a condição do significante possível e é nela que ele subsiste (Lacan, 1998 [1966], p. 665). A representação algoritma lacaniana dessa afirmação é a fómula S1S2 cuja indicação remete-nos que um significante inicial, S1, levano-nos a um outro significante, S2. O significante da teoria lacaniana vai na contramão do discurso da linguística, ele representa um sujeito para outro significante. O significante desfila na cadeia dos significantes. Portanto, vemos a insurgência da quarta característica do significante. Essa característica revela que ele garante a coerência teórica do conjunto como conjunto representado na fórmula S1S2 (Lacan, 1998 [1966], p. 416). O significante desfila na cadeia pela ordem simbólica.

Lacan questiona que no nível do significante, por exemplo, quando Schreber fala de Nervenanhang, da adjunção de termos, Schreber afirma que essa palavra foi dita a ele pelas almas examinadas ou pelos raios divinos (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 43). A significação está presente no texto de Schreber, cujo artigo mostra o caso da psicose analisada por Freud, e nela vemos que a palavra pesa sobre si mesma. O estudo do delírio de Schreber mostra-nos uma nova perspectiva de compreensão sobre o fenômeno da linguagem na Psicanálise ao examinar a língua fundamental na qual ele foi introduzido por sua experiência. A palavra domina a situação delirante e real da estrutura da psicose estudada por Freud.

O significante em seu modo de operação possibilita o surgimento para a existência de outro significante dentro da cadeia dos significantes, com ele não há sentido do sentido, pois Lacan (1966/1998) constata que “o texto mais carregado de sentido se desfaz, nessa análise, em bagatelas insignificantes, só resistindo a ela os algoritmos matemáticos, os quais, como seria de se esperar, são sem sentido algum” (p. 501). A linguagem de que trata Lacan opera na ambiguidade e, na maior parte do tempo, não sabemos nada sobre o que estamos falando. “Quando alguém diz que a palavra me foge, por exemplo, supõe em primeiro lugar que a palavra esteja ali” (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 138). Não sabemos sobre o que falamos porque o inconsciente age ali, o tempo todo. Nessa trama proferida pelo discurso falante, a rede dos significantes desempenha “um papel tão grande quanto o significado, mas ele desempenha ali o papel fundamental” (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 140).

A quinta característica do significante que nos chama a atenção é o aspecto de duplicidade que está presente na operação significante. Em Freud há duplicidade, ou ao menos dois conflitos que configuram-se em um conflito atual que faz menção a outro conflito antigo causando o sintoma. “Sem a duplicidade fundamental do significante e do significado, não há determinismo psicanalítico concebível”, não há sintoma (Lacan 2002 [1955-1956], p. 140). O funcionamento do sintoma revela-nos que o material significante que se liga ao conflito antigo é “conservado no inconsciente enquanto significante em potencial, significante virtual, para ser tomado no significado do conflito atual e servir-lhe de linguagem, isto é, de sintoma” (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 140). O significante possui leis próprias, difíceis de serem isoladas e independe do significado e da significação. O significante é constituído através de um “despertar da duplicidade oculta do segundo pela ambiguidade manifesta do primeiro” (Lacan, 1998 [1966], p. 542). Vemos que o significante, a partir dessa compreensão, trata-se de uma operação com a qual a deciframento produz algo novo. Nessa produção, o inconsciente estrutura-se através da linguagem que funciona segundo as leis presentes na cadeia dos significantes (Lacan, 1998 [1966], p. 600). Esse algo novo produzido surge a partir de uma menção sobre algo antigo em relação ao que estar por vir através de uma operação repetitiva presente na cadeia dos significantes.

O sexto aspecto presente na operação significante é a produção de neologismo. Em Freud (1901/1992) com o sonho do Autodidasker percebemos que o significante determina o sonho. Essa palavra Autodidasker é um neologismo que encontramos Askel e outras recordações de Freud. Para Lacan, a forma da palavra orienta-nos para a interpretação porque encontramos Alex, o irmão de Freud, pela via da fonética e do verbo de maneira modificada. Além disso, Freud se lembra da leitura do romance de Émile Zola A Obra (L’oeuvre) (1886), no qual surge o personagem com o nome de Sandoz. Freud reconstrói, faz de Sandoz a partir de Aloz, anagrama de seu nome. Al, início de Alexandre pela segunda sílaba sand. Nessa linha de interpretação do sonho, Freud remete-nos à questão sobre a formação do sintoma. O sujeito fica implicado na linguagem significante que o faz operar dentro da cadeia dos significantes.

A linguagem para a Filosofia estruturalista saussuriana é impregnada da função do ser. O conceito de massa amorfa que Saussure classifica, não é nada menos do que “massa sentimental da corrente do discurso, massa confusa em que as unidades aparecem, ilhotas, uma imagem, um objeto, um sentimento, um grito, um apelo” (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 297). Os modos de abordagem dos linguistas são diversos. Saussure define uma correlação entre o significado e o significante através do fonema e a Psicanálise aponta a letra como aquilo que constitui a operação do significante.

Compreender sobre o significante em Lacan orienta-nos para uma questão acerca do sujeito e sua função na linguagem. Para Lacan essa função é dupla porque temos um sujeito que é o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação, Lacan (2005/ 2006) sinaliza:

Eu [Je] quer dizer aquele que está falando agora no momento em que digo eu. Mas o sujeito nem sempre é o sujeito do enunciado, pois nem todos os enunciados contêm eu. Mesmo quando não existe eu, mesmo quando vocês dizem ‘está chovendo’, há um sujeito da enunciação, há um sujeito mesmo que não seja perceptível na frase. Tudo isso permite representar muitas coisas. O sujeito que nos interessa –sujeito não na medida em que faz o discurso, mas em que é feito por ele, e inclusive feito como um rato– é o sujeito da enunciação. (…) é uma definição do que é designado como ‘elemento’ na linguagem. Isso sempre foi designado como “elemento”, mesmo em grego. Os estóicos chamaram-no de ‘significante’ (p. 45).

O sujeito dispõe do material significante que é a sua “língua, materna ou não, e dela se serve para fazer passar no real significações” (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 78). Essa postura da Psicanálise é divergente da que encontramos em Koselleck, cujo conceito é tomado pela significação com a intenção de expô-lo através de indagações sobre a sua origem e como este passou pelo processo de teorização. Koselleck (1992) afirma: “Todo conceito é não apenas efetivo enquanto fenômeno linguístico; ele é também indicativo, imediatamente indicativo, de algo que se situa para além da língua”, como já (p. 135). Essa percepção é semelhante ao que ocorre no universo da objetividade científica, no qual o sujeito “se perde sempre de vista, e acima de tudo comunicável, ele se encarna nas comunicações científicas” (Lacan, 2002 [1955-1956], p. 78).

Referências

Freud, Sigmund (1992), Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu.

Freud, Sigmund (2006), Obras completas. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Lacan, Jacques (1992 [1969-70]), O Séminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, Jacques (1998), O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, Jacques (1998 [1966]), Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, Jacques (1999), O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, Jacques (2002 [1955-1956]), O Seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, Jacques (2003), Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, Jacques (2006), Meu ensino. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, Jacques (2008), O Seminário, livro 16: De um outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, Jacques (2008), O Seminário, livro 20: … Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lacan, Jacques (2009), O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.


  1. Universidade Federal Fluminense. Email: danielimachado@id.uff.br.
  2. No livro, A caminho da linguagem [1959/2003], Heidegger afirma que o homem encontra na linguagem sua morada e possui a essência originária sobre a verdade que dá sentido ao homem. Martin Heiddeger aponta aproximações existentes entre o pensamento, a linguagem e a realidade.


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